OPINIÃO

A feminista que tem Angola a seus pés

Num meio machista como é o da kizomba, Pérola dá nas vistas.

Ontem à noite subiu ao palco do Festival Sudoeste a cantora angolana que mais discos vende.  Esta é a história da vida de Pérola. Da fuga por causa da guerra à licenciatura em Direito em Pretória, e o caminho para um sucesso que ela escolheu fazer, dando voz às mulheres e aos seus direitos. Feminista, ela? Sim, mas uma feminista muito sexy.

Pérola. A cantora angolana que mais vende. Um fenómeno – em Angola e, também, em Portugal, onde atuou ontem, no palco do Festival Sudoeste. Um produto da kizomba, esse género que se tornou o elo de ligação cultural mais recente entre os dois países. Sensualidade à flor da pele, estilo muito feminino, coxas grossas à mostra, minissaias atrevidas, sorriso largo, roupas coloridas, roupas deslumbrantes, até, e as baladas para dançar no roça-roça.

Mas Pérola não é só um produto dessa música popular. Mais de Mim, o seu disco produzido entre Luanda, Lisboa e Miami, vendeu 40 mil exemplares em nove meses – um recorde. E tem uma mensagem, a mesma que transmitem os seus temas fortes, para o universo feminino. «Já não há desculpa! Podemos fazer tudo. Podemos ser mães, esposas e ainda trabalhar e fazer “n” coisas. E temos essa capacidade. Por isso é bom chamar a atenção e dizer: “nós podemos, nós podemos, mulheres, podemos!” E se não nos derem esse apoio, podemos fazer tudo sozinhas.» Talvez seja essa, também, a razão do seu sucesso.

E tu/ a sorte que tens/ uma grande mulher em casa/ porque senão/ ias dançar a tua música. A letra de Tens Sorte, tema do álbum, ilustra bem o universo da cantora: a mulher que toma as rédeas da sua relação, independentemente do que faça. No vídeo, Pérola encarna uma mulher que, cansada da falta da atenção e devaneios do marido, decide deixá-lo a braços com a lida da casa e com os filhos, enquanto se diverte com as amigas… observando os desastres domésticos através de câmaras de vigilância instaladas em casa. «Em Angola, alguns homens já me disseram “ai Pérola, só cantas contra nós!”. Eu não canto contra os homens, eu canto a favor das mulheres!»

Nascida na província do Huambo, Pérola tem a quem sair. É filha de mãe médica e de pai advogado e músico (Manuel Sassingui, já falecido, fez parte de um grupo musical, Estrelas do Sul). Foi em casa, em família, que ganhou esse sentido de responsabilidade de transmitir uma mensagem positiva, em especial às mulheres. Não renega, portanto: é uma feminista. «Acho que sim. Visto muito esse papel, de defender os direitos da mulher, de espalhar a capacidade, a força que a mulher tem.»

nm1211_perola02

Uma exceção na, tantas vezes, machista música moderna africana. «A Pérola espelha a ideia de que a mulher tem de se valorizar para, depois, o seu valor não depender do que os outros pensam ou não dela», diz o cantor Anselmo Ralph. «Ela é, definitivamente, um exemplo a seguir. Tem-se tornado cada vez mais um ícone feminino e um bom exemplo.» Big Nelo vai mais longe. Diz que «ela é a prova de que é possível uma mulher vingar no mercado angolano. Mulheres como a Pérola devem existir para acabar com aquela ideia de que o sexo feminino é o sexo fraco», diz o músico e produtor angolano. «Ela não é apenas bonita. Ela encanta, tem aquele brilho especial. O nome tem tudo que ver com ela.» Estas palavras são do músico C4Pedro, um dos produtores de Mais de Mim, o terceiro álbum da carreira de Pérola.

Pérola não se importa nada de ser um exemplo. Ou modelo para as novas gerações. «Vivemos um período de guerra muito longo. Famílias desfeitas, muitas jovens sem lar, sem alguém que lhes pudesse educar e ensinar o caminho certo. E nós, como figuras públicas, também temos esse papel.» Com 9 anos, com a mãe e os três irmãos, teve de mudar-se do Huambo para Luanda por causa da guerra civil. «Não levávamos nada. Só um par de sapatos que me apertava mas tinha de usar porque era o único que tinha.» Quatro anos depois foram para Windhoek, capital da Namíbia. «Cresci muito rápido. Não tive tempo de ser criança naquela transição. Aprendi a valorizar o que nós éramos e o que somos.» Do Huambo ficou a saudade e as memórias de uma infância divertida. «Eu era muito maria-rapaz. Gostava de jogar futebol, era muito brincalhona, sempre na rua, a minha mãe tinha de chamar-nos. Havia muita honestidade naquela época. O vizinho era pai e mãe.»

A licenciatura em Direito foi imposição da família, a música uma paixão que nasceu praticamente no berço. «Sempre quis dar nas vistas! Era aquela menina que estava sempre em passagens de modelos do bairro. Cantava na igreja, ensinava a família a dançar kizomba.» Estudou na Universidade de Pretória, na África do Sul. E aqui teve a primeira grande oportunidade no mundo da música, no programa de caça talentos Coca Cola Pop Stars. Acabaria por ser desclassificada por não ser sul-africana.

«Na altura, a Sony África do Sul já queria trabalhar comigo. Só que tive de optar e continuar os meus estudos. Depois, fiquei com aquele bichinho.» Continuou a perseguir o sonho da música, procurou um produtor angolano e, em 2004, nasceu o primeiro álbum, Os Meus Sentimentos. Dez mil cópias vendidas. Seis anos depois, Cara & Coroa confirmaria o sucesso. Vinte mil cópias. O terceiro, Mais de Mim, já vai em quarenta mil – e um séquito de fãs. Muitos deles interagem com a cantora graças às redes sociais. São 158 mil no Instagram, 193 mil no Facebook, de Angola ao Brasil, passando por Portugal, EUA ou França. «Quando posso estou sempre lá, a publicar uma coisa ou outra. Torna-se um bocado viciante.»

O novo álbum inclui um dueto com Ivete Sangalo. Foi com a rainha do axé que Jandira Sassingui (este é o nome verdadeiro de Pérola) cantou em Março no MEO Arena, durante o concerto da cantora brasileira. «Foi um sonho concretizado», diz a angolana. Deus Te Fez Mulher nasceu quando Ivete Sangalo foi a Luanda atuar num festival em que Pérola também participava. «Cruzámo-nos nos camarins e fui cumprimentá-la. Ela disse “vamos cantar hoje?”»

«Não fico vaidosa por causa destas coisas. Fico contente», garante. «Estou a trabalhar por isso. A minha mãe sempre me disse que não adianta voar muito porque depois a queda é maior.» A figura materna continua a ser pilar, força e exemplo. «Eu tenho de ser para a Valentine como tu és para mim», costuma dizer à mãe.

Valentine é a filha de três anos que tem com Sérgio Neto, diretor executivo da Semba Comunicação. «Ele acompanha-me e só não vai mais longe porque temos de dividir as coisas, para não nos invadirmos. Nem eu no trabalho dele nem ele no meu. Mas se eu fizer um espetáculo grande em Angola, ele fica a ver o que pode fazer. Se tiver de vender bilhetes, vende.» Um homem a apoiar a mulher e, se for preciso, a ficar nos bastidores? Sim, as coisas por Angola estão a mudar, garante. Uma canção de cada vez.

A POP ANGOLANA É UM FENÓMENO. E VEIO PARA FICAR?
Só se ouve música angolana nas rádios? É verdade. Os artistas angolanos estão pelas cidades a marcar as paredes com os cartazes dos seus múltiplos concertos? Também. Parece que a música angolana tomou de assalto a cena pop nacional. Só no último ano, Jajão, de Master Jake, Vamos Ficar por aqui, de C4Pedro, e Não me Toca, de Anselmo Ralph, ocuparam os lugares cimeiros dos tops das rádios nacionais. Tudo se deve, em grande parte, ao músico Eduardo Paim, na década de 1990. «Foi ele quem começou o movimento que hoje conhecemos como kizomba», diz Nuno Sardinha, coordenador de programas da RDP África. «Hoje em dia é quase desconhecido, mas a Mariza era corista dele.» Mais tarde foram os SSP (grupo de rap formado por Big Nelo, Paul G., Jeff Brown e Kudy) que deram o pontapé de saída para os «novos ritmos de Angola». A partir de 2000, a fusão dos ritmos urbanos com as sonoridades tradicionais começou a crescer – e nasceu a pop angolana. «As letras sobre o quotidiano, as relações, as histórias de amor» são uma das razões que aproxima o público português do trabalho de artistas como Anselmo Ralph e C4Pedro. Mas existe outro fator fulcral: dinheiro. «O Anselmo Ralph teve um investimento brutal na carreira. O Yuri da Cunha também, para fazer a primeira parte dos concertos do Eros Ramazotti.» E pode ser tendência passageira? «Tenho dúvidas se o Anselmo este ano terá o sucesso que teve no ano passado. Já não é moda ouvi-lo.»

Raquel Costa
Fotografia: Diana Quintela/Global Imagens