OPINIÃO

Falhe. Falhe outra vez. Mas falhe melhor!

Quando as coisas não correm como queremos, o que devemos fazer?

Insistir mas de outra forma, ou desistir com receio de novo falhanço? O medo de errar pode ser uma limitação poderosa, mas há formas de o evitar. Até ao erro seguinte. Que também pode ser ultrapassado.

Experimentar. Errar. E tentar novamente. Esta é a regra que devíamos seguir ao longo da vida. Afinal, ninguém nasce ensinado, diz a sabedoria popular e com razão. Errar faz parte do processo de aprendizagem e deve ser aceite como tal. Porém, na hora H, para quem comete os erros, para quem sofre as suas consequências e para quem vê os outros falhar, a compreensão e a tolerância podem desaparecer num segundo. Ora, se errar é natural na vida, porque temos tanta dificuldade em lidar com os fracassos?

«Errar não significa nem deve significar “automaticamente” falhar», diz a psicóloga Sara Ferreira. «Se pensarmos no erro como uma tentativa de aproximação ao que pode dar certo, vemo-lo não como uma falha mas como um passo em frente, no sentido do que pode vir a ser o êxito.» O problema é que não é desta forma que costumamos encará-lo. Vivemos numa cultura em que o erro ainda é visto como sinal de incapacidade ou incompetência. Uma falha gera embaraço, vergonha, irritação, frustração, vontade de voltar atrás. E, por isso, evitamos errar a todo o custo. Mesmo que isso signifique nem sequer tentar. Ou até mesmo perder oportunidades.

Quando somos crianças, questionamos tudo de forma natural. Somos curiosos, estamos dispostos a experimentar coisas novas e, quando alguma coisa não corre como esperamos ou não funciona, não perdemos tempo com preocupações e seguimos em frente. Tentamos outra coisa qualquer. No entanto, à medida que crescemos, começamos a perceber que os erros e as tentativas fracassadas não são bem recebidos pelos outros. Pior: muitas vezes, somos repreendidos, ridicularizados e punidos por falhar. O erro passa a equivaler a fracasso, tornando-o mais difícil de aceitar e suportar, especialmente no âmbito profissional.

E, sejamos honestos, ninguém gosta de falhar. No trabalho, em casa, num relacionamento ou em qualquer outra área da vida, o fracasso é doloroso. Mas o que muitos se esquecem é de que o erro e o sucesso são inseparáveis. Um não vive sem o outro.

O medo de falhar é castrador e pode limitar e toldar a nossa progressão. Quantas vezes não preferimos uma solução testada e comprovada – embora já vista e provavelmente gasta – em vez de uma solução original mas que corre o risco de não resultar? Receamos parecer incompetentes e prejudicar a nossa carreira – ou a nossa vida – à luz do julgamento de terceiros. Temos medo da opinião dos outros e do que vão achar de nós. Por vezes, somos tão dominados pelo receio de não corresponder às expetativas que ficamos presos ao ciclo de descontentamento em que nos encontramos.

Para Sara Ferreira, todos estes receios são justificados e, de certa forma, úteis. Mas quando nos afastam constantemente de percorrer caminhos desconhecidos, de avançar, acabam por nos prejudicar. «É mais benéfico e produtivo abrirmos espaço para o erro nas nossas vidas, nomeadamente para os erros que não são intencionais mas que podem ocorrer na tentativa de acertarmos», diz a psicóloga. «Errar é o primeiro passo para acertar, porque é aprendendo a acertar que se reduzem as probabilidades de falhar.»

Várias empresas internacionais de recursos humanos têm-se debruçado sobre esta matéria e estudado os efeitos do sucesso e do fracasso na performance dos indivíduos. E os resultados têm sido mais ou menos semelhantes: as empresas e as pessoas aprendem mais com os fracassos do que com o sucesso, e o conhecimento obtido pelo fracasso é mais duradouro do que o aprendido pelas vitórias. «Aceite o erro como uma oportunidade para construir a perseverança e determinação», diz a psicóloga. Afinal, algumas das maiores invenções e descobertas nasceram de enganos. Colombo, em vez da Índia, descobriu a América; Alexander Fleming descobriu a penicilina por mero acaso, e a cola da 3M que não colava deu origem aos famosos post-its.

