OPINIÃO

Sorrir bem sem olhar a quem

Cristina Baptista, smile coach, explica-nos a todos a importância de sorrir.

A neurociência diz que a mente se desenvolve através das relações. E apesar de termos problemas em sorrir para os outros, é com um sorriso que primeiro nos relacionamos, o que faz dele o principal aliado do afeto. E do sucesso.

O que é um sorriso de atitude?
É aquele em que não precisamos de estar felizes: eu quero comunicar e crio um víncu­lo, é um sorriso de afeto. Posso não conhecer a pessoa, mas naquele momento crio cum­plicidade com ela e isso é profundamente transformador em termos bioquímicos (a neurociência diz-nos que o facto de nos re­lacionarmos uns com os outros faz expandir a mente). Os problemas vão sempre existir, aquilo que fará a diferença é o impacte que têm em nós, o significado que lhes atribuí­mos. Um sorriso de atitude é atribuir outros significados. É na cooperação e num bem-estar coletivo, e não na competição que a so­ciedade atual advoga, que vamos encontrar o sorriso individual.

Quais os benefícios de sorrir?
Reforça o sistema imunitário e torna-nos atrativos. Facilita a circulação, a recupera­ção de doenças e o bom funcionamento do aparelho cardiovascular. Liberta endorfi­nas que baixam a pressão arterial e o stress. Promove o humor, a memória, a aprendiza­gem, a ligação aos outros. Tendemos a pen­sar na saúde como a ausência de doença, mas saúde é promoção do bem-estar físico, mental e emocional. Se percebermos que sorrir é uma atitude de bem-estar mental que se repercute no físico, em que a bioquí­mica celular por sua vez afeta o emocional, o corpo adquire outra postura e influencia a saúde como um todo. O milagre acontece quando conseguimos manter o sorriso inde­pendentemente das circunstâncias. Isso não é ser pateta alegre. É ser inteligente porque faz bem à saúde.

O que determina a beleza do sorriso? Porque há uns que são esteticamente perfeitos e, ain­da assim, incapazes de nos provocar empatia…
É a emoção da pessoa quando sorri. Dou aulas a médicos que se querem especializar em ortodontia e percebi que os sorrisos que costumava apresentar nos congressos não eram forçosamente os mais belos. O que de­termina a beleza acaba por ser o interior do paciente, a transparecer na energia daque­le sorriso. E então comecei a responsabilizá-los como parte do tratamento. Dizia-lhes: «Eu faço a parte técnica, a alinhar maxila­res, a posicionar os dentes, mas há uma par­te que vai ter de construir no dia a dia com as suas escolhas. A socializar mais, a fazer o que o faz sorrir, a estabelecer relações de empa­tia com os colegas e a família.» Se a pessoa não gostar de si e não se der aos outros, então vamos ter um sorriso vazio.

Em que ponto da sua vida surge a Associação Sorrir e a Smile Dance?
Comecei a estudar tudo isto em 2001 e a da­da altura pensei: «Profissionalmente sou or­todontista, quero um espaço para promover um bem para a sociedade, onde as pessoas possam desenvolver o sorriso.» Acabei por fundar a Associação Sorrir em 2004. Depois constatei que as crianças que vêm às minhas consultas nos últimos 21 anos estão, de facto, com os dentes mais direitos, mas mais tris­tes. Tentei perceber como transformar es­tes conteúdos de neurociência numa ferra­menta para usar nas escolas e nasceu a Smile Dance. No fundo é um micromusical em que fazemos um enquadramento inicial – o que é socializar, podemos ou não sorrir para as ou­tras pessoas, quais são os meus medos e ta­lentos, quais as melhores formas de gerir um conflito, como podemos cooperar e alcançar o sucesso escolar – e então trabalhamos esses pilares.

E como é que as crianças aprendem a rela­cionar-se do mesmo modo que aprendem os conteúdos do programa curricular?
Primeiro, pomo-los a falar em conjunto para saber o que pensam. No final, ficam um minuto a dançar os talentos ou os medos, o que for, e aquilo funciona como uma ânco­ra: vem aquela música, com aqueles mo­vimentos, e eles recordam-se dos concei­tos teóricos. Isto para passar valores como o afeto, o respeito pela diferença, a coopera­ção, que acredito serem formas de combater o bullying. As crianças hoje têm o melhor amigo, o seu pequeno grupo de três, e o resto da tur­ma passa-lhes ao lado. E eles estão tão habitu­ados a competir, cheios de tantos medos, que ou reagem por isolamento – e temos aí o lado das as depressões – ou por ataque e temos o lado do bullying. Conceitos teóricos todos esquece­mos. Mas quando os vivenciam em conjun­to, com alegria, sem exclusões, ficam-lhes gravados.

Especialista em ortodontia há 20 anos, descobriu que sorrisos perfeitos se fazem com bocas bonitas e almas felizes. Em 2004 fundou a Associação Sorrir. Em 2012 lançou a Smile Dance, ferramenta de ensino que criou com base em estudos de comportamento e neurociência. Fez o Leadership e Mastery University com Anthony Robbins. Fundadora da clínica Construímos Sorrisos, é smile coach e autora do livro A Magia do Sorriso (ed. Esfera dos Livros).
Especialista em ortodontia há 20 anos, descobriu que sorrisos perfeitos se fazem com bocas bonitas e almas felizes. Em 2004 fundou a Associação Sorrir. Em 2012 lançou a Smile Dance, ferramenta de ensino que criou com base em estudos de comportamento e neurociência. Fez o Leadership e Mastery University com Anthony Robbins. Fundadora da clínica Construímos Sorrisos, é smile coach e autora do livro A Magia do Sorriso (ed. Esfera dos Livros).

Sorrir é um talento só de alguns? É que 50 por cento da nossa felicidade estão à partida con­dicionados pela genética e 10 por cento pelas circunstâncias…
Não, temos apenas que muscular. Tal co­mo vamos ao ginásio exercitar o corpo, com o humor é igual. Rirmo-nos de nós próprios é das melhores formas que temos para li­dar com situações difíceis, só precisamos de aprender a ver o humor que existe em cada uma delas. Há 22 anos tive uma trombose e imaginava os glutões do Presto a comerem-me o trombo. Acamada, era a única coisa que podia fazer e aquilo divertia-me. Aju­dou-me a passar o tempo e a recuperar mais depressa, numa altura em que nem sequer tinha noção do impacte de rir na minha saú­de. Constatei na pele que pessoas com senti­do de humor saem mais depressa das situa­ções problemáticas por que todos passamos. Há, inclusive, estudos que comprovam que são essas que têm mais sucesso na vida.

Então porque sorrimos tão pouco e, ao que parece, cada vez menos?
É uma questão de crenças. Acreditamos que se rirmos os outros julgam que não somos sérios, que a rir não somos respeitados e, em última análise, amados. Eu própria pensava assim. Hoje sabe-se que empregados felizes são mais criativos e rentáveis, há empresas que investem na felicidade no trabalho. Nos EUA, por exemplo, professores catedráticos saem à rua com os seus calções e os seus chi­nelos, vão divertidos para os seus barbecues, e não deixam de ser pessoas cientificamente respeitadas por se rirem.

Como ultrapassar o facto de vivermos numa sociedade que nos faz acreditar que seremos felizes quando tivermos o curso, uma casa maior, casarmos?
Tendo consciência de que é uma armadilha que nos impede de viver o presente e de ser­mos felizes. Muitas vezes, quando pergun­tamos a uma pessoa o que a faz sorrir, vemos que é o pôr do Sol, estar com os filhos, a famí­lia. E sacrificam isso em função das expetati­vas dos outros e de um dia terem mais tempo e dinheiro para desfrutarem do que já têm agora. Também não digo para vivermos em função do prazer e ignorar o amanhã. Aci­ma de tudo, temos de desenvolver uma rela­ção de verdade connosco. Faz sentido estar num emprego onde sou infeliz todos os dias? O que posso fazer de melhor pela minha vi­da? É neste sentido, não no de ir beber uns copos e depois logo se vê o futuro. Não é o facilitismo. É olhar para dentro e ver o que realmente importa para mim. E ter a cora­gem de ir atrás desses sonhos, o que não é um caminho fácil. É mais fácil desculpar-se com os outros para não mudar.

Que alimentos nos fazem sorrir melhor?
O mel e o cacau estimulam a produção de serotonina; ovos, peixe, mariscos e frutas como a melancia, os citrinos e a banana são ricos em nutrientes que contribuem para o bom humor; aveia e centeio combatem a de­pressão e a ansiedade; as oleaginosas com­batem o stress. Os neurotransmissores que influenciam o sorriso são a serotonina, importante na regulação do humor e do pra­zer, e a dopamina e a noradrenalina, res­ponsáveis pela nossa disposição e níveis de energia. São precisos diversos nutrientes para sintetizá-los, daí as emoções estarem relacionadas com os hábitos alimentares. Somos aquilo que comemos.

Como (re)começar a praticar as virtudes dos sorridentes?
O ponto de partida é o sentimento de grati­dão porque neste dia tivemos trabalho, saú­de, duas pernas. Estamos sempre à procura do que não temos e esquecemo-nos de valo­rizar o que somos. Também acredito que a socialização – sairmos da nossa bolha e ver­mos em que é que podemos contribuir mais para a vida dos outros – nos faz ver que essas pessoas até têm problemas maiores do que nós. Depois é muscular o humor, ter a capa­cidade de olhar para as situações com lentes de olhos alegres e sabermos rir de nós mes­mos. E há as relações sólidas. As amizades do Facebook são importantes, mas precisamos dos amigos que fazem parte do nosso círcu­lo chegado para nos puxarem pelo sorriso.

Ana Pago
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens