OPINIÃO

Achar o fio à meada

O tricô está de volta.

Já foi saber de velhinhas e donas de casa, tal como já o foi de homens fortes do mar e das minas. O tricô está de volta e há cada vez mais adeptos para quebrar preconceitos: lá por saberem dar às agulhas, as mulheres não são menos emancipadas nem os homens menos viris.

A agulha direita dentro do primeiro ponto da agulha esquerda. Dar uma laçada com o fio na frente. Deixar cair o ponto da agulha esquerda passando-o para a direita, os dedos a correrem ágeis, a cabeça livre para pensar em tudo menos naquela trama que aos poucos, com mãos amorosas, se transforma num fatinho de bebé. «Acabei de ser mãe novamente e as agulhas estão cheias de roupa para o pequeno», revela Filipa Carneiro, 33 anos e engenheira civil de formação, mas artesã de nascença e coração, como ela própria gosta de dizer. «Hoje em dia, alguém que desfruta a tricotar a sua própria camisola é visto como uma afirmação: uma peça de vestuário exclusiva, de qualidade e mais green.» Qualquer semelhança entre os trabalhos da avó e o tricô moderno é mera coincidência: nem uma mulher cosmopolita é já considerada rude por tricotar a vida, nem um homem – também os há jeitosos – é menos macho se souber fazer gorros para os filhos.

«Tricotar é a minha malhação. Há quem trabalhe os músculos no ginásio, eu exercito os meus de forma mais criativa e menos preconceituosa», confirma Frederico Edvardsen Cardoso, diretor financeiro de uma empresa imobiliária e pai de quatro filhos que o inspiram a criar. «Homens da minha geração a tricotar em Portugal [tem 39 anos] contam-se pelos dedos. O preconceito ainda existe: os homens ou não tricotam de todo ou, se o fazem, é sobretudo às escondidas.» Já aconteceu estar numa Padaria Portuguesa e o senhor ao seu lado mudar-se para a esplanada, à chuva, alarmado por vê-lo sacar das agulhas. Outra senhora teimava que ele só podia ser alemão pelo modo como faz as malhas, por mais que negasse: é filho de pai português e mãe norueguesa. A brincar, o tricoteiro diz que o hobby lhe chegou por via dessa costela nórdica.

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«Houve várias mudanças a justificar que o tricô se tornasse uma tendência tão marcante. Por um lado, a crise levou muita gente a ficar em casa e a procurar novas ocupações. Por outro, a valorização do trabalho artesanal e a propensão crescente para recuperar tradições marcam o regresso do tricô às nossas vidas», explica Filipa. A ela, que já em menina se sentava ao lado da avó a criar roupa para as bonecas, custa-lhe passar um dia que seja sem usar as agulhas, mais para os filhos e para oferecer do que para si mesma. «Os primeiros vestidos que fiz para a minha filha foram muito especiais, têm um valor sentimental enorme porque foram tricotados em cima da barriga. Aliás, ela nasceu no dia seguinte a eu terminar a manta que lhe faltava no enxoval, em 2010.» Uma coincidência que deixa as peças cheias de boas memórias. «Isto ocupou sempre um lugar importante, em paralelo com os estudos e, mais tarde, com a direção de obras.»

Ninguém sabe como ou onde surgiu o tricô, apesar de as peças mais antigas – datadas de 1200 d.C. e feitas em ponto meia, um dos mais básicos – terem sido descobertas no Egito, entrelaçadas com a ajuda de agulhas de osso ou madeira. Já nessa altura eram os homens quem tricotava, usando o fio que as mulheres produziam manualmente com a roca de fiar. Na Odisseia de Homero, um dos principais poemas épicos da Grécia Antiga, era de tricô a mortalha que Penélope tecia e desfazia todas as noites, ganhando tempo aos pretendentes enquanto aguardava o regresso de Ulisses, o marido dado como morto. Frederico aponta ainda o facto de muitos pescadores em climas frios saberem tricotar os seus próprios agasalhos, a par dos pastores dos Andes e dos mineiros portugueses da Mina de São Domingos, em Mértola, que exploravam malhas e padrões enquanto esperavam pela troca de turnos.

«Fazer tricô tem este efeito de aquecer o corpo e a mente. A parte psicológica é fundamental», sublinha, convicto de que enredar-se na malha reduziu em 80 por cento as divergências que tinha com a mulher no dia-a-dia, muitas das quais relacionadas com a sua mania de tricotar onde calha (a filha mais velha, de 18 anos, é outra que não faz alarde da habilidade do pai junto das amigas). «A epopeia começou há três anos, quando fazia longboard e vi um alemão rastafári com agulhas grandes nas mãos, a fabricar algo para si.» Depois disso pesquisou, procurou grupos. Entusiasmou-se com os pontos, os entrelaçados e as pessoas. «Ao início tentava fazer um gorro e saía um cachecol», lembra. Criou entretanto a página Knitted By Macho Men no Facebook, para pôr os homens a tricotar sem vergonha, e ao fim de um ano o saldo motiva-o: gorros seus enviados para o Luxemburgo, golas para a Noruega, meias, perneiras para o ballet, um sem-fim de peças. «Tem sido muito engraçado. Não esperava todo este feedback

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Também Ana Filipa Oliveira, 35 anos, não contava que um projeto que nasceu por lazer, para entreter a mãe e arejar as próprias ideias, tivesse tanta saída desde que o iniciou em novembro passado. «Comecei a Miss Tricot numa altura em que o fluxo de trabalho era menor [é arquiteta no ativo e mediadora de orçamentos]. A brincar fizemos umas golas para nós (fiquei eu com a primeira), pu-las numa página de Facebook que criei com logótipo, e às tantas percebi que as pessoas procuram realmente este tipo de produtos diferenciados e com qualidade, não se importam de pagar um bocadinho mais.» Em dezembro, já a ser seguida sem saber, convidaram-na a expor numa feirinha de Natal em Telheiras e vendeu imensas golas. Hoje corre os mercados e feiras que pode, na mira de descobrir as peças de que os clientes mais gostam e fazer contactos.

«Nunca pensei divertir-me tanto», confessa. «Comecei a ver que havia ali potencial e diversificámos a oferta com gorros, boinas e malas, tudo muito sóbrio e imaginado a partir do que cada novelo nos inspira.» Mais recentemente, a Miss Tricot estreou-se na home edition com puffs tricotados em trapilho, tapetes, almofadas, individuais e capas para vasos de vidro dignos de uma revista de design de interiores. «Houve tempos em que o tricô era associado a mulheres que ficavam em casa a cuidar das lides, mas depois deu outra vez a volta, tal como a tendência dos tacões ou das saias compridas.» No seu caso, nunca passou de moda: «Em miúda a minha mãe fazia-me a roupa toda, seguindo os moldes das revistas Burda, e ainda agora uso sempre uma peça como toque de requinte.» Os próprios estilistas recuperam modelos e padrões antigos, as lojas vendem-nos, as pessoas desejam-nos.

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Vera João Espinha, 40 anos e designer gráfica, concorda que a roupa em tricô que se fazia por necessidade é hoje feita por prazer. «O estatuto de quem comprava tudo pronto era diferente do de quem tinha de confecionar as suas próprias coisas, e isso está a mudar», diz, agradada com a companhia que as malhas lhe fazem à noite, em encontros de amigas ou enquanto espera que a filha termine o sapateado e a natação. «Quando no 7.º ano eu referia que a camisola que vestia tinha sido feita pela minha mãe, ou que fora eu a fazer o meu estojo de crochet no verão, os colegas estranhavam.» Sentiu esse juízo até estar em voga o artesanato urbano, feito por gente com cursos superiores e empregos precários. «A mim entusiasmam-me a cor de um fio, a textura de uma meada, amadores que vestem as suas criações. Aprendi a tricotar meias e adoro!» Também ofereceu uma camisola à filha no aniversário pelo gozo especial de vê-la usar o que lhe faz. «Ainda me deixa mais feliz ela dizer orgulhosamente que foi a mãe a autora.»

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Segundo Sofia Reis, 43 anos e tricoteira até quando está no banco, a sonhar com os pontos que fará quando sair, o tricô tornou-se um escape mental para os dias atribulados que vivemos, evitando muitas idas ao psicólogo. «As pessoas estão fartas de se preocuparem só com trabalho. Precisam de entreter-se, de sentir-se realizadas, nem que seja fazendo umas botinhas de bebé para oferecerem à vizinha do lado.» Foi há pouco mais de um ano que chegou a casa e anunciou que ia abrir o Tricot das Cinco – uma loja pequenina que é também casa de chá e sala de aulas (Filipa Carneiro é uma das professoras que ensina lá). A família gozou mas ela, imperturbável, sentia falta de um sítio que se focasse mais nas fibras naturais e trouxesse produtos do exterior à oferta de mercado. «Aquelas camisolas de gola alta que picavam são coisa do passado, as lãs evoluíram imenso. De modo que as tenho de produção nacional, da América do Sul, Inglaterra, Japão, Dinamarca, Noruega e outros sítios com tradição em malhas.»

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Frustrada quando procurava bons tecidos e bons fios para fazer as suas peças – uma missão impossível há dez anos –, Rosa Pomar foi outra que só descansou ao abrir a sua Retrosaria, num segundo andar junto à Bica, em Lisboa. Para ela, o tricô é uma técnica que permite produzir peças de roupa apenas recorrendo a dois ou cinco pauzinhos e fio e, visto por esse prisma, é tão útil e importante como saber plantar batatas ou amassar pão. «Em setembro de 2004 organizei o primeiro encontro de tricô em Lisboa e fomos só três, o que mostra bem como a ideia era quase subversiva: estávamos a fazer em público aquilo que se fazia em casa, longe dos olhares reprovadores de quem achava, como a maioria, que fazer malha não só era coisa de velhas, como não ficava bem a mulheres cultas e independentes. Em 2014 fui convidada pelo Pavilhão do Conhecimento para organizar novo encontro e apareceram dezenas e dezenas de pessoas, não havia onde sentar todas.»

Aos 39 anos, Rosa é uma referência nacional neste universo: investigadora na área dos têxteis tradicionais portugueses, microempresária (a sua loja é uma gruta de maravilhas para os fãs das malhas), blogger (é ela A Ervilha Cor de Rosa), ensinadora e fazedora, autora do livro Malhas Portuguesas sobre a história e a técnica do tricô no país. «Atualmente faço malha quase todos os dias, seja porque uma das minhas filhas precisa de uma camisola nova, seja porque estou a planear o meu próximo fio ou uma aluna veio aprender uma técnica numa das minhas “consultas” de tricô», diz. Continua a haver preconceito, um desdém do conhecimento prático e do trabalho do corpo face a profissões que impliquem usar só a cabeça e as pontas dos dedos. Mas o orgulho supera tudo: «Se há tanta gente, como eu, a gostar disto, então porquê sentir-me esquisita? Além de que uma camisola feita à mão, em bons fios de fibras naturais, pode durar anos e anos, nada se lhe compara!»

PONTOS ALTOS
Para aprender a tricotar, dominar outros pontos ou descobrir materiais e inspiração.

Tricot das Cinco
Av. do Poeta Mistral, n.º 7, Lisboa (entre o Campo Pequeno e a Praça de Espanha). Telefone: 218 239 639. E-mail: geral@tricotdascinco.pt. Site: www.tricotdascinco.pt

ComTradição
Morada: Rua Acácio Paiva, n.º 14-A, Bairro de Alvalade, Lisboa. Telefone: 218 489 568. E-mail: cursoscomtradicao@gmail.com. Site: www.comtradicao.com

Retrosaria Rosa Pomar
Morada: Rua do Loreto, n.º 61, 2.º Dt.º, Lisboa. Telefone: 213 473 090. E-mail: rosapomar@mac.com. Site: http://retrosaria.rosapomar.com

ArtiModa
Morada: Rua José D’Esaguy, n.º 4-B, Lisboa. Telefone: 917 555 031. E-mail: artimodaloja@gmail.com. Site: www.artimoda.com.pt

DotQuilts
Morada: Rua dos Quartéis, n.º 79-B, Lisboa. Telefone: 213 627 173. E-mail: info@dotquilts.com. Site: www.dotquilts.com

Ovelha Negra
Morada: Rua da Conceição, n.º 100, Porto. Telefone: 220 935 847. E-mail: info@ovelha-negra.com. Página: http://blog.ovelha-negra.com

Lopo Xavier & C.ª, Lda.
As melhores lãs para tricô feitas em Portugal vêm desta loja, segundo Rosa Pomar. Morada: Praça de Carlos Alberto, n.º 17/18, Porto. Telefone: 222 000 488. Página: https://www.facebook.com/lopoxavier

Ana Pago
Fotografia: Paulo Alexandrino e Paulo Spranger/Global Imagens