OPINIÃO

Fátima Lopes

«Nunca me esqueço de onde venho, nunca renego as minhas origens»

Entrevistou meio país, anónimos e famosos, deu voz a indignados e a desesperados, expõe injustiças, denunciou abusos, contou histórias de pessoas, sempre determinada, campeã de audiências. Agora, em 2015, o desafio é em prime-time. Um concurso de talentos infantis, «um presente» ou «energia pura», uma estreia depois de 21 anos no ar. Fátima Lopes abre um novo projeto e faz o balanço de duas décadas. Em entrevista de vida.

Que é isto que me está acontecer?» Naquele dia de 1994, Fátima Lopes saiu aturdida do gabinete de Emídio Rangel. Tinha 25 anos, um emprego regular e objetivos profissionais pacatos. Foi, por isso, apanhada de surpresa quando o todo-poderoso diretor da SIC a desafiou para um casting, certo de que estava ali uma apresentadora capaz. Mas a rapariga decidida recompôs-se depressa: «Experimenta, Fátima, logo se verá.»
O que se viu foram anos com recordes de audiências, em que mereceu o estatuto de mais popular apresentadora da televisão portuguesa. Não esconde o medo que teve de início. Antes de se tornarem inseparáveis, a câmara não lhe foi meiga. Pelo contrário, «escura e fria». Hoje, dos 21 anos no ar, destaca duas palavras, credibilidade e confiança, prémios maiores de quem não deixa nada pela metade.
Maria de Fátima, nascida a 13 de maio, crê em Deus e em si própria, por esta ordem. Forte e intuitiva, gosta de pessoas, de as tocar, abraçar, de se confundir com elas. Metódica e exigente, traça, com igual determinação, fronteiras intransponíveis. Nos anos intensos em Moçambique , os mais felizes da sua infância, trocou a menina atadinha, presa às saias da mãe, pela pessoa desenrascada, capaz de encontrar soluções. Decidida a ser feliz. E é assim, aos 46 anos.

Fale-me deste novo projeto, o Pequenos Gigantes, que vai passar em horário nobre.
_O projeto é uma lufada de ar fresco na minha vida profissional e uma estreia muito bem-vinda. Em 21 anos de carreira, é o meu primeiro programa de talentos e o meu primeiro programa com crianças. E, por isso, é tão especial para mim. Criei com os miúdos uma ligação muito especial e sendo mãe tiro desta experiência um prazer ainda maior.

É um refresh na carreira, aos 46 anos?
_Este projeto é um presente. Gosto de tudo neste programa. No ar há 21 anos, entrevistei meio país, milhares de pessoas, que me ensinaram muito, tive uma escola maravilhosa. Mas isto é diferente. Isto é energia pura.

Lida bem com os afetos, nota-se que gosta de pessoas. É curioso nunca lhe terem proposto um programa destes.
_A verdade é essa – eu gosto de pessoas. Mas há uma explicação para nunca ter feito um programa destes: o meu primeiro talkshow, Fátima Lopes, era um programa sério, que pelos vistos fiz com muita competência. De tal maneira que fiquei agarrada à imagem de apresentadora respeitada por tratar temas sérios. Um perfil que não se enquadra tão bem nos programas de talentos e ainda por cima com crianças.

Que Fátima veremos neste novo desafio?
_Vai ser a descoberta da Fátima divertida, das portas de casa para dentro, da que brinca com os filhos, da que rebola no chão.

As crianças são imprevisíveis. Preparada para tanta improvisação?
_Tenho a noção de que as perguntas podem receber respostas imprevisíveis. Como a de um dos mais pequeninos, há uns dias, que do nada diz: «Tu estás velha, Fátima.» A improvisação, portanto, é total mas não me assusta. Esta série está a ser gravada e nem me lembro que é assim, porque estou habituada aos diretos. Essa é a minha escola. Resolver em direto os problemas que possam surgir.

Treina-se essa capacidade de inventar soluções em segundos?
_A rapidez de raciocínio ganha-se com a experiência. Cenários simples até podemos tentar antecipar, como por exemplo a reação de um convidado a uma surpresa. Mas, mesmo isso, pode sair completamente ao lado. Não há treino possível. Dou um exemplo: num dos programas da manhã, já em direto, cumprimentei o meu convidado, um senhor de 70 e tal anos, artesão de guitarras, que me respondeu: «Quero ir à casa de banho.» Pensei que estava a brincar e fiz a primeira pergunta. Mas ele insistiu: «Quero fazer chichi.» Percebi então que falava a sério e que só me restava improvisar durante minutos.

