OPINIÃO

António, o empreendedor

Perdeu-se um futebolista, ganhou-se um dirigente associativo exemplar.

Sonhava ser jogador de futebol e aos 16 anos, em 1960, recebeu um convite para trocar o Amarante FC pela Académica de Coimbra. Mas a «vergonha de jogar com os senhores doutores» levou-o a recusar a transferência.

António Pinto Monteiro, hoje com 71 anos, fundou a primeira cooperativa de Amarante vocacionada para a educação de pessoas com deficiência mental, a Cercimarante. A seguir veio a Terra dos Homens, dedicada ao acolhimento de crianças abandonadas e maltratadas. Também esteve ligado à criação de um centro de dia, da secção local do PS, e dirigiu o centro cultural, da Santa Casa da Misericórdia, e o clube onde chegou a sonhar viver com uma bola nos pés. Garante que não sabe o que o move para pensar primeiro nos outros, mas diz que esse é um sentimento que o acompanha desde pequeno. «Lembro-me de ir para a escola descalço, porque tinha pena de os meus amigos não terem sapatos. É óbvio que ouvia das boas da minha mãe.»

Anos mais tarde, depois de cumprido o serviço militar, o homem que nasceu em Marco de Canaveses, mas que se assume como amarantino de gema, começou a evidenciar um espírito empreendedor pouco comum. «Pouco depois do nascimento do meu primeiro filho, decidi criar uma creche e um infantário. Foi o primeiro equipamento público do género em Amarante.» Já no final da década de 1970, o então funcionário da Construtora do Tâmega foi surpreendido durante umas férias que lhe mudaram a vida. «Estava em Aveiro e vi as instalações da Cerciave. Não sabia o que era, resolvi entrar e fiquei impressionado com o que vi. Naquele momento, decidi fazer a mesma coisa para os miúdos com o mesmo tipo de problemas do meu concelho.» No espaço de um ano, António Pinto Monteiro reuniu apoios suficientes para criar a Cercimarante, começando a sua «luta incansável».

Durante o quarto de século em que foi diretor-geral da instituição, Pinto Monteiro bateu à porta de centenas de entidades públicas, empresas e embaixadas. Também visitou cerca de cinquenta países à procura de dinheiro, equipamentos e formação para os terapeutas da instituição. E foi ainda como principal responsável da Cercimarante que António Pinto Monteiro começou a construir a Terra dos Homens. «Via na televisão os maus-tratos que os pais davam às crianças e sabia que esse também era um problema que existia na minha terra. Em dezembro de 1993, Maria Barroso lançou a primeira pedra de uma «casa» que, hoje, acolhe trinta crianças abandonadas ou retiradas das famílias. «Não quero armazéns. Gosto de coisas pequenas para saber o que estamos a fazer.»

Agora que a Terra dos Homens é, tal como todas as que criou, «uma instituição de pedra», Pinto Monteiro revela que pensa retirar-se da vida associativa para compensar a família do tempo que não lhe dedicou. Mas poucos são os que acreditam que isso aconteça.

Roberto Bessa Moreira
Fotografia: Octávio Passos/Global Imagens