OPINIÃO

Os mesmos Marretas de sempre

Falámos com a Miss Piggy e o Cocas!

Uma instituição imaculadamente preservada: os Marretas. O cinema americano com fleuma britânica voltou a acreditar na bonecada que cruza gerações. Marretas Procuram-se!, que estreou quinta-feira, é o segundo tomo da ressurreição, com chancela Disney. Fomos até Londres e falámos com o adorável vilão, Ricky Gervais, e o realizador, James Bobin.

Há euforia no ar. Jornalistas de todo o mundo estão reunidos para a operação de promoção do novo filme dos Marretas, Marretas Procuram-se!, a oi­tava longa-metragem basea­da nas personagens da mítica série de Jim Henson, criada em 1976.

É impossível não ter simpatia por Miss Piggy, Cocas, Animal e companhia. A pen­sar nesse capital de crédito, a Disney vol­tou a trazê-los, em 2011, ao grande ecrã, num filme dirigido por James Bobin, gé­nio da comédia televisiva e responsável pela série Flight of the Concords. E bingo! O filme fez dinheiro a rodos. A história da reunião das personagens tinha mesmo graça e a música deu cartas, acabando por arrebatar o Óscar de Melhor Canção.

Assim, uma sequela afigurava-se inevi­tável e James Bobin, cada vez mais cola­do à Disney – a seguir realizará o sucessor de Alice no País das Maravilhas –, voltou à cadeira de realizador para um enredo que apanha as marionetas numa tour europeia organizada por um vilão chamado Bad­guy. Pelo caminho, Cocas vai parar à prisão, a um gulag na Sibéria e é substituído por Constantine, um sapo verde crimino­so que é a sua cara chapada e se autointi­tula, com sotaque russo, de «o criminoso número 1 mundial».

Marretas Procuram-se! alimenta-se cons­cientemente do sortilégio Muppet: tem hu­mor adulto que atrai também a pequenada. Uma combinação perfeita que foi sempre o desejo de James Bobin, verdadeiro fã da sé­rie: «Quisemos muito, em 2011, voltar com os Marretas ao cinema porque adoramos a ideia de que é possível um mundo onde os humanos coexistem com as marionetas.» O facto de os Marretas não serem exatamen­te craques naquilo que fazem é o segredo do seu charme, para o realizador. «Fonzie é um comediante péssimo, a Miss Piggy não sabe cantar e por aí fora. Mas não desistem, esforçam-se e dão o melhor de si e essa é uma boa mensagem para as crianças. Mais: trabalham sempre em equipa e nunca dei­xam de se ajudar. Acreditam uns nos ou­tros. Juntos conseguem sempre atingir o objetivo.»

Sobre a nova coqueluche dos Marretas, Constantine, o sapo malvado, Bobin reza para que este personagem de sotaque deli­cioso se torne num clássico: «A única coi­sa que não sei é o que ele fará a seguir… Cla­ro que como vilão nunca poderá juntar–se aos Marretas… Mas ele é tão divertido! Adoro-o. É fantástico neste filme!» Quem conhece o toque de surrealismo no humor de Bobin, percebe a predileção. É precisa­mente com Constantine que Ricky Ger­vais interage e há já uma cena que poderá tornar-se um clássico: a cena de dança en­tre Constantine e o seu número 2, Badguy.

O muito sorridente Gervais, o mais bem pago talento de comédia britânica, tam­bém adora os Marretas, ele que no filme an­terior foi cortado da edição final numa pequena participação. Sobre o desafio de con­tracenar com Miss Piggy, é taxativo: «Foi um prazer. Ela é a minha diva preferida. Creio que não se importa que lhe chamemos diva… Está sempre, sempre a falar do mesmo: ela própria. Quanto a contracenar com o sapo Constantine, sempre soube que ele me roubaria o protagonismo… Quando olhei para o argumento e vi o número de dança e canto assustei-me. Cantar até nem era um problema, mas dançar… ui! Até que tomei consciência de que ninguém iria re­parar em mim! Caramba, o meu “par” é um sapo de pernas pequenas e todo desajeita­do! Enfim, esse número musical foi pen­sado para ser confrangedor… e eu adoro ser ultrapassado por estes bonecos. Nem quero acreditar na minha sorte: estou a contracenar com os Marretas!»

Madrid, Dublin, Berlim e Londres são as cidades onde Badguy e Constantine le­vam esta nova digressão dos Marretas, mas quando o realizador se apercebe da presença de um jornalista português, pro­mete: «Da próxima vez haverá uma para­gem em Lisboa!»

