OPINIÃO

A rapariguinha do shopping

Assim cantava a música de Rui Veloso, na letra de Carlos Tê.

Faz hoje trinta anos [fez ontem, a coincidir com a edição da NM de 27 de setembro] que abriu o Centro Comercial das Amoreiras, em Lisboa. Mudou Portugal, ditou novas maneiras de comprar e de trabalhar e a ascensão de uma certa classe média à frente e também atrás do balcão. É tempo de fazer a arqueologia dessa revolução social.

«Quando voltares traz-me um bocadinho de sol no saco.» Cristina Lourenço, 42 anos, repete a recomendação diariamente, no fim do turno do almoço. Sónia Évora, dois anos mais nova, acena que sim, claro que sim – mesmo que seja dia de dilúvio não há como esquivar-se à promessa de luz natural. Dentro de um centro comercial, os dias brilham todos iguais e Cristina, que trabalhou uma década inteira num bar de praia na Caparica, ainda não se habituou ao artifício branco, fluorescente. Trabalha há pouco mais de dois anos no restaurante O Madeirense, de portas abertas desde a fundação do shopping. Há umas semanas, no entanto, chegou o alívio possível. A zona de restauração do Amoreiras sofreu obras e agora há janelas, há dia e noite atrás dos vidros. «Claro que fizeram isto para os visitantes do centro, mas ninguém imagina a alegria que isto significa para nós. Às vezes saio do restaurante um minutinho só para espreitar o céu.» Sente-se mais gente, diz Cristina, quando o sol da tarde não é apenas o que Sónia lhe traz no saco.

Por causa da falta de sol, ou apesar dela, a verdade é que os centros comerciais são um mundo à parte. Têm regras de sociabilização próprias, códigos de trabalho e conduta diferentes, alegrias e desesperos específicos de quem vive atrás de um balcão. No Centro Comercial das Amoreiras percebe-se claramente como o país e o consumo mudaram, como a vida e o emprego dos portugueses se tornaram mais elásticos e acelerados. Este foi, afinal de contas, o primeiro espaço do género em Portugal. E foi o anúncio de um tempo que estava para vir. O Amoreiras cumpre hoje 30 anos redondos, viu centenas de réplicas suas proliferar. E, apesar de estar localizado numa zona pouco urbanizada e sem metro à porta, tem aguentado o embate da concorrência.

Um estudo de 2014 da consultora imobiliária Cushman & Wakefield estimava em três milhões de metros quadrados a área dos centros comerciais em Portugal. São 267,8 metros quadrados por cada mil habitantes, o que coloca o país no topo europeu de grandes superfícies de consumo per capita, à frente de França (267,4 metros quadrados), Reino Unido (264), Espanha (234,8) e Alemanha (173,7). «A sociedade portuguesa mudou com o aparecimento dos shopping centers», diz Sofia Alexandra Cruz, socióloga e professora na Universidade do Porto, além de autora do livro Os Trabalhadores dos Centros Comerciais. «Ao longo da segunda metade dos anos oitenta, e dos anos noventa, estes espaços tornaram-se a aspiração das novas classes que emergiam depois de um período de grande pobreza do país.» O altar dos sonhos de um país saído de uma ditadura e a dar os primeiros passos na aventura europeia.

Quando o Amoreiras abriu, organizaram-se excursões de todo o país para visitar o shopping. Autocarros de norte a sul, juntas de freguesia, associações e empresas a planearem visitas à novíssima catedral do consumo português. O edifício desenhado por Tomás Taveira andava nas bocas do mundo – as torres marcavam uma nova modernidade para Lisboa, tinham a altura do Castelo de São Jorge e não deixavam ninguém indiferentes. Era, no dia de abertura, o maior centro comercial da Península Ibérica e o quarto maior da Europa. Meses depois, Portugal haveria de aderir à União Europeia, construir infraestruturas, reformular a economia. Uma nova classe emergeria nos anos noventa, novos-ricos com uma nova capacidade de compra.

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Carla está há 30 anos no centro. Foi aqui que conheceu o marido e fez alguns dos melhores amigos.

