OPINIÃO

África está na moda

Cores vibrantes, padrões étnicos e um toque de ousadia nos guarda-roupas europeus.

Ultimamente, os roupeiros têm-se enchido de capulanas e outros tecidos africanos, talhados em cortes europeus. Vestir África cai bem a todos.

Roselyn Silva (na fotografia) sempre foi uma miúda singular, incapaz de usar roupa sem lhe mudar um ponto. Em casa, arranjava os dois irmãos mais novos com um gosto infalível. À família e aos amigos, rendidos a esta capacidade, opinava e sugeria peças para realçar os melhores atributos e disfarçar os outros. Não tinha jeito para coser, mas desenhava os seus próprios modelos e mandava fazê-los, numa mistura feliz de corte clássico e panos africanos que iam chegando de São Tomé e Príncipe – os pais emigraram para Lisboa quando ela tinha 4 anos. «Sempre quis vestir esses tecidos vibrantes com cortes modernos», diz a engenheira, 29 anos. Decidiu ser o estilo que mais lhe convinha, não só para o seu hobby de modista, mas também para o dia-a-dia. «Em 2013 fui publicando no Facebook e vi que havia aceitação. As pessoas queriam comprar a minha roupa. Homens também. Eram tantos os pedidos que as mãos deixaram de chegar.»

Entretanto, a moda das capulanas ia ganhando terreno. Mas Sofia Vilarinho, designer de moda a fazer doutoramento em capulanas moçambicanas numa vertente sustentável, esclarece desde logo um erro muito comum: «A capulana é uma coisa específica – um pano de Moçambique com um motivo central enquadrado por uma margem sólida, de cores fortes, às vezes com uma frase.» Está muito ligada à Índia por relações mercantis do passado e quase parece ter regras de design intrínsecas que a tornam diferente de tudo o resto – também as há tecidas com um padrão de xadrez a duas cores, anteriores às estampadas. «Outra coisa é o wax print [impressão de cera, à letra], que são os panos vindos da África Ocidental, estampados na superfície inteira com repetição do padrão, à venda em muitas lojas. É sobretudo isso que se trabalha cá e no estrangeiro.»

Roselyn foi refinando as peças de autor com os tecidos africanos que conseguia comprar, sem imaginar que em breve se tornaria famosa. «Usava-se esses motivos étnicos lá fora, nos EUA, Londres, Holanda, mas não em Portugal, o que é curioso dado termos uma grande comunidade africana.» De dia, ia trabalhar para a empresa de engenharia hidráulica e ambiental vestindo a sua própria fusão afro-europeia – o melhor cartão-de-visita. À noite, dava vazão às encomendas e stressava por só ter dois braços – precisava de pelo menos uns dez! –, ao mesmo tempo que a solicitavam para programas de televisão e desfiles. «Chegou uma altura em que os pedidos eram superiores à minha capacidade de resposta», recorda. Criar já lhe tomava mais tempo do que a engenharia, teve de optar. «Decidi dedicar-me apenas a isto.»

Em 2014 acabou por tirar um curso de moda na Lisbon School of Design, no Parque das Nações, para não se perder nos meandros da produção. «Tinha muita procura, mas fazia tudo com as minhas economias e essa falta de sustentabilidade não me deixava evoluir mais.» No início deste ano participou no programa Shark Tank na SIC, onde conquistou os «tubarões» Tim Vieira e Mário Ferreira. Os empresários investiram na marca Roselyn Silva e permitiram à designer abrir o seu próprio ateliê/loja no Edifício Castil, no coração da capital, além de trabalhar materiais mais nobres no estilo inconfundível de sempre. «Fazer uma peça exclusiva à mão exige tempo e custos, até porque envolvo o cliente no diálogo desde o início.» A partir de cem euros já se consegue uma blusa ou uns calções únicos. Acima dos trezentos, um vestido ou uma saia. Três dígitos compram um vestido longo de cerimónia.

«Inspiro-me no dia-a-dia das pessoas, no que as satisfaz, no que lhes faz falta.» Muitas vezes, precisam apenas do estímulo de autoestima da roupa para se soltarem. Noutras pedem-lhe para brilhar em eventos e festas, como as apresentadoras Cristina Ferreira, Teresa Guilherme, Cláudia Borges e Leonor Poeiras, a cantora Ana Bacalhau ou as atrizes Rita Pereira e Adelaide de Sousa. «Estampados africanos não têm de ser só para africanos, mas em Portugal isto não foi imediato. Tivemos de ver para aceitar, quando lá fora já as passerelles tinham.» Foi precisamente para chegar a mais gente que criou também a linha de pronto-a-vestir, mais barata, que estará à venda em lojas de Lisboa e Porto a partir de janeiro, com um pano especial criado por si. «Eu própria sou essa mistura de raízes africanas e europeias.»

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Sofia Vilarinho (na fotografia) defende que as capulanas despertam desejos diferentes, dependendo de quem as compra. «Se se é moçambicano, o pano significa; se se é europeu, encanta pelas cores e os desenhos estampados. Enquanto a mulher moçambicana compra uma capulana por afeto e pela sua importância na construção da moçambicanidade, os restantes compram-nas porque são bonitas, exóticas, têm cores alegres. Porque queremos ter um ar mais cosmopolita ou viajámos até Moçambique e trouxemos uma recordação.» A maioria dos designers europeus usa wax print e foi depois do Mundial de Futebol da África do Sul, em 2010, que se tornou tendência a inclusão de panos africanos nas passerelles internacionais, em desfiles de nomes como Galliano, Kenzo, Cavalli, Gucci, Alexander McQueen e outros. Já em Moçambique, as verdadeiras capulanas passaram a ser largamente utilizadas pelos estilistas locais nas coleções apresentadas nas semanas de moda africanas e europeias.

«Taibo Bacar é o exemplo de um designer moçambicano que trabalha a capulana. Afirmou-se na Milan Fashion Week em 2010 (foi a primeira marca africana a fazê-lo) e conseguiu um lugar distinto a nível internacional, cruzando alta-costura com a essência tradicional dos panos do seu país», diz a investigadora, subjugada pelo tanto que cabe num retângulo de tecido. De norte a sul de Moçambique, as mulheres vestem-nas, aconchegam os filhos às costas, fazem mantas, lençóis, trouxas. Colecionam-nas como um diário da sua própria vida. «Em meados do século XIX, os holandeses começaram a imitar os estampados produzidos manualmente em Java, na Indonésia, e a introduzi-los nos mercados africanos para a nova classe de consumidores que surgiu com a abolição da escravatura», explica. No início do século XX, tanto homens como mulheres as vestiam, «contudo eles substituíram-nas por calças e calções a partir dos anos 1920-30».

Hoje há cada vez mais homens africanos e europeus a quererem peças de roupa em capulana e wax print. «Ninguém fica indiferente a esses tecidos», justifica Rosa Pomar, autora do livro Malhas Portuguesas e uma referência nos nossos têxteis tradicionais, adepta de boas peças que nunca passam de moda. Na sua vida particular, sempre tiveram uma presença muito forte: «Com eles fiz os porta-bebés para transportar a minha filha mais nova; na praia uso-os em vez de toalhas; em casa servem como toalhas de mesa.» A artesã gosta especialmente das capulanas tradicionais, tanto as axadrezadas como as que lhe fazem lembrar os antigos lenços de Alcobaça. «Os padrões têm significados bem definidos, conhecidos por quem os veste. Têm sido ainda usadas em diversos contextos, graças à sua importância a veicular mensagens de propaganda» – já foram criadas capulanas para informar as populações moçambicanas sobre como prevenir a malária e o cancro do colo do útero, com mensagens escritas no pano.

Sofia Vilarinho confirma que as capulanas são gente. Após viajar até Maputo no âmbito da sua tese de doutoramento – Mozambique’s Capulanas in a D4S design perspective: identity, tradition and fashionable challenges in the XXI century –, a designer estudou a fundo a história do pano para entender a cultura e a tradição a ele associados. De volta a Lisboa, criou em 2011 um curso no Modatex para alfaiates africanos a viver em Portugal, com duração de um ano, em que aprendem desenho, modelagem, corte, costura, tecnologias têxteis e informática. «Até agora, já mudou vinte vidas: alguns alfaiates abriram o seu próprio ateliê, uns emigraram e trabalham com estilistas africanos nesses países, uns trabalham para marcas de moda portuguesas e outros estão comigo no AAA – Atelier Alfaiates Africanos, um projeto de inclusão social que faz arranjos, peças por medida, customização, reaproveitamento de roupa, gestão da produção para marcas e aconselhamento a designers nas suas coleções.»

Paralelamente, ainda no âmbito do doutoramento e da investigação de uma vida, Sofia desenvolveu também o projeto Capulanar, voltado para as mulheres urbanas com consciência social e vontade de descobrir as muitas maneiras de vestir uma capulana ao natural, sem qualquer tipo de corte. «O projeto é levado a cabo com jovens moçambicanas, já que uma portuguesa nunca teria o mesmo olhar, a mesma relação ou a mesma leitura do pano.» Fizeram vídeos educativos sobre as diferentes formas de amarrar a capulana e os clientes que quiserem o produto no formato original podem comprar o kit Capulanar. «A capulana está tradicionalmente ligada a abordagens de slow fashion, porque um retângulo de tecido tanto veste uma mulher em mil outfits diferentes como possui outras funcionalidades. Tem uma sustentabilidade intrínseca.»

Ana Pago
Fotografia de Jorge Simão