OPINIÃO

Agricultura vista do céu

Vigiar as culturas a partir do ar.

Já não é utópico – nem custa uma fortuna. Graças ao uso de drones, é possível controlar o desenvolvimento das árvores de fruto de forma mais eficaz. No Fundão, com a ajuda de pequenas aeronaves não tripuladas, Ricardo e Joaquim Tojal esperam potenciar o crescimento dos pessegueiros. O futuro já chegou.

Ricardo Tojal, 34 anos, é arquiteto. O irmão, Joaquim, 31, é engenheiro informático. Mas a paixão pela agricultura, meio onde cresceram, em Viseu, falou mais alto. Por isso, ao fim de um ano de procura, encontraram na aldeia de Três Povos, no concelho do Fundão, as condições de que precisavam. Em noventa dos duzentos hectares da quinta Prado Vasco instalaram uma produção de pêssegos.

«O nosso pai e tio são pioneiros na produção de maçã na região da Beira», diz Ricardo. «O nosso avô também estava ligado à área, por isso fomos crescendo com o cunho familiar relacionado com a agricultura.» Decidiu enveredar pela fruticultura mas aliou a formação à profissão de arquiteto. «Comecei a desenhar o pomar como se desenha uma cidade, com caminhos, ruas, linhas de água, mas a agricultura é muito mais do que isso.» Seguiram-se algumas discussões com engenheiros e técnicos para que o desenho se fosse ajustando às necessidades do terreno e da região. «O desafio foi ainda mais interessante.»

Aos irmãos juntou-se depois a prima Catarina Tojal. E a equipa multidisciplinar foi ganhando forma. Psicóloga de formação, «é uma mais-valia do ponto de vista dos recursos humanos e da motivação dos colaboradores», diz Ricardo. Nenhum dos três é agricultor por formação mas têm em comum o facto de terem crescido neste meio. «A nossa formação tem muito a dar ao setor e cada um de nós tem um papel fundamental», diz Joaquim.

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O engenheiro informático sabe bem que a sua área se pode facilmente adaptar a vários domínios e setores de atividade. No caso da agricultura, pode mesmo andar de mãos dadas e trazer imensas potencialidades. «Numa primeira fase, iremos analisar e testar as novas tecnologias para posteriormente as implementarmos tornando-as parte do processo de produção», diz Joaquim. Através da parceria com uma empresa que tem um sistema de controlo de produção e que regista «tudo o que se passa no terreno», um dos próximos passos será a «georreferenciação dos dados e a análise das imagens retiradas por drones.

A análise permitirá observar aspetos como o stress hídrico do terreno, a qualidade da vegetação, as pragas que podem afetar as culturas, entre outros» de forma muito mais rápida em comparação com imagens tradicionais. «Estamos a desenvolver um pequeno protótipo com sensores de temperatura e humidade exterior que vão medir – em cada setor de uma determinada área – as propriedades do terreno e que reportam via internet para uma plataforma em que podemos visualizar quais as propriedades do solo e qual a temperatura, naquela área e naquele setor.» Estas informações são depois adicionadas aos dados georreferenciados captados pelo drone, integrando todas as vertentes numa fase final.

«As plantas emitem radiação que não é visível e o drone conseguirá, numa fase futura, captar essa radiação para fazer análise da saúde das plantas, por exemplo.» Além do contributo para a rentabilidade da produção, a análise integrada permitirá ter um sistema de apoio à decisão. «A médio prazo, conseguiremos automatizar todas as tecnologias, como, por exemplo, a automatização de regas», diz Joaquim. É a chamada agricultura de precisão que contribui para a diminuição de custos e de desperdícios e o aumento da produtividade. Este é o segundo ano de testes em pequenos locais para se perceber com exatidão as vantagens do uso e da integração das tecnologias na produção.

A expetativa dos irmãos Tojal é de produzir 2200 toneladas de pêssego em 2018, nos noventa hectares disponíveis – sendo quase 50% destinado à indústria. Até esta data, Ricardo e Joaquim pretendem ter definida toda a comercialização. O projeto foi um dos que se destacou no ano 2013/2014 da Academia do Centro de Frutologia Compal (CFC). Com a bolsa de vinte mil euros foi possível comprar árvores para começar a plantar. «As árvores são produzidas in vitro, chegam-nos com um tamanho considerável, vazadas e com menos suscetibilidade a doenças. Este foi o princípio e, a partir daí, não poderíamos voltar para trás», explica Ricardo. Na altura em que decidiu candidatar-se à Academia, trabalhava num gabinete de arquitetura. Foi a motivação que necessitou para investir nesta área. Apesar da grande ligação familiar à agricultura, sentia que não tinha conhecimentos essenciais para avançar. «A oportunidade que tivemos de visitar as explorações modelo com produtores experientes e de termos formação específica acerca da nossa cultura foi essencial.»

O terreno está a ser preparado este verão para que no outono seja possível começar a plantar. Divide-se em três grandes parcelas de forma a otimizar a produção. «Como a quinta é muito grande, as variedades são escalonadas e iremos ter produção desde a primeira semana de junho até ao final de setembro. Vamos escalonando a produção e os trabalhos, o que irá permitir rentabilizar custos na fase da colheita», diz Ricardo.

TRANSMITIR CONHECIMENTOS
«Depois da formação na Academia do Centro de Frutologia Compal, as portas não se fecham e tudo acontece naturalmente», diz Ricardo Tojal. A transmissão de conhecimentos por parte dos formadores é essencial para quem inicia agora a atividade. Paulo Parente, engenheiro da Sociedade Agrícola da Quinta dos Lamaçais, é um dos formadores com quem Ricardo teve mais contacto e a quem liga regularmente para esclarecer dúvidas. «Normalmente, deixo o meu contacto e demonstro disponibilidade para intercâmbio de ideias e para evitar erros que possam prejudicar toda a atividade», diz o formador de 47 anos. A troca de experiências é essencial neste processo de aprendizagem contínua. «A agricultura é uma área que está em constante evolução», diz Parente.

Cláudia Pinto
Fotografia: Diana Quintela/Global Imagens