OPINIÃO

A arte quando nasce é para todos

As premissas que guiam Mafalda Silva Pereira pela vida são simples...

… Uma galeria não tem de ser estéril; a arte tem de comunicar com o público; ela fará sempre tudo o que puder para estar junto das pessoas. Faz um ano que a agente cultural e a sua Art’Embassy cumprem a missão de devolver a cultura portuguesa ao mundo.

Nunca faltaram clientes a Mafalda Silva Pereira enquanto agente cultural, apesar de aos 60 anos já só desejar a paz solta de um monge budista. É uma mulher culta, elegante como a escrita japonesa, com o seu quê de imaterial. Mas fala-se em divulgar a arte e a adrenalina dispara como na juventude, de tal modo que num ano transformou a pequena galeria da Embaixada Concept Store, no Príncipe Real, Lisboa, numa extensão do seu amor por coisas bonitas – e no melhor cartão-de-visita que Portugal pode ter. «A Art’Embassy não é ortodoxa, vou ter de ser mais engenhosa para expor aqui artistas consagrados. Nas cabeças deles, ou estão nos museus ou nas galerias de elite, e é isso que quero mudar. Temos o dever de estar junto das pessoas.»

O método do pai para incutir na família o gosto pelo belo deu frutos em Mafalda, autodidata após terminar o antigo liceu: aos domingos iam ver antiguidades, faziam passeios à serra de Sintra e ao Jardim Zoológico, assistiam aos grandes circos que vinham atuar ao Coliseu no Natal. «Nem sempre me apetecia esse tipo de programas em miúda, mas tenho muito a agradecer ao meu pai pelo sentido estético que ajudou a apurar», admite a galerista, que é também curadora, antiquária, decoradora, escritora (lançou A Vida das Almas em 2012) e dona da São Miguel Guest House, na vila de Sintra, este ano vencedora do prémio Travellers’ Choice do TripAdvisor, o maior site de viagens. «Sou uma privilegiada, no sentido em que lidei sempre com a parte bonita da vida. Acho que são os artistas que fazem que este mundo não seja tão pesado.»

A ela, permitiram-lhe andar com passos firmes quando se casou a primeira vez e foi morar para o Norte, tinha vinte e poucos anos. «Íamos para os leilões lá fora, víamos exposições… Assim me apaixonei ainda mais pela pintura», conta. Uma década depois seguiu-se novo marido (Luís Teixeira da Mota) e nova etapa em Guimarães, onde fizeram a mítica Galeria Gilde num celeiro de granito, inaugurada com obras de Manuel Cargaleiro e Vieira da Silva. «Aí foi, de facto, o percurso. O Luís tem um olhar extraordinário para as peças, para conhecer as coisas, e eu também. Éramos uma equipa muito boa.» Chegaram a trazer de Londres uma mesa linda de chinoiserie, expuseram-na, e viram o amigo Michael Lipitch perder-se de amores e levá-la de volta para Inglaterra. «Ele próprio é um grande antiquário, nem quis acreditar quando lhe disse que a comprei à sua porta. Mas o olhar das pessoas nem sempre vê o mesmo, é isso que faz a diferença na procura. Amo esse momento acima de tudo, mais até do que a venda.»

Com os artistas da Gilde, o casal representou por dez anos Portugal na feira internacional de arte contemporânea ARCO, em Madrid, e nas grandes feiras de Lisboa e Porto. Apaixonada por antiguidades, Mafalda abriu ainda um antiquário em Guimarães (que depois mudou para o Porto e mais tarde para Lisboa, de 2001 a 2009, junto à Sé) e fez também as feiras mais importantes da especialidade, como a da Associação Portuguesa dos Antiquários, na Cordoaria Nacional, e a madrilena Feriarte, referência entre colecionadores e galeristas. «Tenho as duas facetas em mim: a das antiguidades e a da arte contemporânea. De um lado, o passado que nos diz como aqui chegámos, do outro o presente que nos interroga e nos fará evoluir por isso. Pensamos que as coisas não comunicam connosco, mas elas lá se fazem ouvir.»

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Tanto fazem, e tanta mestria revelou a agente cultural em saber escutá-las, que em setembro de 2014 a embaixada lhe pediu que tomasse conta da Art’Embassy – um reconhecimento de que o seu percurso profissional valeu a pena. «Este conceito de ter arte misturada com lojas que vendem roupa, acessórios e tratamentos de pele não é novo: existe com sucesso em Itália e noutros países europeus, em palacetes como este», explica a curadora, rendida à eficácia do lugar. «Uma galeria não tem de ser assética, um laboratório branco e minimalista onde expor. A mim, agrada-me esta comunicação com o público, tanto mais que o espaço é tão digno que nada do que aqui se faz pode ser menor.» E é tão bom ver a cara das pessoas quando passam e descobrem o que andam a fazer os pintores, fotógrafos e ceramistas portugueses, ai que lindo que isto é, quem foi o autor?

«Cerca de 60 por cento dos visitantes são estrangeiros: muito mais alemães do que no ano passado, dinamarqueses, noruegueses, franceses, ingleses, mas também americanos e canadianos.» São eles quem mais compra e, quando não compram, interessam-se e querem ser informados. «Sublinho sempre que Portugal faz coisas boas e bonitas, mesmo quando a exposição em curso é de um autor estrangeiro como agora [até 23 de setembro está patente a Flamenquísimo, do fotógrafo inglês Adam Newby]. Somos um país que descobriu metade do mundo e transformou para sempre o gosto europeu e o paladar, ao trazermos nas nossas naus especiarias e coisas nunca antes vistas na Europa.» Daí o orgulho na sua Art’Embassy, a cereja no topo da missão de uma vida a mostrar arte. Se a felicidade consiste em descobrir a tempo o dom com que cada indivíduo é agraciado ao nascer, Mafalda Silva Pereira é feliz.

«Nunca valorizámos devidamente a nossa cultura e há que mudar esta atitude. Quero muito fazer esse trabalho», assevera, ciente de que tem conseguido sempre tudo com amor e teimosia em partes iguais, não há razão para não ser bem-sucedida agora. «É preciso ver arte, conhecer para cuidar. Muitas vezes, os portugueses desrespeitam as coisas, não por serem malcriados, mas porque lhes falta educação cultural.» Hoje é ela quem pega nos netos – como pegou nos seus seis filhos antes deles e o pai pegava em si em pequena – e leva-os a ver museus, pores do Sol, a natureza. Bem podem reclamar e ter outros planos, que a avó não desarma: «Sei que estou a repetir um ciclo, mas faço questão, porque é isso que nos livra da ignorância e da loucura.»

Mafalda viu com orgulho o filho mais velho, Álvaro Roquette, seguir-lhe os passos. Dos irmãos todos, foi ele o único que começou a fazer a ARCO aos 16 anos e repetia uma e outra vez, fascinado. Tornou-se um esteta como ela, antiquário como ela, decorador como ela, apesar de a mãe intervir apenas nas casas dos amigos e pessoas íntimas. «A minha decoração – e a dele também, reconheço com agrado – não é um expor de objetos, sofás e coordenados, o azul aos quadradinhos dos cortinados a combinar com o azul-forte do tapete. É conhecer a pessoa, primeiro, e ter a casa para se usar. As coisas não aparecem por acaso aqui ou ali, tem de haver um sentido.» Entre os dois, Álvaro a pôr a mesa para o dia de Natal, Mafalda a fazer os arranjos florais e os cenários mais maravilhosos que ele já viu nas datas festivas da família, elevam a beleza a um nível incomum. «Não basta combinar. Prefiro ir por caminhos menos óbvios e ver que, no final, as coisas combinam de outra forma.» Assim na arte como na vida.

Ana Pago
Fotografia: Paulo Alexandrino/Global Imagens