Carol Dweck, psicóloga e professora da Universidade de Standford, tem desenvolvido vários estudos para perceber como lidamos com o fracasso. De acordo com a autora do livro Mindset – A Atitude Mental para o Sucesso (ed. Vogais), as pessoas de mentalidade fixa, que acreditam que o talento e as capacidades nascem com elas e não se alteram ao longo da vida, quando falham, acham que não são inteligentes. Já as que têm uma atitude mental progressiva e acreditam que o talento pode ser desenvolvido, quando erram, obviamente, não ficam felizes, mas entendem que podem aprender com os erros e agir de forma diferente na próxima vez.

A cultura europeia ainda castiga muito o erro, mas a cultura empresarial dos EUA encara o erro como um fator que potencia o sucesso. Silicon Valley, possivelmente o maior polo de inovação tecnológica do mundo, é o epicentro deste elogio ao erro. Aqui, falhar é sinónimo de aprender. Cada ideia ou projeto fracassado é uma lição armazenada para partilhar com os outros. É que refletir sobre os erros é tão importante como refletir sobre os sucessos alcançados. Tanto que já há eventos que celebram, a partir de histórias contadas na primeira pessoa, os fracassos. Esta tendência já chegou à Europa, nomeadamente a Portugal. Desde 2012 que se realiza em Lisboa o World Failurists  Congress, dedicado ao falhanço e a desmistificar os fracassos.

Como podemos então aprender com os erros que cometemos? «Temos de treinar o músculo da tolerância ao erro. Feito é melhor do que perfeito e o medo é como um veneno tóxico, que se não é dominado, é ele que o domina a si», diz Sara Ferreira. O passo seguinte pode passar por reconhecer que falhamos e assumir a responsabilidade dos nossos fracassos. Perante uma situação ou projeto que não tiveram a solução desejada, é importante colocar algumas questões: O que correu mal? O que poderia ter sido feito para evitar este erro? Se este caminho não foi bem escolhido, quais são as alternativas possíveis? Se fizermos esta autoanálise, conseguimos entender onde e porque errámos. Mas não só. Se estivermos predispostos a reconhecer as nossas falhas, estamos prontos para sair da nossa zona de conforto e adotar novas perspetivas e soluções para os desafios com que nos deparamos no dia-a-dia.

Por fim, manter sempre presente que o erro não é o fim, mas uma oportunidade para um recomeço mais eficiente e planeado. Como Amy C. Edmondson, professora de liderança e gestão, refere no artigo que escreveu em 2011 para a edição da Harvard Business Review dedicada ao fracasso, devemos abrir espaço para o erro mas não falhar apenas por falhar. Falhar sim, mas de forma inteligente. E isso significa que cada falha, erro ou fracasso deve ensinar-nos alguma coisa para que possamos crescer e progredir.

TRANSFORME CADA ERRO NUMA LIÇÃO

Aceite que os erros fazem parte da vida. Todas as pessoas falham e isso é natural.

Veja o fracasso como um trampolim para o sucesso. Aprenda com os erros e aplique o que aprendeu em situações futuras.

Só não falha quem não se propõe a desafios. O ato de falhar ou não conseguir fazer algo de forma eficaz significa que nos propusemos a fazer algo.

Assuma a responsabilidade. Não vale a pena pôr a culpa nos outros. Se não reconhecer que errou, como é que vai aprender com o erro?

SAIBA MAIS…

O Lado Positivo do Fracasso,
John C. Maxwell, ed. SmartBook

Mindset – A Atitude Mental para o Sucesso,
Carol Dweck, ed. Vogais

Adapte-se – O Sucesso Começa sempre pelo Fracasso,
Tim Harford. Editorial Presença

Being Wrong. Adventures in the Margin of Error,
Kathryn Schulz, ed. Granta Books

The Rise: Creativity, the Gift of Failure, and the Search for Mastery,
Sarah Lewis, ed. HarperCollins Publishers

Carla Mateus