OPINIÃO

De Portugal para a guerra

Cem imigrantes ucranianos em Portugal criaram uma milícia. Estão prontos para avançar.

 

Cem ucranianos residentes em Portugal apresentaram-se como voluntários para combater, caso a Ucrânia entre em guerra com a Rússia. São estudantes, empresários, homens das obras, desempregados. Uma milícia organizada a partir de Lisboa, que já tem missão definida: guardar o depósito de armas e a central nuclear de Lviv. Esta é a história da Centena portuguesa.

 

Protesto em finais de abril, frente à embaixada da Rússia em Lisboa.
Protesto em finais de abril, frente à embaixada da Rússia em Lisboa.

Todas as semanas, a Rua Visconde de Santarém, no bairro lisboeta de Arroios, transforma-se num mar azul e amarelo. Às sete da tarde – umas vezes às terças, outras vezes às quintas – ucranianos de todas as idades juntam-se em frente da Embaixada da Rússia para protestar contra o que dizem ser o renascimento do imperialismo russo. Levam bandeiras, lenços e camisolas da seleção nacional e gritam palavras de ordem em três línguas: a sua, a dos seus opositores e a do país onde vivem. «Putin terrorista», «Crimeia é da Ucrânia», «a União Soviética não pode voltar». Há dias em que não aparecem mais de sessenta pessoas, mas há outros em que chegam a juntar-se trezentas. «Se a Europa não nos ouve», clama Olga Aksenenko, uma mulher de 35 anos que chegou a Lisboa há 12, «nós temos de gritar mais vezes, e mais alto. E, mesmo que fiquemos roucos, encontraremos maneira de lutar.»

Há aqui muita gente disposta a pegar em armas. «Desde o início de março, cem homens ofereceram-se como voluntários para defender o país», diz Pavlo Sadokha, presidente da Associação dos Imigrantes Ucranianos em Portugal. «Temos pessoas desde os 20 até aos 60 anos, alguns com experiência militar e outros que nunca pegaram numa pistola.» São desempregados e empresários de sucesso, economistas e taxistas, estudantes do ensino superior e trabalhadores da construção civil. Quase todos são chefes de família e quase todos vivem em Portugal há mais de uma década. Muitos até têm nacionalidade portuguesa. Os ucranianos, note-se, são a segunda maior comunidade imigrante em Portugal, com 55 mil cidadãos.

As inscrições para o combate começaram ao mesmo tempo que as manifestações em frente à embaixada russa em Lisboa – no início de março. «Depois da queda de Yanukovich e de Putin ameaçar que ia invadir a Crimeia [ver cronologia], a comunidade mobilizou-se de uma forma incrível», diz Sadokha. «Há muitas mulheres que também querem ir lutar, mas as operações a que fomos destinados requerem a força dos homens.» O líder dos ucranianos em Portugal estabeleceu os primeiros contactos com a Guarda Republicana, um movimento de milícias civis apoiado pelos grupos pró–europeus. «Apesar de haver gente de vários pontos da Ucrânia, ficou decidido que constituiríamos uma só unidade. Somos a Centena portuguesa.»

Hoje há manifestação em frente à embaixada da Rússia e Mikhaylo Dmytviv, 56, é um dos que gritam mais alto. É um tipo de cabelos desgrenhados e óculos escuros espelhados. Tem uma perna engessada, usa duas muletas para se apoiar, e numa mala transporta um cartaz com fotografias das operações a que foi submetido, depois de um acidente de trabalho. «Fui criado em Donetsk, uma zona onde a maioria das pessoas fala russo. Putin não quer ficar apenas com a Crimeia, quer a metade leste da Ucrânia, que é maioritariamente russófona. E, mesmo que eu não esteja em condições de ser o melhor soldado, raios me partam se não vou defender a minha terra daqueles sacanas.»

 

Mikhailo sabe que não tem condições físicas para ser um grande soldado. Ainda assim, está disposto a ir para a guerra.
Mikhailo sabe que não tem condições físicas para ser um grande soldado. Ainda assim, está disposto a ir para a guerra.

Mikhailo fez tropa no Afeganistão, quando o seu país integrava a União Soviética. Viu morrer demasiados homens, e sabe que uma guerra é uma tragédia danada. Baixa os olhos e depois levanta-os. Diz que o dia mais feliz da sua vida foi o da independência da Ucrânia. Daí por uns minutos, hão de estar oitenta manifestantes reunidos de volta da bandeira para cantar o hino, Ainda não Morreu a Ucrânia. «Desaparecerão os nossos inimigos / Como o orvalho ao sol / Ainda vamos ser donos / Da nossa própria terra.» A voz de Mikhailo é um trovão por cima de um coro afinado.

Em boa verdade, se houver mesmo guerra, a Centena portuguesa não vai estar na primeira linha de combate. «Os nossos governantes toleraram a ocupação da Crimeia», diz Pavlo Sadokha, o líder dos ucranianos em Portugal. «Mas acreditamos que a Rússia está a introduzir agentes secretos e perturbadores na região leste, para fazerem novos referendos e ocuparem mais território. É nessa altura que nós entramos em ação.» Assim que chegarem, terão um mês de formação. E depois têm uma missão já definida. «Vamos assegurar a segurança do arsenal de armas e da central nuclear de Lviv, no Norte do país. Não é a região onde estão previstos os maiores confrontos. Mas esses são pontos estratégicos de defesa do país.»

 

ESFORÇO DE GUERRA

Assim que soube que os estudantes tinham tomado o Parlamento ucraniano e que o presidente pró-russo Yanukovich tinha fugido do país, Andriy Zayachkovskyy, 35 anos, virou-se para a mulher e disse: «Bem, agora é que as coisas vão começar a aquecer. O Putin não vai querer perder a influência que tem na Ucrânia e vai responder. Tenho de ir já para lá, tenho de fazer alguma coisa.» Maria olhou-o nos olhos e perguntou ao marido se estava louco. «Quem é que vai tomar conta do negócio? Quem é que me ajuda com as miúdas?» O casal tem uma empresa de jardinagem em Azeitão, duas mãos são poucas para dar conta do serviço. E depois há três filhas, com 11, 10 e 4 anos. Cada uma estuda numa escola diferente e todas ficam longe de casa. Andriy encolheu os ombros. «Desculpa, tenho de ir.»

 

Pavlo, Andriy, Vlad e Ivan diante de um mapa da Ucrânia. Estes homens voluntariaram-se para a Centena Portuguesa.
Pavlo, Andriy, Vlad e Yuriydiante de um mapa da Ucrânia. Estes homens voluntariaram-se para a Centena Portuguesa.

A 25 de fevereiro meteu-se no autocarro. Levava com ele algumas centenas de euros angariados pelos ucranianos em Portugal, contactos de grupos pró-europeus que estavam acampados na praça Maidan, um gerador elétrico, megafones e cadeiras de rodas. «Cheguei três dias depois, a 1 de março, e fui logo montar o material para a praça Maidan. Um ex-militar perguntou-me quem eu era, eu expliquei e ele apresentou-me a um dos coordenadores dos protestos em Kiev.» Entregou-lhes o material e depositou na conta do movimento pró-europeu o dinheiro recolhido em Lisboa. «Façam de mim o que quiserem, estou aqui para ajudar.»

Mandaram-no ir deixar as malas a um hotel ali perto. «Perguntaram-me se era da resistência, que assim não precisava de pagar a estada. Mas eu insisti, estava ali por crença.» Voltou ao centro de comando e atribuíram-lhe funções de vigilância. Durante os quatro dias seguintes, andou com grupos armados a fazer rondas pelos edifícios públicos. «A minha missão era comunicar o mais rapidamente possível ao comando qualquer movimentação dos movimentos pró-russos.» Ao fim de quatro dias quiseram inscrevê-lo na Quarta Divisão das milícias que, daí por uns dias, seriam nomeadas de Guarda Nacional. «Então eu liguei à minha mulher e ela pediu-me para voltar, disse-me que as miúdas estavam muito preocupadas.» Despediu-se, prometeu voltar. Assim que chegou a Lisboa, falou com o representante dos ucranianos portugueses. «Pavlo», disse, «temos de nos organizar.»

Enquanto Andriy ia e voltava, Ivan desesperava. «Durante três semanas, não pregámos olho.» Ivan Muzychak, 44 anos, vive com a mulher e dois filhos em Rio Tinto, perto de Gondomar. No prédio onde habitam existem seis apartamentos e quatro estão ocupados por famílias ucranianas. Os confrontos na praça Maidan, primeiro, e a anexação da Crimeia, depois, deixaram-nos agarrados à televisão e ao telefone. «A minha irmã vive numa zona russófila», diz Alina, a mulher. «Tenho três sobrinhos em idade de ir à tropa e, meu Deus, estou muito assustada.» Lá do fundo, ouve-se um grito de Vladymir, 20. «Se os meus primos forem para a guerra, eu também quero ir.»

 

Ivan com a família na sua casa, em Rio Tinto, Porto. Não quer matar ninguém, mas também não pode deixar de defender a sua terra.
Ivan com a família na sua casa, em Rio Tinto, Porto. Não quer matar ninguém, mas também não pode deixar de defender a sua terra.

Ivan ajudou a coordenar alguns protestos no Porto, frente ao consulado russo. E foi dos primeiros a alistar-se na Centena portuguesa, ainda que não tenha contado aos filhos que o fizera. «Sei que o rapaz vai querer logo ir comigo e eu quero evitar esse cenário até onde puder.» A tarefa é árdua, Vladymir passa os dias a falar dos primos, de Putin, e de como os russos precisavam de levar uma coça. No dia em que recebeu a Notícias Magazineem casa, já não havia maneira de esconder o alistamento. «Disse-lhe que não queria ir para a guerra para atacar ninguém, apenas para defender o meu país contra as agressões de fora.»

Há mais homens do Porto alistados na milícia, e Ivan tem estado a mentalizá-los para o que aí vem. «Não podemos usar armas, nem estamos a treinar-nos fisicamente, mas estamos a preparar–nos psicologicamente com alguns debates e sessões de esclarecimento.» O homem foi sargento na tropa, esteve na guerra de Nagorno Karabakh, uma região em conflito desde os anos oitenta, na fronteira entre a Arménia e o Azerbaijão. «Os melhores tempos da minha vida.» Nisto, vai buscar um álbum de fotografias, amarrado por um cordel ao qual estão presas duas balas de Kalashnikov. Lá dentro há fotos de soldados, desenhos feitos por ele, camaradagem a preto e branco. «Nunca estive em combate, eu era sargento de instrução. É isso que quero fazer quando chegar à Ucrânia, dar formação, não quero matar. Veja, no meu pelotão fiz muitos amigos russos, eu fui soldado no tempo da União Soviética. Não tenho nada contra os russos. Mas não posso permitir que um louco invada o meu país.»

Yuriy Bilinskyy, 40 anos, diz que isso é uma questão cultural. Está em Lisboa há 15, é taxista, conhece a capital portuguesa melhor do que muitos nativos. «Saí do meu país porque me cansei da corrupção, mas nenhum ucraniano consegue ficar bem consigo próprio se o país estiver sob ataque. Está-nos no sangue.» E depois recorda a história do país, que sempre foi guerreira. «Os cossacos do rio Dniepre eram vítimas dos senhores feudais polacos e fundaram uma república independente no século xviii. Durante duzentos anos, defenderam o seu território com uma bravura que se tornou conhecida no mundo inteiro. Não atacavam, mas defendiam bravamente. Nós podemos não ser tantos como os russos, mas somos mais fortes, mais bravos.» O exército russo tem ao seu dispor trezentos mil soldados. Do lado ucraniano, são 65 mil.

 

GUERREIROS IMPROVÁVEIS

Vladyslav Martynyuk e Kateryna Ilechko casaram há cinco meses em Lisboa. Têm ambos 22 anos e estão os dois no último ano do mestrado em Direito Internacional na Universidade de Lisboa. Cresceram em Portugal, têm amigos portugueses e passaporte português. Vivem em Alfama. «Cheguei com 11 anos, passei muitos anos aqui, depois veio a Revolução Laranja e os meus pais acreditaram que as coisas podiam mudar.» Em 2004, depois de umas eleições que as organizações internacionais consideraram fraudulentas, e que davam a vitória a Yanukovich, o povo saiu à rua para exigir democracia. Putin congratulou o vencedor pró-russo, mas a revolta nas ruas e as pressões do Ocidente levaram à remarcação das votações. Ganhou Viktor Yuschenko, pró-ocidental, e nessa altura muitos ucranianos que tinham emigrado voltaram a casa. Como Vlad e a sua família.

 

Vlad e Katerina casaram há cinco meses em Lisboa. Ele está pronto para ir para a guerra, ela para os centros de apoio médico aos soldados. Estudam os dois Direito Internacional.
Vlad e Katerina casaram há cinco meses em Lisboa. Ele está pronto para ir para a guerra, ela para os centros de apoio médico aos soldados. Estudam os dois Direito Internacional.

Em 2010, Viktor Yanukovich venceu finalmente as presidenciais e o o país regressou à velha aliança com Moscovo. Dois anos depois, o rapaz, que tinha feito a instrução militar enquanto cursava Direito na universidade, regressou a Lisboa. «Nós prevíamos que a Rússia não abdicasse facilmente da sua influência na Ucrânia. Mas nunca imaginámos que anexasse a Crimeia.»

Há uma ironia tremenda no facto de dois estudantes de Direito Internacional terem perdido a esperança na diplomacia. «A Ucrânia foi abandonada pelo resto do mundo. Que legitimidade tem o Conselho de Segurança das Nações Unidas se existem lá países, como a Rússia, com direito de veto?» Vlad encolhe os ombros. Ele também já se deu como voluntário para a Centena. E Kateryna? «Se ele for, eu também vou. Vai ser preciso pessoal para dar apoio médico e eu faço o que tiver de fazer pela Ucrânia.»

Olga Zanevchyy pode ter 54 anos, mas alinha pela mesma batuta. «O meu marido não se voluntariou para a Centena mas, se a guerra estalar, eu vou imediatamente para a Ucrânia.» Em Kiev era cozinheira, em Portugal ganha a vida com trabalho doméstico. «E também vai ser preciso tratar da comida e das roupas dos nossos soldados». Depois revela o que a preocupa. Os seus filhos vivem todos em região russófila. «Tenho um rapaz com 31 e outro com 27, se houver problemas são logo chamados para a guerra. E a rapariga, que tem 25, acabou de tirar Medicina, também vai estar nos combates. Como é que eu posso deixá-los ir e não fazer nada?», pergunta, e o rosto a ensombrar-se.

 

Pavlo Sadokha, presidente da Associação de Imigrantes Ucranianos em Portugal é economista, nunca pegou numa arma. Mas também vai para a Ucrânia com a Centena Portuguesa.
Pavlo Sadokha, presidente da Associação de Imigrantes Ucranianos em Portugal é economista, nunca pegou numa arma. Mas também vai para a Ucrânia com a Centena Portuguesa.

O próprio Pavlo Sadokha, presidente da Associação de Imigrantes, nunca pegou numa arma na vida. «Sou economista.» Sente o peso da liderança – ele não tem hipótese senão juntar-se à Centena, encaminhar todo o processo, pelo menos até à chegada a Lviv. Pavlo é casado com uma portuguesa, e para a mulher é difícil imaginá-lo a partir para defender uma terra que não é dela. Mas depois ele diz isto: «Se a Espanha invadisse Portugal, o que é que vocês faziam?»

 

A ANGÚSTIA TODOS OS DIAS

Estão umas centenas de pessoas dentro da igreja de Arroios, que hoje é missa de Páscoa. Veio D. Manuel Clemente presidir à cerimónia, mas o patriarca de Lisboa não pode perceber uma boa parte do ritual, porque é cantado em ucraniano. Famílias inteiras acorreram ao templo, a celebração ainda demora umas horas, e cada casa trouxe um cesto com ovos pintados, carnes secas e manteiga para abençoar. No fim, os sacerdotes passeiam-se pela multidão atirando-lhe água benta. «Costumamos rezar pelas nossas famílias, por um ano bom», diz uma mulher que ainda agora estava a cantar no coro. Vem vestida de gala. A neta, ao seu lado, com laços presos às tranças e sapatos de verniz. «Mas hoje rezámos acima de tudo pela nossa pátria, pelo nosso chão. Pela paz que nunca tivemos, nem os nossos pais nem os nossos avós. E que os nossos filhos também não vão ter.»

 

O Patriarca de Lisboa preside à missa de Páscoa da comunidade ucraniana. Reza-se por um ano bom, mas sobretudo pela paz.
O Patriarca de Lisboa preside à missa de Páscoa da comunidade ucraniana. Reza-se por um ano bom, mas sobretudo pela paz.

O dia devia ser de festa, mas há rostos fechados, muita preocupação no ar. Os homens acabam por se juntar à margem de tudo aquilo, conversam e fumam cigarros, enquanto as mulheres esperam a vez pela bênção. Na roda masculina discutem-se as notícias do dia, mais três mortos em Slaviansk. Depois, mais silêncio. «Estamos todos à espera», explica Vasyl Chykota, um escultor de madeira com 44 anos. «As eleições, a 25 de maio, vão ser determinantes para percebermos se entramos finalmente no caminho da democracia. Só não sei se a Rússia vai permitir que sigamos o nosso rumo.»

Dias antes, Vasyl tinha levado a filha às aulas de piano em casa de Alla Litkovetz, 49. Esta antiga professora do conservatório de Lutsk veio há 14 anos para Portugal trabalhar em limpezas. Com o tempo, foi reconstruindo uma vida em Lisboa, voltou a viver da música. Partilha casa com o filho mais novo e uma amiga, Tatyana Strochan, 37. As duas mulheres estão aflitas. Alla porque tem um filho na Ucrânia que quer ir para a guerra. Tatyana, que cresceu em Donetsk, sabe que a família e os amigos correm perigo: se a guerra começar, começa por ali.

 

Alla é um mar de preocupações. Esta pianista vive em Lisboa e tem um filho que vive na Ucrânia. Todos os dias acordar a pensar que a guerra pode ter começado.
Alla é um mar de preocupações. Esta pianista vive em Lisboa e tem um filho que vive na Ucrânia. Todos os dias acordar a pensar que a guerra pode ter começado.

A filha de Vasyl continua a treinar a partitura e a determinada altura Alla, que tem fama de professora exigente, perde-se nos seus botões. Mais tarde há-de contar-nos o terror de imaginar uma guerra civil, famílias partidas, casas desfeitas, feridas que demoram muitas gerações a sarar. «A minha mãe tem 71 anos, a minha avó tem 93, e as duas são pró-russas. Tive de deixar de falar com elas durante uns tempos, agora falamos, mas a política tornou-se um tema proibido. E a guerra nem sequer começou.» Senta-se, exasperada de ansiedade. E depois confessa: «Não consigo viver assim. Todos os dias, quando me levanto, a primeira coisa que penso é se a guerra vai começar hoje. É isto que todos os ucranianos pensam quando acordam. Quando é que começa a guerra? Hoje?»

