OPINIÃO

Os gestos em que todos reparam

Isabel de Brito e Cunha diz-lhe tudo o que precisa de saber sobre cortesia e protocolo.

A passagem dos reis de Espanha por Portugal trouxe à ribalta os procedimentos estudados ao detalhe que Isabel de Brito e Cunha conhece tão bem. Freitas do Amaral levou-a para o Ministério dos Negócios Estrangeiros para trabalhar no departamento de Protocolo. Esteve 11 anos no Palácio das Necessidades. Antes disso, tinha sido secretária de direção e
relações públicas. Sabe como receber um chefe de Estado, mas defende que a cortesia é para aplicar em todas as situações. Do automóvel ao jantar informal, passando pelo não consensual beijinho. Escreve sobre comportamentos sociais em Saber Ser, Saber Estar e Saber Viver (ed. Bertrand). E não lhe perguntem a idade.

Como é que lida, no dia a dia, com situações em que as pessoas não estão a ser corteses?
Tem de ser com bom senso. Tenho pena que essa pessoa não se saiba comportar como deve ser. Nada me choca, mas há coisas básicas que todos têm de saber.

Faz reparos?
Se me perguntam, digo como acho que deveria ser, mas não chamo a atenção de ninguém. Não acho bonito da minha parte. Posso brincar se vier a propósito mas não faço reparos. Se for propositado não posso aceitar, mas tenho de respeitar a maneira de ser dos outros.

Como era para si quando recebia os amigos dos seus filhos?
Eduquei os meus filhos dentro dos meus princípios. Têm obrigação de estar preparados para se saberem comportar em todas as situações. Saber falar ao telefone, estar à mesa. Quando os amigos chegavam lá a casa e não se comportavam assim diziam: «Olha que a minha mãe não gosta que se fale assim ao telefone», «olha que a minha mãe gosta que se tire o chapéu». Às vezes, os amigos até faziam perguntas. Tudo numa base desportiva.

Acha que as pessoas têm mais vergonha de estar perto de si com medo de fazerem asneira?
De todo. Sou tão simples como elas e elas tão simples como eu. Somos todos iguais. Naturalmente, quando têm alguma pergunta dizem «a Isabel é que sabe».

Onde é que aprendeu as regras? Como era na sua família à medida que foi crescendo?
Vamos aprendendo. Tudo foi feito com muita naturalidade. Os meus pais ensinaram-me como se come à mesa. Como se usam os talheres, como se tratam pessoas mais velhas, cumprimentá-las, dar-lhes o lugar, se for num transporte público levantar, não estamos à espera que o da frente esteja livre. Respeito pelo próximo. Não é mais do que isso. Depois há regras mais minuciosas. E mantermo-nos no nosso lugar. Se não o fizermos não seremos respeitados. Trabalhei 42 anos e nunca ninguém me desrespeitou, sempre estive no meu lugar.

Mas como lhe ensinaram as regras em casa?
Com 6 anos já ia ver se a empregada tinha posto bem a mesa e aos 7 já fazia a sobremesa. À noite, a minha mãe ia ver se a roupa estava bem posta na cadeira. E eu fiz o o mesmo com os meus filhos. Antes de me deitar, dava um beijinho e via se a roupa estava bem posta. Acordava-os se estivesse mal. Só aconteceu duas vezes, não houve terceira. O mesmo com as chamadas telefónicas para os meus filhos. Se era eu que atendia e diziam «posso falar com o António?», eu dizia «mas primeiro dá as boas-noites». Riam-se.

Que mais fazia parte das suas tarefas? Por exemplo, quando aprendeu a sentar as pessoas à mesa?
Ao jantar de família, sentávamo-nos como devia ser: os meus irmãos à direita da minha mãe, as raparigas do lado direito do pai. Se viesse uma tia, nós saíamos dos nossos lugares e dávamos às pessoas de mais respeito. Não me lembro de não ter aprendido. Desde que comecei a comer à mesa, percebi as regras, que é só respeito. Tudo isso me ajudou no meu trabalho de relações públicas e secretariado. Tudo me foi facilitado pela educação que tive. Tanto estava a falar com os meus pais como, quando não havia empregada, se limpava o pó. É preciso aprender de tudo. Não caem os anéis a ninguém.

Quem recebeu no Palácio das Necessidades quando trabalhava no Protocolo?
A Rainha de Inglaterra, a rainha da Holanda. A Isabel II, terá sido no final da década de 1980. Ela e o príncipe consorte. O príncipe Carlos e Diana. Qualquer visita oficial é feita com bastante antecedência. Os contactos, visitas, o que se faz, o que se come, tudo o que se faz é debatido.

Alguma vez se sentiu desenquadrada? Pela forma de vestir, por exemplo?
Aqui no protocolo, tínhamos de vir arranjadas todo o dia. Naquela altura nem se deixava a mulher usar calças. Hoje é diferente. Tínhamos de vir sempre arranjadas para receber alguém. Não me lembro que isso me tenha acontecido. Não vou para a praia, não vou fazer compras, vou trabalhar. Saia ou calças, normais, não muito estreitas, ter um blaser ou casaco. Nem de mais nem de menos. Uma secretária tem de estar classicamente vestida. Vejo que muita gente nova se veste como se fosse para um bar. O que é culpa dos chefes. Se chamarem à atenção isso não acontece. É preciso não exagerar. A moda hoje é muito sexy. Não deve ser demasiado decotado nem cheio de colares. Se quer sair à noite, com certeza, pode trocar as calças ou blusa, os sapatos, pôr acessórios.

Diz no seu livro que a senhora deve recolher os pratos no final de um jantar. Porque é que faz esta diferença de género?
Alguém tem de ficar à mesa a fazer conversa. O homem geralmente serve o vinho. Não quer dizer que não ajude a mulher. Pode ter um cesto e recolher os talheres. É uma questão de dividir as tarefas. O que não é bonito é os convidados levantarem-se e ficar a mesa vazia.

Muita gente pensa o contrário.
Já tenho tido discussões com amigas. Se a dona da casa não quer que se levantem, não se levantam. Uma vez fiquei sozinha à mesa. Levanta-se um dos anfitriões e pode pedir ajuda a uma amiga mais íntima ou alguém de família. Ninguém sabe o que se passa naquela cozinha. A dona da casa começa a ficar nervosíssima. As pessoas encontram-se para conversar.

Um beijinho ou dois beijinhos?
Toda a gente pergunta isso. Cada terra tem seu uso. Há países onde se dão três, outros onde se dão dois, na Grã-Bretanha dá-se um aperto de mão. Há outros em que se dá um, como é o nosso caso. De repente, veio a moda dos dois beijinhos. Não é proibido nem deixa de ser, mas não é a nossa tradição. Não é natural, e a pessoa tem de ser natural. Tenho de dar dois beijinhos quando toda a vida dei um? Tal como não é bonito um senhor acabar de ser apresentado a uma senhora e dar-lhe um beijinho. Dá-se um aperto de mão. Hoje em dia é tudo corrido a beijinhos.

Num jantar que se queira informal como é que as pessoas devem cumprimentar-se quando são apresentadas?
Em princípio, devem apertar a mão. Mas se estão num ambiente familiar pode haver um aperto de mão e logo a seguir um beijinho, porque o ambiente proporcionou-se. Tem de ser feito com naturalidade. Mas o aperto de mão deve ir sempre primeiro, porque é sinal de respeito. Um beijinho significa que já há uma certa relação entre as pessoas.

O aperto de mão transformou-se num cumprimento quase exclusivo dos homens.
Pois, a moda leva a pensar assim, mas não é. Assim como não compreendo como é que membros do Governo conhecem uma senhora e vão logo dar um beijinho.

Angela Merkel dá beijinhos aos outros Chefes de Estado.
Ela dá dois. Têm muitas reuniões, o que tem é de ser natural. Mas mesmo a nível do Governo português, vejo ministros que acabam de conhecer uma pessoa e dão logo um beijinho. Acho que aquele beijinho é popular, para se conquistar um voto, e não posso concordar.

Quem lhe pede aulas de protocolo e etiqueta?
Pessoas que subiram na vida e não conseguem acompanhar os comportamentos sociais. Mulheres de figuras públicas que também gostam de aprender e saber estar.

Como chegam até si?
Por artigos que fui escrevendo. Ter ido à televisão chamou muitos alunos e também já tive uma mulher de um político não português, mas que falava a nossa língua. Acompanhei-a muito. Ensinei-a. Ela precisava mesmo de saber como estar, para aprender a ser uma senhora, com S grande. Saber estar e saber acompanhar o marido. Era um curso intensivo. Foram dois anos. Ao princípio, três vezes por semana. Para o final quase todos os dias. Com esta pessoa terminou a relação profissional, com outras ficou uma relação de amizade. Telefonam-me. Algumas com dúvidas: como é que se põe uma mesa, como se recebe em casa, como se apresenta uma pessoa a outra.

E como é que se apresenta?
«Isabel, dá-me licença que apresente a…?» É uma coisa muito simples. Em tempos muito idos, tinha de haver vontade de ambas as partes para sermos apresentados, portanto ficou a frase «dá-me licença que apresente…». E depois é preciso explicar: «Ela vem daqui, estudou aquilo…» Dar uma pista para a conversa. Dantes só se apresentava em casa, nunca na rua. Hoje é o contrário. É muito feio não se apresentarem as pessoas.

As pessoas dizem que têm aulas consigo?
Eu não digo e acho que elas também não. Ou então dizem com a maior naturalidade. E falam entre si, às vezes até trazem outras amigas.

A cortesia pode melhorar a vida das pessoas?
A educação é um direito que assiste a qualquer cidadão. A cortesia aprende-se. Sem ela não há amigos, as pessoas não têm alegria. Se tratar mal os outros e os outros a si, fica logo maldisposta. No trabalho e na família, a convivência fica logo difícil e tudo isso se reflete no dia a dia.

Lina Santos
Fotografia: Natacha Cardoso/Global Imagens