OPINIÃO

Boa comida, boa saúde

Renée Elliot defende com convicção a alimentação orgânica.

Além de ser mais saudável, a aposta em alimentação natural, orgânica, com poucos ou nenhuns químicos, é também um bom negócio – para quem vende. Nos últimos anos, multiplicaram-se pelo mundo inteiro casos de sucesso que aliam o lucro do retalho à defesa de um estilo de vida benéfico para a saúde. A mentora de uma dessas histórias passou recentemente por Portugal.

QUEM É RENÉE ELLIOT?
Defensora da alimentação orgânica, mudou-se dos EUA para Inglaterra, onde se tornou um dos principais nomes a alertar para a importância da qualidade da comida. Há vinte anos, deixou o emprego de jornalista numa revista de vinhos e abriu a primeira das seis lojas Planet Organic (www.planetorganic.com), onde vende produtos saudáveis, de alimentação biológica. É convidada habitual para palestras sobre o tema no mundo inteiro – esteve em Lisboa em junho para o Social Innovation World Forum, na Fundação Calouste Gulbenkian.

Quando começou a ter vontade de criar uma loja de produtos orgânicos?
_Tive pela primeira vez contacto com este conceito nos EUA. Foi quando decidi que a minha missão era promover a saúde na comunidade. Queria mudar o retalho, a cultura alimentar do Reino Unido e levar a alimentação orgânica de um nicho para a cadeia alimentar em geral. Nesse momento, percebi o que queria. Decidi avançar com o Planet Organic em 1995.

Percebeu que queria fazer alguma coisa que valesse a pena.
_De uma perspetiva espiritual, queria que a minha vida fizesse diferença no mundo. Não queria chegar ao final da vida, fazer uma retrospetiva e questionar: «A sério? Foi só isto que eu fiz»? Em 1990 casei e ambos tínhamos carreiras muito boas, mas decidimos ir para os EUA fazer uma formação de seis meses em liderança. Foi complicado, mas ao mesmo tempo contribuiu para a mudança das nossas vidas. No final dessa formação, tomei contacto com um conceito de supermercados e acreditei que poderia fazer daquilo a minha vida. Quando regressei a Inglaterra, comecei a trabalhar nesse campo, num supermercado vocacionado para a área da saúde, e percebi, pela primeira vez, que estava no sítio certo a fazer a coisa certa. Se me perguntassem se queria ser retalhista aos 10 anos, responderia convictamente que «não», mas tenho adorado a experiência.

Qual foi o maior desafio neste projeto?
_Tem sido um negócio muito desafiante e também com fases muito difíceis. Voltaria a fazer tudo de novo porque acredito que tudo o que vale a pena dá trabalho. Isso inclui ter filhos, casar, negócios, família… Tudo isto consome energia. Tive dificuldades no arranque do projeto. Os dois primeiros anos tiveram resultados muito positivos com apenas uma loja e entretanto o meu sócio sugeriu que eu saísse. Eu era apenas uma jovem de uma família da classe média e de uma pequena cidade do Mississipi e o meu sócio estava muito bem relacionado. Era uma pessoa com recursos. Fomos a tribunal e, apesar de ele ter tentado que me afastasse, ganhei a causa. Foi uma experiência muito desagradável. Nessa altura entraram novos investidores que não entendiam o conceito por ser inédito. Fizeram várias sugestões para alterar a génese do negócio, mas o que o diferenciava eram os seus valores e não o dinheiro. Hoje continuam connosco, percebem o negócio e está tudo bem, mas houve ali um período de impasse.

Como enfrentou a concorrência e as outras lojas deste tipo que entretanto surgiram?
_Em 1999, foram introduzidos no mercado inglês os organismos geneticamente modificados (OGM). Entretanto, houve uma campanha de consciencialização pública por parte da associação Guild of Food Writers que teve enorme importância e as pessoas não aderiram, mesmo tendo os supermercados já introduzido alguns produtos OGM. Em resposta a esta rejeição pública, os supermercados começaram a introduzir produtos orgânicos e as nossas vendas desceram bastante. Tínhamos acabado de abrir a segunda loja. As pessoas podiam comprar todo o tipo de produtos orgânicos nos supermercados generalistas. Abriram seis cadeias deste tipo de supermercado em Londres, uma delas gerida pelo meu ex-sócio. Sabia que um dia iria ter concorrência mas foi muito repentino: num dia estava tudo bem e no outro foi o caos… Tivemos de trabalhar muito e de empenhar todas as nossas forças para manter níveis de excelência.

Equaciona abrir mais lojas noutros países?
_Temos seis lojas no momento, todas em Londres. Estamos a equacionar a abertura de mais quatro nos próximos dois a três anos, mas não iremos fazê-lo fora do Reino Unido. Não é a nossa estratégia. Temos um website onde vendemos praticamente para todo o mundo à exceção da América, do Médio Oriente, Japão ou China. Lançámos produtos de marca própria em setembro do ano passado, que também estão à venda na loja online. Vendemos também a retalhistas em Hong Kong, África do Sul, Alemanha, República Checa, etc. Temos uma cultura alimentar própria e chegamos a vários países do mundo por esta via.

O que sentiu quando recebeu a visita do príncipe Carlos na sua loja?
_Recebi um prémio de Best Organic Supermarket e foi ele quem o entregou. Fiquei bem impressionada porque percebi que enquanto falava comigo estava atento e focado no assunto. Na ocasião, tive dois minutos para lhe explicar o projeto e convidei-o a visitar a loja. Em novembro de 1998 recebemo-lo. Estava tão entusiasmada pois não é suposto a família real fazer visitas a lojas, mas como sempre foi um defensor da alimentação orgânica decidiu vir. Esteve 45 minutos a visitar a loja, consegui explicar-lhe tudo acerca do projeto e apresentar-lhe a equipa. No final, ainda nos comprou uma lata de azeitonas.

Como se define a alimentação orgânica? O conceito é claro para as pessoas?
_Em Portugal, as pessoas demonstram alguma desconfiança e até surpresa acerca da alimentação orgânica. No Reino Unido, o conceito é muito claro. Na União Europeia, é um tipo de agricultura devidamente legislado e regulamentado. Produzir de forma natural é mais caro pois a comida é produzida sem pesticidas, herbicidas, fungicidas e inseticidas. Antes de meados do século xx, quando se iniciou esta forma de agricultura química, tudo era produzido de forma orgânica. A comida orgânica está também relacionada com a produção de um solo saudável que a agricultura convencional ignora.

E estamos a introduzir químicos no nosso organismo…
_Sim e isso não faz sentido. Estamos a consumir produtos cheios de pesticidas. Isso faz-me questionar de onde vêm os vários tipos de cancro, as doenças cardiovasculares e neurológicas. Os químicos estão presentes em todas as partes do mundo, nas células gordas dos animais. Se as pessoas fossem a um aviário provavelmente não voltariam a comer frango… A alimentação orgânica permite dar às pessoas a melhor comida que possam comer. Bem sei que é mais cara, mas tem muito melhor qualidade.

Se comermos bem, vivemos melhor? Somos o que comemos?  
_O nosso organismo só funciona com aquilo que consumimos e a alimentação é o combustível para que funcione adequadamente. A mentalidade da maioria das pessoas é a de que se sentem bem, logo não estão doentes. Na minha opinião, saúde não é a ausência de doença. Saúde é vitalidade. Sou saudável porque me sinto bem, tenho energia, entusiasmo para fazer o que gosto e para cuidar da minha família. Quero continuar a sentir-me assim quando tiver 60, 70 ou 80 anos. Ter saúde hoje é ter saúde no futuro. É por esse motivo que costumo dizer às pessoas: «cuide de si», «durma quando tem vontade», «faça exercício físico», «saia, divirta-se, aprecie a natureza», «não brinque com o tempo», etc.

Quais são os produtos que devemos consumir?
_A maior parte da dieta deve incluir produtos frescos e sazonais. A natureza é muito inteligente, dá-nos maçãs no outono e é nessa altura que os benefícios são maiores. A ideia é ir comendo algo de novo uma vez por semana ou de mês a mês e não comer sempre as mesmas coisas. É importante ver produtos de todas as cores quando olhamos para o prato… Sou adepta de pequenas mudanças de cada vez, como por exemplo começar a introduzir pão integral, massa integral ou comer duas peças de fruta por dia. Se fizerem muitas mudanças ao mesmo tempo entram em stress, o que se torna ainda mais prejudicial.

E o que se deve evitar?
_Hidratos de carbono refinados, farinha branca, pão branco e arroz branco, pois praticamente não têm valor nutricional. O mais importante são as farinhas integrais, as fibras, os cereais… Se introduzirmos no organismo uma colher de farinha branca ou uma colher de açúcar, o efeito e o processo metabólico são os mesmos.

Nunca é tarde para mudar?
_Julgo que a grande lição que se pode retirar é que todos temos de cuidar de nós próprios para podermos tratar dos outros. Nunca é tarde para fazer qualquer tipo de mudança porque a partir daí é possível viver melhor.

Cláudia Pinto
Fotografia: Sara Matos/Global Imagens