Seja como for, o que importa é que o es­pírito dos Marretas está vivo e de novo na estrada. «Não houve qualquer interferên­cia da Disney, contrataram-me para voltar a dar vida aos Marretas porque eu era fã. A ideia era precisamente recuperar o espí­rito antigo dos bonecos! E estes Marretas são genuínos, são os Marretas da minha infância. Nunca os quis modernizar. Claro que têm uma pitada da comédia mais atu­al, mas sempre respeitando o humor aber­to e próprio dos Marretas.» Será esse, então, o segredo da fórmula Marretas? O ar­gumentista e cineasta inglês exclama que sim e adianta: «Quando era miúdo lembro–me de ver em casa aos domingos com toda a minha família e do meu pai a rir-se atrás de mim no sofá. E era bom sentir que o meu pai se ria do mesmo que eu.»

Gervais, por seu turno, realça o espírito otimista deste grupo: «Lembro-me de que o espírito dos Marretas sempre passou por encarar os objetivos de forma otimista e por verem a diferença como algo de posi­tivo. Outra coisa de que sempre gostei ne­les é que lutam e lutam contra todas as ad­versidades e em comédia isso é essencial. Depois, claro, é divertido desconstruir is­so tudo não com cinismo mas com consci­ência. Afinal de contas, é um mundo mági­co.» Além de Gervais, o elenco tem os comediantes Tina Fey (da série 30 Rock) e Ty Burrell (da série Uma Família Moderna), mas o que é impressionante são os atores convidados para pequenas pontas (os chamados cameos). A lista é infindável mas fi­cam alguns nomes: P. Diddy, Celine Dion, Salma Hayek, Christopher Waltz, Tom Hi­ddleston, Ray Liotta, Danny Trejo, Lady Gaga, James MacAvoy, Jermaine Clement e tantos outros.

 

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Falar para o Boneco

Entrevistar os Marretas? Sim, é isso que a Disney nos propõe quando nos leva para uma sala onde estão Cocas, Miss Piggy e Constantine, o tal novo sósia do Cocas. Pediram–nos para «entrar na magia» e não podíamos perder a oportunidade, pois não?

Constantine, poderia ser uma boa ideia a Dis­ney desenvolver um filme apenas consigo, sem o resto dos Marretas?
_Constantine (Matt Vogel) _ Claro, por­que não? Posso fazer um spin-of, um show de televisão, um reality show, qualquer coisa. Até posso saltar de um precipício. Já não posso ser um mau da fita, a minha cara agora está em todo o lado! E a culpa é deste filme…Tenho de fazer escolhas de carreira.

Há um rumor de que o Cocas queria tam­bém ficar com os dois papéis de sapo. Isso é verdade?
_Cocas (Steve Whitmire) _Isso foi falado, era uma hipótese…Penso que poderia in­terpretar este vilão …
_Miss Piggy (Eric Jacobson) _Penso que ele era capaz. Acredito no meu Cocas.
_Cocas _Isso é muito querido da tua par­te. O problema é que o meu sotaque de eu­ropeu de leste é péssimo! Além disso, as duas personagens estão em muitas cenas juntas e é impossível para um sapo fazer o efeito visual do ecrã verde…

Miss Piggy, experimentou muitos ves­tidos até escolher o certo para a cena do casamento?
_Miss Piggy _ Não foram muitos, porque amei aquele que Vivianne Westwood fez para moi. Não poderia escolher outro… É um vestido lindo, não é? Pode não parecer, mas foi feito com plástico reciclado.
_Cocas _A sério, é verdade.
_Constantine _Ó porca, o teu cabelo tam­bém é feito de plástico. É uma peruca, ca­ramba!
_Miss Piggy _Tem cuidado que eu depois não sei se podem reciclar a tua cara!

Pensa que, de alguma forma, pode vir a ser nomeada ao Óscar?
_Miss Piggy _Tudo é possível. Estou muito bem neste filme, não estou? A Academia tem é de acabar com o preconceito de não nome­ar animais. Até hoje nunca nomearam um animal de quinta. É uma vergonha!
_Cocas _Também nunca nomearam ne­nhum anfíbio. Penso que somos sempre injustamente ignorados. Não é fácil ser verde.

