OPINIÃO

Lisa, a especialista

Devolver a dignidade a populações refugiadas não é para todos...

Lisa Matos passou 12 anos em Nova Iorque a trabalhar com refugiados sobreviventes de tortura e outras experiências traumáticas. Hoje frequenta o doutoramento em Psicologia Clínica do ISPA e colabora como consultora no programa de reinstalação de refugiados do Serviço Jesuíta aos Refugiados.

Natural de Coimbra, Lisa tem 36 anos e é especialista em conceção e implementação de programas de acolhimento de populações refugiadas. Após a licenciatura em Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra, conseguiu um estágio de três meses na Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, e apaixonou-se pela cidade. De regresso a Portugal, sentiu que era lá que queria estar e não perdeu tempo: voltou, para fazer mestrado, com uma bolsa da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. «Quando o concluí, comecei à procura de emprego e surgiu a oportunidade de trabalhar na Healthright International, organização que fazia parte da rede Médicos do Mundo e que trabalhava com requerentes de asilo sobreviventes de tortura.» Um contrato de três meses transformou-se numa carreira de dez anos. Em 2011, já era diretora da Human Rights Clinic, Programa Nacional de Tratamento de Tortura, com responsabilidades de gestão, recursos humanos, operações, finanças, angariação de fundos. «Há uma grande vulnerabilidade nestas populações refugiadas, mas todos trazem esperança e vontade de viver. Trabalhar com elas é um privilégio e uma aprendizagem constante. Acho que nasci para isto», diz. Apesar de estar na sede da organização em Nova Iorque, Lisa trabalhava em vários estados norte-americanos, no âmbito do tratamento da tortura, garantindo aos refugiados o acesso a cuidados de saúde, a serviços sociais, à educação e ao emprego. «Dávamos formação a médicos e psicólogos no terreno, que posteriormente prestavam serviços a cerca de 350 sobreviventes por ano, em regime de voluntariado. Prestávamos também um serviço especializado aos tribunais americanos, analisando e ajudando a contar a história dos refugiados. Ajudávamos a dar-lhes voz.»

De volta a Portugal, Lisa tenta aplicar cá os conhecimentos que ganhou nos EUA. O nosso país tem uma tradição recente no acolhimento de refugiados e uma quota anual que ronda os trinta indivíduos, muito inferior aos milhares que chegam todos os anos aos EUA, mas ainda assim há muito trabalho a fazer. Exemplo disso é a lentidão nos processos de reinstalação de refugiados: em 2014, Portugal deveria ter recebido 45 refugiados, mas até ao momento o processo continua pendente, o que não só é frustrante para as organizações e técnicos, que têm tudo preparado para os receber, como prolonga e agrava os níveis de ansiedade numa população já de si muito fragilizada. Pela primeira vez, vão ser repartidos por três organizações: Conselho Português para os Refugiados e Serviço Jesuíta aos Refugiados, ambos em Lisboa, e Associação para o Desenvolvimento e Formação Profissional em Miranda do Corvo, para posterior integração e reinstalação.

Este modelo permitirá uma descentralização da população e dos serviços, saturados na zona de Lisboa, criando maior capacidade de resposta perante a chegada iminente de um número de refugiados vastamente superior ao habitual. «Relativamente aos cerca de três mil que serão relocalizados para Portugal, temos observado uma sociedade civil disposta a colaborar, mas é necessária a liderança estratégica do governo. Por exemplo, no caso de universidades, que têm manifestado vontade de acolher estudantes refugiados, será necessário pensar nas questões práticas de integração de alunos que fogem de guerras e, como tal, não trarão consigo toda a documentação.» Portugal beneficia de uma situação única, em que o fluxo de refugiados não é grande nem sequer comparável ao que está a acontecer em países como Itália, Grécia ou Hungria, o que lhe dá um tempo, que outros países não tiveram, para preparar o acolhimento. Lisa Matos adivinha um ano de muito de trabalho, que passará também por fomentar parcerias estratégicas e troca de conhecimento entre entidades e peritos americanos e portugueses, para que em conjunto possa promover-se o acolhimento responsável e devolver a dignidade a quem nos confia a sua esperança e o seu futuro.

José Ramalho
Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens