OPINIÃO

Dias de mãe

Histórias de mães e filhos.

Paula Lobo Antunes diz que a mãe é linda. Os Homens da Luta veem na mãe a mulher do leme. Naide Gomes herdou da mãe a fibra de lutadora. Kátia Guerreiro não passa um dia sem falar com a mãe. Foi graças à mãe que Rui Veloso gravou o primeiro disco. Vanessa Oliveira tem saudades do colo de domingo.

PAULA LOBO ANTUNES E ANA OLIVEIRA
39 e 71 anos

«Era a maior delas todas, a mais comprida e gordinha, a mais calma e a mais calada. Um bocadinho sonsa, fazia-as pela calada, mas era tão, tão engraçada. E um bocadinho asneirenta, também.» A mãe ilustra: «Certa vez, parei num sinal e, quando arranquei, ao dar a curva, reparei nela pendurada no carro do lado de fora. Tinha conseguido abrir a porta. Valia-lhe um físico espantoso: ia para a água e nadava, andava no surf e surfava, sempre se mexeu muito bem.» Paula Lobo Antunes nasceu em Nova Iorque, a 20 de janeiro de 1976, terceira das quatro filhas de Ana Oliveira, médica anestesista, nascida em Lisboa no ano de 1944 e foi a única que herdou da tia-avó Maria Paula, colega e contemporanêa de Laura Alves, o gosto pela representação. A única? «Acho que a minha mãe gostaria de ter sido atriz», responde Paula, e justifica: «Sempre gostou de ir aos meus castings, não falhava um, assistiu sempre às minhas peças, ajudava-me muito nos ensaios, adora essas coisas.» Ana garante que é exagero da filha, mas guarda memórias felizes do ambiente dos camarins, onde brincou na companhia da irmã da mãe, a tia atriz. «Gostei muito desses momentos, era muito divertido. Lembro-me de brincar com o João Villaret, que eu adorava. Era muito engraçado.» Quando, no entanto, percebeu que era esse o caminho da filha, não calou o conselho: «Faça um curso, fica mais segura e depois pode ser o que quiser.»

Paula cumpriu. Cursou Biologia Médica em Edimburgo e só depois começou a estudar teatro e a participar em castings. «Sempre fui muito responsável, não tive uma adolescência conflituosa nem fiz grandes asneiras. Aos 18 anos, saí de casa dos pais e fui sozinha para a Escócia, estudar. Falava com a minha mãe uma vez por semana.» Os pais confiavam. «Mostravam o certo e o errado, davam liberdade e exigiam responsabilidade. E sempre respeitaram o espaço das filhas. Nunca entraram no meu quarto de uma forma intrusiva.»

O maior raspanete materno ouviu-o por andar de moto sem capacete. Hoje, já mãe, entende melhor os medos de Ana, que, apesar de médica, nunca foi obcecada com as pequenas questões de saúde. «Só não deixa que nos esqueçamos do protetor solar, e quando vê que abuso do café faz um reparo.»

Paula entende hoje a importância de ler, ver cinema e teatro desde a infância. «Lembro-me de ir aos concertos da Gulbenkian e de ver Henrique V na Cinemateca com 10 anos. Não percebi nada, mas alguma coisa ficou.»

Recordações boas ficaram da cidade onde nasceu e onde viveu até aos 5 anos. «A casa era grande e tinha um enorme jardim onde aprendi a andar de bicicleta. Adormecia com a minha mãe a tocar viola.»

Conselheira no trabalho – «normalmente diz o que acha» –, a mãe é também o exemplo: «A minha mãe é muito bonita e sensual e eu gostava de ser como ela. Somos parecidas e quando me reconhecem como filha dela ficamos muito orgulhosas. A minha mãe mostrou-me que uma mulher pode ter uma família e carreira. Com quatro filhas chegou a diretora de hospital, sempre com enorme brio profissional. Fez-me acreditar que eu também posso fazer o mesmo.»

Ana responde, feliz: «Tenho quatro filhas e todas elas são melhores e mais bonitas do que eu.»

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NUNO DUARTE (JEL), VASCO DUARTE (FALÂNCIO) E CLEMENTINA DUARTE
41, 37 e 63 anos

«Olha que te prenderam os filhos.» Clementina Duarte sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés, quase deixou cair o telefone tal a aflição. Hoje, com um sorriso, diz que não morreu por acaso. Depois, habituou-se: «Volta e meia lá iam eles para a esquadra. Devia ser porque faziam muito barulho.» Muito barulho, atentado à ordem pública, invasão de propriedade privada. «Uma vez até lá fomos por usurpação de funções», conta Nuno (Jel) que com o irmão Vasco (Falâncio) formam a dupla Homens da Luta.

«Uma vida sossegadinha com um emprego seguro que desse um ordenado fixo ao fim do mês, certinho» era o sonho de Clementina, proprietária de uma loja de roupa em Alvalade, para os dois rapazes. Mas Nuno e Vasco, 41 e 37 anos, trocaram-lhe as voltas. Na altura custou-lhe. Hoje está muito orgulhosa, acha-lhes graça, mas adverte: «Por vezes são um pouco agressivos de mais. Metem-se com muitos poderes. Podiam ser mais calmos.» Nuno entende-a: «A minha mãe aprecia mais o humor de um César Mourão. Talentoso mas mais leve. O nosso é radical.»

«Quando eram pequenos era eu quem mandava. O meu marido aceitava tudo», explica Clementina. Segundo o filho Nuno, o lado cómico vem-lhes do pai. «Os meus pais sempre projetaram nos filhos o que queriam ser. Começaram a trabalhar muito novos – passaram por muitas dificuldades e cada um via-nos à sua medida.» Com a mãe, o humorista fala em choque de gerações: «A minha mãe tinha uma tendência para controlar. As maiores pegas com os filhos eram com os horários.» Nuno nunca cumpria e quando chegava «tarde e a más horas» já a mãe tinha ligado para todas as esquadras e todos os hospitais.

A família morava em Odivelas, e a mãe queria afastar os filhos das más companhias do bairro. «Havia lá um rapaz uns oito ou nove anos mais velho do que eu. Mal a minha mãe me disse que eu podia ser amigo de todos menos daquele, tornou-se um dos meus melhores amigos.» Hoje, o filho reconhece: «Com 15, 16 anos já saía à noite, sempre com os mais rebeldes, e naquela altura Odivelas era marcada pela toxicodependência. Alguns amigos morreram e por isso compreendo o receio da minha mãe», diz Nuno.

Clementina nasceu em Penalva do Castelo, mas vive em Lisboa desde os 4 anos. Em Lisboa, casou-se e nasceram os filhos: Nuno trazia «dois cabelos brancos e um bigodinho»; Vasco, «mais branquinho e careca» do que o irmão à nascença, deve o nome ao apreço do avô paterno por Vasco Gonçalves.

Clementina nunca pensou que o filho mais velho enveredasse pelo espetáculo. Tímido e reservado, gostava de ler e «puxava ao intelectual». O Vasco, sim: «Sempre foi um palhaço e muito extrovertido.» E, apesar de ter sido pai aos 17 anos, terminou o curso de Animador Cultural. Já o irmão não terminou a faculdade, apesar de ter frequentado dois cursos: Gestão e História.

Hoje, Clementina aceita. Desde o falecimento do marido vai passar os fins de semana a casa do Nuno, e da neta mais nova, a Beatriz. E é do filho maior o maior elogio: «A minha mãe é uma mulher de fibra. Lá em casa foi sempre ela quem tomou o leme nas mãos. Tenho muito orgulho nela e somos muito amigos.»

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NAIDE GOMES E ERNESTINA VAZ DO ROSÁRIO
35 e 59 anos

Ernestina Vaz do Rosário ainda hoje guarda o postal com a imagem de Maria e o Menino, feito pela mão da filha para celebrar um Dia da Mãe. De todos os presentes que Naide lhe deu, só aquele lhe merece devoção especial – guarda-o no quarto em posição de destaque, olha-o todos os dias. Talvez porque o pequeno cartão com a Madonna sele o reencontro das duas, depois de seis anos de afastamento, em que nunca se viram. Apenas as cartas trocadas mantinham o contacto entre a mãe e a filha, levando saudades e fotografias, promessas e desejos de um rápido reencontro. «Seis anos é muito tempo», começa por dizer Ernestina. «Foi muito difícil, o pior que pode acontecer. Custou a passar.» «Por vezes dizíamos-lhe que ela nos tinha deixado e percebíamos então o quanto sofrera. E nós também», diz Naide.

Ernestina, em 1956, e Naide, em 1979, nasceram em São Tomé e Príncipe. «A minha filha pesava 4,900 kg e media 50 cm. Era grande e muito gordinha.»

Naide tinha 4 anos quando um problema de saúde levou a mãe a procurar tratamento em Portugal. Melhores condições de vida acabariam por determinar que ficasse por cá, sempre à espera da melhor oportunidade para trazer as duas filhas, Naide e Ludmila, ano e meio mais velha. As meninas só chegariam a 13 de Novembro de 1990. A mãe foi esperá-las ao aeroporto, mas só Ludmila a reconheceu. Naide insistia – «aquela não é a mamã».

«Onde eu morava havia uma loja franca, portuguesa, onde íamos de vez em quando, e essa loja cheirava muito bem, cheirava a rosas. E para mim Portugal era assim – um lugar onde cheirava a rosas e a perfume», conta Naide.

A desilusão foi dura: «Chorámos muito. Queríamos regressar a São Tomé. Estávamos sem a nossa avó, sem os amigos, o clima não ajudava e, de facto, não cheirava a perfume. O início foi muito difícil.»

Viviam no Feijó. A mãe trabalhava no CascaisShopping e passava 18 horas fora de casa – saía às seis da manhã, regressava à meia-noite. Naide e Ludmila cuidavam uma da outra, longe da liberdade que tinham em São Tomé. Entre quatro paredes, respeitando as regras que a mãe lembrava todos os dias: não andar na rua, não falar com estranhos, não aceitar nada de desconhecidos, estudar muito. «Para nós era horrível, mas cumpríamos à risca. Ficávamos em casa e estudávamos. Devíamos-lhe isso. Ela era – foi sempre – o pai e a mãe. Pelas filhas abdicou de reconstruir a vida. Não é fácil educar sozinha duas raparigas.»

Um esforço que Naide sempre quis agradecer, proporcionando à mãe uma vida mais descansada. «O atletismo deu-me essa possibilidade. Tive a sorte de poder ser assim.» Contudo, não foi com grande entusiasmo que Ernestina viu a filha enveredar por uma carreira no atletismo. E sempre que a adolescente garantia que um dia seria como a Fernanda Ribeiro, mandava-a ganhar juízo. Mais: fora clara desde o primeiro dia – «Se tirares negativas acaba a brincadeira.» Conhecendo a mãe rigorosa, pouco dada cedências, a filha sabia que o ditame seria cumprido.

Falam-se todos os dias. A filha acha de mais: «Não era preciso tanto. É preocupação a mais. Quando eu competia era um exagero.» Conta Ernestina: «Em dia de competição sofria imenso, ficava doente. A nervoseira começava logo com a viagem. Depois, nas provas tinha de sair da sala e numa das vezes até desmaiei.» Por essa razão, Naide evitava a presença da mãe nos estádios. «Por causa do atletismo choraram muitas vezes juntas.» Custou-lhe ver a filha pôr um fim à carreira por causa de uma lesão. «Sei que a minha filha não queria terminar assim, desta maneira. Por isso, alegrou-me duplamente a notícia da gravidez. Fico feliz por ser avó, mas também porque sei que este menino, nesta fase, é uma bênção para a minha filha.» E agora, sim, pretende divertir-se com os mais novos: «Avó não é mãe. Avó é para estragar.»

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KÁTIA GUREREIRO E MARIA DE FÁTIMA GUERREIRO
39 e 66 anos

Durante três dias, Maria de Fátima temeu pela vida. Os três dias que levou a chegar de Moçamedes, sua terra natal, à fronteira com a África do Sul, grávida de três meses e com um filho de dois anos e meio nos braços, sujeita às ordens dos militares dos movimentos de libertação. A partida de Angola deu-se a 5 de agosto de 1975. A família abandonou o país com pouco mais do que alguns alimentos, uma muda de roupa e perigo de vida. O maior deles, conta, viveu-o em Roçadas, quando o marido enfrentou o militar que, de propósito, vertera o leite em pó que levavam para a criança. Valeu-lhes a presença de espírito. Caso contrário não chegariam aos campos de refugiados do lado de lá da fronteira – três em 45 dias. Só então, muita tristeza mais tarde, o marido arranjaria emprego em Vanderbijlpark, cidade a sessenta quilómetros de Joanesburgo. Aí nasceria Kátia Guerreiro, a 23 de fevereiro de 1976. Pesava 3,530 quilos.

«Talvez porque viveu em perigo extremo, a minha mãe é muito protetora e presente, está ali para nós. Toma conta de todos: dos netos, dos filhos, do marido e da mãe. Sempre sem invadir o nosso espaço», revela a fadista. Maria de Fátima confirma a necessidade de saber diariamente dos seus. «Preciso disso. Dou-lhes muito mimo. Durante uns anos, preocupava-me sobretudo a possibilidade de a Kátia não conseguir conciliar a medicina com a música. Ela conseguiu, e hoje tenho uma vaidade muito grande na minha filha, que está no auge da carreira.»

De quem herdou a voz? «É dela, não sai a ninguém.» A voz que a comove em Minha Senhora das Dores, um tributo da filha. Ou em Amor de Mel e de Fel. Muito preocupada com os concertos, abstém-se de ligar nas horas que antecedem a entrada em palco. Mas não resiste a enviar a mensagem com o desejo repetido vezes sem conta: «Que corra tudo bem, meu amor.»

A vida de Maria de Fátima deixou-lhe algumas datas marcadas. Sabe-as de cor. A 26 de dezembro de 1976, a família chegou a Portugal, vinda da África do Sul; a 18 de janeiro de 1977, aterrou nos Açores, «o único sítio onde diziam que seria mais fácil arranjarmos empregos». Não tinham qualquer ligação ao arquipélago. A filha admira-lhe «a coragem, a força, a disponibilidade ». Em Ponta Delgada, foi a primeira secretária de direção da RTP Açores. Manteria depois o cargo na RTP nacional, no Lumiar.

A primeira a chegar ao continente foi Kátia, decidida a estudar Medicina. Tinha 18 anos. «Eu vivia num lar de estudantes universitárias; embora fosse muitas vezes a casa da minha avó, senti muito a transição.»

Saudades. Tanto mais que Kátia «nunca deu problemas ». Cumpriu a adolescência sem dramas, «uma menina pacata». Mas, no ambiente conservador da ilha de São Miguel, existia desde cedo a vontade de ser autossuficiente. «Nunca gostei de pedir dinheiro aos meus pais. Antes de vir para a faculdade trabalhei num part-time na RTP Açores e com esse dinheiro paguei o primeiro semestre do lar; ainda sobrou para os livros», lembra a fadista. E cumpriu. Licenciada em Medicina, especializou-se em Oftalmologia, até seguir de vez as guitarras e o fado.

Faty é o petit nom carinhoso da mãe. «A minha abraça toda a gente. Nos Açores, moravam perto de nossa casa umas raparigas, estudantes universitárias. A minha mãe adotou-as. De tal maneira a ligação se tornou forte, que uma delas escolheu-a para madrinha de casamento. Ainda hoje nos damos.»

As pessoas guardam carinho a Maria de Fátima, ela retribui. Mais não seja com «a melhor muamba do mundo, um pudim de peixe fantástico ou um gelado de natas e chocolate como não há outro igual». Palavra de filha. Mas quem prova confirma.

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RUI VELOSO E EMÍLIA VELOSO
57 e 91 anos

Em 1977, Emília Veloso aproveitou uma viagem de trabalho do marido a Lisboa para, às escondidas da família, entregar na Valentim de Carvalho (VC) as bobinas com músicas compostas pelo filho mais velho, segredos sagrados do jovem de 20 anos. «Tenho um filho que não liga nada aos estudos, só à música. Oiçam lá isto que ele faz e digam-me a vossa opinião», declarou, pedindo que não a denunciassem.

Depois de anos a lutar contra a dedicação quase exclusiva do primogénito à música, Emília, pragmática sempre que necessário, mudara de planos, adotando a velha máxima: «Se não o vences, junta-te a ele.» Resultou. A editora, entusiasmada desde o primeiro minuto, nunca mais perdeu o contacto. Três anos depois, a VC lançaria Ar de Rock, o primeiro álbum de Rui Veloso e um sucesso que o autor agradeceria à mãe.

«Ela foi a grande impulsionadora da minha carreira musical. Fiquei-lhe muito reconhecido. Ainda assim, disse-lhe que não devia ter mexido nas minhas coisas», conta hoje o cantor, desde sempre um rebelde nas palavras maternas. «Mas ainda bem que o era. Prefiro os rebeldes, nunca gostei de miúdos parados», acrescenta Emília, que, aos 91 anos, admite com alguma vaidade: «Em algumas coisas fui eu que me adaptei ao jeito dele.»

Rui, primeiro de três filhos, nasceu tinha a mãe 33 anos, idade tardia numa época marcada pela autoridade parental. E, no entanto, «a relação com a minha mãe nunca foi de divã de psicólogo. Eu e os meus irmãos tivemos muita sorte. Fomos educados de forma civilizada, sem repressões, com liberdade e respeito. O meu pai é, dos dois, o mais fechado. A minha mãe é doce, sensível e nunca o escondeu.» «Doces, sensíveis e preocupadas» eram, pois, as cartas que recebia de Emília, quando os sucessos Chico Fininho e Rapariguinha do Shopping o levaram do Porto até Lisboa. Apesar de ter nascido na capital, em 1957, Rui vivera no Porto desde os 3 meses. Sabê-lo sozinho em Lisboa, ao sabor de uma carreira incerta, afligia Emília Veloso.

«Eram cartas escritas para um rapaz adulto, conhecendo, no entanto, as suas forças e fragilidades. Por vezes preocupadas com o tipo de vida e alguma falta de equilíbrio que se associa aos artistas, como o álcool ou as drogas.» «O que é de mais é moléstia», lembravam-lhe com frequência as missivas. Aos conselhos, a mãe juntava sempre opiniões sobre o trabalho de Rui.

«O romantismo é para os 20 anos», acredita Emília. No entanto, destaca sem hesitação Fado do Ladrão Enamorado a canção predileta. «E a da gargantilha, gosto muito dessa, é especial.» Especial é também o álbum Auto da Pimenta. Rui confessa: «Sei que a minha mãe e o meu pai se orgulham. Não tanto pelo que me dizem mas pelo que me fazem chegar por interpostas pessoas.»

«Percebi que ele era invulgar», elogia a mãe. Licenciada em Germânicas, exerceu a docência apenas durante um ano. Por causa dos filhos. Da infância de Rui guarda o «suplício que era ter de lhe dar de comer: foi assim com os três, um horror». Aos 91 anos, espera agora que sejam os filhos a telefonar. E a aparecer. Gosta de visitas, não quer saber de dias marcados. Tal como o filho. Mas falam-se sempre a cada primeiro domingo de maio.

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VANESSA OLIVEIRA E MANUELA OLIVEIRA
34 e 63 anos

Durante a gravidez, toda a gente me dizia que ia nascer um rapaz. Naquela altura, ainda não se sabia dizer com certeza o sexo do bebé e eu confiava de tal modo na experiência das amigas que estava absolutamente convencida de que seria um rapaz», conta Manuela Oliveira, que quando viu a menina disse que não a queria. «Lembro-me de a minha cunhada ter dito “deixa, fico eu com ela”. Mas quando vi a minha filha com um vestidinho que o meu marido fora comprar à pressa apaixonei-me para sempre.» Vanessa Oliveira nasceu no dia 26 de maio de 1981. A apresentadora sorri com a história do seu nascimento. Muitos anos depois teria ela o rapaz desejado, para gosto e alegria da mãe. «É verdade, o meu querido e meu lindo André», diz a avó carinhosa.

Em 1981, Manuela tinha 28 anos. «A relação com a minha filha foi mudando com o tempo. Hoje somos duas mulheres, a relação é de igual para igual.» Quer dizer, «ela ainda me tem respeitinho». Vanessa assente: «Na minha adolescência tivemos as discussões típicas, que se foram diluindo. Faz parte da aprendizagem de ser mãe e filha, e a verdade é que já foi de outra forma que a minha mãe lidou com a minha irmã, 11 anos mais nova do que eu.»

Do amor de mães e filhos fala também o livro que a apresentadora lançou recentemente. Mães de Coração é «um livro de carinho, de homenagem e de muito amor». Um livro dedicado à mãe, mas também à tia e avó maternas, «segundas mães que me criaram», mulheres que Vanessa ama e que junta à progenitora nos primeiros domingo de maio. O livro foi uma surpresa. «Ninguém desconfiava. Se fosse apenas uma homenagem às mulheres da minha vida mandaria imprimir uns quantos e ofereceria um a cada uma delas. Ao dizer que o amor faz toda a diferença na nossa vida e que não devemos ter medo ou vergonha de usar o verbo amar estou a falar para todos.»

Com a mãe fala todos os dias. Dos tempos em que viviam juntas há muitas saudades. Sobretudo ao domingo: «São dias muito especiais para mim e sinto-lhes a falta. Nem que me deitasse às oito da manhã, o almoço de domingo era uma tradição. Podia ser mais cedo ou mais tarde, mas era um ritual familiar a que não se podia faltar. Hoje, felizmente, tenho retomado essa tradição dos domingos em casa dos meus pais.»

A alimentação da filha é uma das preocupações de Manuela, que a acha sempre «muito magrinha». «E quando apareço na televisão com uma roupa menos clássica pergunta-me logo se me vão levar para o liceu. » Licenciada em Relações Públicas e Publicidade com mestrado em Jornalismo, Vanessa sabe que a mãe gostaria que tivesse um emprego seguro e estável. «Já lhe disse que esses empregos não existem. Por outro lado, também sei que ela gosta de me ver na televisão.» Manuela gosta, orgulha-se e não disfarça.

Alexandra Tavares-Teles
Fotografia: Leonardo Negrão, Jorge Amaral, Rui Oliveira e Filipe Amorim/Global Imagens