OPINIÃO

Ainda falta muito para chegar?

Recordações das férias de verão na terrinha.

Ir de férias à terra dos pais ou dos avós é uma tradição que se vai perdendo, com a concentração da população nos grandes centros urbanos, mas ainda há quem tenha o privilégio. E há, sobretudo, quem guarde as melhores memórias dessa experiência. Ruben Alves, Maria Filomena Mónica, Álvaro Magalhães, Inês Pedrosa, Pedro Vieira, Luís Filipe Borges e Inês Meneses guardam-nas. E aceitaram o nosso convite para voltar lá, em palavras.

RUBEN ALVES, 35 ANOS, REALIZADOR
Costa da Caparica

Nascido e criado em Paris, filho de emigrantes em França, a mãe porteira, o pai mestre-de-obras, que foram matéria-prima e inspiração da comédia A Gaiola Dourada, as férias de verão de Ruben Alves eram passadas em Portugal. Todos os anos, julho e agosto eram vividos entre os arredores de Lisboa, com os tios maternos, a Costa de Caparica, onde fazia praia, e o Norte, perto de Guimarães, terra do pai.

Como era, nos anos oitenta, a viagem Paris-Lisboa?
_ Em criança vinha de carro. Mais tarde passámos a vir de avião. De carro era muito mais divertido. A viagem demorava mais que um dia e tinha paragem obrigatória em Espanha, para comprar caramelos. Eu vinha o caminho todo à espera desse momento.
Além da família, tinha cá amigos, que só via no verão?
_Sim, eram os amigos do verão. Muitos eram de sempre, outros eram só de um verão em particular. Alguns mantenho até hoje e quando nos encontramos temos sempre boas recordações.
Que memórias guarda?
_A liberdade, podia ficar na rua até tarde, o que não acontecia em Paris. As primeiras vezes que fui a uma discoteca. As primeiras responsabilidades: os meus pais davam-me dinheiro para a semana e eu tinha de gerir.
Histórias que marcaram?
_Antes de ter casa na Costa de Caparica (a certa altura os meus pais compraram uma casa de praia porque fartámo-nos do trânsito da ponte) passávamos todos os dias horas no carro para ir para a praia. Um tio meu, já falecido, coitadinho, sempre que mudava de fila, aquela em que estava antes começava a andar melhor. Ele passava-se e nós ríamo-nos muito. As horas de espera nos restaurantes, quando íamos jantar fora, porque éramos muitos e demorava imenso até sermos servidos. Nós, as crianças, adormecíamos invariavelmente à mesa do jantar. E a história que se repetia a cada rentrée nas aulas, em Paris: depois de dois meses de praia intensiva, ninguém me reconhecia, ficava preto com cabelos loiros quase brancos. Os professores ficavam baralhados quando me viam.
O que aprendeu e só podia ter aprendido ali?
_A ser independente, a gerir o meu dinheiro, a viver de prazeres simples. Não tinha o mesmo que em Paris, mas não me fazia falta porque tinha outra coisa: a imprudência. Também aprendi a apanhar caranguejos, a andar de carrinhos de choque, a fazer body surf.
Como passava o tempo?
_Em Lisboa e na Costa, visitávamos a família (casamentos, batizados, almoços) e fazíamos praia. Sempre. Adorávamos. Passava o dia todo na praia com os meus primos durante dois meses. Até púnhamos o despertador para acordar bem cedo. No Norte, perto de Guimarães, passava o tempo com os animais, porque os meus avós tinham uma quinta. Ficava fascinado com os bichos.
Nunca foi uma «seca» vir à terra dos seus pais?
_Não, adorava a praia. No Norte era mais chato porque na aldeia não se passava nada, mas hoje aprecio a beleza daquelas paisagens das aldeias, a autenticidade das pessoas e dos costumes, coisas que em criança não percebemos.

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Foto: Vitorino Coragem

INÊS MENESES, 43 ANOS, RADIALISTA
Mindelo, Vila do Conde

A experiência de Inês é a de regresso à terra onde cresceu, desde que vive em Lisboa, há 20 anos. Em Mindelo, em Vila do Conde, onde muitos portuenses fazem praia, estão os pais. E é a eles que volta, com a filha, no verão.

