OPINIÃO

Carne fora do prato

Amanhã é um bom dia para começar a comer melhor. Sem carne, mas gourmet.

O movimento 2ªs Sem Carne conquista cada vez mais adeptos. E não só entre os que apreciam os regimes alternativos. Há quem adira para fugir aos excessos habituais ou minorar problemas de saúde. Mas não se agarre à alface! Há muitas alternativas saborosas para encher os pratos da família. E amanhã é um bom dia para começar.

1. VIAJE SEM SAIR DO PRATO
Tira-se a carne da ementa e lá o vem o arroz ou a massa. Sim, há mil e uma maneiras de os preparar, mas o que não faltam são opções deliciosas e com um toque de exotismo. Oriundos do trigo, tal como a massa, os couscous e o bulgur são obrigatórios nas cozinhas da bacia do Mediterrâneo e do Médio Oriente e muito simples, e rápidos, de fazer. Combinam bem com legumes e apreciam um toque de especiarias e frutos secos. Outro cereal versátil e fácil de encontrar em lojas biológicas é o millet, também conhecido por milho miúdo ou painço. Reza a história que o seu cultivo é anterior ao do arroz ou do trigo, sendo altamente nutritivo e fácil de digerir. Experimente cozinhar esta espécie originária de África e das Índias Orientais com legumes e um fio de azeite ou transformá-la em puré, usando-a assim mesmo ou em croquetes. E depois há ainda a quinoa. Moda gastronómica dos últimos anos, entre os amantes da culinária natural e não só, esta semente é considerada o único alimento vegetal a possuir todos os aminoácidos essenciais, oligoelementos e vitaminas. Saborosa sozinha, ainda melhor quando acompanhada de legumes, não contém glúten, tal como o milho miúdo. Donde vem ela? Dos Andes peruanos e bolivianos.

2. APOSTE NAS ESPECIARIAS
Usadas com peso e medida dão um toque exótico aos pratos à base de vegetais e às leguminosas. Vá além da pimenta e do colorau, apostando no gengibre ou no açafrão das Índias. Sabe que ambos possuem propriedades benéficas para a saúde? E o segundo dá uma magnífica cor amarela aos cozinhados. Experimente também o sabor intenso dos cominhos ou do cravinho e a frescura do cardamomo. E aventure-se na canela. Sim, ela não fica bem apenas nos doces, também valoriza alguns pratos salgados.

3. CONHECE O MISO AUTÊNTICO?
Já experimentou a sopa de miso nos restaurantes japoneses, claro. E em casa, já se aventurou a explorar esta especialidade? Esta pasta salgada, normalmente à base de soja, cevada ou arroz fermentados, não é apenas essencial na confeção da mais famosa sopa nipónica, que, aliás, pode fazer na sua cozinha em poucos minutos e juntando os legumes da sua preferência, é também uma mais-valia de sabor para outros pratos, como estufados vegetarianos, molhos para saladas, pastas para barrar ou mesmo as nossas tradicionais sopas. Além do mais, estudos garantem que é benéfica para o bem-estar do sistema digestivo e com poder antioxidante.

4. VEGETAIS SOFISTICADOS
Quem disse que os vegetais têm de ser cozidos, ou melhor, semi-desfeitos e privados de nutrientes, numa panela de água a ferver? Há outras maneiras mais saborosas, e saudáveis, de os preparar. Já experimentou salteá-los num fio de azeite ou óleo de sésamo e comê-los ainda crocantes e repletos de vitaminas e minerais? Ou grelhá-los com um toque de ervas secas? Ou levá-los ao forno, bem temperados, e saboreá-los quentinhos? E se gosta mesmo deles cozidos, porque não apostar na cozedura a vapor, preservando mais nutrientes e mantendo as cores vibrantes? E não esqueça as algas. Os legumes do mar, além de apetitosos e versáteis, são uma benesse para a saúde.

5. PROTEÍNA? PENSE LEGUMINOSA!
Mas se não como carne nem peixe onde vou buscar a proteína? Às leguminosas, nomeadamente quando são associadas a um cereal — uma união o que também melhora a sua digestibilidade, ao contrário do que acontece quando são misturadas com carne ou peixe. E há muitas por onde escolher. Só nos feijões pode recorrer a diversas variedades, cozinhadas de maneiras mais tradicionais ou aventurando-se por receitas de outras latitudes. O mesmo acontece com as lentilhas. E o grão de bico? Com ou sem imaginação, com ou sem especiarias, com ou sem ervas aromáticas, é um valor seguro. E não esqueça as ervilhas e as favas.

6. SALPIQUE COM SEMENTES
Uma sobremesa, uma salada, uns legumes, uma sopa, um arroz ou outro cereal polvilhados com um punhado de sementes ganham não só outra graça como mais sabor. Experimente as de abóbora, girassol ou sésamo, levemente tostadas, nos pratos principais, e as de papoila nalgumas sobremesas. E saiba que, no geral, as sementes são ricas em gorduras saudáveis, vitaminas, minerais e fibras. Lembre-se, no entanto, que são bastante calóricas, pelo que devem ser utilizadas em pequenas quantidades. Também não as misture, opte por uma ou duas variedades a cada refeição.

7. E VÁ MAIS LONGE
E porque não experimentar, numa destas segundas-feiras sem carne, um prato de tofu ou de tempeh? Produzidos a partir de soja, o primeiro obtido através da fermentação do leite desta leguminosa e o segundo da fermentação dos próprios grãos, são produtos que para nós, portugueses, no início se estranham, mas depois se entranham. Enquanto o tofu não tem um sabor marcado, absorvendo bem os temperos que lhe são adicionados, o tempeh tem um gosto característico e único. Quando de qualidade, faz lembrar vagamente a noz. Tanto um como outro são versáteis e o que não faltam são receitas a tirar o melhor partido destas duas generosas fontes de proteína vegetal.

TENDÊNCIA CADA VEZ MAIS GLOBAL
Iniciado nos Estados Unidos, há pouco mais de uma década, o movimento 2ªs Sem Carne está hoje representado em quase 25 países dos cinco continentes. Nascida para sensibilizar as populações sobre o impacto do consumo excessivo de carne na saúde, no ambiente e nos animais, esta campanha foi ganhando terreno à medida que as chamadas doenças civilizacionais foram fazendo cada vez mais vítimas. Atualmente, as 2ªs Sem Carne contam com apoio de inúmeras estrelas internacionais, como Rick Gervais, Kevin Spacey, Emma Thompson ou Gwyneth Paltrow. Também são vários os chefs que decidiram dar a cara por este movimento, como o britânico Jamie Oliver. Outros levaram o princípio mais longe e quase baniram a carne dos seus restaurantes, como fez o histórico Alain Ducasse, para já num dos seus exclusivos estabelecimentos parisienses.

Cristina Azedo