OPINIÃO

Piedade, a sonhadora

A síndrome de Asperger não tem que ser um bicho-papão.

A Casa Grande, de Piedade Líbano Monteiro, luta para que jovens com a Síndrome de Asperger se integrem. Tudo em nome da dignidade.

Piedade Líbano Monteiro é uma mulher de sonhos. Começou por sonhar ser psicóloga, antes de se perder de amores pelo curso de turismo no ISLA e tornar-se agente de viagens. Mais tarde, sonhou criar uma agência que fosse ao mesmo tempo uma casa de chá e uma biblioteca: no andar de cima as pessoas abririam mapas, planeando destinos de férias por entre o aroma a camomila e limão, em baixo ela poria tudo em marcha. A vida, porém, mostrou ter outros planos quando o filho Nuno nasceu com a Síndrome de Asperger e lhe revirou orgulhosamente a vida. «Em novembro de 2003 nasceu a APSA, Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (http://www.apsa.org.pt/), por vontade de um grupo de pais que chamaram a si a missão de explicar que perturbação do desenvolvimento é esta incluída no espetro do autismo e orientar famílias e jovens sem norte», conta a presidente, emocionada com o duro caminho percorrido em conjunto. «Se a preocupação dos pais com filhos ditos normais é saberem o que será feito deles quando morrerem, imagine a nossa…»

Foi a pensar nisso que a APSA ergueu a Casa Grande em Benfica, projeto pioneiro inspirado noutros que Piedade viu na Alemanha e na Suécia, aberta em janeiro para treinar competências sociais e funcionais. «A Casa Grande não se confina a estas paredes. Queremos os nossos jovens daqui para fora no bom sentido, estamos aqui para assumir um compromisso de tutoria com as entidades que os acolhem lá fora.» Todos aprendem aspetos da rotina diária, como ir ao banco, além de cursarem informática, cozinha, jardinagem e horticultura, expressão plástica, música, costura. Os ateliês cumprem a dupla função de formar os jovens e prestar serviço à comunidade, que pode ir lá comprar refeições, pôr roupa a coser ou a lavar e perceber que a Síndrome de Asperger não tem que ser um bicho-papão. «Eles são assertivos, excelentes trabalhadores, só é preciso conduzi-los. Deixem-nos integrar na sociedade e verão.»

Ana Pago
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens