OPINIÃO

Anatomia de uma rebelde

Assim é Angelina Jolie.

Passou a primeira metade da carreira a ser recordada pelos lábios carnudos, pela sensualidade, pelo espírito rebelde e pelos casamentos falhados. Completa esta semana 40 anos e, pelo meio, levou a cabo uma memorável reinvenção que fez dela, além de atriz, uma mãe de família numerosa e uma das mais conhecidas filantropas do mundo.

«Ela já passou muitos dias e noites em campos de refugiados ou nas fronteiras do Iraque, da Jordânia, do Líbano e da Turquia. Já se encontrou com líderes mundiais e protagonizou fortes e mediáticos apelos para que se faça mais por este terrível conflito [do Médio Oriente]. Falo por todos os refugiados do mundo quando digo o quão agradecidos estamos por toda a sua incrível dedicação.» Em abril de 2012, António Guterres, alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, promovia Angelina Jolie a enviada especial da agência. Um cargo maioritariamente atribuído a diplomatas e políticos reformados. Para trás ficava mais de uma década como embaixadora da Boa Vontade para a mesma organização, papel através do qual visitou quase cinquenta países para dar visibilidade a famílias de refugiados em locais muitas vezes remotos e perigosos.

A «promoção» de Jolie fez correr tinta mundo fora. E ninguém concentrou as atenções no elegante vestido branco escolhido para a tomada de posse. A atriz norte-americana, uma das que mais tem despertado a atenção dos media e do público nas suas muito publicitadas missões solidárias, foi uma das pioneiras (em Hollywood) a colaborar com a ONU. Nomes como Susan Sarandon, Mia Farrow ou Michael Douglas já o faziam antes. Mas, depois dela, dezenas de celebridades de todo o mundo seguiram-lhe os passos. Casos de Leonardo DiCaprio, Nicole Kidman, Nicolas Cage, Charlize Theron, Shakira, David e Victoria Beckham, Elle MacPherson, Claudia Schiffer, Antonio Banderas, Christina Aguilera, Drew Barrymore, Pierce Brosnan, Katy Perry, Naomi Watts, Georgio Armani, Celine Dion, Lionel Messi, Orlando Bloom, Ricky Martin ou Penelope Cruz, só para mencionar alguns.

Na última década e meia, fundou organizações de caridade, criou escolas para jovens refugiados, doou seis milhões de euros para fins solidários e até ofereceu os 12 milhões de euros que lhe renderam as primeiras fotografias dos seus gémeos, Knox e Vivienne, a causas nobres, além de dar a cara em projetos de proteção de animais em vias de extinção, de desenvolvimento dos direitos humanos e de defesa das mulheres vítimas de violação em territórios em guerra.

Atriz, produtora, realizadora, mãe de seis crianças, solidária, filantropa e ícone mundial. Em 40 anos de vida (celebrados a 4 de junho) e quase 25 de carreira, altos e baixos marcaram a vida desta mulher, admirada por elas e por eles. Ou não tivesse sido ela eleita, este ano, por um estudo da agência internacional YouGov, que representou dois terços da população global, a mulher mais admirada do planeta.

A carreira não chegou por acaso. Jon e Marcheline, pai e mãe atores. Jacqueline e Maximilian, avós atores. James, irmão mais velho, também ator. A paixão por vestir a pele de outros chegou cedo, com sessões de cinema ao fim de semana, ao lado da mãe, e ao ver o seu pai observar estranhos na rua como técnica de representação.

Com ascendência alemã e eslovaca do lado paterno, e francesa, canadiana, holandesa e alemã do lado materno, estreou-se como atriz com cinco anos em Lookin’ to Get Out, protagonizado pelo pai. Quando os pais se separaram, não conseguiu manter uma relação próxima com Jon Voight, tendo os dois trocado críticas na imprensa. Só se reconciliaram em 2007, quando a mãe morreu.

Depois de estudar representação na prestigiada Lee Strasberg Theatre Institute, com apenas 11 anos, sentiu-se isolada no ensino secundário por ser demasiado magra e usar óculos e aparelho nos dentes. Mudou de escola. E de atitude. Na adolescência o espírito rebelde veio à tona, ao começar a usar apenas roupa preta e a envolver-se em brigas com colegas. Aos 16, começou a autoflagelar-se e a sofrer de anorexia nervosa. Por esta altura, quis ser dona de uma agência funerária e tirou um curso de embalsamento. Aos 20 estava com uma depressão e planeou o suicídio duas vezes, além de ter começado a consumir drogas. A atriz já falou deste período «negro» em várias entrevistas. «Ainda sou e sempre serei uma miúda rebelde com tatuagens», diz Jolie. Tem 17, já agora.

A paixão pela sétima arte acabou por falar mais alto e concentrou-se na carreira. Com 20 anos, já tinha participado em dois filmes: na sua estreia profissional, em Cyborg 2, aos 18, e em Hackers. Depois de alguns projetos que passaram longe do radar, começou a dar nas vistas com o telefilme George Wallace, em 1997, sobre a vida do candidato presidencial, que lhe valeu um Globo de Ouro para Melhor Atriz e uma nomeação para os Emmy. No ano seguinte, com o drama lésbico Gia, repetiu o feito em ambas as cerimónias.

Uma rampa de lançamento que culminou, em 2001, no papel da protagonista da saga cinematográfica Tomb Raider, inspirada nos videojogos de Lara Croft, êxito de bilheteiras que tornou o seu nome identificável nos quatro cantos do mundo. Foi durante as filmagens do primeiro destes dois filmes, no Camboja, que despertou para a necessidade de ajudar os mais desfavorecidos. E foi aí, na viragem do milénio, que ela se tornou numa das mais bem pagas de Hollywood, lista que nunca deixou desde então. Ao ponto de ter sido eleita pela Forbes, em 2009, 2011 e 2013, como a atriz que mais faturou naqueles anos, chegando a auferir quase trinta milhões de euros – também já foi nomeada pela publicação como uma das celebridades mais influentes do mundo.

Uma carreira no cinema de 22 anos na qual também se incluem êxitos como O Colecionador de Ossos, 60 Segundos, Vida Interrompida (pelo qual venceu o Óscar de Melhor Atriz Secundária), Maléfica, O Panda do Kung Fu, Na Terra de Amor e Ódio ou Invencível (estes dois últimos como realizadora, aposta recente de Jolie, com uma terceira experiência a estrear-se ainda este ano). Ou como a comédia de ação Mr. e Mrs. Smith, a longa-metragem de 2005 na qual partilhou o protagonismo com Brad Pitt e durante as filmagens do qual os dois se apaixonaram.

Em 2013 decidiu fazer uma dupla mastectomia preventiva para evitar o cancro da mama, que tinha 87 por cento de probabilidade de vir a ter, pelos antecedentes da mãe, que morreu aos 56 anos com cancro nos ovários – de resto, a tia de Jolie morreu de cancro na mama duas semanas depois de a estrela ter falado sobre o assunto. Dois anos passados, submete-se a uma nova cirurgia, ao retirar os ovários e trompas de Falópio, também para evitar futuros cenários cancerígenos.

Tanto a primeira como a segunda operação – sobre as quais escreveu nas páginas de opinião do prestigiado The New York Times – foram largamente discutidas, publicitadas e noticiadas. E o facto de ter falado aberta e publicamente sobre as duas cirurgias teve um impacto sem precedentes a nível global. Desde que se soube da dupla mastectomia, o número de testes de BRCA (que avalia a probabilidade de uma mulher vir a ter cancro baseado no passado familiar), mais do que triplicou na Austrália, duplicou no Reino Unido e Canadá e registou um aumento nos EUA e na Europa.

Mais importante do que qualquer personagem cinematográfica, o papel altruísta e de consciencialização social de Angelina Jolie tem vindo a salvar vidas ao longo dos anos. É aqui que ela marca a diferença. Afinal, isto não é ficção, é a vida real.

A MULHER QUE FEZ DE BRAD PITT UM HOMEM DE FAMÍLIA

Apenas um ano depois do primeiro casamento, em 1997, Angelina já estava separada do ator Jonny Lee Miller. Em 2000, após dois meses de namoro, casou-se com outro ator, Billy Bob Thornton. Uma relação mediática pela extravagância de ambos – chegaram a usar frascos do sangue um do outro ao pescoço e fizeram tatuagens em conjunto, mas o casamento durou três anos. Em 2005 conheceu Brad Pitt, na altura casado com Jennifer Aniston. Na última década, têm-se mantido como o casal mais popular de Hollywood, dando origem ao termo «Brangelina», uma «marca» muito desejada por empresas para publicidade. Pitt estabilizou como homem de família, tendo adotado os dois filhos que Jolie já tinha quando se conheceram: o cambojano Maddox (hoje com 13 anos) e a etíope Zahara (10). O vietnamita Pax (11) foi inicialmente adotado apenas por Angelina, quando já namoravam, tendo o ator perfilhado legalmente a criança pouco tempo depois. Juntos, têm três filhos biológicos, Shiloh (9) e os gémeos Knox e Vivienne (6).

Nuno Cardoso
Fotografia: Corbis