Por onde começou?
_Por lhe dizer: «Então, vá.»

Há manifestações físicas, imediatas, desse stress?
_Há e os primeiros cinco segundos são de absoluta aflição. Mas a minha capacidade de reação é grande. Foquei apenas a solução: aproveitei para contar que conteúdos tinha o programa daquele dia. Depois, o realizador pediu a um operador de câmara que acompanhasse a saída do senhor da casa de banho. E eu fui comentando o percurso de regresso ao estúdio. O senhor entrou, sentou-se, respirou fundo e atirou: «Então, diga.»

Foi sempre focada na resolução, na solução?
_Até aos 8 anos fui o que se chama uma menina atadinha, sempre agarrada as saias da mãe. Mas aos 8 anos fui para Moçambique e aí, durante três anos, desenvolvi a capacidade de me desenrascar e arranjar soluções.

Instinto de sobrevivência?
_Absolutamente. Foi uma adaptação muito difícil. Mas tive um suporte familiar que me ensinou a não desistir.

Como reagiu à notícia de que teria de deixar o seu ambiente, a escola, os amigos?
_Não custou muito. O meu pai foi à frente, a restante família – eu, a minha irmã e a minha mãe – seguiu depois. Estava de tal forma excitada com a ideia do reencontro que deixar o Barreiro não custou muito.

Qual é a primeira recordação de África?
_O calor. Saí do Barreiro com muito frio e roupas de inverno. Chegámos e senti aquele bafo africano. Nunca esqueci a sensação. O meu pai foi-nos buscar ao aeroporto, levou-nos a um cafezinho, comemos qualquer coisa de que não me lembro. Estava muito excitada com a ideia de ir conhecer uma casa nova.

Lembra-se do seu quarto?
_Duas caminhas e um roupeiro. E havia também uma cadeira. Era um apartamento acabado de construir, situado num bairro inaugurado há pouco tempo. Pouca coisa tínhamos dentro de casa. E foi assim até virmos embora porque pouca coisa havia para comprar. Nem os meus pais podiam gastar dinheiro.

Infância em África significa brincar na rua, sem tempo. Viveu essa liberdade?
_Já a vivia no Barreiro. A minha família vivia numa praceta e brincava-se muito na rua. Eu e a minha irmã estávamos sempre lá. Ao fim do dia, a minha mãe chamava-nos para jantar. Em África, estranhei, sim, a falta de amigos. Os primeiros tempos foram maus. Na escola, ouvi muitas vezes aos outros meninos «tu não, porque és branca». Levei uma chapada de realidade. Mas fez-me bem.

O que respondia?
_Nunca fui de bater mas nunca me fiquei. Virei uma leoa. Em grande parte, com a ajuda de um professor maravilhoso, a quem a minha mãe explicou o que se passava. Então ele, numa aula, teve uma conversa com todos os meninos sobre a cor da pele. A partir desse dia passei a ser uma menina como outra qualquer. E a beber aquela cultura. Apaixonei-me por aquele país. Vivi em Moçambique os anos mais intensos e felizes da minha infância.

E transformadores. Desapareceu a menina da mamã.
_Exatamente. Foi aí que desapareceu a menina atadinha. Mas não só por isso. Ensinaram-me a respeitar a diferença; ensinaram- me a valorizar o que tenho. Eu tinha pouco mas a maior parte dos outros meninos não tinha um décimo. Eu andava calçada e levava lanche para a escola, os meus colegas não.

Nesses tempos, à pergunta «o que queres ser quando fores grande», que respondia?
_Dos tempos de Moçambique não me lembro da resposta. Mas mais tarde, de novo em Portugal, com uns 14, 15 anos, responderia professora de Inglês.

Porquê de Inglês?
_Em 1981, regressei a Portugal e a reintegração na escola portuguesa não foi fácil. Sobretudo por causa do inglês. Mas mais uma vez, a vida foi generosa comigo, Deus foi generoso comigo e calhou- me uma diretora de turma fantástica. Por decisão dela, frequentei as aulas do ano anterior ao meu e fui avaliada apenas nessa matéria. Nas férias grandes, no entanto, comecei a dar aulas de inglês a alunos imaginários. De tal maneira, que no ano seguinte, já acompanhava a turma. Daí querer ser professora de Inglês. Desejo que só abandonaria mais tarde.

Em miúda, falava muito sozinha?
_Passava dias inteiros a falar sozinha. Com as bonecas. Era muito de bonecas.

Adolescente ninguém fazia nada da Fátima. É verdade?
_Era muito teimosa, muito certa das minhas ideias, muito «Touro». E sem qualquer filtro, dizia exatamente o que pensava. Mas nunca fui uma miúda rebelde. Ou uma filha problemática. Depois, fui perdendo a teimosia e ganhei filtro. Hoje, se for conveniente digo. Se não, ponho a cabeça na almofada e espero pelas palavras certas. A almofada é a melhor conselheira do mundo.

Licenciou-se em Comunicação Social em 1991. De onde apareceu entretanto o gosto pelo jornalismo?
_Mais uma vez, por influência de uma professora, uma mulher de palmo e meio extraordinária. A forma como ela falava de jornalismo contagiava. E assim fui para a Universidade Nova estudar Jornalismo.

Que peso tinha então a televisão nas expetativas da futura jornalista?
_
A televisão nunca foi um objetivo. Nunca pensei na televisão como um futuro profissional.

Escreveu sobre teatro no Diário Popular, trabalhou na rádio, escreveu guiões para filmes da Câmara de Loures, foi técnica de marketing, geriu a imagem do grupo Económico. Mas foi como gestora de uma empresa de audiotexto que teve os primeiros contatos com a SIC. Amor à primeira vista?
_A SIC foi a resposta clara, sem margem para dúvidas, à tal pergunta: «Que queres ser quando fores grande.» Mas não fui eu que descobri a televisão. Fui descoberta pelo Rangel.

A SIC era sua cliente. Reunia com diretores, apresentadores, ia para os bastidores. Com 25 anos apenas, nunca pensou que o seu lado era do lado de lá?
_Nunca. Isso é tudo verdade mas quer saber uma coisa? Apesar de não ser nada tímida e envergonhada, eu tinha muita vergonha quando ia falar com os apresentadores. Para mim, eram as pessoas que apareciam na televisão. Lembro-me de como estava envergonhada na primeira vez que fui falar com o Zé (José) Figueiras ou com a Rita Blanco ou com a Ana Marques.

Envergonhada e fascinada?
_Achava aquele mundo fascinante. Que podia ser giro mas nunca me passou pela cabeça que podia passar para o outro lado.

Como foi essa primeira conversa com Emídio Rangel?
_O Emídio, como sempre, foi direto ao assunto: «Olhe, propus o seu nome para um casting, acho que dá uma boa apresentadora.» A minha primeira reação foi perguntar se estava a falar a sério ou a brincar. «Não tenho tempo para brincar. Aceita ou não?» Eu nunca digo que não sem experimentar e, portanto, fui fazer o casting do Perdoa-me, cuja primeira série fora feita pela Alexandre Lencastre.

Saiu do gabinete dele com que pensamento?
_«O que é isto que está a acontecer-me? Olha, vou experimentar, logo se verá.» O casting era dali a dois dias.

Como correu?
_Sou muito exigente comigo, nunca faço nada a brincar e portanto preparei-me a sério. No dia, estava a morrer de nervos. Nunca tinha visto tanta maquilhagem na minha vida. Nessa altura, tinha em casa duas sombras, dois bâtons e um rímel. Nem base tinha. «Isto é tudo para mim?», perguntei. A maquilhagem demorou muito tempo.

Gostou do resultado?
_Estranhei-me. Não me reconheci.

Sempre teve a noção de que é uma mulher bonita?
_Nunca tive problemas de autoestima, estava habituada aos olhares e aos piropos, mas achava-me uma miúda como as outras.Nunca achei que fosse a última Coca-Cola do deserto. Felizmente, nunca tive um ego insuflado. O ego deve estar bem arrumado. Mais do que isso não gosto. E menos do que isso também não. Entre levar com um ego inflamado ou com autocomiseração venha o diabo e escolha.

