OPINIÃO

1925 » Uma questão de honra

Um dos últimos duelos em Portugal teve honras de primeira página no Diário de Notícias. Dos arquivos do DN e do JN.

Um dos últimos duelos travados em Portugal teve honras de primeira página no Diário de Notícias. O desenlace trágico, com a morte de um dos duelistas, por «síncope cardíaca», para isso terá contribuído.

A monarquia tinha caído há 15 anos, mas as elites lisboetas continuavam a resolver as «pendências» pelas armas, em duelo, no campo de honra. A 27 de dezembro de 1925, a jovem República ia no 45.º governo, chefiado por António Maria da Silva, e no oitavo presidente, Bernardino Machado. O escândalo de Alves dos Reis e das notas falsas estava ao rubro e daí a meses, a 28 de maio de 1926, um golpe de Estado acabaria com a primeira República e instituiria uma ditadura, mas isto ainda não se sabia naquela manhã cinzenta de inverno, quando no Campo Grande, no Jockey-Club, se defrontaram o vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o republicano António Beja da Silva, e António Centeno, o «monárquico e capitalista» diretor das Companhias Reunidas do Gás e Electricidade.
O primeiro, 47 anos, mas homem de compleição frágil, acusou o segundo de faltar à palavra num acordo relativo ao aumento do preço do gás e do aluguer dos contadores, que este teria concordado, verbalmente, em suspender, dando depois o dito por não dito, o que o primeiro denunciou em sessão do senado municipal. O segundo, homem robusto e exímio esgrimista, apesar dos seus 70 anos, sentindo-se ofendido na sua honra, pediu uma reparação pelas armas. E foi então que começou a escrever-se «uma página de intensa tragédia», que acabaria com a morte de Beja da Siva, «em circunstâncias impressionantes e pavorosas». Os jornalistas do Diário de Notícias partiram às oito e meia da manhã «no automóvel de um amigo do sr. Beja da Silva, para assistir ás peripécias do desafio». «Levávamos aquela boa disposição de sempre, a habitual disposição todos os espectadores de duelos, de antemão sabendo que ao fim de três ou quatro assaltos uma das espadas francesas havia de fatalmente picar um músculo, os medicos haviam de reconhecer a impossibilidade de continuação da pendencia, havia de se dar um aperto de mão reconciliador, e tudo voltaria a suas casas com um sorriso de recatada ironia á flôr dos labios. Um duelo! A costumada comedia, regulada por codigos secretos, proibida por leis, tolerada pela polícia! Mal pensávamos…». Pois, mal pensavam. No segundo round, Beja da Silva caiu vítima de síncope cardíaca. A comoção instalou-se, o muito participado cortejo fúnebre «constituiu uma manifestação de pesar do povo republicano» e lavrou-se uma sentença de morte aos duelos.

Catarina Pires
Fotografia de Arquivo DN