OPINIÃO

Bolos que são arte

Porque os olhos também comem...

Das princesas aos retratos, passando pelas flores, animais, cenas de filmes, livros, marcas, desportos e tecnologia, tudo inspira a perícia dos cake designers na hora de fazerem um bolo. Autênticos criadores de obras de arte, o que sai das mãos deles está a anos-luz das massas folhadas e crostas estaladiças do passado.

Festa de casamento, aniversário, batizado ou outra data que se preze tem sempre um bolo bonito como símbolo de abundância. Cortá-lo é o momento mais aguardado do dia: os convidados parados diante daquela peça de massa tão perfeita que parece um bibelô, reverentes; a faca suspensa no ar, avaliando o melhor ângulo para não estragar a obra; fatias fofas distribuídas pelo grupo em sinal de união e partilha. Já foi arte exclusiva em conventos, palácios e banquetes reais, apenas acessível a uns poucos felizardos que podiam degustar pastelaria esculpida e menos ainda os que sabiam confecioná-la. Hoje mais solto e democrático, embora encantador em igual medida, o cake design está nas mãos de todos quantos aprendam a modelar deliciosos sonhos a partir de creme de manteiga, pasta de açúcar e glacê real.

«Cada bolo é um bolo com muita personalidade. A maior dificuldade é mesmo conseguir que o dia tenha 48 horas para chegar para tudo», adianta Catarina Cerqueira, 33 anos. Desde que se conhece que o seu mundo cheira a massas fragrantes acabadas de sair do forno e a flores, colhidas no jardim para enfeitar as iguarias a arrefecer na cozinha dos pais, em Guimarães. Entre três tios que a incentivavam a superar-se, um irmão carinhoso, uma mãe orgulhosa e três tias que aplaudiam os resultados – sobretudo a tia Aurora, mestre cozinheira que lhe passou a base de doces e salgados –, a garota cresceu a planear as sobremesas lá de casa e os bolos de anos dos amigos. «Foi muito cedo, desde os 12 ou 13 anos. Fui experimentando técnicas, formas de decorar diferentes… Inspiro-me em cada pequena coisa que vejo para criar.»

Já em Lisboa, a tirar mestrado integrado em ciências farmacêuticas, fez um workshop casual em 2008 que lhe deu nome à paixão de infância: cake design, soando a viagens e ao ritual inglês do chá com bolinhos. Tornou-se mestre pela escola norte-americana de confeção e decoração de bolos Wilton e pela britânica Knightsbridge PME. Apurou a sensibilidade inata até à perfeição (a farmácia ficou entretanto posta de lado) e dois anos depois criou a MyCakeStore, determinada a vencer o estigma de que um bolo decorado nunca era bom. «As pastelarias fizeram com que isso acontecesse porque só tinham pão-de-ló com doce de ovos ou bolo de chocolate», conta a cake designer, especialista em combinar massas – de cenoura, frutos vermelhos, maçã e canela, laranja sumarenta, noz, café, limão, ananás e outras de identidade forte – com recheios – morango, menta, ovos moles, baunilha e mousses de chocolate branco, escuro ou caramelo. «Orgulho-me de dizer que os nossos clientes gostam do exterior, mas muito mais do interior.»

Segundo Sara Águas, responsável pela comunicação da Istofaz-se – Escola Profissional de Decoração Artística de Bolos (a mesma onde Catarina fez o primeiro workshop que lhe pôs a vida em ponto de rebuçado), a crise recente no país levou muita gente a começar de novo. «Precisámos de voltar à raiz, ao simples e belo, e essa necessidade foi convergente com a onda do cake design», diz, orgulhosa dos muitos bons profissionais que se vão formando. «Alguns são da área da pastelaria, mas a maioria são amadores: pessoas comuns que por desemprego, hobby, desejo de fazerem os bolos dos seus filhos ou depressão, acabam por experimentar e ficam com esta vontade de explorar cada vez mais a arte da decoração de bolos e tudo o que ela envolve. Temos muito talento por cá, fazem-se projetos incríveis.»

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Com Elisabete Caseiro, 42 anos e professora de físico-química, foi mais ou menos assim que aconteceu: um misto de gosto em animar os aniversários dos filhos e de acaso ao comprar, em 2005, o livro 50 Bolos de Festa da inglesa Debbie Brown, uma das mais reputadas cake designers internacionais com quem fez formação. «Houve uma altura em que quase desisti, pela dificuldade em comprar materiais. Não era como hoje, com a internet e lojas especializadas por todo o país.» Em 2007, sem ver no mercado o bolo que idealizava, fê-lo ela mesma e não parou mais. As quatro medalhas de ouro ganhas entretanto no Cake International em Birmingham, um dos maiores eventos a nível mundial, provam ter decidido corretamente ao abrir o ateliê BetySugarland no Parque das Nações, Lisboa, onde cria e ensina com zelo de mãe.

«Para um bolo bom e bonito é preciso planear a estrutura e os elementos decorativos, ser muito dedicado e imaginativo, usar ingredientes de qualidade e ajustar as receitas a este tipo de decoração, aplicando as técnicas corretas para rechear e cobrir a massa», enumera a criativa. Outro ingrediente fundamental é a paciência infinita: um bolo perfeito, como o amor, requer tempo para amadurecer. «Consoante o resultado que pretendo, utilizo a modelagem, pintura, brush embroidery (“bordado” de glacê real feito com pincel), renda flexível, flores de açúcar, aerografia… é comum aplicar várias técnicas que se complementam para um resultado harmonioso.» Por ela, estaria sempre a inventar bolos esculpidos e estruturados, a sua perdição. «Ou seja, bolos que se parecem com tudo menos com bolos.»

É difícil precisar a origem do cake design, embora relatos históricos apontem os banquetes reais ingleses do século XVI como ponto de partida provável: na corte de Isabel I, a pasta de amêndoa (maçapão) foi pela primeira vez usada para moldar e decorar bolos. Ainda no século XVI, em França, um bolo de noiva em andares estreou-se no casamento de Catarina de Médici com Henrique II (os confeiteiros foram com ela como dote de casamento), deixando os comensais de boca aberta. Em 1609, uma receita de pasta de açúcar surge no livro Delights For Ladies; 160 anos mais tarde, receitas de maçapão e glacê real são publicadas em The Experienced English Housekeeper. No século XIX, enquanto Ernest Schulbe seduzia Londres com as suas flores de açúcar e editava Advanced Piping and Modelling, Antoine Carême conquistava os reis europeus pelo estômago, elaborando verdadeira arquitetura comestível para as festas.

«Quem começa a mexer com bolos, regra geral, apaixona-se», confirma Sónia Azoia, presidente da Ser Cake Designer – a associação nasceu há um ano para legalizar e reconhecer o cake design como profissão, além de dar apoio aos associados, facilitar a colaboração com empresas do ramo e organizar eventos e ações de formação. «Os bolos decorados deixam as pessoas felizes, libertas e muito realizadas. Celebram ocasiões especiais e nós fazemos parte dessa felicidade.» A procura crescente traduziu-se numa vasta oferta de matérias-primas, utensílios, escolas e ateliês onde se ensinam os truques para transformar o açúcar em magia. Dos palácios para as casas comuns, provocados pelas competições culinárias na TV e o caudal de livros ilustrados sobre o tema, foram muitos os que notaram o potencial cake designer dentro de si. «Há pessoas que o fazem só para a família, mas também houve quem começasse assim e descobrisse uma nova profissão. Regulamentá-la em Portugal é o nosso maior desafio», revela.

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Andreia Pinto, psicóloga e doceira apanhada na curva dos dias, gosta de pensar que chegou aos 31 anos a fazer o que o coração manda: bolos bonitos, lavrados ao pormenor mesmo se parecem simples (não é como brincar com plasticina), com uma boa massa húmida e um recheio de atordoar os anjos. «O tempo varia muito de projeto para projeto, mas posso assegurar que desde o contacto inicial com o cliente, até à entrega do resultado final, vão longas horas de trabalho», explica a cake designer, a torcer como Sónia pela profissionalização agora que tem a marca/loja O Piquenique, no Porto, a tempo inteiro com a mãe e a irmã. «Começou por ser um hobby, comigo a pesquisar em livros e tutoriais no YouTube. Hoje é a minha vida.»

Ao descobrir-se viciada no açúcar, Andreia investiu em formações, nomeadamente um master da escola PME, como Catarina Cerqueira. «Há quem saiba o que está a fazer e quem se aventure por parecer simples. São muitas as técnicas, todas elas essenciais para se fazer isto à séria.» Quando se trata de conjugar cores, preparar ganache ou saber o tempo de repouso de um bolo antes de ser recheado, o conhecimento não ocupa lugar. «É preciso ter alguma instrução básica e técnica para sair algo de jeito», reforça Daniela Ramos, formadora na primeira escola de cake design do Porto, Doce Arte, e impulsionadora da tendência na cidade desde 2006. «Também tem que se gostar de fazer e comer bolos. E ter a certeza de que é isto que se quer.» A estrada a percorrer por um bom cake designer é longa. «Quem não estiver preparado para ela só vai perder tempo e dinheiro.»

APRENDA A PÔR AS MÃOS NA MASSA

MYCAKESTORE
Morada: Rua Arnaldo Ferreira, Loja 4H (Condomínio Privado do Parque das Conchas), Lumiar, Lisboa. Workshops, preços, encomendas e informações pelo telefone 926 855 516. E-mail: inscricoes@mycakestore.com.pt. Site: www.mycakestore.com.pt.

O PIQUENIQUE
Morada: Rua da Fábrica Social, s/n, Porto. Workshops, preços, encomendas e informações pelo telefone 933 563 909. E-mail: o.piquenique@gmail.com. Página: https://www.facebook.com/o.piquenique.

BETY’SUGARLAND
Morada: Terreiro das Ondas, Lote 4.33.01 B, zona norte do Parque das Nações, Lisboa. Workshops, preços, encomendas e informações pelo telefone 914 509 431. E-mail: geral@betysugarland.com. Página: http://betycat.blogspot.pt/.

ISTOFAZ-SE
Morada: Rua Major Neutel de Abreu, n.º 12, Lisboa (escola e loja). Workshops, preços e informações pelo telefone 916 046 014. Encomendas pelo 910 564 556. E-mail da escola: escola@istofaz-se.pt. E-mail da loja: loja.benfica@istofaz-se.pt. Site: www.istofaz-se.pt.

DANIELA RAMOS
Morada: Rua de Oslo, 87 – Edifício Centro Comercial Londres, 2.º andar, loja 132, Senhora da Hora. Workshops, preços, encomendas e informações pelo telefone 915 075 473. E-mail: cursosdocearte@hotmail.com. Site: http://www.deliciasecriacoes.com/.

SER CAKE DESIGNER
Associação Sem Fins Lucrativos – Informações, apoio, eventos e parcerias pelo e-mail: sercakedesigner@gmail.com. Página: https://pt-br.facebook.com/sercakedesigner.

DOCES LEITURAS

AÇÚCAR EM FLOR, Clara Pedro; Editora Marcador. Vencedor do prémio Gourmand World Cookbooks Awards 2014, em Portugal, na categoria Best Single Subject Cookbook. 21,95 euros.

COMO CRIAR UM NEGÓCIO DE BOLOS DECORADOS, Sónia Azoia; Editora Marcador. Vencedor do Gourmand World Cookbooks Awards 2014 na categoria Best Cookbook for Professionals. 24,40 euros.

MESES DOCES, Carina Costa; Editora Marcador. Vencedor do Gourmand World Cookbooks Awards 2013 na categoria Best Children Cookbook. 19,95 euros.

MOMENTOS DOCES, Mafalda Matias; Casa das Letras. 21,90 euros.

OS BOLOS DA JULIE, Julie Deffense; Editora Marcador. 21,95 euros.

BOLOS E BISCOITOS – DECORAR COM MAGIA, Annie Rigg; Moderna Editorial Lavores. 19,24 euros.

Ana Pago
Fotografia: Jorge Simão e Leonel de Castro/Global Imagens