OPINIÃO

Lavar a cabeça sem champô?

Conheça os argumentos a favor e contra e perceba se esta tendência é para si.

Chama-se No Poo, nasceu nos EUA há quatro anos e defende que o champô é inimigo do cabelo. A tendência tem-se espalhado um pouco por todo o mundo.

QUEM TEM CABELO ENCARACOLADO sabe como é difícil, por vezes (muitas vezes), lidar com ele. A quantidade de produtos necessários para o domar e o medo de enfrentar ambientes húmidos são lutas muito reais das mulheres com caracóis. Incluindo Lorraine Maissey: «Desde muito cedo, sonhava que um dia alguém saltaria de um arbusto no meio da rua e diria: “Sei o que fazer com o teu cabelo!” Nunca imaginei que essa pessoa acabasse por ser eu.» Em 2011, esta britânica escreveu o livro Curly Girl, uma espécie de declaração de amor aos seus caracóis em que advogava um novo método para os manter na melhor forma: o no-shampoo, também conhecido como curly girl method.

«DEVEMOS TRATAR O NOSSO CABELO com tanto cuidado como cuidaríamos de uma camisola de caxemira», explica no livro. «Nunca lavaríamos uma boa camisola com detergente. E, no entanto, a maioria dos champôs contêm detergentes agressivos que encontramos nos produtos para lavar a loiça. São ótimos para panelas e tachos porque limpam a gordura eficazmente. Já o cabelo precisa de preservar os óleos naturais, que o protegem e ao couro cabeludo. Removê-los priva o cabelo da gordura e dos aminoácidos necessários e torna-o seco e baço.» A teoria diz que, para compensar este desequilíbrio, o couro cabeludo produz mais óleo – algo que resolvemos com mais lavagens, entrando num círculo vicioso que, segundo Lorraine, é tudo menos saudável ou natural.

ABANDONAR O CHAMPÔ, porém, não significa não lavar o cabelo. A água continua a fazer parte da rotina e alternativas como limão ou bicarbonato de sódio e vinagre de maçã são sugeridas como forma de remover a sujidade no cabelo. Para limpar o couro cabeludo e aliviar alguma comichão nas primeiras semanas, Lorraine sugere esfoliações semanais com produtos naturais. E o amaciador continua a poder entrar na rotina de higiene, ajudando a limpar e a suavizar o cabelo (o chamado co-wash).

MENOS RADICAL É O MÉTODO low-poo, que permite a utilização ocasional de champôs, idealmente sem sulfatos – o ingrediente responsável pela formação de espuma e que pode provocar irritação e secura no couro cabeludo. Não faltam na internet testemunhos de quem se rendeu a estes métodos e encontrou um cabelo completamente novo, mais macio, de formas suaves e sem precisar dos cuidados constantes que costumava implicar.

MAS NEM TUDO SÃO MARAVILHAS para os seguidores da tendência. Primeiro, há que contar com o período de detox, que pode durar duas a seis semanas: comichão, oleosidade… nem todos são capazes de resistir à vontade de pegar numa embalagem de champô e resolver o problema antes de o cabelo se adaptar. Além disso, são várias as vozes que alertam para os perigos deste método. Em novembro de 2013, a Academia Española de Dermatología y Venereología divulgou um comunicado intitulado No Poo: Uma Tendência Perigosa, no qual a dermatologista Lola Conejo-Mir alertava para os perigos da tendência, nomeadamente o risco de infeções no couro cabeludo. «Do ponto de vista dermatológico, podem fazer-se vários comentários a este método. Em primeiro lugar, o champô elimina a gordura produzida pelas glândulas sebáceas, onde ficam presas as células mortas do couro cabeludo, a sujidade ou as substâncias que aplicamos sobre o cabelo, como laca e gel. Esta gordura ou sebo deve ser eliminada periodicamente por razões que vão além da mera estética, já que constitui uma importante fonte de micro-organismos que podem favorecer as infeções.»

Uma das maiores críticas dos especialistas prende-se com a utilização do bicarbonato de sódio, cujo uso prolongado remove os óleos naturais do cabelo, causando desidratação do couro cabeludo e fragilizando o cabelo. Por outro lado, os especialistas reconhecem que champôs mais suaves podem, realmente, melhorar a saúde do cabelo e do couro cabeludo. «É verdade que existem substâncias em alguns champôs que podem irritar o couro cabeludo e, inclusive, provocar alergias, como o álcool e alguns conservantes ou fragrâncias. Estas substâncias não só se encontram no champô, como também em qualquer cosmético que apliquemos no corpo (cremes hidratantes, gel de banho, desodorizantes, perfumes, etc.). O champô mais recomendável para um couro cabeludo saudável é um champô suave, os chamados neutros», explica a dermatologista no mesmo comunicado.

TENDÊNCIA PASSAGEIRA ou um novo paradigma no mundo da beleza? Só o tempo dirá.

Laura Patrício