OPINIÃO

Fúria ao volante, perigo constante

Costuma ficar muito irritado no trânsito?

Já se sentiu completamente alterado enquanto conduzia? Não tolera que o agridam verbalmente ou ponham em causa a sua condução? Quando se senta ao volante, sente que se transforma noutra pessoa? Essa agressividade que sente tem explicação.

Conduzir é uma coisa. Enfrentar o trânsito é outra. E se muita gente adora a primeira, poucos serão os que gostam da segunda. Seja pelas filas intermináveis, pelos condutores que fazem manobras perigosas, pelas buzinadelas, pela falta de respeito ou pelos comportamentos irracionais. Os insultos entre condutores, a «raiva» por alguém que não conhecemos mas que nos colocou em risco na estrada ou a vontade de soltar um palavrão por causa da pessoa que não sinalizou bem a manobra e se atravessou à nossa frente são frequentes. Até para os mais calmos.

«Algumas pessoas fazem coisas no trânsito que, noutro contexto, não fariam», diz o psiquiatra e psicoterapeuta Vítor Cotovio. As situações de crise são ameaçadoras para o comum dos mortais e o carro surge como algo que, ilusoriamente, se pode controlar. «É como se o veículo fosse uma extensão de nós próprios e quando determinada situação é ameaçadora, potencia ou agrava aquilo que é mais impulsivo e instintivo nos condutores », sublinha o psiquiatra. O facto de se conduzir uma máquina dá uma «falsa sensação de potência e de controlo».

Ao lado da impulsividade, existem os medos básicos de cada um: o medo de não ser aceite, de não ser reconhecido, de perder o controlo, de não ser valorizado, entre outros. «Esta mistura entre a impulsividade e os nossos medos faz que, em termos neurobiológicos, seja ativado o sistema límbico (central das emoções, nomeadamente, o medo e a ansiedade), que é controlado pelo cérebro executivo localizado no córtex pré-frontal e que avalia as situações, as consequências, planeia e mede os riscos.» Neste «jogo» de impulsos e medos, o cérebro executivo não consegue exercer o poder que deveria, entrando o comportamento em «curto- circuito». Esta gestão entre a «adrenalina» do impulso juntamente com os medos de ser ultrapassado ou de se ser colocado em risco através de uma manobra de outro condutor aciona o que é mais instintivo nos indivíduos. «O nosso instinto de sobrevivência e o nosso registo de domínio e de controlo estão muito expostos na condução. Portanto, o nosso sistema límbico supera o cérebro executivo», refere Vítor Cotovio.

NO DIA-A-DIA, não nos apercebemos disto. Quando se trata de fugir a um perigo ou reagir a ele, tomamos decisões em frações de segundo. Cada pessoa terá o seu tempo de reação perante determinado estímulo. Segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), num artigo publicado no seu site, intitulado Tempo de Reação na Condução, «embora os condutores tenham a sensação de que reagem instantaneamente, entre o “ver” e o “agir” decorre o tempo aproximado de 3/4 segundos a 1 segundo, num condutor em situações normais. É o tempo necessário para detetar o estímulo através dos sentidos (na condução, o sentido mais utilizado é a visão seguido da audição), identificá-lo, analisá-lo, decidir qual a resposta mais adequada e o início da concretização dessa resposta». Ou seja, as reações são imediatas. Soltar um palavrão para o condutor do lado pode ser uma delas.

«A crise, o acordar com menos motivação, as filas de automóveis, o facto de os superiores não tolerarem os atrasos no trabalho e terem atitudes penalizadoras… Tudo isso ativa mais rapidamente o que se passa na estrada», salienta o psiquiatra. «Metaforicamente, a condução é, muitas vezes, uma “selva”, ativando o que é mais primário, instintivo e básico nas pessoas, os mecanismos de defesa. Resultado: até a pessoa mais calma pode tornar-se agressiva.»

E se a isto juntarmos os aspetos culturalmente enraizados na sociedade, verificamos que, muitas vezes, a parte mais impulsiva ou agressiva é mais facilmente acionada nos homens e a indignação não violenta atribuída às mulheres. É ainda importante falar da «luta pelo poder» enquanto aspeto simbólico em que «os homens não admitem ser postos em causa e estão preocupados com quem ganha “esta espécie de competição” que, por vezes, se enfrenta na estrada». Por outro lado, e de uma maneira geral, as mulheres «não se sentem tão ameaçadas perante uma ultrapassagem ou outras manobras arriscadas e acabam por conseguir equilibrar melhor as suas emoções», diz Vítor Cotovio.

A ANSR também já se debruçou sobre esta diferença entre sexos no artigo. «Os indivíduos do sexo masculino têm uma muito maior propensão para o acidente do que os do género feminino, daí a ocorrência posterior de maior mortalidade nos homens», escreve Diogo Júdice no artigo Risco nas estradas: o papel do género na segurança rodoviária, publicado no site da associação e que cita o relatório «Flash 25» publicado pelo European Transport Safety Council. «Esta diferença deve-se, essencialmente, ao tipo de condução e consequentemente à maior exposição ao risco por parte destes condutores.»

