OPINIÃO

Da engenharia à agricultura

Menor tamanho, todo o sabor...

Engenheiro de formação e agricultor de coração, Gonçalo Fabrício criou uma empresa ligada à terra. Produz melancias e melões de tamanhos mais pequenos do que o habitual. O objetivo? Evitar o desperdício e garantir o consumo rápido, mantendo assim o sabor.

Aos 47 anos decidiu que estava na altura de mudar de vida. Foi a ocasião certa: a formação e o percurso profissional como engenheiro civil não tinham apagado a paixão pela agricultura herdada por tradição familiar. Gonçalo Fabrício começou por idealizar um pequeno projeto: três hectares de terreno seriam, à partida, suficientes para pomares de nectarinas e ameixas (acabou por optar por outras culturas mais viáveis). Deixou Coimbra, onde vivia, e levou a família para Castelo Branco. Estávamos em 2011 e a paixão começou a ganhar forma.

Mas no ano seguinte, o primeiro de produção propriamente dita, Gonçalo percebeu que «teria de aumentar de escala». Precisava de mais hectares, se queria tornar a empresa sustentável. Concorreu a um concurso de jovens agricultores e foi contemplado com o aluguer das terras do Monte Rochão, no Ladoeiro, freguesia de Idanha-a-Nova. «Ficámos com 52 hectares e com um dos lotes que mais nos interessava por ter terra de excelente qualidade e boas condições de clima para a produção de hortícolas. Esta terra tem potencialidades únicas. É um dos regadios mais antigos do país e as infraestruturas estão feitas. Basta utilizar.»

Gonçalo dedica-se à produção de melancia, meloa, melão e beringelas e o negócio anda ao sabor do tempo. «É uma verdadeira lotaria. Lidamos diariamente com fatores que não conseguimos controlar e não existem dois anos iguais.» É uma luta incessante e quando as chuvas da primavera chegam sem avisar e em exagero, como aconteceu no ano anterior e no corrente, perdem-se culturas, atrasam-se outras e o risco aumenta. E se antigamente o famoso Borda d’Água facilitava o processo, hoje a imprevisibilidade meteorológica contribui para a instabilidade da produção. «Podemos contar ter as primeiras melancias no final de maio mas perdermos tudo e entrarmos em absoluto prejuízo se tivermos muita chuva. Por outro lado, o tempo pode ajudar e correr tudo bem para que a produtividade seja ótima.»

Gonçalo e a equipa – nove colaboradores no total e cinco contratados no verão, época de maior trabalho – têm feito produção integrada. «Tentamos usar o máximo possível as técnicas de agricultura biológica, por uma questão de sustentabilidade. E temos várias culturas e diversos canais de distribuição.» A consolidação do mercado nacional é já uma realidade, com a entrada em grandes superfícies. E em 2017 espera começar a exportar.

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A aposta da Fabrício Fresh está nos formatos e variedades «mais interessantes para o mercado». Gonçalo acredita que isso é uma mais-valia, pois vai ao encontro dos gostos e das necessidades dos clientes. «Produzimos melões com um a dois quilos e melancias mais pequenas do que o habitual. A nossa preocupação passa por não haver desperdícios de fruta em qualquer parte da cadeia.» Além de garantir facilidade de transporte e armazenamento, desta forma o consumo da fruta é mais rápido, o que garante a manutenção do sabor e as propriedades.

«Já temos duas lojas em Castelo Branco a que recorremos para testar produtos e tendências, e neste momento são elas que nos contactam a solicitar a nossa fruta e os nossos legumes.» É também necessário passar a informação mais correta aos retalhistas e grossistas de forma a ser interiorizada. «Não existe melão deste tamanho noutra parte do país e apesar de ter começado com uma área muito pequena, já conto com toneladas de produção.» O peso e o tamanho dos frutos são controlados graças à utilização de sementes de outras variedades.

Não se perdeu um engenheiro civil e ganhou- se um agricultor. Gonçalo Fabrício trabalhou em direção de produção e o know how que adquiriu é essencial para aplicar no negócio. «Uso os mesmos métodos e diagramas, e o facto de vir de outra área dá-me a vantagem de olhar para esta atividade empresarial sem ideias preconcebidas. É relativamente fácil integrar novas visões de produção e tecnologias ao setor.» É por esse motivo que tem tentado influenciar alguns agricultores ao mostrar-lhes «como podem gastar dinheiro garantindo os ecossistemas. Se fizerem tratamentos intensivos a determinadas pragas, vão matar não só essas pragas como outros bichos que andam ali à volta, o que vai desequilibrar a cadeia alimentar e exigir novos tratamentos e mais custos». Esta postura faz que ainda não tenha sido necessário utilizar nenhum fitofármaco no ano corrente na sua cadeia alimentar.

Por ter uma grande necessidade de formação na área, Gonçalo concorreu à primeira edição da Academia do Centro de Frutologia Compal. «O desenho que a Academia tinha ao colocar jovens produtores sem grande experiência em contacto com outros que já têm muito conhecimento e projetos de sucesso, como com cadeias de distribuição e com setores diversificados, tornou-se muito motivante.» Dos ensinamentos que recebeu, começou a conseguir «eliminar riscos e entrar num patamar com maior probabilidade de ser bem sucedido». Após o período formativo, o seu projeto foi um dos que mais se destacaram, tendo-lhe sido atribuída uma bolsa de vinte mil euros que permitiu aumentar o espaço para pomares e, assim, adaptar as culturas à zona do Ladoeiro – «que tem caraterísticas únicas para produção de hortícolas e frutícolas».

A Academia foi também importante, em grande parte, para lhe dar maior noção dos riscos. Gonçalo entra nos projetos a cem por cento e nem sempre tem noção do que vai encontrar, admite. «Mas é compensador ver as ideias a avançarem e a serem reconhecidas. Há muito a fazer, mas há que vencer a inércia de algumas pessoas e mercados. Não pretendo mudar o mundo. Mas torná-lo um pouco melhor, sim.»

NÚMEROS QUE MARCAM
Em 2013, a empresa de Gonçalo Fabrício produziu trinta toneladas de beringela por hectare. No ano passado passou para 68 toneladas por hectare. Também na cultura da melancia os números são reveladores: cinquenta toneladas por hectare em 2012, 92 toneladas em 2014. No que diz respeito à produtividade global anual, foi muito pequena em 2012 – apenas 50 toneladas de fruta e legumes (melancia, melão, beringela e pimento). Mas no ano seguinte passou para 270 toneladas. Em 2014 chegou às 670 toneladas e as expetativas para este ano estão nas 1200 toneladas.

Cláudia Pinto
Fotografia: Diana Quintela/Global Imagens