Como são as viagens à sua terra?
_Mindelo é uma aldeia perto de Vila do Conde com uma praia muito bonita onde terá havido o desembarque das tropas liberais em 1832. A minha cabeça liberal vem dessas areias. Agora vou pouco, mas costumo ir no verão visitar os meus pais e apanhar o ar do campo e a brisa marítima. Nunca fico muito. A quietude do campo inquieta-me.
Saiu de lá há quanto tempo?
_Fui para Mindelo com 4 anos, nascida em Lisboa, e saí de lá com 20, para Lisboa.
Que diferenças nota nestes 24 anos?
_Há um multibanco, há mais casas, há gente que se arranja mais. Vou notando no telefonema diário com a minha mãe que sobretudo evoluíram as cabeças, a forma de pensar, o que é muito positivo.
O que faz, quando lá está?
_Nada de especial. Vou com a minha mãe ver as flores novas, as colheitas do meu pai. Mostro à minha filha os coelhos recém-nascidos e objetos que fizeram parte da minha infância. Sento-me no poço ao sol a ouvir música. Vou até à praia comer camarões no café de sempre.
Quem reencontra?
_Adultos que conheci em criança, também eles crianças na altura. Outros que já eram velhos na altura e mantém-se vivos e rijos porque o campo também nos torna fortes.
Que memórias guarda?
_Gosto de determinados reencontros e sobretudo gosto de me lembrar do que vivi e do que não tive.
E como é para a sua filha ir passar férias à terra da mãe?
_É de alguma estranheza pelo contraste com a vida que tem na cidade, num meio muito cosmopolita. Mas é curiosa e quer saber, ver, absorver. E eu quero que ela conheça de onde vim e porque sou como sou.
Quando era miúda, passava férias onde?
_Nunca saí da praia de Mindelo. E, no entanto, na minha cabeça viajei imenso na literatura e nos sonhos.
Que recordações tem das férias de verão em criança?
_Tenho saudades do cheiro da praia, do pano frio das barracas, do pão com manteiga que era da véspera mas que eu comia pela manhã. Do bolso da barraca onde guardava muito pouco, mas lembro-me da minha mão pequenina ir lá pôr qualquer coisa. De comer um gelado prometido pelo meu pai só no fim das férias. Da senhora que corria a praia com uma lata amarela de onde saíam batatinhas fritas à inglesa, língua-da-sogra, pipocas. Era um prazer feito de coisas simples. Saudades também de amores que se desenharam ali na praia e ficaram por ali.

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Foto: Paulo Spranger/Global Imagens

PEDRO VIEIRA, 40 ANOS, ESCRITOR
Braga

O escritor e ilustrador ia passar férias a Braga, com a avó e a madrinha, que trabalhava no salão de chá Benamor e foi a empregada mais feliz do mundo quando ele lhe apareceu de Jesus.

Quando era miúdo, ia passar férias à terra?
_Sim, como quase todos os miúdos do meu bairro. Na verdade era uma terra emprestada. Na tradição da melhor classe média baixa, nem terra possuíamos.
Onde era?
_Em Braga, mesmo junto à Sé. Viviam lá a minha avó materna e a minha madrinha. Depois de a minha avó morrer, em 1992, houve uma espécie de corte com essa época. De alguma forma foi uma chegada à idade adulta. A minha madrinha ainda vive por lá, fresca de cabeça e atitude, e mais resistente do que o tempo.
Ia todos os verões?
_Sim, e nunca ficávamos menos de duas semanas. Hoje vou lá muito pouco, até porque a terra deslocalizou-se uns quilómetros para norte, para uma aldeia onde hoje temos uma casa. E muitos fantasmas, também.
Como era a viagem?
_De comboio, numa viagem épica, que implicava duas mudanças: no Porto e em Nine, terra misteriosa que na verdade nunca conheci. Nunca saíamos do apeadeiro. Ou então de camioneta, apanhada na Casal Ribeiro. Daí veio a minha relação com o Enjomin, a única droga de que fui dependente. Mais tarde, quando o meu pai comprou a sua 4L em segunda (?) mão, fizemos uns quantos trajetos acidentados de automóvel.
Além da família, tinha lá amigos?
_Na verdade era a minha irmã, que é mais velha, a única a ter verdadeiros amigos em Braga. Os irmãos Rosa e Fernando, vizinhos da frente da minha avó, de quem hoje tem notícias por telefone. E talvez por Facebook. Eu tinha alguns amigos de circunstância, desde que aparecesse com uma bola.
Que recordações guarda?
_Calor, passeios longos com a minha irmã, alguma doçura na despreocupação. Peladinhas noturnas na Praça Velha, em frente ao edifício da câmara municipal, sinal de que as autarquias eram menos assustadoras nesse tempo. Idas à praia, chamemos-lhe assim, da Apúlia. Um lugar com areia negra, água gelada e nevoeiro até ao meio-dia. O sonho de qualquer criança com aspirações a ser a Agatha Christie. Ou membro dos Joy Division.
Histórias que marcaram?
_Escolho a mais assustadora. Com 7 anos estive prestes a afogar-me na piscina municipal de Braga, quase sem a minha mãe dar por isso, por ter chegado, corrido e mergulhado na zona onde o azul era mais escuro. Fui salvo por dois desconhecidos, mas as questões cromáticas continuaram a trazer-me dissabores.
O que aprendeu e só podia ter vivido ali?
_Que a solidão relativa de quem faz anos em agosto não pode ser resolvida com uma viagem. Que a Sé é velha com barbas, mandada fazer pelos «bárbaros», antes de aparecer o Dom Afonso Henriques. Que há elevadores a água, como o do Bom Jesus. E também só podia ter vivido a religião da forma como se vive em Braga por causa das férias. Essa forma, prefiro não adjetivá-la.
Era uma «seca» ir à terra?
_Como se diz hoje, tinha mixed feelings. Era bom estar com a minha avó, a quem amava. Era mau deixar os amigos para trás. Se pensar nisso hoje, gostava de ir porque o tempo nunca se esgotava e no regresso teria sempre mais para gastar. Agora, tudo o que gastamos fica ao serviço da dívida. A ver se a austeridade não nos come a memória.

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Foto: Paulo Spranger/Global Imagens

LUÍS FILIPE BORGES, 38 ANOS, HUMORISTA E APRESENTADOR DE TELEVISÃO
Serra da Estrela, Açores

Em criança, ia passar o verão à serra da Estrela, mas cedo a Terceira, terra natal, tornou-se destino de férias. Esta é a altura em que «ressaca» as ilhas. Se não apanha um avião já, ainda vamos dar com ele a fumar junto ao Tejo: «Não é mar, mas sempre se escuta um marulhar das águas.»

Quando era miúdo, ia passar férias à terra?
_Sou um orgulhoso açoriano, contudo de costela beirã. O meu pai é da zona de Seia, Gouveia, serra da Estrela, e, no verão, ano sim ano não, íamos ver os meus avós Carlos e Assunção, a Vila Nova de Tazém, bem como – durante algum tempo – a minha tia Maria, irmã mais velha do meu pai, hoje e desde há muito emigrante nos EUA.
Quanto tempo ficavam?
_Duas semanas, mas há muito que não vou lá. Desde a morte dos meus avós, deixou de fazer sentido. A última vez que lá estive foi para visitar as suas campas. O que nos ligava a Vila Nova de Tazém, a mim e ao meu irmão, era a relação com aqueles dois agricultores simples. Os coelhos e as galinhas, apanhar pinhões, os incríveis biscoitos de canela da avó (irreproduzíveis) e os conselhos do avô, entrecortados com melodias que tocava na harmónica; brincar nas ruas áridas da vila sob um braseiro que, como açorianos, desconhecíamos. Mas a nossa terra era e continua a ser a ilha Terceira.
Que passou a ser o destino de férias.
_Sim, desde os 18 anos, idade com que vim estudar para Lisboa. O grande desejo era sempre regressar a casa o quanto antes. Duas horas de avião, o que, no tempo em que a diferença horária era precisamente de duas horas, ocasionava algo quase místico nas partidas para a ilha: sair de Lisboa ao meio-dia e chegar lá ao meio-dia.
Que memórias guarda?
_Das férias na serra em criança, já falei. Das férias na ilha, as melhores recordações têm que ver com a sensação, no fim da adolescência, de que tudo é possível. Passeios de barco para mergulhos em alto-mar, jogos de ténis durante um verão inteiro quando a panca era essa e, em cada agosto, um novo sítio da moda na ilha para onde toda a gente ia, flirts, ressacas, zangas, pazes, etc.
Histórias que marcaram?
_Lembro-me com especial carinho de um verão em que resolvemos ser turistas na nossa própria terra e andámos de barco de ilha em ilha (são nove). Mesmo chegando a onde nunca se esteve, há algo na alma dos Açores que garante nunca se ter saído de casa e nos faz sentir logo acolhidos.
O que aprendeu e só podia ter aprendido ali?
_Não acredito que vou dizer esta frase, mas «ainda sou do tempo» em que os miúdos brincavam na rua, recebiam arcos e flechas de pais pouco preocupados e arriscavam vazar a vista a alguém, esfarrapavam-se em muros e quedas, conquistavam uma certa independência bem mais cedo do que a maioria dos miúdos ultraprotegidos e de educação assética das pequenas metrópoles.
Que diferenças em relação a Lisboa?
_As diferenças, ainda hoje, entre ilhas e continente conseguem ser gritantes. Há mais tempo para tudo, outra qualidade de vida, melhor comida, o mar sempre perto, a porta sempre aberta em casa dos amigos.

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Foto: Orlando Almeida/Global Imagens

MARIA FILOMENA MÓNICA, 73 ANOS, INVESTIGADORA
Águas Belas

Nasceu em Lisboa, mas parte das férias eram passadas com a irmã e uma prima em casa das tias solteiras, em Águas Belas, aldeia natal do pai, no concelho de Ferreira do Zêzere. Tempos que a historiadora Maria Filomena Mónica gosta de recordar.

Todos os verões ia a Águas Belas?
_Sim, depois de um mês em Cascais. Ficávamos lá o mês de agosto e parte de setembro. Agora, pouco lá vou.
Como era a viagem?
_Íamos no carro do meu pai, um Peugeot, matrícula ED-15-70. Eu, que ainda não decorei a matrícula do meu carro, recordo a sua. Demorávamos cinco ou seis horas a chegar, porque às vezes o meu pai tinha negócios a tratar no caminho. A viagem era maçadora, pelo que eu passava o tempo a brigar com a minha irmã Isabel.
Além da família, tinha lá amigos?
_Quanto a relações sociais, era o deserto. As minhas tias, que não tinham amigas com filhos, apenas conviviam com o pároco. Como as meninas locais usavam tamancos – peça de calçado que, durante anos, fez parte dos meus sonhos – não era suposto eu falar com elas. O mesmo acontecia com os meninos, que via passar da janela, e eram guardadores de cabras. Só mais tarde, conheci uma família, os Ooms, com quem passei a dar-me.
Que recordações guarda?
_Até aos 12 anos, adorava ir para lá. Além da minha irmã, vinha connosco uma nossa prima, a Ana, que era a mais nova. De manhã, armava-me em mestre-escola e, debaixo da parreira, obrigava-as a fazer redações e a elaborar, num caderno, a lista dos disparates – a colocação de formigas na cama das tias, o roubo das chaves de casa ou a destruição dos ovos das galinhas – que, incitadas por mim, eram forçadas a praticar. À tarde, divertia-me a andar na carroça, acompanhada pelo capataz do meu avô, e a nadar nos dois tanques de rega, os quais, apesar do lodo, me refrescavam. Nos dias em que não conseguia imaginar mais nada, sentava-me no muro que dava para a estrada, a ver passar os camiões que levavam cimento para a construção da barragem do Cabril. Quando o meu pai aparecia, ao fim de semana, gostava de ir passear com ele para as matas do meu avô. Era a única ocasião em que parecia gostar de brincar connosco.
Histórias que marcaram?
_Não foram tanto histórias a marcar-me, mas um «desporto», a caça. Para apanhar os passaritos, usava uma espécie de ratoeira de madeira, com um pico de ferro, onde espetava uma formiga de cabeça vermelha. Mal nascia o Sol, tomava o pequeno-almoço à pressa, e partia, com a Isabel e a Ana, para uma outra quinta, as Casas Novas. Pelas oito da manhã, regressávamos, antecipando o prazer de comer os animais que, depois de fritos pela criada da cozinha, metíamos dentro de fatias de pão. Estes raids envolviam quedas sem importância, mas que me deixavam cicatrizes nas pernas. Já então adorava exibir sinais de guerra.
O que aprendeu e só podia ter aprendido ali?
_Aprendi a dar aulas de catequese, o que só ali poderia ter feito. Um dia, à falta de alguém com quem brincar, decidi acompanhar as minhas tias. A doutrina, ensinada de cor a uma dúzia de crianças ranhosas, não estava para além das minhas capacidades, pelo que o pároco aceitou, teria eu 11 anos, que as ajudasse nas preleções. A certa altura, descobri um miúdo, de 7 anos, que pertencia a uma família misérrima. Um dia, insisti em acompanhá-lo a casa. O casal e os nove filhos dormiam todos na mesma divisão. Quando contei às minhas tias que desejava adotar a criança, desataram a rir. A minha atividade catequística terminou nesse dia.
Como passava o tempo?
_Em criança, a fazer bolas de terra molhada e a olhar as galinhas, os porcos e os coelhos. Quando tinha 13 anos, organizei, com a ajuda da Isabel e da Ana, várias peças de teatro. O público era composto pelas minhas tias e pelas três criadas. Fui eu que desenhei a capa do programa, com um Pato Donald copiado de uma revista. As peças que escrevi não ficaram para a história, mas, pelo programa, constato que tinham títulos tão parvos quanto «As Duas Manas», «Criadas, Precisam-Se» e «Por causa do Piriquito».
Era «seca» ir de férias para a aldeia?
_A partir da adolescência, quando comecei a ter namorados, passei a odiar a pasmaceira rural, o que não impressionou a família. A minha mãe metia-me no carro à força e lá partíamos todos para Águas Belas.

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Foto: Artur Machado/Global Imagens

ÁLVARO MAGALHÃES, 64 ANOS, ESCRITOR
Caldas das Taipas

Se somos, como se diz, a soma das nossas experiências, a das férias na aldeia é das mais vivas e poderosas da infância do escritor portuense Álvaro Magalhães, que, ainda hoje, sempre que
escreve uma cena da vida natural, revive-as.

Onde passava férias?
_Sou do tempo em que, no verão, se fazia férias de praia e de campo, o ideal para a saúde. Eu fazia a praia na Foz, na praia do Molhe, em agosto, e em setembro ia para a aldeia. Para Santa Senhorinha, em Cabeceiras de Basto, a terra do meu pai, ou para Caldas das Taipas, em Guimarães, a terra da minha mãe. Ia para casas de tios, num caso e noutro.
Ia todos os verões? Quanto tempo ficava?
_Só fui durante a infância e primeira adolescência. Num ano, ia para a aldeia do meu pai e no outro para a aldeia da minha mãe. E gostava imenso. Já enquanto adulto, nunca mais consegui conviver muito bem com a ruralidade ou a natureza em estado puro. Aprecio o silêncio que permite ouvir o rumor do mundo, essas coisas, mas custa-me a falta das comodidades urbanas.
Como era a viagem até lá?
_Ia de camioneta da carreira. Uma ou outra vez, havia uma boleia de carro e era uma festa. A camioneta demorava horas, quase um dia inteiro, e a viagem era épica.
Além da família, tinha lá amigos?
_Tinha tantos primos e primas que não havia grande espaço para amigos, só para as primeiras paixões. Nessa altura, apaixonava-me sempre que uma rapariga olhava para mim, mesmo de longe.
E esses amigos, mantêm-se?
_Os familiares, sim, os amigos e as paixões perderam-se.
Que memórias guarda?
_Algumas memórias soltas: caminhar a pé, à noite, ficar de barriga para o ar, na erva, a ver a multidão de estrelas, os pés descalços na terra molhada, os banhos no tanque da rega e no rio, onde também pescava com cestos (e sim, conseguia, uma vez ou outra uma captura), o cheiro da lareira, o sabor do pão, do leite e da fruta, mas, principalmente, a convivência e proximidade com os animais (os bois dormiam por baixo dos quartos e podíamos vê-los pelas frinchas mais largas do soalho).
O que aprendeu e só podia ter aprendido ali?
_Quando olhava o manto de estrelas e planetas, deitado, de barriga para o ar, na erva, percebi que não vivíamos na Terra, como me diziam, mas na Terra e no céu.
Como passava o tempo?
_Em Cabeceiras de Basto, comia fruta das árvores, mais pelo prazer de chegar lá acima, nadava no rio, sacudindo sanguessugas, e chegava a fazer, com gosto, trabalhos agrícolas, como conduzir a junta de bois. Nas Taipas, brincava no parque, nadava no rio e na piscina municipal, jogava a malha, dava grandes caminhadas e discutia futebol com um tio que era adepto ferrenho do Vitória de Guimarães (não há adeptos piores, quer dizer, melhores).
Era uma «seca» ir de férias para a aldeia?
_Não era seca. Agradava-me muito aquele exercício da minha naturalidade, o que não acontecia na cidade, apesar de o Porto, nos anos 1950, ser tão urbano como rural. Na minha rua, havia um lavrador como os de Cabeceiras, com gado e tudo, passavam carros de bois e carroças puxadas por burros e qualquer casa tinha um galinheiro no quintal.

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Foto: Lionel Balteiro/Global Imagens

INÊS PEDROSA, 53 ANOS, ESCRITORA
Tomar

Nasceu em Coimbra, em 1962, mas só porque não havia maternidade em Tomar, onde viveu até aos 5 anos e onde sempre passou férias, desde que, com os pais, se mudou para Lisboa. Era lá que moravam os avós paternos e maternos, os tios e os cinco primos.

Todos os verões ia a Tomar?
_Todos, pelo menos um mês (e no Natal e na Páscoa, além de inúmeros fins de semana). Infelizmente, agora vou lá muito poucas vezes, porque os meus avós morreram e os meus tios e primos mudaram-se para Lisboa. Estive lá recentemente na Feira no Livro e depois na Festa dos Tabuleiros, e é sempre uma emoção muito grande.
Como era a viagem?
_De carro. Duas horas e meia para fazer 125 quilómetros, a andar bem, pela estrada antiga. Muitas vezes adormecíamos (o meu irmão e eu) e pedíamos à minha mãe que nos acordasse quando chegássemos à ponte da Chamusca, para ver a ponte, o rio e depois uma zona de lagos a que chamávamos «os laguinhos».
Memórias que guarda?
_As melhores. Dias felizes na excelente piscina municipal, muitas brincadeiras. Noites de cinema ao ar livre, no parque da cidade. E fazíamos teatrinhos ou espetáculos de «música» em casa da minha avó paterna, que tinha arcas com fatos de Carnaval antigos que usávamos para as nossas peças ou cantorias (escritas e encenadas por nós). A minha avó arranjou mesmo uma cortina de cena, que se colocava a meio da sala.
Histórias que marcaram?
_O meu avô materno a recitar de cor poemas de Camões enquanto remava, passeando-nos num barco no Nabão, quando eu ainda nem sabia ler. A preparação dos espetáculos que fazíamos, a excitação das «estreias» e a recolha do dinheiro dos «bilhetes» junto dos adultos. A receita dos espetáculos dava para irmos depois comer barquinhos de chocolate à pastelaria Estrelas de Tomar (a que chamávamos Estrelinhas).
O que aprendeu e só podia ter aprendido ali?
_A gostar de Camões, ainda antes de saber ler, por causa do meu avô Domingos. O convívio com os meus primos, que eram como outros tantos irmãos, fez-me aprender a rir de tudo. O meu primo Miguel, um ano mais velho, que, como eu, gostava de escrever e de teatro, estimulou-me muito. Aprendi a gostar de piano (havia um em casa da minha avó materna, que pertencia à minha tia) e ainda cheguei a ter aulas e a tocar qualquer coisa. Aprendi a não ter medo de saltar da prancha de cinco metros para a piscina (ou seja: tinha medo, mas tinha ainda mais vergonha de desiludir os meus dois primos mais velhos). Aprendi a fazer doces e bolos (e a comê-los), com a minha prima Minô, dois anos mais velha, e com a minha tia, que tinha uma mão extraordinária para a cozinha, fazia uns doces maravilhosos: fatias de Tomar, bolo de anjo, mousse de chocolate, arroz-doce, etc.
Como passava o tempo?
_Além de tudo o que já contei, havia as longas noites de conversa com a minha prima, as tardes que passávamos a ler na bela varanda da casa dos meus avós paternos ou a ver as andorinhas a alimentarem os filhos nos beirais da casa. Ou ainda, já na adolescência, o sair de mota (às escondidas, claro) com os amigos da minha prima Minô.
Nunca encarou como uma «seca» ir de férias à terra?
_Adorava lá ir, queria mesmo viver lá. Chorava sempre que me vinha embora.

Catarina Pires
Fotografia de abertura: Jorge Simão