OPINIÃO

«As novas fadistas portuguesas são muito cool»

Bryan Adams é daqueles casos em que as apresentações são quase desnecessárias...

Não vá alguém andar distraído, diga-se que o senhor que se segue já vendeu mais de 65 milhões de discos, é fotógrafo e um apaixonado pelas causas humanitárias. Canadiano, à beira dos 56 anos, recebeu-nos em Londres para uma conversa franca sobre o estado do mundo, a carreira, a fama e o panorama musical internacional. O rock continua a correr-lhe nas veias e isso já se ouve no novo álbum. Adams, Bryan Adams.

É um dos cantores estrangeiros mais populares em Portugal e tem uma ligação próxima ao país – viveu cá durante a infância. A 16 de outubro lança o 22.º álbum – Get Up – mas parece já lhes ter perdido a conta. Está longe o ano de 1980, quando lançou o primeiro. Não teve o sucesso comercial que ansiava, mas marcou o início da colaboração com Jim Vallance na coautoria das canções (agora recuperada com o novo álbum depois da separação nos anos 1990). Em 1981, novo álbum (You Want It, You Got It), mas foi apenas ao terceiro (Cuts Like a Knife, 1983) que surgiu o sucesso: Straight From the Heart começava a ser tocado nas estações de rádio norte-americanas. A consagração internacional surgiria no início de 1985. Run to You, Summer of ’69 ou Somebody são temas marcantes do álbum Reckless. Tornou-se uma estrela internacional. Em Londres, em exclusivo nacional à Notícias Magazine, falou da vida para além da música, da paixão pela fotografia, da forma como vê o mundo. E põe o dedo na grande ferida da política internacional.

No verão que terminou só deu um concerto no Reino Unido. E logo em Hyde Park. Foi a primeira prova de fogo do novo álbum, Get Up?
_Terminei as comemorações dos 30 anos do álbum Reckless e agora estou totalmente focado no novo álbum.

Podemos esperar uma digressão mundial em 2016?
_Com certeza.

Portugal está na lista?
_Espero que sim.

Alguma surpresa relacionada com as fadistas portuguesas?
_Não. Não vai acontecer nada desse género. Há muitas fadistas de quem gosto, mas não.

E já as fotografou também.
_Sim, a Cuca [Roseta] é uma delas. Usou uma fotografia minha para o álbum dela. É tão querida. A nova geração de fadistas portuguesas é composta de mulheres muito bonitas e talentosas. São muito cool.

Este Get Up é o seu 22.º álbum. É um regresso às suas raízes de roqueiro ou nunca chegou a abandoná-las?
_Já o 22.º? Penso que nunca as abandonei. O que é interessante é que este é o primeiro álbum desde 1997 escrito por mim e pelo Jim Vallance. Trabalhámos juntos no Reckless e no Cuts Like a Knife, por exemplo, e este poderia muito bem vir no seguimento de um desses álbuns.

Passaram 25, 30 anos. Que se passou no entretanto?
_Tanta coisa… trabalhei com muitos produtores, fiz outros discos, andei noutras áreas. A diferença agora é que o Jim e eu voltámos a trabalhar juntos, por isso justificava-se este álbum.

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Está feliz com o resultado?
_Mais do que feliz. Muito mais do que feliz. Todo o álbum é tremendo. Toquei algumas canções em Hyde Park e tudo parecia que se encaixava.

You Belong to Me, por exemplo, é familiar, reconhece-se imediatamente como o seu som. Tenho aqui o LP de 1984 de Reckless com a sua fotografia na capa. O que mudou desde então?
_Bem, para já, agora estou com um penteado bastante melhor [risos]. Pelo menos, não o perdi. Isso faz-me lembrar a primeira vez que toquei em Portugal. O promotor ligou para a minha editora e disse que os jornalistas não acreditavam que eu ia lá tocar. Não se esqueça que fomos os primeiros a dar um grande concerto em Portugal. Eles não achavam possível e eu disse que os ia convencer. Fomos a Portugal, escolhemos uma sala pequena, convidámos a comunicação social e tocámos algumas canções. No final dissemos: «Isto é o que vocês vão ouvir cá daqui a dois meses.» Eles não acreditavam, ficaram loucos. Na primeira vez [9 de julho de 1988] tocámos no Estádio do Benfica!

Lá está a faceta de adepto de futebol. O seu Chelsea não se está a sair muito bem…
_Calma, ainda estamos no início.

Ainda confia nas qualidades de José Mourinho?
_José Mourinho não é estúpido. Vamos ver o que acontece. Perder o Didier Drogba foi um rude golpe. Ele é um matador, mete a bola na baliza. Precisam disso. E agora foi para o Montreal…

Como canadiano, deveria estar contente.
_Sim, deveria, mas era melhor para o Chelsea. Enfim…

Adiante. Então são mais de 65 milhões de discos vendidos na carreira?
_Não sei se isso é verdade, é o blá-blá-blá da indústria.

Mas são muitos milhões.
_Talvez, talvez…

Além disso, nomeações para Óscares e Globos de Ouro, estrelas nos Passeios da Fama no Canadá e nos EUA, a impressão das suas mãos em Wembley graças a mais de 25 concertos nesse estádio mítico, mais de 100 milhões de visualizações no YouTube. Como é que se motiva para continuar?
_Normalmente com uma chávena de chá e uma torrada.

Ainda gosta do que faz da mesma forma como quando começou?
_Claro que sim.

E os fãs acompanham-no?
_Sim, é normal. Quando se gosta da voz de alguém, vai gostar-se sempre.

A geração que hoje tem 40 anos leva os filhos aos seus concertos. Tem noção de que os miúdos também já conhecem as letras?
_Sim, algumas vezes sim. Faz-me sentir bem. Os meus filhos foram a um concerto meu pela primeira vez aqui em Hyde Park. São novos, 2 e 4 anos. Na verdade, deixe-me mostrar-lhe uma coisa… [pega no telemóvel e mostra as imagens] Colocaram um vídeo na net, onde me apanham a acenar para alguém durante o espetáculo. Dizem que é para alguém no público, mas não. É para eles, que estavam no backstage.

A simplicidade com que age no dia-a-dia é já uma imagem de marca. É verdade que um dia, em Nova Iorque, foi de metro para o seu concerto no Madison Square Garden?
_Sim, é verdade. Mas veja… [volta ao vídeo no telemóvel], cá estou a acenar.

Já são críticos ferozes, os seus filhos?
_Não, ainda não. Quer dizer, a de 4 anos já percebe alguma coisa.

Como se conjuga a vida de estrela rock com a de pai que faz todas as coisas normais?
_Para mim, isto é o normal. A minha vida foi quase toda sempre assim. Não conheço outra realidade. Não quero mudar nada, mas não faço nada para que isso aconteça. Não penso na fama, penso na música, penso em canções. A fama nunca foi o objetivo,
aconteceu.

Essa é a melhor recompensa?
_Não sei se a fama é a melhor recompensa.

O reconhecimento sim.
_Ah sim, claro, o reconhecimento do meu trabalho.

E hoje é tão fácil ser famoso…
_Veja, este é um disco de rock. Com guitarras, OK? Eu vejo os Prémios MTV e fico… [de boca aberta]. Onde estão as guitarras? Não há, nenhumas. Fico a pensar que não ando atrás das tendências, este álbum é verdadeiro em relação ao que sou e à música que faço. Nem sei como poderia fazê-lo de outra forma. O outro tipo de música faz parte da cultura pop, mas isto é cultura rock. É completamente diferente. O maior problema para mim em relação a esse espetáculo são as canções. Não consigo cantar nenhuma delas outra vez no final. Não consigo.

Não perduram no tempo?
_Veremos… vamos esperar para ver o que acontece. Aquilo entretém-me, de uma forma perversa quase. Gosto da Miley Cyrus e acho-a cool, mas é quase como algodão-doce, percebe? Gosto de estar de fora a olhar para dentro.

É menos a música e mais o espetáculo?
_Não sei. Para eles é tudo. Não podemos dizer que é uma ou outra coisa, mas podemos dizer que não tem guitarras. Não é rock. Este álbum é para roqueiros.

O Bryan tem 100, 120 espetáculos por ano em todo o mundo. Como encontra tempo para outras paixões como a fotografia ou a intervenção social?
_Isso equivale a dez concertos por mês. Ainda sobram dias no mês. Mesmo com as viagens, dá para conciliar. Faço dez dias seguidos e depois volto para casa.

Como apareceu a fotografia?
_É uma extensão do meu trabalho. É muito simples fazê-lo. Gosto da arte. Começou quando encontrei alguns tipos em Londres que revelavam os meus negativos – no tempo do filme, antes das máquinas digitais. E cada vez que eles me davam as imagens era como se fosse Natal. Como é que conseguiam fazer coisas tão bonitas com uns negativos tão miseráveis? A partir daí, isso tornou-se uma inspiração.

A família e os amigos ficaram surpreendidos com esta faceta?
_Sim, ficaram, mas, sabe, parece que não somos autorizados a entrar por outro caminho se já fazemos uma coisa totalmente diferente. Houve críticas, claro, algumas portas fecharam-se por eu ser cantor. Tem de se encontrar um caminho porque não é fácil. Não foi. Isso passa-se com toda a gente. Para si, como jornalista, vai ser difícil fazer outra coisa na vida sem que o critiquem. A única forma é destacar-se através do seu trabalho. É tão simples como isso. Mas eu nunca me importei com isso, porque já tinha 15 ou 20 anos de crítica em cima como músico. Já tinha a pele dura de tanto apanhar. A água já batia em mim e saltava… Crítica? Ela que venha, eu aguento. Não me interessa. Só quero fazer o meu trabalho. Se não gostam, tudo bem.

Confesso que sou um seguidor seu no Instagram.
_Já viu o que publiquei hoje?

Não.
_Então veja lá [e saca novamente do telemóvel]… Esta é muito boa. E estas de ontem e do dia anterior? Adoro o Instagram.

É bastante diferente do que fez com o livro de novembro de 2013, Wounded – The Legacy of War. Foi uma chamada de atenção para o que se passa no mundo?
_Bem, no geral, querem que o público acredite que ir para o Médio Oriente bater nos «maus» é uma boa ideia e que vai ser rápido e simples. Os americanos dizem que vão lá e tratam de tudo, mas não. Aqui estamos, mais de dez anos depois, e está pior do que nunca. É como uma terceira guerra mundial. Ir para o Iraque foi como os alemães terem ido para a Polónia, uma ideia estúpida. Agora temos uma crise de refugiados que está a refletir-se em todo o continente e é um desastre humano. Quando fiz o livro, antes da guerra civil na Síria, já estávamos a começar a ver as pessoas em Inglaterra, no Canadá e nos EUA a voltar sem pernas e braços, feridos gravemente. Juntei-me a alguns amigos nisto e quantas mais fotografias tirei mais tive a noção de que este livro seria uma prova, um documento, deste período de tempo específico. Gente a vir do Iraque, do Afeganistão. Agora já não há tantos soldados no terreno, porque a luta é feita com drones. Achei que era mesmo importante fazer um livro sobre este tema.

Pensa que as pessoas vão aprender com isso?
_As pessoas nunca vão aprender. É óbvio. A história repete-se uma e outra vez. Há um livro fantástico, The Great Game, sobre a diplomacia britânica com os russos no século xix de forma a colonizar a Índia e o Afeganistão, sobre os jogos diplomáticos nesse período. Foi uma confusão tão grande, morreu tanta gente e houve tantos poemas escritos e aqui estamos, na mesma situação. A cometer exatamente os mesmos erros. Ninguém está a prestar atenção, como é que a opinião pública está novamente a ser puxada para isto? Deve haver alguma coisa que não sabemos. Perdemos tanta gente nestas guerras e não percebemos porquê.

É possível inverter esta situação?
_É possível, mudando os governos e as políticas. É óbvio que há um movimento no Médio Oriente e esse pode ser o catalisador.

Se o conflito israelo-árabe for solucionado, outros seguir-se-ão?
_Pode acontecer, mas há tantas guerras a decorrer, é um desastre. Há demasiada intervenção externa. Tem de se deixar cada um resolver os seus problemas.

É assim tão diferente o mundo hoje do mundo da década de 1980, quando começou a sua intervenção social em projetos como o Live Aid?
_A guerra não é a resposta. Nunca.

Como vê o mundo hoje? Já não há Guerra Fria…
_Ainda temos, mas é uma versão diferente. É subjetivo falar de bons e maus da fita. Depende de que lado se está. Para mim, o que interessa é o lado humano. O que leva um homem a pegar na sua família e a tentar salvar as suas vidas, gastando todo o seu dinheiro, arriscando uma viagem e morrendo todos pelo caminho? Eu e você provavelmente nunca viveremos esse desespero, mas ele existe no mundo. Temos formas de tomar conta das pessoas, e não é atacando-as que isto se resolve.

Quando dá concertos em locais como Karachi, no Paquistão, ou Tiblissi, na Geórgia, é isso que diz a quem o vai ouvir?
_Só lá vou como músico, não como político. Nos concertos não menciono isso. O meu testemunho é o livro de que falámos. O lado humano.

E através da Fundação Bryan Adams, presumo.
_Sim, através da minha fundação também. Fazemos muitas coisas, seja na área da educação como na área da saúde.

A seguir ao tsunami de 2004 conseguiu angariar mais de 1,2 milhões de euros com o leilão de uma guitarra. Esse foi o ponto de partida para lançar a fundação?
_Sim, foi um dos motivos. Primeiro conseguimos 150 mil dólares, estava autografada pelo Jimmy Page, pelo Eric Clapton e por muitos mais. E a pessoa que a comprou voltou a pô-la a leilão no minuto seguinte. E conseguiu 1,2 milhões. Este foi um dos momentos marcantes, mas o ponto de viragem foi o tsunami de 2004.

Foi a essa região dar algum concerto entretanto?
_Não. Gostaria, mas não agora. Primeiro tenho de ir a Portugal.

Estaremos à sua espera.
_Combinado.

[BASTIDORES] UM DIA FORA DO COMUM
O convite para a entrevista surgiu-me por email. «Bryan Adams vai lançar um novo disco e está disponível para uma entrevista em Londres.» E o exclusivo nacional é para a Notícias Magazine. Vamos a isso. Um mês antes da data marcada começou a troca de emails, de informações, a preparação da conversa. É quase sempre assim com estas entrevistas a estrelas internacionais. Há um tempo contado ao minuto, meia dúzia de condicionantes e sempre a vontade de se conseguir boas declarações. Com esse objetivo em mente, comecei um dia fora do normal. Às seis da manhã, no táxi para o aeroporto de Lisboa, as notícias sobre a situação económica não eram animadoras – nada de novo, portanto. Passado o controlo de segurança, fiz uma breve pausa junto à porta de embarque. E às sete e pouco, entrei no autocarro que me levou da aerogare ao avião, a manga de acesso fica para outro dia. Às oito da manhã, com a Segunda Circular a transformar-se num parque de estacionamento, o avião da TAP levantou em direção a Londres. Duas horas e meia depois, a chegada à capital britânica com sol envergonhado e muitas nuvens no horizonte. A entrevista estava marcada para a sede da editora Universal, às 12h30. Do Aeroporto de Gatwick é uma curta viagem de comboio ou de metro. Ainda houve tempo para um café e para reler os apontamentos antes do encontro com o roqueiro à beira dos 56 anos, ídolo da minha juventude. Às 13h00, depois de uma espera de meia hora, apertei a mão a Bryan Adams e recebi um «bom dia» com sotaque e um sorriso. A conversa durou 27 minutos e 30 segundos – o tempo marcado no gravador. Juntem-se mais dois minutos para apresentações e despedidas. «Foi um prazer», digo-lhe enquanto ele pede desculpa pela pressa e dirige-se à casa de banho. Está desde as primeiras horas do dia a falar com jornalistas. Saio, caminho até à estação de metro e volto ao aeroporto. São 14h15 e o voo de regresso a Lisboa está marcado para as 20h00. Passo a segurança, procuro um restaurante com mesas livres, sento-me e começo a passar para letras os sons da entrevista que hoje publicamos. Às 23h00 chego a Lisboa, quatro meios de transporte e 1500 quilómetros depois. Há dias difíceis, mas que valem a pena.
RICARDO SANTOS

O NOVO ÁLBUM
Get Up será lançado a 16 de outubro. O single de lançamento Brand New Day já roda pelas rádios de todo o mundo desde o início de setembro. É um regresso às origens de Bryan Adams que conta, neste projeto, com a produção de Jeff Lynne (já trabalhou com The Beatles, Paul McCartney ou Tom Petty) e a coautoria das letras de Jim Vallance – um retomar da parceria entre ambos que durou até à década de 1990. Entre os dois foram responsáveis por sucessos como Summer of 69, Cuts Like a Knife ou Heaven. Get Up tem 13 faixas (nove novas e quatro acústicas) e o vídeo do single de lançamento promete dar que falar. Foi realizado pelo músico canadiano e conta com a presença da atriz britânica Helena Bonham Carter

Ricardo Santos, em Londres