CARLA GUERREIRO chegou à Loja das Meias seis meses depois da abertura do centro. Tem 47 anos, na época era uma miúda, 18 aninhos acabados de fazer. «Tinha acabado o liceu e este foi o primeiro e único emprego que tive na vida.» Há trinta anos, não havia gente a trabalhar ali com a idade que hoje ela tem. «Éramos todos jovens, a maioria tinha saído do liceu, como eu. Os primeiros anos ficaram marcados por um grande deslumbramento, era de facto o admirável mundo novo.» Ela, que tinha crescido em Almada, cumpria agora uma vida diferente dos vizinhos. Horários flexíveis, fardas bonitas. As roupas que vendia passariam a marcar o seu estilo. «Raramente tinha dinheiro para as comprar, mas é como se projetasse nas minhas clientes os meus próprios sonhos, aquilo que gostaria de vestir vestiam elas, e eu ficava feliz por escolherem as saias ou as blusas que eu própria preferia.»

Anos antes, no Porto, a abertura do Shopping Brasília tinha provocado um efeito tremendo na cidade. Ainda não era um fórum de cadeias internacionais como o Amoreiras, mas estava a meio caminho entre os velhos centros comerciais da década de setenta e as grandes superfícies pós-modernas dos noventa. O letrista Carlos Tê encontrou aí terreno para escrever sobre a ascensão de uma nova classe laboral e passou ao papel A Rapariguinha do Shopping, que Rui Veloso converteria em sucesso musical. Foi em 1980. Segundo a socióloga Sofia Alexandra Cruz, a letra serve de metáfora perfeita para o primeiro impacto que os centros comerciais tiveram na sociedade portuguesa: «Vinham trabalhar para os shoppings pessoas com proveniências sociais muito específicas. Eram pessoas que antes trabalhavam nas fábricas e agora ascendiam a um mundo mais limpo, mais glamoroso. Havia uma ideia de prestígio associada, que fazia muitas vezes os trabalhadores distanciarem-se das suas origens e abraçarem algo que os diferenciava dos seus pares.»

Carla Guerreiro, por exemplo, conheceu o marido no centro comercial. Ele trabalhava aos fins de semana na secção masculina da Loja das Meias, começaram a namorar, hoje têm uma filha. Fez grandes amigos naquele espaço. Vanda Sardinha, que tem 48 anos e trabalha desde os 20 no restaurante O Madeirense, não é saudosista, mas admite um encanto no passado: «Quando entrei aqui era uma miúda que vinha da Calheta e não sabia nada de nada. Então eu sentia um impacto brutal ao entrar aqui todos os dias.» Era tudo novo, toda a gente que era gente vinha ao Amoreiras. «Estávamos sempre a cruzar-nos com pessoas famosas e, de alguma maneira, sentíamo-nos valorizados por isso.» Já não vêm ao centro, os famosos? «Vêm, a diferença é que há trinta anos alguém era famoso porque tinha trabalhado muito e merecia o seu estatuto. Agora é-se famoso com três episódios de novela.»

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A RAPARIGUINHA DO SHOPPING pedante que Carlos Tê descreveu nos anos oitenta há muito que desapareceu dos centros comerciais. O próprio retalho encarregou-se de uniformizar as condições laborais das pessoas que aqui trabalham – e fê-lo por baixo. Se na data de abertura havia 336 lojas no Amoreiras, hoje elas não são mais de 224. As lojas cresceram em espaço mas reduziram-se em variedade: a maioria pertence a cadeias internacionais, presentes em praticamente todos os 190 espaços do género que existem em Portugal. «Os centros comerciais tornaram-se os locais onde encontramos maior precariedade entre os trabalhadores portugueses», diz Manuel Guerreiro, presidente do sindicato dos trabalhadores do comércio e serviços. «As empresas cumprem os mínimos e a tal ideia de glamour que existia em torno deste ofício foi substituída por outro conceito, de que este é um depósito de empregos provisórios, duros e mal pagos.»

EM 2014 EXISTIAM, segundo o International Council for Shopping Centers, 91 597 empregos diretos nos centros comerciais portugueses. «Se antes tínhamos sobretudo trabalhadores-estudantes ou pessoas não qualificadas que ganhavam salários baixos, agora temos trabalhadores altamente qualificados que não encontram alternativas e por isso trabalham aqui», diz Manuel Guerreiro. Professores sem colocação, jovens com formação superior que não encontram emprego nas suas áreas, trabalhadores seniores que perderam os postos de trabalho e não encontram alternativas. «Aquilo que era a aspiração dos anos noventa tornou-se o desespero desta década. A média de ordenados pouco ultrapassa o salário mínimo e o trabalho acontece em circunstâncias particularmente difíceis.»

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Ana Borges está a tempo inteiro no Amoreiras.

Ana Borges tem 26 anos e sorriso fácil. Está há três meses na Rituals, uma empresa holandesa de cosmética, mas não sabe se lhe vão renovar o contrato. «Eu tinha dois part-times em shoppings, este e outro no Almada Fórum, numa loja de malas. Mas trabalhava 51 horas por semana para ganhar novecentos euros.» O corpo não aguentou a carga, com os dias passados de pé a atender o público. «Agora faço quinhentos euros por seis horas diárias. Os meus pais são de Matosinhos mas têm uma casa em Corroios, como não tenho de pagar renda dá para ir aguentando as despesas. Mas é sempre muito apertado.»

Ela mesma se define como uma rapariga vaidosa, anda sempre de pestanas postiças e unhas de gel, que tem de cortar rentes porque são essas as regras de quem trabalha num centro comercial. «Não me queixo, podia ser pior.» Pior era não ter emprego, claro. Mas também gosta do perfil de loja onde agora passa os dias, promove uma ideia de serenidade num espaço que é todo animação. O sonho não era, no entanto, este. Ana tirou uma licenciatura em Geografia e Planeamento Urbano, na Universidade Nova de Lisboa. «Foi quando vim para a capital que comecei a trabalhar em shoppings, para ajudar a pagar as propinas. Depois do curso concorri a dezenas de trabalhos e nunca consegui vaga. Aconteceu o mesmo aos meus colegas, há muitos a trabalhar em centros comerciais.»

Vida de shopping é dura, horários trocados uma e outra vez, a vida pessoal difícil de estabilizar. «Às tantas até prefiro trabalhar, porque me distraio, não fico a pensar nas saudades que tenho de casa, da minha família, no falhanço de não ter conseguido cumprir os meus sonhos.» Em miúda passava os dias a ver livros de urbanismo da biblioteca do avô. Agora não se aproxima sequer deles, é uma tortura sentir que tem uma vocação a que não pode dar asas – e, ironia, passa a maior parte do tempo num dos ícones urbanos da cidade de Lisboa.

O facto que a socióloga Sofia Alexandra Cruz achou mais surpreendente em toda a sua investigação sobre os trabalhadores dos centros comerciais foi o impacto que este tipo de ofício tem na saúde das pessoas. «As trocas de horários constantes têm consequências graves. As pessoas estão constantemente a mudar os períodos de vigília e não vigília, o que afeta o sono. Depois há uma grande incidência de depressões, e no fundo isso não é difícil de perceber.»

São horários incertos que anulam a vida familiar. É o cansaço constante que reduz a disponibilidade para estar com os outros. E a falta de luz solar. E além de tudo isto há a tortura do confronto – nestes anos de crise, ainda que a faturação seja relativamente estável, a afluência de público aos centros comerciais diminuiu drasticamente. «As pessoas não vão ao local da tentação se não tiverem dinheiro para comprar os bens», diz Manuel Guerreiro. «Ora estes trabalhadores têm de superar todos os dias a vontade de ter algo que o seu baixo salário não lhe permite adquirir. Se não defendermos estas pessoas, estamos a transformar as rapariguinhas do shopping em trapos do shopping

NOS PRIMÓRDIOS DO AMOREIRAS havia menos lojas de grandes cadeias e mais comércio tradicional dentro do centro. Lojas de rua que estavam a encontrar uma versão indoor pela primeira vez. E aí as relações de trabalho eram mais explícitas. «É um orgulho trabalhar num restaurante que está aqui desde o início», diz Sónia Évora. «Ao contrário de outras lojas, aqui sinto que somos uma família, que há flexibilidade para tratarmos de um problema pessoal, que não somos apenas um colaborador, somos uma pessoa.» Ela, por exemplo, negociou com o proprietário do estabelecimento, Manuel Gonçalves, fazer uma pausa entre os almoços e os jantares para ir buscar o filho à escola e levá-lo à ama. Cristina Lourenço, que já tem os filhos criados, só entra à uma da tarde – mora na Margem Sul e dá-lhe mais jeito fazer todo o horário de seguida. É por isso que, quando a amiga sai para a rua, faz questão de lhe pedir que traga um pouco de sol no saco.

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Sónia gosta de trabalhar n’O Madeirense, no Amoreiras desde a fundação do shopping.

Sónia é cabo-verdiana, veio para Portugal há uma década. Estudou Turismo em Castelo Branco e passou vários anos a trabalhar num café, em Belém. «Depois o café fechou, vim para aqui. Gosto desta coisa de me vestir à madeirense todos os dias, é divertido. E gosto da equipa com quem trabalho, gosto mesmo muito. Mas a minha vida é dura e tenho de fazer das tripas coração para sobreviver.»

