OPINIÃO

Eu não sou o meu trabalho

Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque...

Passa tantas horas no local de emprego que, às tantas, já não consegue falar de outra coisa quando chega a casa? Nem com os amigos? Sente que os outros o conhecem apenas pelo que faz, e não pelo que é? Então este texto é para si.

Trabalhas em quê? O que fazes?» As perguntas taxativas, habitualmente feitas poucos minutos depois de conhecermos alguém, são frequentes. Depois do nome, queremos logo saber a profissão da outra pessoa. Nem que seja para quebrar o gelo e criar algum ambiente. E, de acordo com a resposta, normalmente passamos a associar a pessoa à imagem que construímos sobre essa profissão. Cada vez mais vinculamos os outros às suas ocupações. Afinal, como o trabalho ocupa grande parte da vida do indivíduo, é normal que ele faça parte dos diálogos, sonhos e desafios.

Presente na história da construção do ser humano e da sociedade, a importância do trabalho nas nossas vidas é hoje maior do que nunca. Isto apesar de ele ter sempre feito parte de todas as dimensões da história. Desde os tempos primitivos até hoje, é algo inerente ao ser humano. Os historiadores acreditam que é difícil pensar na humanidade sem a associar à área profissional, já que o homem precisava de transformar a natureza para suprir as suas necessidades mais básicas – como a alimentação. «A filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) já falava de “trabalho ontológico”», diz o historiador e professor Rafael de Brito. «Ontológico por ser parte da evolução humana na tentativa de adaptação e sobrevivência a uma natureza tão hostil. A principal caraterística desta ontologia do trabalho é o “fazer para viver” e durante este processo existia claramente uma identificação com este feito.» A Revolução Industrial veio mudar o paradigma, com o homem a ter de passar a vender a sua força de trabalho para sobreviver. E a sociedade de informação trouxe as profissões flexíveis e o multitasking para atender às mudanças rápidas destes tempos.

O trabalho, fonte de realização e sustento, é essencial nas nossas vidas. «Assim como nos constituímos como sujeitos através da religião, da cultura e da política, a profissão torna-se parte do nosso ser», diz Rafael de Brito. Assim, é quase impossível uma pessoa não ser rotulada por aquilo que a ocupa a maior parte do tempo. «A identidade pessoal está muito ligada ao que se faz», diz Juliana Wagner, psicóloga na Universidade de Santa Cruz do Sul (Brasil). «Através da história da humanidade, o sentido do trabalho foi alterado e hoje a identidade do homem passou a estar cada vez mais ligada ao trabalho que realiza.» Basta pensarmos que, desde crianças, somos condicionados a construir a nossa identidade através do trabalho, com a clássica pergunta «o que queres ser quando fores grande?».

Vivemos numa sociedade que exige que todos tenham um trabalho e que isso os faça felizes e realizados. Mais: hoje o trabalho ocupa uma função tão central na vida das pessoas que é usado para nos posicionarmos socialmente. A partir do trabalho, a pessoa constrói-se como ser humano e posiciona-se como formador de opiniões – manifestadas devido à ocupação que tem. E a qualquer momento é desafiada a exigir cada vez mais de si, seja enquanto estudante ou na procura do trabalho perfeito em que possa pôr em prática todas as suas potencialidades.

Do lado oposto desta moeda está o facto – também alvo de estudos – de habitualmente culpabilizarmos o trabalho pela nossa insatisfação, atitude que, levada ao extremo, pode conduzir a estados de depressão. Estima- se que 121 milhões de pessoas sofram de depressão no mundo inteiro, e muitas poderão devê-lo a questões relacionadas com a profissão. Pelo facto de o trabalho ocupar um lugar tão importante na nossa vida. «Se alguma coisa não está bem na vida pessoal ou no trabalho, uma coisa acaba por refletir-se na outra», diz Juliana Wagner. Por mais que se fale em separar trabalho e vida pessoal, sabemos que na prática não é bem assim, e esses limites acabam por se misturar.»

A OBSESSÃO POR TER UM TRABALHO que nos faça felizes é objetivo comum a muitas pessoas. Quando se procura e se faz tudo para o alcançar e não o conseguimos, vem habitualmente uma frustração. Está fortemente enraizada a ideia do trabalho como fonte de felicidade e os indivíduos são incentivados (e ainda bem) a fazer o que gostam. «Mas nem sempre isso é possível e as pessoas precisam de trabalhar, mesmo insatisfeitas, para garantir o seu sustento», diz a psicóloga. «Esta insatisfação pode ser decorrente de diversos fatores: a organização e condições do trabalho, problemas de relacionamento, falta de identificação com o que se faz, etc.» O discurso do «faça o que gosta» é muito bonito, mas nem todos têm essa possibilidade. E nem toda a gente pode – ou tem feitio para – recusar um trabalho e pôr uma mochila às costas para viajar pelo mundo durante um ano sabático.

E como podemos desligar-nos do trabalho no dia-a-dia? Como deixar de lado um local que se frequenta há tantos anos, que nos permitiu comer, sobreviver e comprar o que precisamos para a nossa vida e a segurança e o conforto da nossa família? Esse, sim, é um processo complicado. «Não trabalhamos apenas no nosso ambiente de trabalho», diz Rafael de Brito. «Quando chegamos a casa ainda permanecemos ligados através de e-mail, redes sociais e tarefas que ficaram por fazer.» O truque talvez esteja no bom senso. E no equilíbrio, como defende Juliana Wagner: «É preciso deixar espaço para outras coisas nas nossas vidas. Muitas pessoas encontram nos hobbies e nas atividades paralelas outras formas de realização e satisfação.»

As alternativas para nos desvincularmos do trabalho não parecem muito simples. Podem sê-lo na teoria, mas na prática todos os dias somos desafiados a ser mais competentes e a estarmos presentes no escritório, na oficina ou na fábrica, sem falhar e com motivação. E isso torna a separação das águas mais difícil. A exigência toma conta de nós. Sobretudo nos tempos que correm, em que temos de ser multifacetados e encontrar constantemente soluções para os problemas com que nos deparamos. Com vista a uma maior separação entre o que somos e o que fazemos, os especialistas defendem algumas estratégias que podemos usar na nossa vida e na nossa interação com os outros. Mas, acima de tudo, o primeiro passo para isso passa por reconhecer que esse é, de facto, um problema. Ou que pode vir a ser (por muito que adoremos o que façamos e isso nos influencie). Identificar um padrão de comportamento é o primeiro passo para o tentar mudar.

QUER SEPARAR A PESSOA DO PROFISSIONAL?
ENTÃO FAÇA ESTAS PERGUNTAS A SI MESMO

Quem sou eu fora do trabalho?
O que costuma fazer fora do horário de trabalho? Com que atividades se ocupa habitualmente? É importante desligar um pouco da rotina quando termina o horário laboral – mesmo que termine tarde. Comece por pensar como fala sobre as suas atividades com a família e os amigos. O trabalho ocupa grande parte desse tempo? Estas pequenas reflexões podem fazer a diferença.

«Qual é a sua profissão?»
Deixe de fazer esta pergunta quando conhece alguém, logo depois de saber o nome. Lance um desafio a si próprio e coloque outras questões. Porque é que a pessoa frequenta aquele lugar? O que tem em comum com as outras pessoas na sala? Há sempre outras perguntas que podem ser feitas antes de perguntar a profissão. Muitas pessoas adoram falar sobre o que fazem, mas outras sentem-se constrangidas com isso, por estarem longe de se sentir orgulhosas com a forma como garantem o sustento. Além disso, pode encontrar alguém desempregado e dará por si embaraçado com o que acabou de perguntar – e com o outro embaraçado também com o que tem de responder.

Só me conhecem pelo que eu faço?
Ao associar o seu trabalho à sua identidade pessoal, fica satisfeito com o resultado final? E com a perceção que os outros têm de si? A sua profissão pode dar-lhe prazer e realização, mas até que ponto é que tapa completamente todas as suas outras caraterísticas enquanto ser humano? Ao construir a identidade pessoal, o ser humano associa o trabalho a esta construção pelo simples facto de esta atividade lhe proporcionar um gosto, uma crítica e uma forma de viver. Reflete sobre a imagem profissional que está a passar. Será que essa imagem não se mistura totalmente com a imagem pessoal?

Que imagem quero passar de mim?
Trabalhar oito (ou mais) horas por dia. Chegar a casa e cuidar dos filhos. No dia seguinte, repetir as tarefas. Somos muito mais do que isto, não somos? Tal como somos muito mais do que os cargos que ocupamos. Se o trabalho realmente está a consumir a nossa vida, está na hora de repensar essa parte. Valerá a pena viver em função dele? Quando estiver com a família e amigos, não fale apenas de trabalho, de desafios profissionais ou de dificuldades no emprego. É muito comum discutir o trabalho quem não faz a mínima ideia do que está a acontecer na nossa rotina diária. Se calhar vale a pena inverter esta ordem de fatores.

Angélica Weise
Fotografia: Corbis