Homens práticos e mulheres independentes: quando o politicamente correto é apenas estúpido

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VIVEMOS TEMPOS COMPLICADOS no mundo dos comportamentos sociais associados ao género. Numa altura em que, com todas as vantagens que se conhece, os tradicionais papéis do homem e da mulher vão sendo esbatidos no meio profissional, familiar e até social, somos capazes de estar a chegar a um momento em que precisamos mesmo de um manual de instruções do politicamente correto quando encetamos algum tipo de contacto com alguém do sexo oposto. É que a fronteira entre aquilo que alguns consideram um gesto simpático e atencioso com outrem e aquilo que outros classificam de sexista, tradicional e retrógrado está cada vez mais esbatida.

PODIA ISTO VIR A PROPÓSITO de alguma história de um homem que tivesse aberto a porta a uma mulher e ela não tivesse gostado do gesto, considerando-o ofensivo e paternalista. Ou por causa de algum comentário sobre o novo corte de cabelo que outro sujeito tivesse feito a alguém com quem saía pela primeira vez – revelando assim dar muita importância ao aspeto físico, ainda antes de chegarem as entradas, ou seja, sem dar espaço para ela expor as suas ideias. Também podia ser um caso de uma caixa de bombons comprada por um tipo para fazer uma surpresa num primeiro encontro (ela já tinha deixado escapar qual era a marca preferida), naquilo que foi considerado uma «invasão do espaço íntimo, ao explorar esta vulnerabilidade que é o facto de eu gostar de chocolates».

AS TRÊS HISTÓRIAS SÃO REAIS. A primeira passou-se comigo, a segunda foi contada por um colega a uma amiga minha e a terceira foi vivida por um amigo, que revelou a mensagem que recebeu depois (é demasiado risível para passar em branco e não denunciar). Qualquer delas poderia servir de gancho para esta crónica. Mas o que me fez escrever estas linhas foi outro episódio. Um amigo revelou há dias num desabafo (éramos quatro, a trocar mensagens entre nós) que tinha ido jantar com uma pessoa com quem começara a sair uma semana antes. No final da refeição, quando chegou a conta, ela virou o papel para baixo e disse-lhe: «Não quero saber quanto é. Desta vez vais ser um cavalheiro e pagar o jantar à senhora?» Da primeira vez, e justamente porque ele pensou que ela poderia não achar graça a que lhe pagassem um jantar, tinha sugerido que dividissem a conta, naquilo que considerou ser (disse-nos mais tarde) um gesto «bastante natural e moderno». Não tenho a certeza que seja «moderno», mas que é «natural» disso não tenho dúvidas. Essa coisa de o homem tradicionalmente pagar o jantar é um mau hábito arreigado que durante anos de mais foi passando entre os pingos da chuva, deixando-nos a nós irritados porque tínhamos de o fazer e a elas irritadas porque não precisavam disso. Ok, pode ser uma coisa bonita. Mas não deve ser regra.

AINDA QUE SEJAMOS um país onde a figura masculina numa relação continua a ser tradicionalmente dominadora (por mais que lutemos contra isso) e ainda que a progressão profissional da mulher continue a ser mais dura do que a do homem e ela tenha de provar mais (mudar mentalidades não é pera doce), somos capazes de cair em alguns extremos de vez em quando. «Que exagero», dirão alguns. Com um pouco de bom senso e dois dedos de testa – e até recorrendo a essa coisa básica e original que é o fazer perguntas em caso de dúvidas – conseguem evitar-se mal-entendidos. Pois sim. O problema é que o bom senso foi muito mal distribuído à nascença e os dois dedos de testa são facilmente esquecidos quando se trata de cravar bandeiras no terreno dos avanços sociais ou na manutenção de uma certa maneira de fazer as coisas «à antiga». Dependendo do lado da barricada em que nos encontremos – ou em que esteja a outra pessoa com quem só queremos jantar – isto pode tornar-se um verdadeiro labirinto. Boa sorte à procura da saída.

[Publicado originalmente na edição de 11 de outubro de 2015]