OPINIÃO

Um outro retrato de Angola

I Love Kuduro está nos cinemas portugueses. A NM entrevistou os autores há um ano, aquando da estreia no DOC LIsboa.

Depois de terem documentado a realidade de uma favela no Rio de Janeiro, Mário e Pedro Patrocínio rumaram a Luanda para mostrar, através do kuduro, um outro retrato da juventude angolana. 

A ideia era mostrar «uma realidade que está meio escondida». Por isso, os irmãos Mário e Pedro Patrocínio chegaram a Luanda, entraram pelas periferias da capital angolana, e criaram I Love Kuduro, um documentário sobre a história desta música que toda a gente já ouviu, mas cujos criadores, para muitos, se mantêm ainda uma incógnita. Depois de ter estreado mundialmente no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, o filme dos cineastas portugueses é exibido hoje [27 de outubro de 2013] no Cinema São Jorge, integrado no festival DocLisboa.

Há sensivelmente dois anos, Mário e Pedro tornaram-se conhecidos com Complexo: Universo Paralelo, resultado de quatro anos de trabalho no conjunto de 16 favelas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Mas já na altura tinham o sonho de, um dia, fazerem alguma sobre este movimento cultural urbano de Angola tão vital que é o kuduro – e que rapidamente deixou de se ver confinado aos subúrbios de Luanda. «Lembro-me de quando andava na faculdade, isto a meio dos anos 90, ter muitos amigos que gostavam de música africana», diz Mário Patrocínio a partir do Rio de Janeiro. «Angolanos e não só. E isso fez com que tivesse acesso a uma discoteca em Lisboa muito conhecida na altura, o Mussulo.» A música e o ambiente que se viviam na pista de dança suscitaram um fascínio em relação ao kuduro e às suas possíveis origens. «Faziam-se rodas no meio da pista e a malta começava toda a dançar, cada um a dar os seus toques de forma inacreditável e diferente e isso chamava-me à atenção. Essa experiência marcou-me muito e, desde então, ficámos com isto na cabeça, de tentar perceber de onde é que isto vem.»
Antes do final da guerra civil angolana, Mário passou quase um mês em Luanda, em férias, a convite de um amigo. Tinha 23 anos, estava longe de iniciar o projeto, mas… «Foi uma excelente oportunidade para conhecer aquela cultura e aquele povo. Foi bom para observar.» Dez anos depois, em 2011, os dois irmãos uniram esforços com o produtor, artista e empreendedor cultural angolano Coréon Andu, e durante seis meses calcorrearam as ruas da baixa de Luanda e das suas periferias, falando com os músicos, dançarinos e intelectuais que fizeram e fazem o que hoje se conhece como kuduro. «Por vezes as pessoas esquecem-se que existe uma cultura contemporânea, uma força criativa brutal na juventude africana e é importante este filme mostrar isso e dar um outro olhar sobre África e sobre a cidade de Luanda», diz Mário Patrocínio.

Variadíssimas razões, entre elas a facilidade com que é possível criar batidas de kuduro, mesmo com os meios mais rudimentares, explicam como esta música se tornou um mecanismo utilizado pelos jovens angolanos para se poderem expressar sobre as situações do país, o seu quotidiano ou, simplesmente, para se poderem abstrair dos problemas do dia-a-dia e se divertirem. O kuduro deu voz a esta cultura jovem e rapidamente passou do nicho para se tornar numa cultura de massas. Em I Love Kuduro os irmãos Patrocínio mostram como artistas como Nagrelha, Francis Boy ou Titica atuam para plateias de perder de vista. E, no entanto, mesmo que hoje esta música esteja massificada – em Portugal, fenómenos como os Buraka Som Sistema elevaram o kuduro a outro nível e até ajudaram a exportá-lo – não deixa de ser algo «que lhes vem da alma e do coração».

O caso de Titica, documentado neste filme, acaba por ser um dos mais paradigmáticos na mudança que se está a dar na sociedade angolana. A primeira estrela transexual na história da música de Angola «representa muito mais que um mero kudurista que venceu e conseguiu chegar ao sucesso», diz Mário. Num continente onde a intolerância sexual é ainda dominante, não deixa de ser surpreendente ver Titica a arrastar multidões e a quebrar barreiras. E o realizador não tem dúvidas: «O caso dela mostra também o quão evoluída está a sociedade angolana. Uma pessoa conhece em Portugal algum cantor, idolatrado por milhares de pessoas, que seja também transexual? Eu não conheço e isto faz-me pensar».

Quer em Complexo: Universo Paralelo, filmado ao longo de quatro anos no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, antes dos tumultos que colocaram a cidade brasileira em alvoroço em novembro de 2010, e agora neste I Love Kuduro, os dois irmãos (e a equipa da produtora que fundaram, a Bro) entraram em locais que muitos consideravam de impossível acesso (ou onde o perigo poderia ser constante). Os cineastas têm noção disso, mas também sabem que a atitude que assumem perante as dinâmicas dos locais ajuda bastante. «Todas as pessoas têm de ser tratadas de forma igual, seja um rei ou a pessoa que conhecemos ali na esquina. Se calhar por isso é que entramos em certos lugares que algumas pessoas dizem que são impossíveis de entrar porque têm medo ou porque é perigoso. Isso tem que ver com ignorância e com a forma como cada um se coloca no mundo e perante as pessoas», diz Mário.

Nesse sentido, também ajuda a experiência de vida dos dois irmãos. Apesar de terem nascido em Portugal, já viveram no Brasil, EUA ou França. Estão habituados à diferença, mas a tratá-la com igualdade. Quando eram crianças, a família mudou-se para o Japão. O pai, médico, foi trabalhar para Tóquio. Também eles foram o “ser” estranho numa realidade diametralmente oposta à que, até então, conheciam. «Estudámos numa escola japonesa. Aos oito anos, quando entrei para a escola, era o único rapaz com olhos redondos. De repente tinha dois mil miúdos a olhar para mim e a mexer-me no cabelo e nos olhos. Mas uma pessoa tem de dar a volta. Felizmente pouco depois saiu o jogo do Super Mário e correu tudo bem, porque [eu] era o gajo estranho, mas também o herói.»

Não será, por isso, um acaso, o facto de os dois primeiros filmes da dupla se focarem em realidades fora do país de nascença. «Quando saímos de Portugal, nos anos 80, saímos de um país completamente atrasado e ainda muito agrícola. Ao chegarmos ao Japão foi como se tivéssemos entrado num filme do futuro, onde já existia TGV e televisões nos carros. O facto de, desde muito novos, termos tido contacto com mundos diferentes fez-nos entender que existem sempre outras culturas com as quais podemos aprender.»

A experiência de vida além-fronteiras ajudou também a fomentar a relação profissional dos irmãos Patrocínio. «Quando chegámos ao Japão, não tínhamos amigos, tínhamos de ser amigos um do outro, não existiam grandes alternativas», diz Mário. Por isso, começarem a trabalhar regularmente em conjunto foi um passo. «Damo-nos bem. Às vezes andamos aos berros um com o outro, mas depois passa porque existe respeito e amizade, tanto enquanto irmãos, como a nível profissional».

Com I Love Kuduro, Mário e Pedro Patrocínio continuam a sair da sua zona de conforto, dando também exposição a músicos que renovaram a cultura jovem de Angola. Depois da estreia nacional, o documentário vai passar por outros festivais espalhados pelo mundo e levar a essência do kuduro aos quatro cantos do globo.

OS IRMÃOS VIAJANTES
Mário Patrocínio, 35 anos, é o realizador, Pedro, 31, o irmão, o diretor de fotografia. Já trabalharam nos documentários Complexo: Universo Paralelo e I Love Kuduro. E muitos mais virão no futuro, certamente. Ambos nasceram em Lisboa, mas a família mudou-se para o Japão quando eles ainda eram crianças. Foi aí que nasceu a aproximação à sétima arte. «Nascemos no meio de câmaras. O nosso pai é médico, mas também um grande fotógrafo. A nossa mãe andava sempre a filmar, sempre tivemos este bichinho», diz Mário. Foram, inclusivamente, objeto de estudo do canal de televisão japonês NHK, que decidiu relatar a experiência de uma criança ocidental a estudar e a viver num país do extremo oriente. Voltaram a Portugal, mas Mário iniciou os estudos no cinema já nos EUA, tendo ainda estudado e trabalhado em Paris, no Rio de Janeiro ou São Paulo. O irmão Pedro licenciou-se em cinema no Brasil, onde acabou por realizar vários telediscos para músicos locais. Viria também a trabalhar com músicos portugueses como Da Weasel, Sam the Kid ou Frankie Chavez.

Publicado originalmente em 27 de outubro de 2013

João Moço
Fotografia: Bro