OPINIÃO

Trabalho infantil deixa amargo de boca

Campanha alerta para vida das crianças nos campos de cacau na Costa do Marfim.

E se, de repente, um desconhecido lhe oferecesse um copo de chocolate quente, da marca fictícia Inspirit, quando andava às compras no centro comercial Oeiras Parque, em Lisboa? E se esse chocolate se revelasse tão amargo que se tornava impossível bebê-lo? E se tudo não passasse de uma campanha agridoce, demolidora para o estômago (e o coração) dos chocolatómanos, criada para que a organização não governamental Inspirit pudesse denunciar a vida amarga das crianças que trabalham nas plantações de cacau? As reações dos apanhados foram todas registadas por câmaras ocultas e resultaram num filme feito em parceria com a produtora Krypton.

«Ao receber este briefing, de ajudar a Inspirit a construir cinco escolas na Costa do Marfim, fomos perceber o porquê de as crianças não irem à escola. A verdade é que lá o trabalho infantil ainda é um flagelo, o que faz com que as crianças não vão à escola primeiro porque estão a trabalhar, e depois porque o dinheiro que ganham é fundamental para a sobrevivência da família», revela João Gomes de Almeida, copywriter da agência publicitária BAR e um dos criativos da campanha. «Muitas destas crianças trabalham em vários tipos de plantações, entre elas as de cacau. Sendo que a Costa do Marfim é o maior produtor de cacau do mundo», precisa.

Trabalhando de perto com o jornalista Bernardo Mendonça, o fotógrafo Yves Callewaert e o fotojornalista Tiago Miranda, que foram em missão para a Costa do Marfim durante duas semana com o objetivo de recolher imagens e testemunhos da realidade que se vive na aldeia de Marandallah, criaram o site www.getinspirit.org e definiram a essência da campanha: amarga é a vida das crianças que trabalham nos campos de cacau. «Daí a criarmos um chocolate quente falso e amargo foi um pequeno passo. Mas prometemos que isto não vai parar por aqui», avisa João Almeida, animado com o feedback dos apanhados: «As pessoas reagiram com surpresa, espanto e admiração. Muitas ficaram emocionadas com a mensagem. Outras quiseram saber como podiam ajudar.»

O desejo por uma chávena de cacau começa no nariz: o cheiro viaja para o cérebro e ativa uma série de reações de prazer que predispõem ao bom humor. O que a maioria dos apreciadores não imagina é que um doce momento se possa fazer à custa do futuro de 80 por cento das crianças da Costa do Marfim. «O país saiu recentemente de um período de guerra e a maioria das crianças trabalha em plantações de cacau e algodão para ajudar os pais. Os Missionários da Consolata, que acompanham estas comunidades no interior do país, estão a ajudá-las a construir escolas para que as crianças, através de professores voluntários, possam aprender a ler e escrever», explica o padre António Fernandes, da Inspirit, confiante de que mesmo nas situações difíceis há alegria e sonhos que quer ajudar a concretizar.

«Todos os anos os Missionários da Consolata, juntamente com voluntários nacionais e internacionais, realizam um projeto de solidariedade para apoiar as comunidades que acompanham nos diversos continentes», adianta António. Neste projeto em concreto foi fundamental o tempo e o talento de Bernardo, Yves e Tiago, que de Marandallah trouxeram rostos e momentos da vida de cinco crianças – Mariam, Bakayoko, Sibi, Timite e Coulibali – que vivem o dia a dia com muitas dificuldades, mas ainda mais esperança. «Procuramos que a sociedade se mobilize e seja solidária com estas causas em qualquer parte do mundo. Longe ou perto, todos teremos oportunidade de nos aproximar, conhecer e participar no projeto», afiança o missionário. Se por acaso lhe oferecerem um copo de chocolate quente, já sabe que isso é Inspirit.

Ana Pago
Fotografia: Inspirit