OPINIÃO

Aos dois anos o Mário já conduzia um kart

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É provavelmente a criança mais nova de sempre a pilotar um kart. Começou a conduzir aos dois anos e agora, com três, ainda sem idade para brincar à apanhada, adora tudo o que tenha rodas e motor. Mário Martinez Oliveira é um verdadeiro Super-Mário.

Aos três anos e meio, já se pode ser um vetera­no? A resposta é sim se um terço dessa curta vi­da foi passado ao volan­te de um kart. Foi isso que aconteceu a Mário Martinez Oliveira. Tem apenas três anos mas conduz um carro de corridas desde os dois. E quando, há um ano, começou a articular as primeiras pa­lavras, entre o comum pai e mãe foram-lhe surgindo outras: pistão, biela, carburador, embraiagem, cremalheira e por aí fora…

Descobrimo-lo num kartódromo. Pri­meiro a atrapalhar um carreiro de formigas com um pauzito. A brincar. Cumprimentá­mo-lo, mas não deu resposta. É ainda muito pequeno, e até tímido. Mas, logo de seguida, é vê-lo a acelerar pista fora, revelando uma maturidade que alguns, com dez vezes a sua idade, não têm. A determinação nas trava­gens e o rigor com que descrevia cada curva espantam mesmo os que garantem já tudo ter visto nesta vida. Mário é o sonho a tomar forma, ainda antes de chegar à idade de o ter.

Segundo o pai, Mário Oliveira, tudo come­çou com um pequeno carro de plástico, da­queles a que é necessário dar impulso com os pés para fazer andar. «Não tinha ainda dois anos e para o ajudar empurrava-o, às vezes com força a mais, e ficava admirado com a destreza com que ele controlava as derrapa­gens motivadas pelos meus excessos. Foi en­tão que me ocorreu a ideia de comprar um kart.» Ciente das fragilidades impostas pela idade do filho – «os meus receios eram mui­tos…» –, o pai temia que a criança pudesse ma­goar-se, tendo em conta a complexidade sus­citada pela gestão do mecanismo – travão//acelerador – para controlar o carrinho de cor­rida. É que, nestas coisas da segurança, o Má­rio pai, polícia de profissão, não facilita.

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Ao vasculhar a internet, surgiu uma opor­tunidade: um kart da categoria cadete, pratica­mente novo, e com um preço compatível com as imposições da troika. Adquirido o bólide, surgiu o primeiro percalço: o kart era de­masiado grande e as pernas do Mário, ain­da com dois anos, terminavam logo a seguir ao banco. Na categoria cadete as crianças ron­dam os 7 anos. Foi o avô paterno que encon­trou uma solução para fazer chegar os pedais de acelerador e travão aos pés do miúdo, já que dar tempo a que a natureza fizesse esse tra­balho estava fora de questão. No kart foram montados um par de tirantes para substituir os cinco anos e os centímetros que faltavam às pernas do Mário.

O kart estava agora pronto e o Mário tam­bém. Vestido a rigor, com um fato de piloto como os que aparecem nas revistas e na tele­visão. O pai, meticuloso, tinha tudo estuda­do. Tinha preparado uma corda que, amar­rada à traseira do kart, impediria que este se desgovernasse. Assim, piloto em posição, motor a trabalhar e lá ia o kart guiado talvez pelo «piloto» mais novo de sempre – tinha então 2 anos e 3 meses –, enquanto o pai cor­ria o mais que podia, segurando a ponta da corda para que nada escapasse ao seu con­trolo. Felizmente, estas primeiras experiên­cias ocorreram na garagem e mais tarde no átrio de uma fábrica desativada, tendo como únicas espetadoras a mulher, Marta Marti­nez, e Laura, a filha mais nova do casal. De facto nada escapou ao pai de Mário, exceto que o carro andava de mais para a solução encontrada.

Esta é uma história de família. «Sempre fui apaixonado pelo desporto motorizado», confessa o Mário-pai. «Ainda tentei correr de moto mas não tive como suportar as des­pesas. Trabalhei 12 horas por dia na cons­trução da Expo’98 durante as férias da es­cola para conseguir amealhar o suficiente para comprar uma Yamaha TZR de compe­tição. Tinha na altura 16 anos e com a ajuda dos meus pais, que completaram a quantia necessária, consegui comprar a moto, mas sem dinheiro para a pôr a correr não foi possível levar o sonho por diante.» De certa forma, a paixão do Mário-filho veio reavivar o sonho adormecido do Mário-pai. Mas este é cauteloso. «Sei separar as coisas e nunca farei qualquer tipo de pressão. Ajudo-o como puder enquanto o sentir motivado. Se ele quiser parar, eu paro.»

Para Marta, a mãe, uma espanhola de 33 anos nascida em Múrcia e enfermeira no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a atividade do filho não é causa de aflição. No princípio, preocupava-a mais. «Agora sinto até um certo orgulho. Na minha família sempre houve o gosto pelas corridas de motos, o que acabou também por me contagiar. Ir quase todos os fins de semana para o kartódromo, é um pouco limitador. Mas assistir à evolução do Mário acaba por compensar.» A condicionante atinge igualmente Laura, a outra filha, de apenas dois anos – que os acompanha sempre. «Senão viéssemos, provavelmente ficaria em casa. No kartódromo sempre se diverte», conta a mãe.

Mário já não corre com o pai atrás. Agora corre sozinho, na pista. Passa horas ali, sem nunca se cansar. Os tempos vão baixando –começou a fazer uma volta em um minuto e sete segundos e já vai nos 56 segundos. A evolução do Mário já levou o pai a preparar um motor mais potente, pronto a ser monta­do no kart. «O Mário esgotou completamen­te o motor. Já não consegue tirar prazer da­quele motor», diz. Pode haver dúvidas so­bre se os pais deviam incentivar tanto um filho numa atividade de risco como é es­ta. Mas o que salta à vista é que este talen­to tem o condão de trazer felicidade a um miúdo de três anos.

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O EQUILÍBRIO QUE É PRECISO TER COM OS PRODÍGIOS
A história do pequeno corredor de kart Mário Oliveira tem todas as componentes polémicas dos pequenos prodígios – do cinema ao desporto. O talento das crianças sempre foi uma matéria sensível. «Deve-se ou não incentivá-lo cedo? Mesmo quando o talento é óbvio, as crianças não deixam de ser crianças e precisam, como as outras, de ser cuidadas e protegidas de excessos e, sobretudo, da exigência que nor­malmente se tem para com os adul­tos», diz Manuel Coutinho, psicólogo e secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança. Isso nem sempre é claro – sobretudo para os pais maravilhados dos pequenos génios. Como se pode então deixar uma criança ser criança, e, ao mesmo tempo, não lhe cortar o talento?
«Quando uma criança tem uma predisposição natural numa deter­minada área, se for estimulada e incentivada para a desenvolver, tem, à partida, mais possibilidade do que os outros de vir a ter sucesso nessa área, como acontece com o Mário, que tão novo já se destaca na con­dução de karts», diz o psicólogo.
Em vez de pôr a tónica no talento da criança, deve pensar-se ao contrário: está aqui uma criança que tem um determinado talento. «Assim, centramo-nos nela e no seu potencial humano e não tanto na sua caraterística particular, que, apesar de importante, não pode tornar-se o centro da sua vida. Toda a criança, independen­temente de ter talento ou não em determinada área, tem um ritmo natural de desenvolvimento, que deve ser respeitado e assegurado.
Às crianças com talento não deve exigir-se de mais nem criar grandes expetativas. Elas têm, tal como as outras, de ser protegidas de tudo o que possa ser exces­sivo ou desadequado para a sua idade.»

Vítor Brett
Fotografia: Fernando Marques