OPINIÃO

Do funaná para O Lago dos Cisnes

Uma grande entrevista a Marcelino Sambé.

É de filme: do Alto da Loba, em Paço d’Arcos, para o The Royal Ballet, em Londres, aos 20 anos elogiado pela crítica e considerado pelo jornal The Independent uma das figuras a seguir em 2015. Eis a história de um miúdo português de origem guineense que dançava funaná no bairro e está à beira da fama no mundo.

SÃO 21H59 DO DIA 4 DE FEVEREIRO. Em Londres, terminou o espetáculo da noite no Royal Opera House. Estamos em Covent Garden, sede do Royal Ballet. Os senhores estão de fato, as senhoras calçaram os saltos altos e usam os brilhantes. Bebe-se vinho tinto nos intervalos. O elenco de Onegin pisa o palco para receber o aplauso do público. Marcelino Sambé é um dos membros do corpo de baile. Dentro de pouco mais de meia hora, o bailarino português termina a jornada, 13 horas depois de ter começado.
Marcelino faz 21 anos a 29 de abril – Dia Mundial da Dança, não há como não referi-lo. Chegou como estudante, dois anos depois ofereceram-lhe um contrato na companhia. Atualmente integra o elenco de O Lago dos Cisnes, que estreou no dia 10 e tem todas as sessões esgotadas até 9 de abril. Esta peça é apenas uma das muitas coisas que Marcelino está a preparar para este ano. Vai fazer uma digressão pelos EUA no verão e também passará pelo Japão. Foi escolhido para a peça inédita que o coreógrafo israelita Hofesh Shechter está a fazer e que será apresentada já em março na Royal Opera House.

Faz 21 anos em abril. Este é o ano da maiorida­de do Marcelino?
_[Risos] Sim, agora finalmente posso ir à América e beber uns copos.

É também o ano da maioridade como baila­rino?
_Quando és muito jovem, não confiam em ti para papéis com mais interpretação, dão-te coisas mais físicas. Aos 21 anos co­meçam a acreditar um pouco mais na nos­sa maturidade em palco, para lidar com o ambiente, com os colegas.

Está em Londres desde quando?
_Cheguei aqui em 2010, tinha 16 anos. Vim para a Royal Ballet London School, com uma bolsa que me foi oferecida no Prix de Lausanne. Cheguei à final mas não me foi oferecida nenhuma das bolsas dos primei­ros lugares. Mas a diretora da Royal Ballet School gostou tanto de mim que me disse que ia encontrar um patrocinador privado para os meus três anos aqui. Havia umas opções, mas depois disse-me que não que­ria que estivesse a dançar para agradar a alguém. Achava que devia trabalhar para mim. Então conseguiu o contacto da Gul­benkian e foi a Gulbenkian que financiou os dois anos que estive na escola. Depois desses dois anos – normalmente são três – a companhia ofereceu-me um contrato. Cheguei um pouco mais cedo do que o nor­mal, mas foi positivo porque fiz logo pa­péis de solista, o que é bom.

Entretanto chegou a primeiro bailarino.
_First artist, o passo seguinte no corpo de baile. Significa que tenho de fazer algu­mas danças de grupo mas já posso fazer papéis de solista. Estou a ser pago por fa­zer os dois. Recebo mais.

Ainda se lembra que é de Portugal?
_Claro, claro. O meu camarim está cheio de fotos do Bairro Alto, porque tenho mui­to boas memórias do Bairro Alto. Quase cresci lá. A minha escola é lá. O Conserva­tório é lá, em plena Rua do Século, estáva­mos sempre no Bairro Alto. Tenho postais. Adoro. Estou sempre a ver.

A psicóloga Maria Coelho da Rosa [do Centro Comunitário do Alto da Loba, em Paço d’ Ar­cos, Oeiras] diz que…
_Yes! Ela foi muito importante…

Ela diz para parar com isso!
_Mas foi… Eu era jovem e não tinha um futuro promissor porque não era incrivel­mente inteligente na escola, era um pou­co hiperativo. Estava sempre metido em confusão. Sempre na brincadeira, mui­to distraído. Gostava de artes, de pintura, não era uma criança muito normal. Que­ria dançar a toda a hora. Os meus colegas eram mais desportivos e nunca me enqua­drei muito com o grupo de colegas que estava lá no centro comunitário. Como eu gostava muito de dançar, a Maria dis­se-me que tinha uns colegas que tinham feito o conservatório, que estavam a dan­çar profissionalmente e estavam a ganhar dinheiro com isso. Quando era pequeno entrei em fases em que queria ser padre, queria-me fechar. Era uma criança com muitas ideias, mas estranhas. A Maria conseguiu ver isso e levou-me à audição.

MARIA COELHO DA ROSA diz que já pediu a Marcelino para parar de lhe agradecer. «Já provou que é por ele que está em Londres. Pelo valor que tem. Eu sou um terço da história.» A psicóloga trabalha na Câmara Municipal de Oeiras e, no centro comunitário do Alto da Loba, apoiava a população de bairros municipais do concelho. E sim, foi ela quem lhe falou de uma escola onde só se dançava. «Na minha profissão, fazemos as coisas como atos de fé, com esperança de que vá acontecer como gostaríamos. Mas nunca imaginei que se pudesse tornar um dos melhores bailarinos do mundo.» Ela estava lá quando ele se apresentou no Conservatório Nacional de Dança, naquele mês de maio, se a memória não a atraiçoa. Marcelino, 9 anos, experiência de danças africanas no centro comunitário, põe-se à prova ao lado de meninos e meninas que tinham aulas desde crianças. «O que ele sabia dançar não era o clássico. Mas tinha um grande domínio do corpo. Nasceu com isso.» A diferença, acrescenta, é que depois trabalha. «Trabalha muito. Não é um miúdo que se encoste, esforça-se por ser bom.» E ali havia pressão. «Se chumbasse era convidado a sair.» Era o que ela lhe dizia. A família, pais e irmã, incentivou e deu todas as autorizações para que o menino, acabado de entrar no 5.º ano, fosse sozinho de casa, apanhasse o comboio até Lisboa, para ter aulas na Escola de Dança.

Morava em Paço d’ Arcos. Como é que ia para o conservatório?
_Com o [bailarino] Telmo Moreira. To­das as manhãs ia bater à porta dele às se­te horas. Íamos para a escola juntos. Ha­via dias em que nos chateávamos e eu ia direto. Era superdisciplinado. Fiz aquilo como se fosse uma tropa, um dever. Che­gar lá a horas, ter tudo organizado. E o Tel­mo foi uma grande inspiração para mim porque estava a sair-se bem. Os professo­res diziam sempre: «Ele é o grande exem­plo.» E eu pensava: «Tenho a possibilidade de o conhecer tão bem, vou tirar o máximo que puder dele para me ajudar a mim, para ver se consigo fazer isto.»

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Mantêm o contacto?
_Ele agora está na América [faz parte da Companhia de Ballet de Orlando, na Flori­da] e perdemos um pouco o contacto, o que é triste. Eu e os meus colegas… cada um foi para seu sítio. Ele esteve cá no mês passa­do, no ano novo, quando fui para casa. Mas o mundo da dança é tão pequeno que tenho a certeza de que um dia vamos acabar a trabalhar juntos.

Quando chegou ao Conservatório percebeu logo que queria ser um bailarino profissional?
_Não foi instantâneo, porque lembro-me de estar a fazer atletismo ao mesmo tem­po. Os treinos eram até às dez da noite. A professora pediu para eu me deixar disso porque me estava a distrair e andava su­percansado. Depois comecei a concen­trar-me na dança. Ia para casa do Telmo e treinávamos até à noite. Foi uma fase mui­to engraçada em que nem percebi que es­tava a desenvolver-me como bailarino e a ganhar bases para o futuro. Simplesmente achava: «Conservatório, imensa gente gi­ra, gosto de dançar, as pessoas são simpá­ticas e parece que gostam de me ver dan­çar.» Foi a partir daí que comecei a achar que seria possível.

Mas desde o princípio muitas pessoas acha­ram que podia ser bailarino.
_Eu não tive logo essa perceção. Fui ao programa da Catarina Furtado [Pequenos em Grande, RTP] com 10 anos e lembro-me de ela dizer «Vais ser um grande bailari­no». Naquela altura, eu via os meus colegas e eram tão diferentes de mim. Tão compri­dos. Sempre fui muito pequeno. O diretor, José Luís Vieira, puxou muito por mim. E também o Pedro Carneiro. E comecei a pensar… Sei que tenho graça e que gosto de estar em palco e que é natural. Vejo outros miúdos que se borram todos, ficam nervo­sos e precisam de chamar a mãe. Eu sem­pre soube que queria estar em palco, as au­las é que eram um pouco mais chatas. Era fifty-fifty de possibilidades.

Aos 16 anos torna-se sério?
_Já tinha feito competições antes e tinha treinado muito no estúdio com os meus professores no Conservatório. Comecei a achar que era sério depois de ter conheci­do a família Barroso, que me acolheu pa­ra eu poder continuar os estudos porque a minha mãe teve de ir viver para o Sul [Alentejo]. Chamo-lhes pai e mãe até ho­je. A Maria [Barroso], que considero uma irmã, também era muito séria em relação a ser bailarina. Era muito madura desde muito nova.

Quem é a família que o acolheu?
_Muito generosos. A Maria é um ano mais velha. Comecei a dizer que era capaz de não poder ficar no Conservatório porque a minha mãe ia para o Sul. O meu pai tinha falecido naquela altura, era uma fase mui­to difícil e estava a lidar um pouco sozinho com a situação. A minha mãe também não estava muito bem psicologicamente, não estava muito feliz. Isso tudo fez que eu fi­casse mais perto dos meus amigos. Houve uma fase em que andei de casa para casa até que encontrei a Maria, uma das pesso­as que me ajudaram. Continuei a treinar e o incentivo da escola para ir a competições fez que me distraísse um pouco. Não pen­sava tanto nisso de não ir para casa, de não ter a minha mãe lá.

Deve ter sido tão difícil…
_Ainda não estou preparado para falar so­bre como foi. Talvez daqui a uns anos eu tenha mais ideia sobre o que foi. Como cor­reu tudo bem e eu estou aqui… Penso sem­pre que ainda não estou preparado para fa­lar sobre quando fiquei sozinho. Foi uma fase difícil e depois encontrei a Maria superdisposta a ajudar-me e a dizer-me que os pais dela e o irmão estavam mais do que satisfeitos de me ajudar. Pensei: «Uau, há mesmo pessoas boas no mundo.»

A FAMÍLIA SAMBÉ, DE ORIGEM GUINEENSE, sofreu um revés quando o pai de Marcelino morreu. Ele tinha 12 anos, a mãe decidiu mudar-se para o Alentejo, a irmã (pouco mais velha) foi com ela. Marcelino quis continuar no Conservatório. «Perdi muito contacto com a minha mãe biológica», diz no final da entrevista. Marcelino deixou de viver no bairro do Alto da Loba, em Oeiras, quando ainda estava no Conservatório. Maria Coelho da Rosa foi seguindo os passos do bailarino à distância a partir dessa altura. «Ele foi fazendo a vida dele, aos poucos foi-se organizando, arranjou condições para ficar em Lisboa.» Os pais adotivos ainda não foram a Londres. «A Maria – irmã – esteve em Estugarda [onde estudou, com uma bolsa ganha no Prix de Lausanne], o meu irmão estava na República Checa.»

A sua irmã adotiva, Maria, também é baila­rina?
_Ela está cá. Está na companhia como aprendiz. Falei com o diretor e depois correu tudo bem e ela veio para cá. E ter a irmã, que é como uma irmã, ajuda imenso por­que é uma carreira tão difícil. Há a compe­tição, nunca se sabe quem está atrás com uma faca para espetar.

Isso acontece?
_Era bom dizer que é o paraíso. Mas não. Toda a gente quer ter o papel principal, ser a figura principal, mas muito pode aconte­cer. O diretor pode não gostar, pode acon­tecer apostar naquele ano e no ano seguin­te esquecer-se. É um pouco aleatório. Por isso é preciso apanhar a oportunidade de trabalhar com um coreógrafo, falar sobre a tua carreira, isso é tão importante co­mo mostrares-te em palco. Porque o co­reógrafo que hoje pode parecer pequeno, amanhã pode ser uma grande estrela, e se tu já trabalhaste com ele, tens o contacto. Nesta arte, as pessoas que têm a inteligên­cia de trabalhar para um futuro são nor­malmente os que têm melhor carreira.

Ser relações-públicas?
_Muito, muito, muito. Conhecer pesso­as, coreografar os meus próprios traba­lhos, ganhar o respeito dos meus colegas. Ter colegas que olham para ti como exem­plo. É sempre isso. Não fazer aos outros do que não gostamos que nos façam a nós. É preciso ter uma imagem muito limpa nes­ta companhia. Saber o que fazemos a to­da a hora.

Mas há amizade ou não?
_Há amizade mas é difícil, é uma amiza­de porque temos… Não sei. É um local de trabalho.

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Então quando saiu o seu nome no The Inde­pendent, o dia seguinte foi difícil…
_Não, porque tenho a minha irmã que é ótima a aconselhar nestas coisas e acho que as pessoas aqui não fizeram um gran­de aparato. Acho que até foi mais «é me­lhor não falar muito sobre isso». Não foi as­sunto. O que gosto, porque não tive de lidar com esse tipo de burburinho. Foi só «acon­teceu». A minha família e eu ficámos muito felizes, o diretor disse «parabéns» e pron­to. Não foi «ah, apareci no The Independent». Foi quiet [calmo], e eu gosto mais.

Em casa, quando viu…
_Fiquei superfeliz. No momento nem ti­ve muita noção. Alguém me taggou [iden­tificou] no Facebook a dizer que o Indepen­dent tinha falado de mim e eu vi e «OK, OK, já vou ver». Depois esqueci-me e à noite, ia a sair da Stage Door, tinha lá uma car­ta para mim com a revista dentro. Fiquei supercontente. Falei com os meus pais e com a minha irmã. É sempre bom ser re­conhecido em tão tenra idade. E depois ser nomeado para os Critic Dance Awards foi outra honra muito grande. Por isso, é co­mo diz: 21 anos, parece que está a ser o ano.

DEZ CARAS A SEGUIR EM 2015, dizia o diário britânico The Independent chamando a atenção para a atriz de Guerra dos Tronos Maisie Williams, 17 anos, o músico Jinwoo, de 27, a escritora Eliza Robertson, também com 27, outros seis jovens e… Marcelino Sambé. «Tem uma técnica impressionante, combinada com energia e presença em palco», lia-se no artigo, publicado no último dia de 2014. Ninguém no The Royal Ballet esperava que o nome de Marcelino Sambé aparecesse na lista, diz Gareth King, assessor de imprensa da instituição. Mas sabe que ele estava no radar da jornalista que habitualmente faz a crítica dos espetáculos da Royal Opera House. Já em novembro, o jornal tinha escrito, a propósito de outro bailado com o português: «The Ceremony of Innocence cria uma atmosfera de perda e reflexão com um desempenho brilhante de Marcelino Sambé.»

Já teve más críticas?
_Não, ainda não tive. Estou preparado. É sempre bom ouvir críticas boas, mas as críticas más é que fazem o bailarino me­lhor. Já aconteceu cair em palco e ficar triste com isso. Dizer «ah, falhei». Ou fa­zer um passo menos bom. Não aguento. Fico a noite toda mal, nem durmo muito bem porque não quero que o diretor veja que fiz um passo mau porque pode pensar «ele não consegue fazer isso e aquilo». Mas depois tenho o apoio da minha irmã e dos meus amigos, que dizem: «Não, toda a gen­te falha alguma coisa a toda a hora.» Mas é difícil viver com aquele momento de «oh­hhh, pus a mão no chão quando não de­via». Fico mal comigo se não faço o melhor que posso fazer.

DURANTE A TARDE DE QUARTA-FEIRA PASSADA, no ensaio do espetáculo de Hofesh Shechter, um gesto fora do sítio faz Sambé soltar um «ahhhhh» descontente. O espetáculo está a ser construído de raiz. «Ainda não tem nome, só para verem o quão novo é», diz o assessor de imprensa, Gareth King, anfitrião da visita. Estamos no estúdio Fonteyn, numa das várias salas nos bastidores do edifício do Royal Opera House. Um par de portas a seguir, a bailarina norte-americana Sarah Lamb e o cubano Carlos Acosta, duas das maiores estrelas da companhia, ocupam outro estúdio. São par de O Lago dos Cisnes. A orientadora do ensaio chama os bailarinos para verem um vídeo da coreografia de Hofesh. Corrigem posições e gestos. «O Marcelino é fantástico», dirá, no final, Deidre Chapman. Era uma das primeiras bailarinas do Royal Balett até novembro, agora é assistente do coreógrafo. «Existe um departamento só para ajudar os bailarinos quando a carreira termina», explica King. Tal como existe um fisioterapeuta, um nutricionista, um psicólogo, um departamento que apenas trata das sapatilhas ou alguém que faz os seus horários, sempre a mudar, e sempre a soar nos altifalantes do corredor dos estúdios onde eles dormem esticados nos sofás. Na véspera do dia em que falámos com Marcelino, a agenda do bailarino português tinha sofrido alterações. O encontro aconteceu às 16h00, uma hora mais cedo do que o previsto. O português chegou com dois colegas bailarinos. Sorriu e disse que estava meio constipado. Explicou ao assessor, com sotaque britânico, que um ensaio inesperado foi introduzido. «Tenho de dar tudo, vocês percebem», dirá mais de uma hora depois, desfazendo-se em desculpas pelo atraso. Passa das 18h00 e dentro de menos de duas horas estará a subir ao palco para Onegin.

Como é a sua vida em Londres?
_Hoje começámos às 09h30 com au­las, às 11h00 tivemos stage call de segun­do e terceiro ato d’O Lago dos Cisnes. De­pois hora de almoço, em que estive a fa­zer um pouco da minha coreografia com os meus colegas. Um draft work – que vai ser engraçado este ano, vai ter um pouco de acting on it [representação]. Depois tive Hofesh Shechter. Pedi: Hofesh não este­jas, não estejas e depois estava só a assis­tente e pensei: «Yes! Pudemos descansar um pouco mais. Só revimos a coreogra­fia. A seguir outro ensaio com um core­ógrafo que respeito mesmo muito. Que­ro que ele me use mais vezes. Tive de dar tudo. Se ele quer uma hora, eu vou fazer uma hora. Há dias em que é ainda pior. Há dias em que o Hofesh está lá e temos de fazer três horas com ele e acabamos às 22h30. Nos dias em que acabo às 05h30 tento sempre ir ao National Theatre por­que é o meu sítio favorito. Penso «how small I am», quão pequenos somos como artistas, porque só temos uma expressão que é a dança.

Um bailarino vai ao teatro para se sentir pe­queno?
_Quando vejo atores que têm o movi­mento, que têm falas, cantar, saltar… Fi­co sempre «uau». No ballet temos de fazer gestos muito formais e quero aprender como tornar esses gestos mais realistas. Acho que é isso que faz um artista mais interessante.

Tem trabalhado isso?
_Sim, estou a preparar-me para quan­do me derem um ballet importante, em que tenha de desenvolver uma história muito grande, para que possa conven­cer o público de que é real… Há pessoas que dançam muito bem, têm um físico ótimo, fazem movimentos ótimos, mas se não têm uma intenção, se não vem de dentro, é como ver um ginasta numa competição.

Que mais faz em Londres?
_Passo muito tempo em restaurantes, o que é um mau vício. Adoro restaurantes! Eu e a Maria… Vemos na Time Out qual é o restaurante da semana e vamos. Ado­ramos ter o nosso bourgeoisie moment [momento burguês]. Museus já fiz mui­to. Agora estou sempre à espera de uma painting [pintura] nova. Vou à Tate Mo­dern, porque às vezes há um Picasso novo ou um Kandinsky e estou sempre alerta. A minha vida é mais virada ao cultural e depois, claro, há aquele sábado à noite em que vamos sair, vamos dançar um pou­co, beber um pouco. Às vezes fazemos grandes shows no club, umas piruetas [ri­sos]. Estamos em Londres. Tanta coisa a acontecer a toda a hora. Tanto para ver. É uma das coisas por que me sinto mais fe­liz. Estou aqui quando tudo está a acon­tecer. Estou a tentar absorver o máximo, porque são essas coisas que vamos levar da nossa vida.

Mistura muito inglês com português…
_Eu sei [risos]. No outro dia fiz uma coi­sa para a televisão e misturei muitas palavras em inglês e em português e pen­sei: «Vou ver isto e vou odiar. A minha mãe vai ver isto e vai odiar.» Mas sai!

Já falava?
_Como diria… macarrónico [risos]. Tinha um sotaque português muito forte e te­nho trabalhado para melhorar isso por­que acho que as pessoas aqui em Londres respeitam um pouco mais a pessoa se fa­lar corretamente. O foreign accent [sota­que estrangeiro] muda a visão deles em relação a um indivíduo. O que eu estou a dizer é a realidade, por experiência pró­pria. Queria explicar coisas aos meus co­legas sobre a minha coreografia e acho que eles não levavam a sério. Depois co­mecei a trabalhar nisto: como é que pes­soas que têm um ótimo speech [discur­so] mandam a informação que estão a querer dar, e faz uma diferença muito grande dizer «I would like to…» em vez de «I want you guys to…» [«gostaria que fizes­sem» em vez de «quero que façam»]. All those britishoisinhas… Eles gostam mui­to de careful e proper [cuidadosos e ade­quados]. São mais frios. Quando cheguei cá, fiquei conhecido como o rapaz que da­va beijinhos e abraços a toda a gente. Des­de que veio para cá a minha irmã, diz-me que estou menos físico.

Como foi a adaptação?
_Estávamos todos numa casa [os alunos da Royal Ballet School]. A turma toda nu­ma casa – the Wolf House, a Casa do Lo­bo [risos]. Era uma diversão mas tínha­mos recolher obrigatório. Às nove horas. E aos fins de semana às dez ou onze. Tí­nhamos 16 anos. Uma altura em que toda a gente queria party [festa], o que fez que as coisas fossem mais interessantes, por­que a gente tinha de fazer planos. Como é que íamos sair? Como deixar almofada na cama? Foi superengraçado. Comecei a lavar a minha roupa, a organizar a mi­nha comida. Foi ótimo ter colegas OCD [obsessive-compulsive disorder – transtor­no obsessivo-compulsivo], eram tão cle­an [limpos]. Também queria ser assim. Dizia a mim mesmo: «Vou fazer as com­pras para a semana toda e planear a ali­mentação para cada dia.»

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Existem 24 nacionalidades na companhia.
_Há da Colómbia, da Eslováquia… Dou-me mais com o grupo latino. Há um casal principal por quem tenho muito carinho, uma argentina e um brasileiro, a Maria­nela [Nuñez] e o Thiago [Soares]. Eles vi­vem ao pé de mim. Vivo longe, quer dizer não é longe, é Arsenal, chega-se pela Pi­cadilly Line, estou a 20 minutos, o que é ótimo porque gosto de ter aquela transição trabalho/casa. Tenho colegas que es­colheram viver aqui em Covent Garden e acho que estão sempre metidos aqui. Pa­gam uma fortuna. Gosto de ver outros sí­tios de Londres, estar com os amigos.

A nacionalidade, a raça, têm peso na com­panhia?
_Conta, de uma forma positiva. Porque sou a única pessoa que já sentiu aqueles ritmos de África, que já dançou no baila­rico funaná, e acho que isso enriqueceu o bailarino que sou e a pessoa que sou. A ra­ça dá sempre um pouco de flavour [sabor]. Pessoalmente, acho que os bailarinos britânicos são preferidos porque são bri­tânicos e querem puxar por eles, como se fosse em Portugal se puxava pelos portu­gueses. Mas é uma nação que gosta de pu­xar por pessoas que têm talento, não im­porta de onde vêm.

Há variedade nos bailarinos homens mas nas mulheres não.
_Agora há uma bailarina negra na com­panhia. Não é negra. É mulata. Põem-nos muitas vezes juntos, porque ela é mui­to boa para a minha altura. É a Frankie [Hayward], está a bombar agora, é a grande estrela e estou superfeliz por te­rem uma rapariga assim, que não é loiri­nha. A variedade é uma coisa importan­te, o mundo da dança tem de começar a mudar em relação às raparigas.

Tem 20 anos, está no The Royal Ballet. No to­po do mundo?
_Às vezes perco um pouco essa sen­sação. Começo a ficar muito triste por causa de um casting, porque queria fa­zer aquilo ou aquilo, e acho que mereço. Sou Touro, tenho aquela coisa de querer fazer tudo, mas depois tenho a minha fa­mília que humbles me down… Como é que se diz? Que me põe os pés na terra. Que me diz: «Não. Estás em Covent Garden, estás no Royal Ballet, tens um contrato, tens 20 anos, estás a fazer galas por todo o mundo, tens coreógrafos a querer tra­balhar contigo, não tens de querer tudo já, ainda vai acontecer muita coisa, vê o que já conseguiste em dois anos.» E de­pois penso que há pessoas que estão em posições piores. Fico sempre orgulhoso do que já consegui.

Lina Santos em Londres
Fotografia: José Sarmento de Matos em Londres