OPINIÃO

A moda a dois ritmos: slow e fast

Para usar só nesta estação ou para durar (e estar atual) vários anos?

Rápido ou lento? A indústria da moda está a reinventar-se e há cada vez mais criadores a deixar as coleções de pronto-a-vestir (fast fashion) para se dedicarem às de alta-costura ou de autor (slow fashion).

A moda do século xxi, produzida por marcas de grande consumo como Zara e H&M, é feita para ter uma vida curta no tempo, quer pelos materiais utilizados quer pelos preços praticados. Em contrapartida, no outro lado da balança está a slow fashion, um conceito criado pela investigadora do Centro de Moda Sustentável no Reino Unido, Kate Fletcher, em 2007, que reflete a necessidade de uma desaceleração no ritmo de consumo e de produção da moda, logo das próprias tendências. Esta consciencialização da necessidade de uma moda que não precisa de ter uma cadência de seis semanas, ritmo que não favorece o próprio negócio, pela sua inerente desvalorização, está a crescer junto dos criadores e dos próprios consumidores.

Recentemente, uma importante investigadora e trend hunter [caçadora de tendências] holandesa de moda, Li Edelkoort, considerada pela revista Time uma das mais influentes figuras do setor, publicou o Manifesto Anti Fashion, em que apresenta as razões que a levam a acreditar porque é que a moda como a conhecemos está obsoleta: a exploração da mão-de-obra, em condições sub-humanas; o recurso a produtos que são tóxicos para o meio ambiente; e o ritmo desenfreado da produção provocando desperdício em excesso sem ter em linha de conta as consequências ambientais e sociais são algumas das razões. As mais sérias.

«Os consumidores de hoje e os de amanhã vão escolher sozinhos, começar a desenhar e a criar o que vestem», afirma Edelkoort, que salienta o facto de cada vez mais pessoas, de diferentes gerações, mostrarem um interesse mais realista sobre a moda e a sua contextualização social, económica e política, na procura da diferenciação e não da massificação. A reforçar esta ideia estão alguns conceituados designers, como Jean-Paul Gaultier, que em 2014 anunciou o fim da sua linha de pronto-a-vestir, alegando que «o ritmo desenfreado de criação» lhe limitava a liberdade para inovar, além de ter de enfrentar constantemente os concorrentes de marcas mais «rápidas» e baratas, as chamadas fast fashions, que lhe copiavam as coleções. Li Edelkoort adianta também que a alta-costura é um dos setores que vão voltar a conquistar território, obtendo o protagonismo que merece, porque «é no atelier de alta-costura que se encontra o lado laboratorial. A profissão de couturier (costureiro) irá ganhar protagonismo pela sua técnica de exclusividade, inspirando muitas outras».

Em suma, a slow fashion promove a criação de autor, linha seguida por grande parte dos designers de moda portugueses, respeitando os seus ritmos, enaltecendo a tradição produtiva e criativa, e respeitando o meio ambiente e as condições de trabalho das populações. A fast fashion, por seu lado, funciona ao contrário, com alguns resultados nocivos, como os da comida rápida (fast food).

Catarina Vasques Rito
Fotografia @