OPINIÃO

1971: A revolução cabeluda

Os festivais de verão começaram nesta semana.

Pretexto para uma viagem a Vilar de Mouros em 1971, num país ávido de perceber como girava o mundo lá fora.

Nada como o relatório da PIDE/DGS para se perceber em que país ocorreu o festival de Vilar de Mouros, em agosto de 1971, e, por isso, o que representou. Sobre a maior vedeta do cartaz, escreveu o informador da polícia política: «Um dos cantores, Elton John, causou desde o começo má impressão, com os seus modos soberbos e as suas exigências: carro de luxo para as deslocações, quartos de luxo para os acompanhantes e guarda-costas, etc.» E o público? «Muita gente dormiu ali mesmo, embrulhada em cobertores e na maior promiscuidade», escreveu o relator, que testemunhou ainda «relações sexuais entre 2 pares, todos debaixo do mesmo cobertor na zona mais iluminada». Já em matéria de subversão política, verificou que «houve gritos de Angola é… (qualquer coisa) durante a atuação do conjunto Manfred Mann (de que faz parte um comunista declarado, crê-se que chamado Hugg)».

Assim era Portugal em 1971, diferente deste em que os festivais se sucedem, de norte a sul (o segundo grande do ano, Super Bock Super Rock, começa já esta semana). Um país onde poucos saberiam quem era Mike Hugg, o baterista da banda britânica, muito menos se tinha ou não opiniões políticas. Vilar de Mouros foi um meteoro que cruzou Portugal depois da «Primavera marcelista», levando cerca de trinta mil pessoas à aldeia de Caminha, muitas chegadas do estrangeiro. Hippies, cabeludos, como dizia o espião, e, em geral, gente sedenta de viver o mundo que girava lá fora (e não tão afastada dessa realidade como poderia pensar-se). O festival começara a ser pensado antes da realização do de Woodstock (1969), e a ideia do organizador, o médico local António Augusto Barge, era mais ambiciosa: chegou a pensar nos Beatles, mas estes separaram-se; sondou os Rolling Stones e os Pink Floyd, mas nenhuma das bandas tinha datas disponíveis, o mesmo sucedendo com os Moody Blues e com Cat Stevens. Ficou Elton, que cobrou 600 contos (cerca de três mil euros), e os Manfred Mann (pouco mais de cem contos), completando-se o cartaz com alguns precursores do rock português, como o Quarteto 1111, de José Cid, Pentágono, Sindicato ou Chinchilas.

Pedro Olavo Simões
Fotografia: Arquivo DN