OPINIÃO

Uma trinca da Big Apple no Porto

José Meireles tem o coração no Le Marais, mas alma para muito mais...

José Meireles rumou há 30 anos para os EUA. Queria mudar de vida e o sonho americano pareceu-lhe um bom ponto de partida. O chef tem o corpo e a alma no Le Marais, o seu bem sucedido restaurante em Nova Iorque – onde trabalhou o famoso Anthony Bourdain. Em Portugal, abriu um negócio com o irmão e o sobrinho: o New York Sliders, no Mercado do Bom Sucesso, no Porto.

Hoje são muitas as histórias de quem larga tudo para se aventurar lá fora a fazer o que realmente gosta, mas em 1983 eram poucos os que deixavam um emprego seguro e se arriscavam no desconhecido. Foi o que fez José Meireles aos 26 anos. Trabalhava num banco, mas estava farto e decidiu «partir à aventura. Ir e voltar». Não voltou. Casou e a lua-de-mel foi passada em Nova Iorque. Trinta anos depois continua na Big Apple. Foi lá que, em 1987, tirou um curso de cozinha, no French Culinary Institute, durante seis meses. Sonho antigo e por muito tempo adiado: «Sempre gostei de cozinhar e perdi aquele tempo todo a trabalhar no banco…» Passou por vários restaurantes até ter condições para apostar no seu próprio espaço: o Les Halles, em Park Avenue. «Era um sítio com rendas baratas, ninguém para lá ia. Hoje é diferente, tem boa reputação e as rendas subiram.»

Apesar disso, o reconhecimento foi imediato. «No dia a seguir à abertura já tinha uma hora de espera para as pessoas se sentarem. Foi um sucesso!», diz o chef, com indisfarçado orgulho, o mesmo que adota para lembrar que neste seu primeiro restaurante, e antes de ser conhecido mundialmente, trabalhou Anthony Bourdain, chef, escritor e apresentador de programas de televisão. «Precisava de um chef e ele respondeu ao anúncio que pus no jornal. Quando o entrevistei, gostei logo dele», diz o empresário português, graças a quem o norte-americano começou a gostar de mão de vaca e bucho, como confessou em entrevistas recentes.

A inquietude faz parte do temperamento de José Meireles e foram vários os restaurantes que lhe passaram pelas mãos – em Washington, Atlanta, Miami e Nova Iorque – mas nem sempre as coisas correram bem. «O de Atlanta, depois dos Jogos Olímpicos, foi uma desgraça. Não havia clientes depois do evento.» Acabou por fechar todos e ficar apenas com os de Nova Iorque. Sempre a pensar em novas oportunidades – abriu mais de 15 restaurantes até hoje –, o chef portuense lembra o que esteve na origem do Le Marais, em Manhattan, frequentado por estrelas do cinema e do desporto: a ideia de abrir um negócio baseado nos critérios da cozinha judaica, com produtos e alimentos kosher. «Percebemos que os restaurantes kosher existentes eram fracos e que muitas famílias, metade kosher e metade não kosher, tinham dificuldade em encontrar onde jantar fora». Daí até abrir um espaço que colmatasse a falha foi um instante. E assim nasceu, em 1995, o Le Marais, um novo restaurante nova-iorquino com dono português e cozinha kosher e francesa. «Tem sido um sucesso», diz José Meireles, de sorriso aberto.

A cozinha parece correr nas veias da família Meireles. Francisco, irmão de José, também é chef, e o sobrinho, Alexandre, sempre quis ter um negócio na restauração, ainda que a sua formação seja em engenharia. Em 2009, quando acabou o curso, decidiu ir para Nova Iorque trabalhar três meses no Le Marais. De lá trouxe a ideia de criar o seu próprio negócio, em sociedade com o tio e o pai.

O New York Sliders abriu em junho de 2013, no renovado Mercado Bom Sucesso, no Porto, com uma novidade: pequenos hambúrgueres, apelidados de sliders, de inspiração americana. «Recordo-me que havia um bar em Nova Iorque, no Chelsea Piers, onde comia sempre sliders, quando lá estava», diz Alexandre Meireles, 32 anos. Em Portugal, os menus do New York Sliders são uma autêntica refeição. «Servimos três mini-hambúrgueres que valem como um grande», garante Alexandre, cuja intenção de abrir uma casa de sliders em Portugal foi recebida com entusiasmo por José Meireles. «Antes eram prato de bar, mas hoje começam a ser servidos também em restaurantes. A vantagem dos sliders é que dá para brincar muito com os sabores.» Neste novo negócio em família, a escolha de cada ingrediente pertence a Francisco Meireles, que está diariamente no espaço do Mercado Bom Sucesso. «O pão foi desenvolvido por nós, juntamente com uma padaria da cidade, e o hambúrguer foi idealizado pelo meu pai, assim como as combinações e os ingredientes», explica Alexandre.

Os sliders são servidos em trios, num menu com batatas fritas e bebida. Existem sliders de atum fresco, salmão, queijo, carne de vaca, frango, e muitos outros que vão variando na ementa, assim como os molhos que os acompanham.

Com esta parceria familiar, José Meireles tem vindo mais vezes, mas mais do que o negócio no Porto, é a paixão por Lisboa que o tem trazido cá. A paixão e a vontade de trazer Nova Iorque também para a capital portuguesa. Em setembro, um espaço New York Sliders abrirá no Atrium Saldanha e este verão ficarão concluídas as negociações para a abertura de mais dois espaços em Portugal.

UM RESTAURANTE DE SUCESSO EM NOVA IORQUE
Atualmente, José Meireles é considerado um emigrante de sucesso, nos EUA, depois de trabalhar há 30 anos na área da restauração. É dono do restaurante Le Marais que, por estar no centro de Manhattan – muito perto da Broadway e de Times Square – é também um local por onde passa muita gente conhecida. O multimilionário Roman Abramovich já passou por lá e Aaron Eckhart, Cindy Crawford, Lucy Liu ou Mark Wahlberg são clientes habituais. O restaurante de José Meireles destaca-se pela cozinha kosher, que tem regras diferentes de higiene alimentar, obedecendo a diretrizes da lei judaica. A confeção e funcionamento do restaurante têm, em permanência, a fiscalização de um rabino que verifica se são cumpridas as regras. «Não se pode comer carne e produtos lácteos, enquanto se está a fazer a digestão de um ou outro. Por isso, não temos um único produto lácteo. Usamos apenas soja, margarina e azeite.»

No abate dos animais também está presente um rabino que certifica se aquela carne é kosher e a matança é feita de acordo com as regras: «tem de sangrar o mais possível e a carne é colocada em sal meia hora para retirar o excesso de sangue. Só podemos usar a carne da costela até ao pescoço. Não servimos carne de porco e só servimos peixe com espinha dorsal, escamas e barbatanas. Portanto, marisco, raia, tamboril, lulas, polvo, etc., nada disso é servido», explica José Meireles, que já lida com estas regras há mais de 18 anos. Por ser um espaço kosher, o Le Marais fecha à sexta-feira antes do pôr do sol e ao sábado. No inverno, reabre no sábado, ao pôr do sol; no verão, fecham o sábado inteiro. Preço médio: 60euros; ao almoço: 30euros.

Susana Ribeiro
Fotografia: Artur Machado/Global Imagens