OPINIÃO

Os verdadeiros cromos da bola

Nem todos são treinadores de bancada...
Álvaro Isidoro/Global Imagens

Muitas vezes o futebol não é apenas um desporto de sofá, e eles não são apenas treinadores de bancada. Há os que se reúnem em futebolada noturna, semanal, com os amigos. E, dentro das quatro linhas, o futebol é o que os une e o que os separa, entre suor, fintas estonteantes e muitos golos. Mais uma vez mostrando a sua grandeza e simplicidade.

O Mundial está a chegar ao fim, mas a bola vai continuar a rolar para estes amadores da coisa. São homens, médicos, advogados, engenheiros informáticos, jornalistas, modelos, políticos, comerciantes… craques da bola de todas as profissões. Paralelamente à atividade federada, há milhares de outros jogadores que, todas as semanas, fazem o gosto ao pé nos muitos campos de cinco, sete e onze espalhados pelo país. Em relvados naturais ou sintéticos, piso de madeira ou terra batida, quanto maior for o grupo, mais económico é o aluguer do espaço à hora. Sem árbitros, às vezes com brigas e discussões, não fosse o futebol coisa do irracional e da paixão, o que mais importa é sentir a adrenalina da competição, fazer exercício físico, expandir emoções e conviver.

DROGBA DE CAMPOLIDE
GARANTE QUE, APESAR DA HORA TARDIA, as bancadas do campo sintético onde joga quase todas as terças-feiras, depois das 23h00, ficam bem compostas. «As pessoas vêm só para admirar o meu talento.» Fernando Alvim é a humildade em pessoa. «Chamam-me o Drogba de Campolide. Pelos muitos golos que marco, mas acima de tudo pela cor escura da minha pele», explica, sem se desmanchar. O comunicador seria hoje, certamente, um famoso futebolista do Benfica, seu clube do coração, caso o destino não lhe tivesse reservado para tão tenra idade, ainda adolescente, o contacto com a rádio, de onde nunca mais saiu e ao qual juntou ainda uma carreira de apresentador de TV, humorista e escritor. «Estive há uns dias a pensar sobre o que mais gosto de fazer na vida. E cheguei à conclusão de que é jogar à bola. Mais do que qualquer outra coisa! Sério! Isto é mesmo verdade!»

Em miúdo, Alvim experimentou o hóquei em patins, integrou a equipa de juvenis do Grupo Desportivo e Coral do Fânzeres, em Gondomar. Já adulto praticou squash e está quase a aderir à moda do padel. Mas não há como uma boa futebolada com amigos. «Permite-me estar em forma e descontrair. Dou tudo em campo, como na vida», diz.

O que Fernando Alvim é fora das quatro linhas, é também com a bola nos pés: um endiabrado ponta-de-lança que adora fazer jogadas artísticas e deixar zonzos os defesas. «Sou irrequieto, mas não conflituoso. O futebol deve ser uma atividade unificadora. A competitividade é excelente desde que exista fair play. Há três coisas em que as pessoas, por vezes, transfiguram a sua personalidade: a conduzir, a jogar futebol e a nível sexual. Há pessoas que são muito calmas e tranquilas no dia-a-dia e depois, quando entram em campo, tornam-se umas espalha-brasas e até conflituosas», disserta o humorista, que já esteve várias vezes lesionado na sequência dos jogos de terça-feira à noite. «É muito importante fazer um bom aquecimento antes de começarmos a jogar», alerta o «craque» de 40 anos.

Leonel de Castro/Global Imagens
Foto: Leonel de Castro/Global Imagens


OS MANOS DOS MORTAIS À FERNANDO COUTO

PARA RICARDO E PEDRO GUEDES, conhecidos do mundo da moda e do «social», jogar futebol é sinónimo de convívio e brincadeira. «Adoramos picar os outros e provocar a risota», diz Ricardo. «É o local ideal para convivermos com amigos e contarmos aquelas histórias em que somos os maiores mas que são mentira», atira Pedro.

Os gémeos, no entanto, jogaram futebol a sério entre os seis e os 17 anos. Começaram nas escolinhas do Boavista. Ricardo tornou-se defesa-central e Pedro alinhava habitualmente à esquerda da defesa. Podiam ter seguido carreira, mas não se arrependem de ter mudado de rumo. «O futebol foi bom pelos amigos que fizemos. Alguns ainda são os mesmos com que jogamos hoje. Nunca nos identificámos muito com o mundo da bola e saímos desiludidos», diz Pedro Guedes. Mas nunca deixaram de fazer desporto. Aliás, são absolutamente viciados em atividade física. Além do futebol – adoram jogar na praia – vão ao ginásio, praticam bodyboard, jogam golfe e facilmente alinham em qualquer novo desafio que lhes coloquem. Mais novos, faziam sucesso, dentro e fora de campo, com os saltos mortais à Fernando Couto, que imitavam na perfeição.

Nunca ligaram a insultos ou entradas mais duras. «Só me vingava se era com o meu irmão», recorda Ricardo. «Estas futeboladas com amigos e conhecidos só fazem sentido se a malta não se chatear e se pudermos jogar todos, magros, gordos, mais ou menos talentosos.»

Situações como a dentada do uruguaio Luis Suárez ao italiano Giorgio Chiellini, durante um dos jogos da fase de grupos do Mundial do Brasil, são péssimos exemplos para os miúdos. «Suárez já devia ter sido tratado há mais tempo. Vi uma compilação de jogos dele e são vários os casos de mau comportamento, agressões e mordidelas em campo», comenta Pedro. «Muitas vezes não aquecemos como deve ser, entusiasmamo-nos e pensamos que podemos fazer o mesmo que fazíamos antigamente. Estamos mais velhos e já não treinamos futebol todos os dias», conclui.

 

Pedro Granadeiro/Global Imagens
Foto: Pedro Granadeiro/Global Imagens


«BI-BOTA» MONTENEGRO

OITO GOLOS. Oito golos marcou Luís Montenegro há dois anos em pleno Alentejo, num jogo em Alvito, contra a equipa do clube local, realizado depois do almoço, debaixo de um sol abrasador. «Vai ser difícil esquecer esse dia. Ganhámos 11-0», diz. O deputado e atual líder parlamentar do PSD chegou a pensar em seguir a carreira de futebolista. Era ainda muito jovem, com 10 ou 11 anos, quando sonhava levantar bancadas cheias de adeptos com os seus magníficos golos, tal qual Fernando Gomes, o bi-Bota de Ouro, no Estádio da Antas, com a camisola do FC Porto.

Luís Montenegro jogou futebol durante muitos anos nas camadas jovens do Sporting de Espinho, tendo representado também o Sanguêdo, de Santa Maria da Feira, e o vizinho Clube Desportivo de Paços de Brandão. Na altura de ir para a faculdade, escolheu Direito, mas continuou a jogar, na equipa da universidade. «Há uns oito ou nove anos, fui convidado a juntar-me à equipa de veteranos do Sporting de Espinho. Não entramos em campeonatos, só fazemos jogos de caráter amigável. Já fomos inclusive jogar ao estrangeiro. Costumamos dizer que os nossos jogos têm três partes», conta o deputado, referindo-se ao repasto que muitas vezes se segue à futebolada. Joga a ponta-de-lança. Sempre foi a posição em que se sentiu bem e até diz que agora, aos 41 anos, marca mais golos. «Tenho alguma frieza na hora de finalizar», assegura o líder parlamentar social-democrata que, quase todos os fins de semana, ruma a norte para estar com a família e poder fazer o gosto ao pé no campo de treinos do seu clube de infância. Houve uma altura em que treinava com os funcionários do Parlamento, mas uma lesão num joelho obrigou-o a reduzir a atividade. Na calha está ainda, contudo, uma partida entre o Grupo Parlamentar do PSD e os membros do Governo. «Ando a tentar combinar uma data com o Miguel Poiares Maduro [ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional] », comenta.

Para Luís Montenegro, jogar futebol ao fim de semana permite-lhe «estar com os amigos e desanuviar», mais do que descarregar o stress acumulado durante a semana. «O convívio é muito engraçado e ajuda-me a manter o peso», refere.

Orlando Almeida/Global Imagens
Foto: Orlando Almeida/Global Imagens


BECKENBAUER ALVES

ROGÉRIO ALVES faz no futebol como na advocacia: joga à defesa, mas
sempre com os olhos postos na baliza. É um central goleador, como ele próprio se define. «Se Marco Silva precisar de um veterano disciplinador, com visão de jogo e gosto por comandar, estou pronto! Sou uma espécie de Beckenbauer.»

O reconhecido e prestigiado advogado, de casos tão mediáticos como o de Maddie McCann, fala num tom quase sério, sem grandes risadas, mas nas entrelinhas nota-se o humor refinado que poucas vezes tem ocasião de usar publicamente, dada a seriedade dos assuntos que é chamado a comentar. Gosta de contar anedotas tanto como jogar futebol com os amigos. Exatamente os mesmos que, nos jardins relvados e pátios dos Olivais, assistiu, sempre de bola no pé, ao Verão Quente de 1975. Já se lhe juntaram filhos e amigos dos filhos, mas a amizade e o convívio saudável permanecem intactos cada vez que se encontram aos sábados de manhã no campo de futebol de sete da ADCEO, no bairro da Encarnação, na saída norte de Lisboa.

É o «Rogério dos Olivais» que está ali. Sem óculos, camisola do Sporting vestida, calções largos e – confessa que por descuido – encarnados, peúgas largas a caírem-lhe pelas canelas. No último ano, devido ao muito trabalho, passou a estar mais ausente do que presente. «Tenho sentido uma enorme falta de jogar. Estou enferrujado. Vou tentar retomar a regularidade. Foram trinta anos a vir aqui todos os sábados de manhã», diz, durante uma pausa para ganhar fôlego, perante o massacre que a sua equipa está a sofrer. «É o que acontece! Não venho e é isto», brinca, explicando que estes encontros permitem-lhe, para além de fazer exercício físico, «escapar por umas horas» do seu exigente dia-a-dia. «Ao mesmo tempo é o regresso a momentos de maior simplicidade», diz.

Sportinguista ferrenho, Rogério Alves herdou de um tio a paixão pelo clube leonino, numa altura em que os relatos dos jogos eram seguidos apenas na rádio e lidos no Diário Popular. Tinha como ídolo Yazalde e admite que, ainda hoje, poucas coisas o fazem sofrer tanto como o seu Sporting. «Por mais racional que um homem seja, há sentimentos que temos de aceitar como imposição da nossa condição humana. São afetos inexplicáveis. E ainda bem que existem pois, caso contrário, a vida seria muito pardacenta e sem graça», defende, antes de ser chamado para ir marcar uma grande penalidade. «Querem ver? Só para não dizerem que sou velho.» E a bola, sem que o jovem guarda-redes lhe tocasse, entrou no cantinho superior esquerdo da baliza. «Só temos de ter cuidado para que as nossas emoções não afetem os outros. Há a barreira da civilidade e
temos de moderar o que é imoderado em nós», acrescenta o antigo presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting e o advogado de décadas de Eusébio.

EVITAR LESÕES: OS CONSELHOS DO ESPECIALISTA

Alberto Carvalho é especialista em desporto de alto rendimento no Instituto Universitário da Maia (ISMAI), e alerta para a necessidade de todos os jogadores de futebol perderem dez a vinte minutos a fazerem um bom aquecimento antes de começarem a jogar. E quanto mais velhos, maior deve ser esse período. «As atividade do dia-a-dia desenvolvem muito mais a parte anterior do corpo. Ou seja, a nível posterior existe uma maior fragilidade e, por isso, a maioria das pessoas sofre lesões na parte detrás da coxa, ao nível dos isquiotibiais, ou da perna», explica. Além do aquecimento, Alberto Carvalho também aconselha um período de recuperação ativa, após o jogo, que deve incluir alongamentos estáticos, já que os movimentos feitos tendem a encurtar os músculos. «Poder treinar num ginásio regularmente ou até mesmo fazer um treino funcional em casa, com exercícios simples, de fortalecimento muscular, também ajuda muito a evitar mazelas».

Ana Proença