OPINIÃO

Terapia do amor

Sabia que o amor faz bem à saúde?

Dizem que a primavera liberta as emoções, mas estas, garantem os investigadores, são preciosas todos os dias. Beijos, abraços e outros carinhos não aumentam apenas a felicidade, também dão saúde. Saiba como o afeto mexe com o corpo.

Ninguém duvida de que sentirmo-nos amados nos deixa mais felizes com a vida. O que talvez muitos ainda não saibam é até que ponto o afeto, em todas as suas dimensões, beneficia a saúde. Estudos recentes, vindos dos quatro cantos do mundo, garantem que, além de ajudar a reduzir o stress e a ansiedade, baixar a tensão arterial, combater a depressão, acelerar a cicatrização e aumentar a resistência à dor, o carinho estimula o sistema imunitário, tornando-o mais forte na oposição às doenças, o que pode contribuir para uma maior longevidade. Um efeito poderoso que não se limita ao amor romântico, mostram as investigações. A atenção afetuosa de filhos, familiares, amigos e até de desconhecidos também pode ser mágica para o bem-estar.

Numa das primeiras pesquisas a defender os benefícios físicos do carinho, publicada há quase uma década na revista científica Neuroendocrinology Letters, os neurocientistas Tobias Esch e George B. Stefano avançavam já uma explicação. «O amor ativa as áreas do cérebro responsáveis pela emoção, atenção, motivação e memória, e pode ainda ajudar a zona ligada ao stress. Isto significa que é claramente capaz de estimular a saúde», constatavam, para insistirem numa ideia pouco explorada na época: «Amor, compaixão e alegria fazem o nosso sistema imunitário funcionar melhor e ajudam a combater patologias.»

Hoje, não só existe consenso em torno desta afirmação como os cientistas sabem de onde vem o poder do afeto. Sempre que se recebe um beijo de alguém amado, um abraço fraterno ou um simples toque de amizade, o organismo agita-se na produção de neurotransmissores e hormonas geradoras de bem-estar. E neste cocktail de euforia destaca-se a oxitocina. Mais conhecida pelo seu papel no trabalho de parto e na amamentação, esta substância produzida pelo cérebro, também chamada de molécula do amor graças à sua importância na vinculação afetiva, parece ter uma missão mais vasta. Os investigadores acreditam que a oxitocina ajuda a controlar a produção de hormonas do stress, o que leva à redução da pressão arterial, a uma melhor cicatrização, a uma maior eficiência do sistema imunitário e a mais resistência à dor.

Isto mesmo foi comprovado numa peculiar experiência realizada pelas universidades do Wisconsin e da Virgínia, publicada na revista especializada Psychological Science. Nela, um grupo de mulheres casadas foi sujeito a uma série de choques elétricos para serem registados, através de imagens obtidas por ressonância magnética, os níveis de medo e de dor espelhados nos seus cérebros. Quando deixadas sozinhas, as mulheres mostravam ambos em grande escala, porém quando os maridos lhes acariciavam as mãos, a atividade nas zonas cerebrais associadas ao medo e à dor acalmava significativamente, apesar de os choques continuarem. E talvez mais surpreendente: esses sentimentos também se apaziguavam levemente quando um membro do laboratório, que elas nunca tinham visto, lhes confortava as mãos durante a sessão. Instintivamente, todos sabemos a fórmula: afeto gera bem-estar. Afinal se, na infância, bastava um afago materno para aliviar as dores, porque perderia o toque sincero o poder curador na idade adulta?

 

CULTIVE BOAS EMOÇÕES

[6 IDEIAS PARA PÔR MAIS AFETO NO SEU DIA-A-DIA]

_SEJA SIMPÁTICO
O quotidiano não é meigo, mas não temos de ir atrás e pôr crispação em tudo o que fazemos. Cumprimen­te antes de pedir, seja gentil no trato, paciente na resposta e use a empatia a todo o momento. Uma palavra simpática, na altura certa, pode mudar tudo.

_DÊ ABRAÇOS
Ao seu companheiro, filhos, amigos, sem medo de parecer piegas. Está provado que esse contato físico próximo, e carinhoso, aumenta os níveis de oxitocina, a tal substância produzida pelo cérebro capaz de pôr na ordem o cortisol, a desestabilizadora hormona do stress.

_DÊ AS MÃOS
Esqueça a ideia de que é coisa de apaixonados adoles­centes. É para todas as idades. E não só para casais. Um afago a um amigo ou até a um desconhecido, nu­ma altura complicada, é um bálsamo. As mãos estão repletas de terminações nervosas e acariciá-las é qua­se como massajar o cérebro, acalmando-o e levando a que liberte mais hormonas de bem-estar.

_SEJA ROMÂNTICO
Há quanto tempo não diz à sua cara-metade, olhos nos olhos, que a ama? Há quanto tempo não tira um dia, uma tarde, umas horas que sejam, para se enrosca­rem e namorarem? Fazer amor é importante, claro, mas essa proximidade romântica também. E não se desculpe com o stress, o afeto é um dos seus melhores antídotos. Além disso, faz bem ao sistema imunitário.

_GOZE A VIDA
Resmungue menos, divirta-se mais. Embora seja difícil esquecer as preocupações atuais, tente aproveitar os bons momentos. Porque não espantar o mau humor cantando, dançando ou rindo? Nenhuma destas ativi­dades paga imposto e fornece-nos mais hormonas de bem-estar, isto é, mais saúde. Diga também à vida que a ama, não passe os dias a amaldiçoá-la.

_DEDIQUE-SE AO ANIMAL DE ESTIMAÇÃO
Estudos provam que acariciar o pelo sedoso dos bi­chos de companhia ajuda não só a acalmar a ansieda­de e a debelar o stress como a baixar a tensão arterial e a resistir à dor crónica. Não se limite a levá-lo à rua, limpar-lhe a caixa ou o sanitário, afague-o e deixe–se afagar por ele. O carinho mútuo traz benefícios mútuos.

 

Cristina Azedo
Ilustração: Sofia Bártolo/WHO