OPINIÃO

Pessoa é muita gente

Quando se celebra os 80 anos da Mensagem, seis artistas reinventam-na. No Bairro Alto, em Lisboa.

Reinventar o poema mais polémico de Fernando Pessoa. Foi isso que a Galeria das Salgadeiras, no Bairro Alto, decidiu fazer. No ano em que se celebram os 80 anos de edição de Mensagem, há seis artistas a rescreverem-na – em fotografia, pintura, composição digital e desenho. Uma obra que nasce de uma obra é uma obra nova.

A janela do terceiro andar do quarto 308 tem vista para um jacarandá robusto e, atrás dele, está toda a cidade. Foi aqui que os olhos de Fernando Pessoa pousaram pela última vez, em 1935, antes de se fecharem para sempre. O hospital de São Luís dos Franceses, no lisboeta Bairro Alto, não esqueceu o poeta. Na porta do habitáculo, que foi renovado e tem hoje mobiliário tão moderno quanto asséptico, há uma placa com um desenho do rosto de Pessoa e uma inscrição. «O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.»

Um ano antes, Pessoa tinha publicado o único livro em vida, Mensagem. Foi premiado com o prémio Antero de Quental, da Secretaria Nacional de Informação, a máquina de propaganda do regime salazarista, liderada por António Ferro. Os 44 poemas são hoje polémicos, na altura cumpriam os cânones nacionalistas. Uma epopeia laudatória dos descobrimentos portugueses, quase uma atualização de Os Lusíadas. O poeta acabaria por adoecer pouco depois da publicação, uma cólica hepática causada por consumo excessivo de álcool. «Não deixa de ser irónico que o maior poeta português tenha morrido no Bairro Alto com uma cirrose», zomba Cláudio Garrudo, fotógrafo.

 

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O fotógrafo Cláudio Garrudo

Garrudo, 37 anos, é um dos artistas que estão a reinventar Mensagem para a exposição Grifo, que arranca a 25 de outubro na Galeria das Salgadeiras. «Chamei-lhe Trindade, é um tríptico de imagens que transmitem a mesma ideia de sonho, de caminho que encontramos no livro de Pessoa.» Três fotografias do reflexo da janela do quarto onde o poeta morreu, projetadas no solo. Como se todo o valor terreno e etéreo da obra coubessem ali. Há mais cinco projetos originais a decorrer, em vários formatos. Além de Garrudo, Pauliana Valente Pimentel e Helena Gonçalves trabalham em fotografia, enquanto que Marta Ubach reiventou o livro em pintura, Teresa Gonçalves Lobo em desenho e Jaime Vasconcelos em composição digital.

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A galerista Ana Matos

A frase «Deus quer, o homem sonha e a obra nasce» foi o ponto primeiro da inspiração. Ana Matos, a galerista que fundou há dez anos as Salgadeiras, estava a preparar a abertura de um novo espaço, entre os números 12 e 16 da rua da Atalaia. «Sabia que queria fazer uma coletiva e uma noite, em maio, dei por mim a ler aquela frase num artigo de jornal.» Era frase batida, dava mote às compras com antigas notas de cem escudos, mas encaixava como uma luva nas ideias que Ana tinha. Ela nunca tinha lido Mensagem na escola, por isso pôs-se a investigar, apanhou o texto online e leu-o às duas da manhã da noite de 10 para 11. «Eu queria que a exposição inaugural de uma nova galeria fosse sobre o sonho, sobre o caminho. E era isto mesmo.»

A relação de Ana Matos com a literatura é antiga. Neta de José Saramago, já tinha convidado escritores para serem galeristas por um dia. Mas nunca tinha pensado em fazer pôr os artistas residentes da sua galeria a criarem a partir de um poema. «A recetividade não foi imediata, muito pela vertente nacionalista da obra. Há um preconceito em relação a tudo o que seja arte do regime, mas os movimentos artísticos com base política não se podem cingir à política. São arte.» A conversa deriva por aí, pelo preconceito que existe em relação ao movimento arquitetónico e plástico do Estado Novo. «Parece-me uma questão de imaturidade cultural, não vermos a arte para além das pessoas.»

Marta Ubach [na foto de abertura], ao contrário da galerista, lembra-se bem de ler Mensagem no secundário. «Eu não acho que ele se tenha traído neste livro», diz a pintora, «é preciso saber ler a poeira no meio das linhas». Pegou nas sensações de que tinha memória e transportou-as para acrílico sobre tela. Pintou-as num atelier que um dia foi a casa da avó, de tetos vetustos e paredes descascadas, onde estão penduradas vários postais da catedral de Saragoça. «Pensei em melancolia, nostalgia, solidão. Mas eu não queria fazer uma mera ilustração dos poemas, era preciso criar para além deles.» Optou por imagens de vigília, da espera, de viagem, em tons de preto e branco. «São sentimentos completamente atuais, estes de um país que está à espera.»

O artista Jaime Vasconcelos

O artista Jaime Vasconcelos

Para Jaime Vasconcelos, Mensagem resume-se na figura de D. Sebastião, do salvador que não chega, do morto que ninguém viu morto. «É um trabalho do Pessoa importantíssimo, em que ele assume um novo rumo, quase como se atirasse barro à parede ao regime, a ver se colava.» Foi daí que a sua obra partiu. Uma mancha de tinta da china atirada para a tela, sobre a qual dispôs dezenas de Fernandos Pessoas em fotografia. Ao centro, como ponto de fuga, uma figura roubada ao quadro Meninas, de Velásquez – o homem nas escadas, que observa sem ser visto, e que Jaime vê como o transportador da mensagem para o futuro.

Jaime Vasconcelos diz que encontrou no trabalho de Pessoa a explicação para o processo que o seu trabalho está a passar. «O sonho e o caminho que eu próprio estou a fazer.» Parece ser isso que torna comum a exposição – que se chama Grifo em homenagem ao animal que enfeita o brasão que aparece nas primeiras páginas do livro original do poeta – de seis autores diferentes. A noção da viagem e a noção de utopia. Ana Matos encontra outro ponto em comum: um certo monocromatismo das obras, muito pouca explosão de cor. É que o único livro de Pessoa fala de Portugal, o que foi, o que é e o que há de ser. «É como se houvesse um estado de incredulidade, de surpresa total nos artistas com aquilo que está a acontecer ao país.» A partir de um livro que falava de quem éramos, nasceram seis formas diferentes de pensarmos em quem somos – e não são assim tão diferentes.

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia: Paulo Alexandrino/Global Imagens