OPINIÃO

Alimentar a imaginação

Conheça os desenhos animados portugueses que educam para a alimentação saudável.

Jurando que o entretenimento é a chave para se educar para a alimentação saudável, a Nutri Ventures é o maior projeto de animação alguma vez feito em Portugal e o único no mundo exclusivamente dedicado ao tema. Nem Michelle Obama lhe resistiu.

Se o tópico é alimentação saudável, Rodrigo Carvalho nunca mais se cala. Porquê culpar só os pais pela obesidade infantil quando temos os grandes publicitários do mundo a deixar os miúdos loucos com o que lhes faz mal? Muito injusto. Especialistas a insistir no poder dos brócolos? Respeitamos, mas ligamos-lhes pouco. Investir em campanhas de comunicação? Tão inúteis como os maços de tabaco que dizem que fumar mata sem, todavia, transformarem comportamentos. Faltava um conteúdo de entretenimento para ajudar as crianças a mudar de hábitos enquanto se divertem e então Rodrigo, juntamente com o sócio e coautor Rui Lima Miranda, criou a Nutri Ventures, a primeira marca de entretenimento infantil do mundo a promover a alimentação saudável, acarinhada inclusive pela primeira-dama dos EUA, Michelle Obama. Uma história bem contada vale mais que mil sermões sobre cenouras e olhos bonitos.

«Começámos a desenvolver a ideia em 2010, num desafio lançado pelo Pingo Doce para orientar as crianças para os frescos, e foi aí que pensámos em inventar o Teo, a Lena, o Ben e a Nina», conta Rodrigo, o criativo e gestor de pessoas, formado em engenharia aeroespacial (Rui é mais o estratega e business developer). Pesquisaram tudo o que se fez até à data para concluírem que nunca uma personagem de animação conhecida recusou deixar a sua marca em alimentos não saudáveis. «Houve pequenas tentativas, com as figuras da Rua Sésamo e da Vila Moleza, mas nenhuma com a dimensão ou a consistência da Nutri Ventures.» E se criassem eles uma história tão apaixonante que as crianças desejassem enredar-se nela? E se ainda por cima desse uma ajuda valiosa nessa questão da alimentação saudável?

«Não fomos os primeiros a lembrar-nos de criar personagens, mas fomos os primeiros a decidir que uma personagem que apareça associada à maçã não pode ser conotada com chocolate, caso contrário pomos a maçã ao nível do chocolate», diz o criativo. Não que comer chocolate não seja bom: devemos sempre desconfiar de quem jura a pés juntos não gostar de doces. O problema, ressalva, é quando só se come chocolate e nada de maçã, uma tendência que leva a Organização Mundial de Saúde a rotular a obesidade infantil de pandemia do século. «Há vários estudos que provam o poder incalculável do entretenimento. Mostra-se uma banana aos miúdos, mostra-se uma pedra com um autocolante do Shrek, pergunta-se-lhes o que escolhem para o pequeno-almoço e todos levam a pedra».

Trataram então de perceber como a história pode agarrar uma criança dos 5 aos 10 anos – programas educativos chatos não resultam. Criaram o entretenimento ajudados pelo professor de escrita criativa João Ramos, com quem Rodrigo já fizera um curso de guionismo. Formaram parceria com a Associação Portuguesa de Nutricionistas e renderam-se à especialista Lillian Barros, que humilhou o que comeram a vida inteira e lê cada palavra: se por um lado a série não é professoral, por outro pretende deixar as crianças mais abertas a consumirem um alimento saudável do que um não saudável. Por esta altura, já os amigos eram independentes da ideia inicial: enquanto o supermercado (de quem ficaram bons parceiros na área do retalho) imaginava cartas colecionáveis, a dupla concebia o maior projeto alguma vez dedicado ao tema, vendido para 30 países.

«Tornou-se um movimento tão complexo que a televisão ficou pequena para contê-lo», orgulha-se o gestor Rui Lima Miranda, a viver há dois anos nos EUA para acompanhar in loco o crescimento da causa: estão em conversações com as cadeias de distribuição Tesco e Wallmart, com a OMS e o programa Let’s Move da Michelle Obama. A 12 de maio – o mês em que passaram a transmitir na empresa de TV por internet Netflix –, a Nutri Ventures esteve presente na International Conference on Childhood Obesity, organizada pela Harvard Medical School e pela Fulbright Commission. No Brasil, irão para o ar no Sistema Brasileiro de Televisão e têm propostas em cima da mesa dos ministérios da Saúde e Educação. Na Hungria fecharam acordo com a MTV Hungria. «É um mercado muito intenso e aberto, este. Implica motivarmo-nos todos os dias para fazer pitch de oportunidades, descobrir a network para chegar ao decisor, adaptar rapidamente e recriar propostas», diz.

Os desenhos animados continuam a ser o centro das atenções da equipa, mas a causa alargou-se entretanto a conteúdos digitais, livros, música, licenciamento de produtos, parcerias institucionais e outras formas de entretenimento que a marca encontra para envolver as crianças – e a sociedade em geral – na temática da alimentação saudável. «Quando é que a criança vê o alimento bom? À mesa, sentada direita, a ouvir que não se levanta enquanto não comer as couves-de-bruxelas», nota Rodrigo, empenhado em mudar o estado de coisas. «E quando é que ela vê o chocolate? Num mega-anúncio televisivo, com oferta de brinde e os amigos na escola a dizerem: “Tu ainda não tens isto? Coleciona!” É uma luta demasiado desigual para os pais.»

O potencial da Nutri Ventures tornou-se evidente quando uma amiga sua lhe ligou eufórica uns dias mais tarde, a atropelar as palavras, quase sem lhe dar tempo de acordar: «O filho não bebia leite, não mais que um dedo cheio de chocolate em pó. E eu ofereci-lhe um DVD para avaliar reações, o Manel viu e, como ia jogar à bola no dia seguinte, pediu à mãe que lhe enchesse o copo porque precisava da resistência do reino branco. Ela nem queria acreditar!» Foi também assim, neste passa-a-palavra, que Michelle Obama se perdeu de amores pelo projeto português e lhe permitiu entrar nos EUA pela porta da qualidade, já que dificilmente entraria pela via normal da animação (não temos a mesma tradição dos norte-americanos nesse universo).

«Demos um DVD ao embaixador americano Alan Katz, numa reunião em Lisboa, e de regresso a casa ele deixou-o em cima da mesa. Os dois filhos viram-no e foram acordá-lo a pedir mais episódios», ri-se. A partir daí foram andando sempre com passos seguros, desenvolvendo parcerias com ministérios e associações que certificam que as mensagens nutricionais são as mais indicadas a cada realidade e servem de material de ensino. «Somos uma empresa comercial, mas a questão da causa é muito honesta», garante Rodrigo em nome de todos. Há quem prefira cortar o mal pela raiz, proibir a publicidade. Eles jogam pela positiva no sentido de tornarem o bom mais sexy. «É como pegar numa maçã e transformá-la na maçã da Apple.»

OS SALTEADORES DA COMIDA PERDIDA
A história da Nutri Ventures começa com um ato terrorista do vilão Alex Grand, que mandou o seu exército de G-Squads destruir toda a comida do mundo e obrigou a população a alimentar-se apenas de Genex-100, um composto altamente calórico produzido na Grand Corporation, da qual é dono. Foram tempos em tons de cinzento, aqueles do Genex-100: nada de vermelho-carne, amarelo-manteiga ou verde-ervilha, os miúdos cresceram sem nunca verem o que fosse da roda dos alimentos. Julgam Alex o maior por libertá-los de terem que perder tempo a decidir o que comer, sentados à mesa várias vezes por dia – uma maçada, como é que os pais puderam passar por isso há 30 anos? Antes que Grand conseguisse destruir tudo, porém, o sábio nutricionista Neus encarregou sete dos seus melhores colaboradores – os Nutri-Mestres – de irem viver para longe e preservarem, cada um deles, o grupo alimentar que lhes foi confiado. Caberá a Teo, Lena, Nina e Ben a missão de resgatarem a comida perdida e, de caminho, ensinarem aos mais novos os superpoderes dos alimentos que Alex eliminou.
«Ali, uma cenoura não faz só os olhos bonitos: dá visão raios X», revela Rodrigo. O leite cura ossos partidos. Os cereais dão energia para saltar quatro ou cinco andares. O humor do vilão não melhorou com a chegada dos heróis, mas o das crianças sim. E o dos pais, que viram a esperança brotar como uma miragem onde antes havia resistência pura. «Se eu disser aos pais “Olhem, não é arroz com ervilhas: é arroz do reino verde que dá os nutripowers da energia”, eles conseguem ter a mesma linguagem que os filhos e ajudá-los a mudar. A nossa dúvida era saber se os pequenos aceitariam que os superpoderes viessem dos alimentos, mas se a história for bem contada aceitam.» A animação passa em Portugal na RTP2 e no Canal Panda.

Ana Pago
Fotografia de Paulo Spranger/Global Imagens