No estudo Comportamentos Agressivos na Estrada, realizado em 2010, José Brites, investigador da Faculdade de Psicologia da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, concluiu que «os homens têm mais acidentes e cometem mais infrações» uma vez que a própria sociedade «os encoraja para comportamentos de risco». Para as mulheres, «a instabilidade emocional leva a que tenham um comportamento agressivo nas estradas quando, por exemplo, têm problemas com o companheiro ou se chateiam com os filhos». O estudo (para o qual foram entrevistados 480 condutores portugueses) acrescenta que os comportamentos agressivos são mais frequentes em condutores dos 18 aos 24 anos, numa «procura de novas sensações, gosto pela aventura e prazer».

O carro pode também funcionar, simbolicamente, como uma extensão da nossa casa. É por esse motivo que algumas das mais importantes conversas em família ou até discussões ocorrem no trânsito. «Quando as famílias não se juntam à mesa como deveriam, fazem-no no carro, aproveitando para conversar. Quando é necessário ter uma conversa difícil entre pais e filhos, por exemplo, esta torna-se menos ameaçadora durante a condução, porque o adolescente não é interpelado de forma direta e o diálogo decorre em paralelo com a condução, assumindo o carro uma enorme importância nesse sentido», diz Vítor Cotovio. O lado negativo surge quando as discussões ganham forma podendo  comprometer a condução e correr riscos desnecessários.

EXISTEM ALGUMAS TÉCNICAS que permitem melhorar e focar a atenção na condução, como a meditação, o tai chi e o yoga. «São práticas que treinam o processo de desenvolvimento das redes neuronais, ou seja, os caminhos entre os neurónios que estão
subjacentes à atenção e à concentração, funções do neocórtex (cérebro mais desenvolvido). Se estivermos permanentemente dominados pelo sistema límbico, tentamos sobreviver continuamente e não treinamos o cérebro executivo porque a nossa preocupação é atacar ou fugir.» Por outro lado, qualquer prática de exercício físico permite aumentar «as substâncias químicas neuroquímicas e neurotransmissoras (a serotonina que tem que ver com o nosso humor; a dopamina que se relaciona com o prazer; a ocitocina que é a hormona dos afetos e que as mulheres produzem mais durante a amamentação e as endorfinas que aumentam a nossa tolerância à dor)» e baixar as substâncias que promovem a ansiedade e a irritabilidade, «como o cortisol e a adrenalina». Com estas práticas, em simultâneo, é desacelerado o sistema nervoso autónomo, responsável pelo bater do coração e pela respiração.

Além destas práticas, existem exercícios simples que ajudam a melhorar a probabilidade de controlo, como a respiração abdominal, por exemplo: inspirar pelo nariz e expirar pela boca de forma lenta e profunda. «Quando o condutor se apercebe de que durante o dia esteve mais irritadiço, é útil fazer duas a três respirações abdominais para que seja possível controlar-se mesmo no meio de muito trânsito», sugere Vítor Cotovio.

Se se irrita facilmente enquanto conduz, experimente estas sugestões, promova o autocontrolo de forma a focar a sua atenção e a evitar que as suas emoções o levem a ter comportamentos que não reconhece no seu dia-a-dia. Por si, pelos outros e sobretudo pela segurança de todos.

COSTUMA IRRITAR-SE MUITO AO VOLANTE?

_ EXPRESSA A SUA FRUSTRAÇÃO NA ESTRADA?
Esta atitude pode conduzir a atos de violência ou precipitar um acidente de viação.

_ DISTRAI-SE COM FACILIDADE?
Ler, comer ou falar ao telefone podem pôr em causa uma condução atenta e segura.

_ MANTÉM UMA DISTÂNCIA DE SEGURANÇA?
Conduzir muito próximo do carro da frente constitui uma das principais causas de acidentes.

_ MUDA DE FAIXA COM FREQUÊNCIA?
Os motoristas mais perigosos mudam regularmente de faixa, sobretudo para ultrapassar outros.

_ CONDUZ EM EXCESSO DE VELOCIDADE?
Além de ser uma violação das regras de trânsito, incorre em multas e coloca outros condutores em perigo.

FONTE: ADAPTADO DO NATIONAL HIGHWAY TRAFFI SAFETY ADMINISTRATION (NHTSA), ÓRGÃO QUE REGULAMENTA O TRÂNSITO SEGURO NOS EUA.

O QUE FAZER PERANTE UM CONDUTOR AGRESSIVO

_ Saia do caminho. Afaste-se de um condutor com comportamentos agressivos, desviando-se ou mudando mesmo de direção de forma a evitar conflitos.

_ Deixe o orgulho de lado. Não desafie outro condutor, não entre em competições, não acelere de forma a não dar passagem…

_ Evite o contacto visual. O chamado «olho no olho» com um certo tom intimidatório pode tornar o condutor agressivo ainda mais perigoso.

_ Ignorar é o melhor remédio. Evite buzinar, fazer gestos, responder ou reclamar com outros condutores. Nunca se sabe quem irá encontrar pela frente.

FONTE: ADAPTADO DO NATIONAL HIGHWAY TRAFFIC SAFETY ADMINISTRATION (NHTSA), ÓRGÃO QUE REGULAMENTA O TRÂNSITO SEGURO NOS EUA.

Cláudia Pinto
Ilustrações de CORBIS