OPINIÃO

A (r)evolução da manta alentejana

De símbolo de pobreza a tendência ethnic-chic.

Em Reguengos de Monsaraz há uma fábrica de lanifícios que ainda funciona com teares manuais de madeira, uma tradição que Mizette Nielsen, holandesa a gerir a fábrica há cerca de 40 anos, não se cansa de defender.

Em exposição na Fábrica Alentejana de Lanifícios está uma manta de 1915 pertencente a um enxoval, como ditavam as regras há cem anos. Tantas outras abrigaram pastores, no inverno, que percorriam os caminhos da transumância a baixas temperaturas, valiam-lhes as mantas que, até aos anos 1970, eram guardadas em caldeiras de azeite, do ano anterior, secas ao sol, para ficarem impermeáveis. Mizette Nielsen fala de cada uma delas. Do fundo, o som da lançadeira a lembrar que ali ainda se produz em teares manuais de madeira tão parecidos com a representação que lá está pendurada, o Tecelão, de Vincent van Gogh, datado de 1884. O mecanismo ainda é semelhante. Ao serviço apresentam-se quatro mulheres, que ocupam os bancos em tempos destinados aos homens, até que o futuro lhes trouxe a oferta de trabalho na construção. Cármen e Fátima, na fábrica há já 15 anos, Rita e Marília cruzam os fios verticais com os horizontais. Cruzam cores e motivos atuais. Cruzam a tradição com a modernidade.

«Antes de usar a lã de merino comecei por fazer mantas de algodão e tapetes de trapo. Em 1977-78 várias lojas abriram em Lisboa, como foi o caso da Altamira e da Pandora, e vendia-lhes uma parte da produção», conta Mizette. Nessa altura, também a exportação era um sucesso. A fábrica estava sempre presente em feiras nacionais e internacionais e tinha distribuidores nos EUA, Reino Unido, Escandinávia… O negócio corria bem e exigia mais espaço de trabalho, daí Mizette ter comprado um antigo lagar de azeite e ali instalado a fábrica, os teares, que ainda hoje estão a uso, e as dezenas de trabalhadores, sobretudo homens, que entretanto contratara. Teciam-se desde mantas, que continuavam a ser uma boa prenda de casamento, a tecidos para vestuário de peças de teatro – um dos clientes era o Teatro da Comuna. Tudo corria bem até ao ano de 1986. «No espaço de um mês, as vendas caíram a pique. Foi diabólico.» Portugal acabava de oficializar a entrada na CEE e de seguir a tendência generalizada de globalização. Intensifica-se a concorrência internacional, sobretudo de países do Oriente, e todos os clientes estrangeiros diminuíram as encomendas. «Em fevereiro, na Exponor, que era uma feira em que se faziam sempre bons negócios, jogámos às cartas, não havia absolutamente ninguém», lembra a industrial holandesa. Mais, o advento da globalização dispersava pontos de referência, enchendo o mercado de artigos de múltiplas proveniências: «As pessoas pensavam que estes trabalhos feitos aqui, em Reguengos, vinham do México, por causa das cores…»

Iniciava-se um processo sem retorno. As mantas alentejanas de agasalho iam sendo, cada vez mais, substituídas por edredões. Era um facto e ao mesmo tempo uma metáfora, que representava as alterações sociais, culturais e económicas não só de Portugal como de toda a Europa. Essa metamorfose era testemunhada por Mizette na loja que tinha, e tem, dentro das mulharas de Monsaraz. Nesta fase de promessa de prosperidade, as mantas eram símbolo de pobreza. A grande quebra de produção na Fábrica Alentejana de Lanifícios originou uma série de despedimentos: «O processo foi duro e tive de começar do zero. Não podia deixar que um produto tão importante histórica e culturalmente se fosse abaixo. Então, o que fazer?»

 

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DO ALENTEJO PARA O MUNDO

Na época, Mizette viu nos tapetes uma forma de dar continuidade ao projeto. A fábrica não voltou a recuperar a pujança de outros tempos mas continua ativa até hoje. Aos tapetes juntaram-se os tecidos para revestir pufes, fazer cortinados, aplicar em calçado como, a título de exemplo, o da marca portuguesa Buenos Aires. «Aplicar esta história a novas utilidades ajuda a que o público desperte para a existência deste material e técnica.» O público em geral, os hotéis e até estilistas de renome internacional.

A relação comercial entre a fábrica e a hotelaria começa a estreitar-se quando, a dado momento, os turismos rurais financiados são obrigados a ter produtos locais. Mizette recebia muitos pedidos de orçamento e a partir daí começou a funcionar o boca-a-boca. Hoje, o L’and Vineyards tem cem tapetes tecidos na fábrica e também os há no Esporão, entre outros espaços turísticos da região. Há três anos, um telefonema inicia uma outra relação promissora e que leva o nome da Fábrica Alentejana de Lanifícios além-fronteiras. Vinha da parte de Kenzo Takada. O estilista japonês, que teve conhecimento da existência da fábrica, em Paris, num evento ligado à decoração, veio pessoalmente a Reguengos visitá-la e ali nasceram as primeiras encomendas. Além do tecido que segue para a Kenzo Home, no Japão, sai daqueles teares de madeira o tecido para os coletes encomendados pelo estilista. O corte e a costura ficam a cargo de uma das funcionárias da fábrica, a Rita, que usa um dos mais recentes investimentos de Mizette: a máquina de cozer profissional. Rita Godinho tem 30 anos, nasceu e cresceu na Rua da Fábrica das Mantas. O edifício, a dona e o que ali se faz é-lhe familiar, por isso, quando precisou de um plano B para a sua vida profissional procurou-o nos teares. Aos 16 anos, saiu de Reguengos e rumou a Almada para continuar os estudos. Acabou formada em Educação Visual, lecionou até 2012, ano em que ficou sem colocação e decidiu fazer o mestrado em Artes Visuais na Universidade de Évora. Na fábrica começou a trabalhar em 2013, ao abrigo de um estágio profissional que se alongou por um ano. Depois de um interregno de três meses, período em que regressou à Grande Lisboa para trabalhar na Leya, voltou aos teares. Aquilo de que mais gosta nesta profissão de tecelã? «Sou de artes visuais, no final do dia preciso de ver o produto feito.» Com Mizette, Rita abraçou um novo desafio: a confeção de casacos em lã. Faz o tecido nos teares, depois corta-o segundo os moldes e cose. Estão à venda na loja de Monsaraz e alguns já voaram para a Alemanha. Haja ideias para que os teares não deixem de laborar.
HOLANDESA QUE DEFENDE AS MANTAS ALENTEJANAS HÁ 40 ANOS
Mizette Nielsen nasceu nos Países Baixos, viajou e estudou por França, Inglaterra, Espanha até que aterrou em Cascais a convite de uma amiga casadoira que conheceu em Salamanca. «Em 1961 ou 1962.» Portugal conquistou-a pelos mesmos motivos que nos conquista a todos. Estudara Línguas e Literatura – sabia que o holandês não iria apresentá-la ao mundo. Domina vários idiomas, mas escolheu um dialeto da tecelagem e dele fez vida. Ainda antes dos teares, cocriou a Juno, agência de modelos e figurantes para cinema e publicidade, participou na produção de vários filmes, entre os quais o 007 Ao Serviço de Sua Majestade. Para o lançamento dos hot pants da boutique Delfieu – superpopulares nas década de 1960 e 70 –, «Mizette põe cerca de vinte modelos de microcalções e botas da Marizinha («a única que tinha do número 39 para cima») a descer de bicicletas emprestadas da agência até ao Marquês de Pombal e daí até ao Rossio. Lá, entregam os velocípedes aos donos e vão engraxar botas», lê-se na página 138 do Lx 60 – A Vida em Lisboa nunca Mais Foi a Mesma, de Joana Stichini Vilela e Nick Mrozowski. E este será apenas um dos muitos episódios da passagem de Mizette por Lisboa e pelos bastidores do mundo do espetáculo e da moda. E é com este espírito inovador que chega a Reguengos de Monsaraz, em 1977.

Mulher, estrangeira, com uma criança, aluga a Fábrica Alentejana de Lanifícios que funcionava, à época, no centro da vila. Começa o negócio com cinco funcionários, todos homens. Tudo era uma novidade. Lembra que no início a adaptação não foi fácil, mas progressivamente foi conquistando o seu lugar na comunidade. A mesma que hoje a considera uma das pessoas mais dinâmicas e empreendedoras da região, como nos comenta uma das funcionárias da fábrica.

A Fábrica Alentejana de Lanifícios foi criada oficialmente nos anos 1930. Em 1958 foi-lhe atribuída, em Bruxelas, a medalha de ouro para o melhor design e qualidade. Em Helsínquia, já sob os comandos de Mizette, foi premiada pelos mesmos quesitos. Mantas Alentejanas, Arte e Tradiçãoé um livro editado pela holandesa, com fotografia de Paula Oudman. Fala da fábrica, das mantas e mostra-as no seu contexto. Lê-se: «As tecedeiras firmam a burra, uma trave na traseira do tear. A partir daqui, empurram a queixa e carregam nos pedais. A queixa é a peça onde se encaixa o pente. Serve para bater cada volta de fio na teia de encontro ao já tecido, de forma a manter o trabalho apertado. O pente, encaixado na queixa, é geralmente feito de cana. Por aqui passa a teia. A tecelagem é feita passando o fio pela teia com a lançadeira.» Este excerto parece-lhe escrito numa outra língua? Seja qual for a resposta, vale a pena a visita à loja ou à fábrica, onde os teares estão a uso. Aqueles magníficos instrumentos tecem parte da nossa história rural. Fazem-no bonito e com grande qualidade, como aliás noticiava aT Magazine do TheNew York Times, em dezembro passado. Mas estão em vias de extinção.
ONDE ENCONTRAR

As peças produzidas na Fábrica Alentejana de Lanifícios podem ser compradas na loja Mizette, em Monsaraz (tel. 266.557.159; mizzete.pt), mas também n’A Vida Portuguesa (avidaportuguesa.com), e Flores do Cabo, em Colares, Sintra (floresdocabo.pt).

 

Petra Alves
Fotografia de Paulo Spranger / Global Imagens