 

CRONOLOGIA DE UMA CRISE

A violência estalou quando o presidente Yanukovich preferiu Moscovo a Bruxelas. Cinco meses depois, a Ucrânia perdeu a Crimeia e está num impasse.

O mundo assiste.

21 de novembro de 2013: Oposição convoca a população para se manifestar contra a decisão do governo de não assinar um acordo com a União Europeia e reforçar as relações com a Rússia.

24 de novembro de 2013: Grande manifestação em Kiev sob o lema «Ucrânia é Europa».

1 de dezembro de 2013: Após várias manifestações, milhares de opositores tomam a praça Maidan e pedem o fim do governo de Yanukovich

8 de dezembro de 2013: «Marcha do milhão» em Kiev. Manifestantes bloqueiam bairros e derrubam a estátua de Lenine. Os manifestantes organizam-se e fazem turnos para que os protestos não cessem.

15 de janeiro de 2014: Grupos anti-Yanukovich, formados sobretudo por estudantes universitários, bloqueiam a entrada do Parlamento. Os confrontos com as autoridades sobem, e também o número de detenções e mortes.

26 de janeiro de 2014: Manifestações alastram-se a todo o país, agora de forma pacífica.

31 de janeiro de 2014: Exército pressiona Yanukovich a adotar medidas urgentes para estabilizar a Ucrânia.

6 de fevereiro de 2014: O Parlamento concorda em discutir um projeto de reforma constitucional. Yanukovich resiste.

18 de fevereiro de 2014: Depois de três semanas de tréguas, novos confrontos entre manifestantes e polícia em Kiev fazem dez mortos.

21 de fevereiro de 2014: Yanukovich e a oposição assinam um acordo para encerrar a crise política no país. O número de mortos, por esta altura, ultrapassa as oito dezenas. Os ucranianos em Portugal chamam-lhes a Centena celestial.

22 de fevereiro de 2014: Yanukovich foge quando opositores tomam o Parlamento em Kiev

27 de fevereiro de 2014: Separatistas pró-russos tomam prédios do governo na Crimeia.

1 de março de 2014: Senado russo autoriza o uso de força na Crimeia. Exército ucraniano entra em estado de alerta e o governo interino pede o alistamento da população. É criada a Guarda Nacional, para receber os mais velhos e os que vivem fora

da Ucrânia.

6 de março de 2014: Parlamento da Crimeia aprova anexação do território à Rússia e convoca referendo para o dia 16. União Europeia e EUA impõem sanções à Rússia por apoiar o referendo.

16 de março de 2014: Em referendo na Crimeia, 96,77% dos eleitores optam pela anexação da região à Rússia. A comunidade internacional questiona a legitimidade dos votos.

18 de março de 2014: Putin fala ao Parlamento russo e formaliza pedido por anexação da Crimeia. «A Crimeia sempre foi e é parte da Rússia», diz o presidente russo. As tropas de Moscovo entram no território e, sem apoio internacional, Kiev abdica da ilha.

7 de abril de 2014: Manifestantes pró-russos ocupam edifícios públicos de Donetsk, no leste da Ucrânia, e exigem um referendo de adesão à Rússia.

17 de abril de 2014: Diplomatas da Rússia, Ucrânia, EUA, e União Europeia chegam em Genebra a um acordo que prevê desarmar grupos armados ilegais.

18 de abril de 2014: Separatistas pró-Rússia rejeitam acordo alcançado em Genebra e dizem que não foram representados na decisão.

20 de abril de 2014: Tiroteio na cidade ucraniana de Slaviansk, controlada por separatistas pró-Rússia, faz três mortos.

25 de maio de 2014: Eleições presidenciais na Ucrânia. Os candidatos pró-europeus, o milionário Petro Porochenko, e a ex–primeira-ministra Iulia Timochenko (que foi presa por corrupção mas defende-se dizendo que foi vítima de uma cabala dos setores pró-russos) lideram as sondagens.

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia: Gonçalo Villaverde/Global Imagens