 

EU E O MEU MARRETA PREFERIDO

 

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ANA GALVÃO, RADIALISTA
Animal

A voz da Antena 3 é casada com um fã dos Marretas, o célebre Nuno Markl, mas não se deixa influenciar. A sua relação com os Marretas é coisa séria. Como se não bas­tasse, garante ser fã valente do baterista Animal, provavelmente um dos coadjuvan­tes com maior número de fãs…: «É óbvio que é fácil gostar deste pequeno monstro desastrado e descabelado, sobretudo quando se é criança! Continua até hoje a ser o mais divertido.» Tem razão. No filme, Animal, sem Cocas por perto, convence tudo e todos a deixarem-no fazer um solo de bateria interminável… Para Ana, crescer com os Marretas foi também uma experiência cultural já que a sua infância foi em Madrid. Cocas era uma rã chamada Gustavo. Curiosamente, o seu filho Pedro também já é fã mesmo com tenra idade: «É natural. São bonecos altamente atrativos para qualquer criança. A junção de animais com uma espécie de ser humano é sempre vencedora», diz. E diz também que se fosse convidada a fazer um número num show Marreta estaria no camarote a falar do estado do país ao lado dos velhos Statler e Waldorf.

 

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CÉSAR MOURÃO, ATOR
Velhos Statler e Waldorf

Este passou a sua infância a rir com os bonecos. Diz que teve dificuldade em esco­lher o marreta preferido, embora reconheça que o humor cáustico dos velhos do camarote seja o seu. «Agora que penso, lembro-me de achar sempre aquele humor dos Marretas algo muito transversal. Havia ali coisas muito surreais, com um hu­mor meio fora», conclui. César Mourão é daqueles que acredita na magia destes bonecos. «Todos querem contracenar com eles porque são já um clássico, têm esse estatuto. Digamos que têm um valor vintage, ficou na história.» Se lhe pedirmos para escolher entre a equipa Marretas e a equipa Topo Gigio, não pestaneja: vai pa­ra os Marretas! «A nível de humor até estão próximos dos Monty Phyton, sobretudo no lado do non sense. Penso que até fiquei com algo dos velhos, sobretudo nas minhas personagens com mais idade. Digamos que os meus velhos são também como o Statler e o Waldorf, sempre do contra e nada doces…»

 

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MIGUEL ÂNGELO, MÚSICO
Gonzo

No pique da febre da série Os Marretas, o cantor Miguel Ângelo era um adoles­cente. O fenómeno desta criação de Jim Henson bateu-lhe forte e ele é uma boa testemunha de como aos domingos à noite Portugal parava em frente ao televisor para trinta minutos de comédia musical para todos os públicos. «Ainda não havia televisão a cores e eu já via a série! Era um must. As personagens tinham força, eram autênticas personagens de cinema! Todos nos revíamos nelas, desde o amigável Cocas ao cozinheiro sueco!» Porquê o Grande Gonzo como marreta pre­ferido? Não sabe responder, mas admirava a sua tentativa de fazer grandes feitos que culminavam sempre em apoteóticos falhanços. «Se fosse convidado para o show dos Marretas, o meu número era o do crooner decadente. Punha todos de tuxedo», avisa. Além dos Marretas, os seus heróis de infância foram os campeões de Fórmula 1 desses tempos e, claro, David Carradine na série O Sinal do Dragão.

 

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LJUBOMIR STANISIC, CHEF
Animal e Gonzo

Mesmo para quem vem da ex-Jugoslávia, o imaginário dos Marretas é uma referência. Aliás, o dono dos restaurantes 100 Maneiras e ex–jurado televisivo do MasterChef considera-se mesmo fã. Diz-se atraído pela beleza dos bonecos e por aquele sentido de humor: «Lembro-me, em criança, de ter em casa um monstrinho de peluche dos Marretas! E tinha também o Gonzo! Pobre nariz o dele! Era sempre arrastado pelo chão! A minha recordação de infância mais viva é de estar coladíssimo à televisão para ver os Marretas o mais perto possível. Recordo-me também dos velhos Marretas no camarote a criticar os outros.»

 

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JOÃO MOREIRA/PEDRO SANTO, HUMORISTAS
Beaker

Criaram um dos bonecos de culto desta década, o Aleixo, do Programa do Aleixo, mas garantem que os Marretas não foram uma fonte inspiração. Apesar disso, João Moreira e Pedro Santo, agora responsáveis pelo talk show Anti-Social, da SIC Radical, 30 anos, juram a pés juntos que são fãs dos Marretas. João Moreira lembra-se sobretudo que não atingia aquele humor: «Quando via que os adultos gostavam, achava que não era para miúdos. Além disso, não percebia as piadas. Era uma criança bem burra.» Burro ou não, chegou a fazer a coleção de cromos de um subproduto dos Marretas, Os Marretinhas, mesmo sendo os seus heróis infantis Conan, O Rapaz do Futuro e Conan, O Bárbaro. Esta dupla da Bairrada tem ainda um desejo: se forem convidados para atração no Muppet Show será para João Moreira atuar com a sua banda, os The Macaques.

Rui Pedro Tendinha, em Londres