Nesse casting encarou a câmara pela primeira vez. O que sentiu?
_Medo. Assustou-me. Durante os primeiros anos foi tenebroso, a câmara era escura e fria. Agora, desbobino o tempo que for preciso. Hoje, a câmara é a minha melhor amiga. Mas foi difícil. No entanto, é curioso, percebi de imediato que é a conversar com as pessoas que me sinto bem, porque na altura da entrevista descomprimi.

Percebeu também que estava ali o seu futuro profissional?
_Não, tanto que mantive o meu trabalho. Há uma Fátima pragmática que pensou «isto acaba e tenho contas para pagar». Mas quando me convidaram para substituir a Lídia Franco no All You Need is Love, um programa com muitos exteriores, tinha de tomar uma decisão e como gostava do formato, arrisquei.

Já então com a certeza de que era aquilo que queria fazer?
_Não tive dúvidas de que o que mais feliz me faria seria apresentar programas de televisão.

Em 1994, o entretenimento era dominado pela Catarina Furtado, pela Teresa Guilherme, pelo Herman José, pelo Carlos Cruz, pela Júlia Pinheiro, se bem que esta fazia apenas a Noite da Má-Língua. Nomes de peso. Contudo, três anos depois estava a fazer o Fátima Lopes, que levou às 748 edições e a iniciar a liderança de audiências que manteve durante anos a fio.
_Eu não penso muito para a frente. De cada vez que se pensa «e se» perde-se energia. Amanhã logo se vê. E não vale a pena sofrer por antecipação. No meu caso, foi de facto tudo muito rápido. A partir do All You Need… passei a ser conhecida em todo o lado, a ser sistematicamente abordada.

O sucesso rápido pode ser um problema. Assustou-se?
_Um problema enorme, se não soubermos lidar com ele. Guardo uma conversa muito curta que a minha mãe teve comigo quando entrei neste mundo: «Nunca te esqueças de onde vens, nunca renegues as tuas origens.» Por isso, perante os maiores sucessos e prémios digo sempre a mim mesma «és a Fátima». Puxo-me para a terra. Não é para baixo nem para o buraco. É para a terra.

Que impacte tem o sucesso na família?
_A minha filha Beatriz não assistiu a nada disso. De resto, pouco depois de ela nascer, separei-me. Em relação à minha família, à medida que ia aprendendo, ia falando com eles de maneira a protegê-los. Ao meu atual marido, que me conheceu eu era já figura pública, não foi preciso explicar nada.

E os amigos?
_Quem conseguiu compreender ficou, quem não conseguiu, saiu. A vida é assim, há pessoas que de repente desaparecem e pessoas que entram, maravilhosas. No início era tudo mais complicado. Havia uma grande fome das figuras públicas e era uma loucura. Hoje, é banal. Faço a minha vida normal, vou às compras, ando com os meus filhos em todo o lado. De qualquer forma, é preciso robustez para lidar com a enorme pressão que eu vivi.

A certa altura, quase sentiu a obrigação de pedir desculpa ao público por não ter anunciado desde logo a segunda gravidez. Quando isso acontece algo está muito mal. Ou não?
_Ainda me custa falar do episódio da gravidez do meu filho Filipe. Mas a culpa não foi do público. O público que gosta de mim, queria genuinamente saber se eu estava grávida. Mas depois de anos de espera, quando engravidei senti um misto de felicidade e medo. E se num processo normal há que esperar pelo menos pelos três primeiros meses para ter alguma certeza de que tudo vai correr bem, no meu caso essa espera ainda fazia mais sentido. Acontece que alguma comunicação social achou por bem invadir a minha privacidade. Portar-se muito mal. Fazer coisas muito feias que me criaram situações muito complexas. Foi o momento mais doloroso da minha vida profissional. Claro que levei essas revistas a tribunal.

Resultado?
_Infelizmente, no nosso país ainda ouvimos os tribunais dizerem- nos «isso é o outro lado de ser figura pública». Como se fôssemos obrigados a aceitar que digam de nós o que quiserem, mesmo que mintam e inventem. A culpa, como já disse, não é do público. É do circo. A partir daí a minha relação com a imprensa foi repensada.

Perdeu em privacidade o que ganhou em poder. Fez centenas e centenas de denúncias, obrigou instituições a dar respostas que sem a sua intervenção demorariam a chegar – se é que chegariam. Sente-se uma mulher poderosa?
_ Tenho consciência de que o meu trabalho tem impacte. A comunicação tem o poder de mexer com as coisas. Vivi centenas de casos desses. Situações de negligência médica, por exemplo. Pessoas que esperavam por um relatório há meses, relatório esse que aparece imediatamente mal faço a denúncia. Por vezes, vou do estúdio a casa a chorar. É nesses dias que digo «missão cumprida».

Participa na triagem dos casos que lhe chegam?
_Recebo milhares de casos, desde sempre. Julgo que será por ser genuína e não um boneco. Esses casos ficam nas mãos de uma equipa maravilhosa e muito competente, que faz a seleção. Mas temos reuniões de planeamento semanais e por isso estou sempre por dentro de tudo.

Já aconteceu considerar-se emocionalmente incapaz de tratar alguns desses casos?
_Dezenas de vezes, casos, por razões pessoais, muito complicados para mim. São os mais difíceis. Mas nunca me escusei nem pedi às minhas equipas para evitarem este ou aquele tema, até porque raramente partilho o que se passa na minha vida. Mas se por acaso a minha equipa sabe, já nem agenda. Graças a Deus, trabalho com pessoas que têm o coração no sítio certo. Durante a minha gravidez não se apresentaram casos de mães que perderam filhos, por exemplo. Se por acaso acontece, vejo a situação como um teste por que tenho de passar e uma maneira de não me sentir sozinha no mesmo problema. E fortalece.

Houve uma entrevista mais difícil que todas as outras?
_Há um tema mais difícil que todos os outros – a perda de um filho. Trato esse tema com pinças, peço a Deus que me inspire e me dê as palavras certas para falar com os pais que passaram por essa tragédia. É um tema que me arrepia, tanto mais que tenho uma amiga que passou por isso.

Em contrapartida, haverá muitas vezes em que não sente a mínima empatia.
_Sim, algumas vezes. Comentários machistas viram-me o fígado. Procuro ser competente e profissional, mas não posso ser cúmplice. Eu não tenho capacidade de disfarçar, sou completamente transparente em televisão.

Convidados que nunca aceitaria e a quem nunca daria a palavra?
_Não aceito convidados que possam significar um atentado à dignidade humana.

Que portugueses gostaria de entrevistar?
_José Mourinho e António Damásio e muitos outros portugueses que brilham lá fora.

Como evita julgar as pessoas e os seus testemunhos?
_Com treino. No início, era capaz de abrir a boca de espanto. Depois, fui sendo ensinada pelos que sabem mais.

Quem foram eles, ao longo da sua carreira?
_Antes de todos, o melhor: Emídio Rangel. Com ele, aprendi a amar a televisão e a ser muito exigente. Para o Rangel não havia fazer «mais ou menos», tínhamos de ser os melhores. Depois, a Comunicasom, a produtora onde estive 14 anos. Dali saíram os melhores profissionais da TV, muitos deles estão hoje na minha equipa de A Tarde É Sua. Foi a Comunicasom que me ajudou a ser o que sou hoje. Ter passado por lá é um cartão-de-visita. Aprendi muito com o Manolo Bello, com o Jorge Simões. E com o João Patrício. Tem sido das pessoas, nos últimos anos, que mais me tem ensinado. Valoriza-me muito, mas quando é preciso também «me dá na cabeça».

Ao fim de 20 anos um apresentador ainda tem de «levar na cabeça».
_Claro. Temos todos, e o dia em que acharmos que já não há nada para aprender é o princípio do fim.

Faz-se boa televisão em Portugal, na área do entretenimento?
_Creio que sim. A Tarde É Sua é um programa excelente, muito rico em conteúdos, que faz muitas vezes serviço público, tratando os assuntos de forma séria e os testemunhos com dignidade.

O que vê na televisão?
_Programas de grande entretenimento, noticiários, documentários e, às vezes, séries. Sigo a Guerra dos Tronos.

Que primeiros conselhos dá a quem chega?
_Humildade, humildade e humildade. Procurar aprender com os que têm mais experiência, ter sentido crítico e saber ouvir uma crítica construtiva, ser insaciável no conhecimento e aprendizagem e querer superar-se a si próprio todos os dias. Manter a normalidade, que é a maior de todas as virtudes.