Todos os dias pega ao trabalho às 11h30, sai às 15h30 e regressa às 18h30 para o turno da noite, até às 23h30. Não é que ganhe mais do que a maioria dos trabalhadores dos centros comerciais – «600 euros mais gorjetas, mais coisa menos coisa» – mas apesar de tudo sabe que, em contexto, não está mal de todo. Sónia tem uma insuficiência renal e já perdeu parte de um rim, há dias em que as dores são tantas que tem de correr para o hospital. «E quando é fim do mês às vezes não tenho fundos para pagar as taxas moderadoras nas urgências, 20 euros a mim fazem toda a diferença do mundo. Então o patrão ajuda-me. Tenho sorte. É um homem bom.»

Sónia tem um filho de 5 anos, o Rafael é reguilice pura. «De manhã vou pô-lo à escola e à tarde, entre turnos, vou buscá-lo para o levar à ama, pelo caminho paro um bocadinho no parque infantil, é assim que faço para não perder o crescimento do meu menino.» É nessas três horas de pausa que ensaia a maternidade, na verdade é numa hora apenas, que cada viagem do trabalho a casa ocupa-lhe uma hora. «Se eu não tivesse uma condição de saúde voltava a Cabo Verde. É lá que está o meu marido, a minha família poderia apoiar-me e, mesmo que ganhasse um pouco menos, também gastaria menos.»

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Sónia tem um filho de 5 anos, o Rafael. Entre turnos, sai disparada do trabalho para ir buscá-lo e passar tempo de qualidade com ele.

Hoje é sábado, dia de gelado. Sónia sai disparada d’O Madeirense para a paragem de autocarro e, mal chega, põe-se a ver se passa primeiro o que a deixa em Sete Rios ou o do Rossio. «Se há coisa que qualquer trabalhador de centro comercial traz na cabeça é o horário dos transportes públicos», vaticina. Às vezes, quando sai muito tarde, tem de apanhar táxi até ao Marquês de Pombal, o metro para Sete Rios e o comboio para a Amadora, onde vive com o rapaz. «Quando vou sempre apanhá-lo já ele dorme, vem ao meu colo. Só tenho esta horinha da tarde para ver o Rafa.»

O miúdo desce em corrida as escadas do prédio da ama e agarra-se à mãe. Metem-se os dois no parque infantil e jogam uma boa meia hora à macaca. «Rafa, agora a mamã tem de ir trabalhar», e o rapaz choraminga. Então Sónia pega-lhe na mão para ir ao café comprar um corneto, ritual dos sábados de verão. Fosse inverno e comia um bolo, é o luxo possível. Os dois riem que se fartam, prometem ver desenhos animados no dia de folga, o miúdo tem as regras oleadas e conta tudo o que comeu nesse dia, em todas as refeições. A casa, ali ao lado, tem renda de 400 euros, o dinheiro do passe são 50, mais 100 para a ama e o resto seja o que Deus quiser. E no entanto esta mulher encheu-se de sorrisos, foi passar aquela hora com o filho porque não quer deixar de o ver crescer nem quer deixar de sentir que está viva. Quando regressa ao Amoreiras e entra no restaurante, leva um dia radioso de sol, dentro do saco, para a sua colega e amiga Cristina.

A RAPARIGUINHA DO SHOPPING

A rapariguinha do shopping
Bem vestida e petulante
Desce pela escada rolante
Com uma revista de bordados
Com um olhar rutilante
E os sovacos perfumados

Quando está ao balcão
É muito distante e reservada
Nos lábios um bom bâton
Sempre muito bem penteada
Cheia de rímel e crayon
E nas unhas um bom verniz
Vai abanando a anca distraída
Ao ritmo disco dos Bee Gees

You should be dancin’
You should be dancin’
You should be dancin’
You should be dancin’

A rapariguinha do shopping
No banco do autocarro
Faz absorta a sua malha
Torce o nariz delicado
Do suor da populaça
E manifesta o seu enfado
Por não haver primeira classe

Já não conhece ninguém
Do lugar onde cresceu
Agora só anda com gente bem
E vai ao sábado à noite à boite
Espampanante e a mascar chiclete
No vigor da juventude
Como uma estrela decadente
Dos bastidores de Hollywood

A letra de Carlos Tê, musicada por Rui Veloso em 1980, anuncia a chegada de uma nova era de consumo e emprego em Portugal.

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens