OPINIÃO

Armando, o sonhador

Uma luta de cinquenta anos, esta de Armando Baltazar...

Quando tinha 13 anos, perdeu a audição por causa de uma meningite. Mas, depois do choque, Armando Baltazar encontrou uma missão: hoje é um dos principais defensores da melhoria da qualidade de vida da comunidade surda no Porto.

De todos os dias possíveis, logo havia de calhar naquele. Para ficar ainda mais marcado na memória. No dia exato em que fez 13 anos, Armando Baltazar perdeu a audição. Surdez total e bilateral, provocada por uma meningite. «Foi instantâneo, imediato. Um choque violento.» Mas, como não é supersticioso, este passou a ser o seu número preferido. «Fiquei surdo porque tinha de ficar, foi o que o destino deu à minha vida.»

Dois anos depois começou a trabalhar numa empresa gráfica onde tinha como colega um outro surdo, adulto, o primeiro que conheceu na vida, que se dirigiu a ele através de linguagem gestual. Foi nesse momento que Armando decidiu que poderia aprender e fazer o mesmo. Ou ainda mais. «Casado, com filhos e trabalho como qualquer outra pessoa, fui convivendo aos poucos com a comunidade surda. Até então, as pessoas com surdez eram discriminadas, subalternizadas e até mesmo humilhadas.» Ele próprio sentiu na pele alguma discriminação ao longo dos anos. «É realizada de forma involuntária pela sociedade por falta de consciencialização, informação e sensibilização relativamente à comunidade surda, à sua língua, à sua cultura e às formas de viver e de estar no mundo.» Armando decidiu então que iria dedicar-se a lutar por condições que «possibilitem às pessoas surdas o acesso à cidadania plena numa verdadeira inclusão». Hoje, com 64 anos, considera que já houve algumas mudanças mas «ainda há muito a melhorar» e tem a esperança de que «futuras gerações lutem da mesma forma».

Colaborador da Associação de Surdos do Porto desde 1966, passou por vários cargos – incluindo o de presidente. Atualmente gere o Departamento de Formação Profissional, de onde partiu a ideia de criar uma Escola Virtual de Língua Gestual Portuguesa. A iniciativa surgiu da necessidade de criar condições para eliminar barreiras de comunicação entre «dois mundos – o do surdo e o do ouvinte – tratando-se de um projeto inovador». A adesão à escola online (disponível em www.lgpescolavirtual. pt) superou as expectativas. «Temos atualmente quase sete mil inscritos. Não esperávamos tantos. A maioria dos utilizadores é portuguesa mas temos também pessoas dos Estados Unidos, mais do que brasileiros e espanhóis». O sonho era antigo e toma agora forma. «Através do Prémio BPI Capacitar, em 2013, conseguimos que o projeto passasse do virtual ao real.» Com os quase vinte mil euros atribuídos, foi possível criar as ferramentas essenciais e alguns conteúdos básicos para «medir o interesse e a aceitação nesta forma de ensino, desenvolver experiências, aumentar o que está bem, corrigir e desenvolver o que está menos bem. Ou seja, permitiu criar o embrião para, no futuro, desenvolver os conteúdos até níveis que possibilitem uma fluência razoável.»

A vida de Armando é «uma autêntica correria». Além do que faz na associação, da família e das deslocações para acompanhar o FC Porto, clube do coração (de que é associado há sessenta anos), é, desde setembro do ano passado, «número dois da lista do Partido Socialista à Assembleia Municipal de Valongo», sendo atualmente «o primeiro membro da comunidade surda a enveredar pela área».

Cláudia Pinto
Fotografia: Igor Martins/Global Imagens