OPINIÃO

A vida trata-nos como nós nos tratamos

Bernardo Pinto Coelho é um lutador ímpar contra a esclerose lateral amiotrófica.

Apanhado pelo choque do diagnóstico de uma doença degenerativa rara e progressiva, sem cura prevista pela medicina, Bernardo Pinto Coelho decidiu viver. Cada dia é uma batalha ganha – em seu nome e no de quem tem esclerose lateral amiotrófica. Escreveu O Que Eu Aprendi com E.L.A. (ed. Livros d’Hoje) para partilhar com os outros a experiência destes tempos.

QUEM É BERNARDO PINTO COELHO?
Define-se como um menino de Cascais, onde cresceu a brincar na praia e a praticar todo o tipo de desportos, com jeito especial para o futebol e o golfe. Licenciou-se em Gestão na San Diego State University, na Califórnia. Aos 37 anos foi-lhe diagnosticada esclerose lateral amiotrófica e a sua luta ajuda muitos doentes a ter esperança num futuro que lhes parecia negado.

Há quanto tempo foi apanhado pela esclerose lateral amiotrófica (ELA)? Como se apercebeu de que algo não ia bem no seu corpo?
_Foi-me diagnosticada há cinco anos – em junho de 2009, tinha 37 na altura –, e a primeira coisa que comecei por sentir foi falta de força na mão direita. A doença é degenerativa, progressiva e não tem cura. A perda das capacidades acontece aos poucos e muitas pessoas morrem ao fim de dez meses após os primeiros sintomas. Depois disso fiquei com as mãos muito magras, sem músculo nem gordura; a falta de forças passou para os pulsos, os antebraços e apanhou-me todos os membros superiores; daí passou para os membros inferiores e eu não conseguia, por nada, aceitar aquilo. Andei três anos a piorar gradualmente, desesperado, à procura de soluções que não existem.

Viveu sozinho todo o processo de evolução da doença, a ponto de tomar banho de água fria por já não conseguir rodar a torneira…
_Não sou pessoa de me queixar e não queria preocupar os outros, por isso fui fazendo as coisas o melhor que sabia. Já tinha caído algumas vezes na casa de banho e é um facto que podia ter tido um acidente mais grave, sozinho em casa. Hoje estou a morar com o meu pai e a mulher, Daiana, uma pessoa muito espiritual que confia que tudo nos acontece por uma razão. No meu caso, diz ela, foi um puxão de orelhas que me fez cuidar de mim, após anos e anos a pôr as necessidades dos outros à frente das minhas.

Fatores genéticos são uma das causas comuns da doença, mas diz que no seu caso ela surgiu porque as mitocôndrias ficaram tristes. Tristes com o quê?
_A ELA que eu tenho é de origem mitocondrial, o que significa que tinha alguma predisposição para a doença mas ela podia nunca aparecer, dependia do que fizesse com o meu corpo. E eu desrespeitei-o muito. Durante um mês e meio andei a dormir duas horas por dia, sempre stressado por ver que o restaurante que geria com mais três sócios estava a cair, mal conseguia pagar os salários. Então comecei a vender seguros para cobrir as despesas, cada vez mais angustiado, sem parar quando as tonturas surgiram e foram ficando violentas. Passei aquele tempo todo a dar palmadas nas minhas células até elas se cansarem de vez. O stress mata. No fundo, eu criei a minha doença.

Como encaixou na altura a ideia de que o seu destino seria ir parar a uma cadeira de rodas e morrer?
_Muito mal. A minha vida sempre foi desporto, dança e riso, fiquei revoltadíssimo. Cheguei a ter medo de mim por sentir que podia fazer mal a alguém que me irritasse, estragar a minha vida em três segundos num ataque de raiva qualquer. Sei hoje que o grande segredo está em aceitar tudo o que nos acontece de bom e mau, acreditar que Deus sabe de nós, lutar sem autopiedade e amar, porque o amor é a melhor coisa do mundo. Foi a partir daí que tudo mudou na minha vida. E é por isso que digo que este meu livro não é para gente doente: é para que pessoas com problemas percebam o seu caminho, como eu percebi o meu.

Aceitou a doença ao decidir que ia ser feliz independentemente das circunstâncias?
_Para estarmos bem com os outros temos de estar bem connosco, e eu demorei três anos e meio a aceitar. Acho que isso só aconteceu graças à terapia sintónica do Dr. Carlos Fugas, um autêntico milagre que me permitiu autocontrolar e baixar o stress interno, até hoje. Quando mudei o chip e passei a sentir-me em paz com  o mundo, comecei a melhorar, a namorar com a mulher dos meus sonhos, a ver tudo de bom desenrolar-se à minha volta. O Papa Francisco enviou-me um terço benzido por ele e prometeu rezar por nós, depois de a minha irmã Filipa lhe escrever a contar a minha história. Percebi que quando uma pessoa pensa positivo e se sente grata pelo que tem, atrai mais disso para si. Da mesma forma que se está queixosa, irritada, revoltada, só atrai o mal. Acredito muito na minha cura. Trabalho para ela todos os dias.

Diz muitas vezes que já devia estar morto. O que o faz ultrapassar o limite estatístico de três a cinco anos depois de detetados os primeiros sintomas?
_Ajuda eu ser positivo e ter espírito de sacrifício. Faço quatro horas de exercício todos os dias, incluindo natação, estimulação muscular, bicicleta, exercícios de elasticidade, musculação, plataforma vibratória e sauna para libertar os metais pesados do organismo. Tomo 16 suplementos antioxidantes. Faço a terapia sintónica que o Dr. Carlos Fugas criou para mim – exercícios de coordenação corporal que ajudam a sincronizar o cérebro e me acalmam. Mudei radicalmente de alimentação, porque está provado que no tempo em que éramos caçadores não havia este tipo de doenças, nem cancros, nada.

O livro de Andrew Strigner The Food Fallacy (O Mito da Alimentação) diz isso…
_Desde que cortei radicalmente com os açúcares, laticínios e cereais desinchei, fiquei com melhor pele e cabelo, mais energia. E isso teve um impacto brutal na minha saúde e na de muitas pessoas com esta e outras doenças: divulgo nas redes sociais a minha estratégia de mente, exercício físico, alimentação, suplementação e psicoterapia, e depois encaminho-as (sobretudo a estrangeiros, através de Skype) para o meu pai, Manuel Pinto Coelho, que foi quem desenhou o meu plano de recuperação e é especialista em antienvelhecimento, doenças degenerativas e autoimunes.

Acreditar em Deus traz-lhe consolo?
_Muito. Acredito que vou ficar curado e um dia poderei voltar a correr no Guincho. Sou mais grato do que era, ainda mais otimista. Ao fim de um divórcio, 16 empregos e várias relações fracassadas, estou finalmente a encontrar a minha estabilidade. Sinto que o meu propósito é fazer a diferença para muita gente, o que me enche de prazer.

Teve ajuda para escrever o livro? Precisa de ajuda no dia-a-dia para abotoar os botões, abrir uma lata, coordenar os talheres à mesa?
_Alguma, sim. Tenho dificuldade em escrever no computador, precisava de apoio para fixar a narrativa e gerir os testemunhos que recebo no Facebook. Lá em casa já uso talheres mais grossos do que o normal e terei um carimbo para assinar o livro no lançamento: tenho dificuldade em escrever com detalhe, só sou capaz de fazê- lo em letras grandes. Também escovo os dentes e faço a barba com as duas mãos e há muito tempo que deixei de usar camisas por não conseguir abotoá-las. Mas comecei a melhorar e tenho muita autonomia. Consigo conduzir, por exemplo.

Fez um vídeo com a ajuda de amigos (O Poder da Tua Mente) sobre como está a lutar contra o desfecho habitual. Como aconteceu o Cristiano Ronaldo vê-lo e partilhá-lo no Facebook dele?
_O meu amigo Fernando Santos ligou para o Cristiano Ronaldo, o agente dele falou- lhe na minha situação e ele partilhou o vídeo na sua página pessoal de Facebook. Com cem milhões de fãs, a história teve uma repercussão gigante, chegou a todo o mundo. E eu agradeço-lhe por ter acreditado em mim, foi mais uma coisa boa que me aconteceu ao aceitar a ELA. Agora estamos a tentar que ele e o José Mourinho, que conheci em 2004 quando treinou pela primeira vez o Chelsea, venham ao lançamento do meu livro. Será na data em que puderem. Já não acredito em impossíveis nesta fase e ambos são uma referência para mim, como profissionais e como pessoas. É importante esperar por eles.

Qual foi a repercussão do desafio do balde de gelo (Ice Bucket Challenge) no conhecimento que o público em geral tem da doença?
_Foi muito relevante na divulgação da esclerose lateral amiotrófica no país, antes muito confundida com a esclerose múltipla. E também a foi a partir do momento em que despejei o balde de água fria sobre mim mesmo que tudo começou a acontecer, porque uma coisa é as pessoas fazerem por solidariedade, outra é eu próprio ter a doença. Passei uma mensagem positiva e a partir daí toda a gente passou a saber, incluindo pessoas que me conhecem há muitos anos e ainda não se tinham apercebido. Acho que o meu pai estava mais nervoso do que eu, por saber que aquilo ia ter algum impacto e fazer agitar as águas. Mas tem tudo que ver com a minha estratégia de ser feliz. Se aceitarmos o que nos acontece, agirmos com bom propósito e lutarmos, Deus sabe que as coisas acabarão por fazer sentido.

O que aprendeu com a ELA, afinal?
_Que estar sozinho não é igual a estar só. Que a vida nos trata como nós nos tratamos. Que as pessoas veem o dinheiro como uma garantia de felicidade quando eu já só creio que o importante é sermos amados pelas pessoas certas e darmos o nosso melhor, sem pensar se somos ricos ou pobres. Soubesse eu que ia ficar com as pernas afetadas e teria corrido mais vezes, ido para a praia mais vezes. Só queremos aquilo que não temos, tal como só damos valor às coisas quando as perdemos. Hoje sigo as minhas convicções e faço aquilo de que gosto: sou DJ, estou a tentar montar a minha empresa de saúde e alimentação, entrego-me a Deus e durmo de consciência tranquila. Posso dizer-lhe que sou mais feliz do que nunca. As minhas mitocôndrias animaram-se.

Ana Pago
Fotografia: Carlos Manuel Martins/Global Imagens