Que importância dá à crítica?
_Do público, não tenho razão de queixa. Nem da imprensa da especialidade – soube sempre separar o formato dos programas do meu desempenho. Julgo que fui sempre persona grata.

Que justificação encontra para isso?
_Talvez porque sou muito profissional e séria no que faço. E porque trato as pessoas com muito respeito. A imprensa percebeu isto desde o início e nunca me atacou.

Até que ponto prepara e planeia a sua carreira?
_Na minha carreira, tudo é pensado, nada é por acaso. Tenho um caminho do qual não me desvio. E por isso não aceito projetos que não tenham que ver comigo. A certa altura, o Rangel pediu-me para apresentar o primeiro reality show da SIC, o Bar da TV. Recusei. Faria aquilo de forma competente, mas não sentida.

Portanto, não aceitaria fazer um Big Brother.
_Nunca digo nunca faria, sei lá se um dia vou querer desafiar-me e tentar fazer à minha maneira. Mas hoje não me sinto talhada para esse tipo de trabalhos.

Como acha que é vista pelos seus pares, pelo meio?
_Com muito respeito. E sinto que é assim em todos os canais. Gostem ou não de mim, respeitam-me.

Ao fim de 16 anos de casa, a saída da SIC foi pacífica?
_A SIC queria que ficasse. Não foi fácil, nem para eles nem para mim. Mas o casamento tinha chegado ao fim. Já não estava feliz. Mas saí sem mágoas. E mantenho os amigos que tinha.

Como encara as audiências?
_As audiências têm toda a importância e só com um grande estofo se consegue suportar a pressão. A avaliação é diária e isso é muito desgastante. Todos os dias, às 09h30 da manhã, sai o veredito. É preciso muita endurance, que só os anos dão. Nos primeiros anos sofremos muito. É terrível.

Quanto mal pode fazer a um apresentador a perda da liderança?
_Já perdi a liderança várias vezes e sou bem resolvida com isso. O Fátima Lopes saiu do ar porque deixou de fazer as audiências tremendas que fazia. Chegámos a ter 64 por cento de share. Para se perceber o que valem esses números basta dizer que hoje ganha-se com 19 por cento. Mas havia o problema da insatisfação. A partir de certa altura, comecei a perder para a TVI, com o [Manuel Luís] Goucha e a Cristina [Ferreira].

Seria capaz de ceder para recuperar a liderança?
_Não coloco essa questão em cima da mesa. Podemos ter de reinventar tudo mas há regras e limites. Além disso, chegar até aqui com um capital de respeito deu-me muito trabalho. Não posso desbaratar o meu maior capital por desespero.

Credibilidade: crê que é a palavra que o público associa ao seu trabalho?
_Há poucos anos uma empresa fez um estudo em que me apontavam como uma das mulheres portuguesas com maiores índices de credibilidade e confiança. Por isso, e voltando às audiências, basta ser mais imaginativa e criativa para dar a volta ao texto. E evita-se fazer da apresentadora uma palhacinha.

Credibilidade e confiança são palavras que agradam à publicidade. Já foi, de resto, a cara de várias campanhas. Que produto recusaria publicitar?
_Recusaria todos aqueles em que não acredito. Nunca aceitei um desses trabalhos sem antes experimentar. Talvez por isso, e depois de passarem vários anos, continuo a ser reconhecida como a cara de algumas dessas marcas.

Fez várias apresentações do Portugal Fashion. Que relação tem com a moda e com a imagem?
_Nos últimos três anos tenho vindo a pensar um pouco mais na imagem. Até então era mesmo muito desligada. E isto não é género, é a verdade. Quanto à imagem, olho para o envelhecimento como algo de natural, que aceito bem. Impressionam-me muito as pessoas alteradas – para não dizer desfiguradas – em resultado de uma procura de frescura. Não sei se aos 56 anos direi o mesmo, mas agora, com 46, não me imagino a retocar a cara. Aceito-me como sou. A minha referência nacional é a minha querida Simone de Oliveira. Tem a cara da idade que tem, e é uma mulher linda.

Acerto se disser que a referência profissional é a Oprah Winfrey?
_Lá fora sim. Pela forma de conduzir as entrevistas, pela capacidade de ir fundo sem resvalar e por tratar com dignidade qualquer tipo de convidado.

Fez uma incursão no cinema e na escrita (cinco livros publicados). É para continuar?
_Muito honestamente, acho que no cinema não tinha um futuro muito risonho se bem que uma participação simples é algo que não compromete a qualidade do filme. Por vezes, irrita-me que se ache que é importante fazer tudo bem – apresentar, desfilar, cantar, dançar. Calma! Eu acho que sou boa apresentadora. Com a escrita é diferente. Se pudesse, fazia períodos sabáticos a escrever. Deixemos o cinema para aqueles que são efetivamente atores.

O que é que ainda lhe falta fazer?
_Faltava-me este projeto com as crianças e estou a preparar vários workshops e palestras na área da comunicação e motivação. Contando a minha experiência e dando conta da minha aprendizagem.

Maria de Fátima por ter nascido a 13 de Maio. É crente. O que espera de Deus?
_Tenho com Deus uma relação muito direta, de igual para igual. Temos muitas conversas e não precisamos de uma igreja para conversar. Esse é o meu lado católico. Tenho também uma espiritualidade mais oriental, que vem de uma série de práticas de meditação e relaxamento, técnicas de passagem de energia, que comecei a aprender, fazia televisão há dois anos. Estava numa fase em que me sentia muito perdida. Nunca mais deixei.

Sei que há palavras que não diz. Por exemplo?
_Nunca digo «impossível». As palavras têm a energia que vem do seu significado.

Costuma fazer retiros.
_Poucas coisas me fazem mais feliz do que ter tempo para um retiro. Faço muita meditação, muitos exercícios de partilha. Não consigo traduzir o que esses momentos significam, nesses retiros não sou a Fátima Lopes. Sou um ser à procura de crescer. Às vezes, falo de mim, o que nem sempre é fácil, sei que posso ter uma crise de choro em frente de todos. Já me aconteceu várias vezes. A mim e aos outros participantes. Ali sou eu, posso ser eu, de havaianas e mola no cabelo. Mesmo não conhecendo as pessoas.

Hoje, com as redes sociais, muitos desconfiariam. Ainda consegue confiar em estranhos.
_Ainda consigo e é muito bom.

O que a leva a confiar – ou não – nos outros?
_Sou muito intuitiva em relação aos outros. Faço logo a radiografia, sei logo se estou perante uma pessoa boa ou má. Basta-me uma frase, um gesto, surpreender um olhar. É raro ter surpresas, fora e dentro do trabalho. Quando todos me dizem que estou errada, dou o benefício da dúvida. Mas mais cedo ou mais tarde acabo por ter razão.

Dito assim, parece ser muito útil.
_E tem sido. Quando não gosto de alguém tenho muita dificuldade em disfarçar. Faço mesmo questão que se perceba. Até podemos ter que funcionar diariamente. E podemos funcionar muito bem. Mas a minha fronteira é intransponível. Tenho um lado doce, afetuoso, sou de tocar nas pessoas e isso não quero alterar. Mas que se afaste de mim de quem eu não gosto.

O que é para si um dia bom?
_ Um dia vivido com tranquilidade, com momentos que encham o coração. Sou cada vez mais voltada para o ser e menos para o ter. Todos nós temos a ganhar se em vez de julgar os outros nos concentrarmos em nós e no que nos faz felizes. Acredito que nasci para ser feliz.

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SEM MÁSCARA
23 de Julho. Na noite dessa quinta feira, a TVI iria entrevistar Pedro Passos Coelho. Por razões de segurança, a entrevista com Fátima Lopes, marcada para as 19 horas na estação de Queluz, foi transferida para as instalações da Notable, a agência responsável pela comunicação e gestão publicitária da apresentadora. Chegou sem atraso às Amoreiras, Lisboa, depois de um dia de trabalho, ainda com a maquilhagem perfeita. Àquela hora, as salas vazias. Numa delas, um «aquário», ainda cheia de luz, a longa mesa de reuniões serviu de apoio a uma conversa disponível e vagarosa. Os filhos estão na praia, o compromisso marcado para as 9h30 adiado. Sei que a entrevistada prefere estar do outro lado: a perguntar. Sei, também, que não evita nem contorna questões. Fala com as mãos e com os olhos, verdes, profundos, sublinhados a negro. Terminámos já noite. A maquilhagem continuava perfeita. Ela, sem máscara. Alexandra Tavares Teles

Alexandra Tavares Teles
Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens