OPINIÃO

O homem que viu mais longe

O desenho não era o forte de Ramiro, mas a paixão venceu tudo.

Sem sócios, sem dinheiro e sem experiência, Ramiro Paulino Pereira lançou uma marca de óculos para o segmento de luxo que está a conquistar a Europa e já chegou ao Japão. Uma história que tinha tudo para dar errado – e está a dar certo.

Uma foto no Facebook foi quanto bastou. O criador e até há bem pouco tempo único funcionário da marca de óculos Paulino Spectacles, Ramiro Paulino Pereira, só teve de postar uma fotografia do primeiro modelo que produziu para chamar a atenção de uma jornalista inglesa. A partir daí as coisas começaram a acontecer em catadupa. Era maio de 2012, a marca só seria lançada em setembro. Um ano depois estava em quatro capitais europeias. Passados dois, tem quase 40 pontos de venda espalhados pelo mundo.

Este arranque tão inesperado como fulgurante é capaz de ser o único ingrediente típico desta aventura. «Típico» no sentido dos «casos de sucesso», aquelas histórias que todos gostamos de ouvir contar, mesmo que suspeitemos estar só a saber do enredo pela metade. Tudo o resto faz parte de uma cartilha pessoal da ambição, em que não há mais segredos do que a vontade, os afetos e os valores.

Ramiro Pereira tem 49 anos. Sabe que não é a idade mais comum para estar a arriscar no seu projeto de vida. Estas coisas fazem-se aos vinte, trinta, altura em que, nos anos 1990, começou a pensar criar uma marca própria. Mas a vida meteu-se pelo meio – a loja de ótica, os filhos… – e o pensamento nunca passou disso mesmo. Até que, em dezembro de 2011, visitou São Paulo com a namorada, a ilustradora Yara Kono. «Fomos até uma rua com lojas de topo. Uma delas era uma ótica à porta fechada onde faziam os próprios modelos. E a Yara sugeriu-me: “Porque é que não fazes isto?”», conta. «A ideia não me largou mais.»

O ótico cresceu rodeado por lentes e armações. Muito antes de nascer, corriam os anos de 1930, o avô abriu uma loja de óculos em Santarém onde se vendia também eletrodomésticos. Depois foi a vez de o pai inaugurar uma ótica própria, agora nas Caldas da Rainha, onde chegou a fazer modelos únicos à mão. Até os verbos usados para explicar o processo caíram em desuso: «grozir» as lentes, «esmilhar» o vidro. Nos anos 1970 começou ele próprio a aprender, para depois, em 1989, partir, primeiro para Lisboa, depois para Almada.

Quando se lançou para a marca batizada com o nome e tradição familiares, Ramiro tinha poucas certezas. Sabia que queria fazer um produto nacional e de grande qualidade. Sabia que o estilo seria vintage, inspirado no cinema americano dos anos 1950 e 1960. Sabia que não, o desenho não era o seu forte. E que seria ele a tratar de tudo.

NM1155_Paulino02

Em abril, depois de alguns becos sem saída, incluindo a conhecida feira Mido de Milão, foi parar a Gondomar, à Sociel, a última fábrica de armações em acetato da Península Ibérica. Foi lá que um dos proprietários, José Maria Rodrigues, pegou nas folhas de papel de máquina com desenhos a carvão e começou a fazer os moldes – tudo à mão, um processo de um mês ou mais. «Os modelos tiveram de ser todos revistos», lembra Ramiro com um sorriso, para logo a seguir fundamentar: é uma questão de conforto. «Dou uma atenção minuciosa à ponte, a parte do nariz. Todas as pessoas que os experimentam têm dito, “nunca tive uns óculos assim, que não os sentisse”.» Muito em breve, antes de avançar para o molde, vai começar a imprimir os protótipos em 3D. «Vai permitir afinar o processo», explica.

Os primeiros Paulino Spectacles foram os Sara, os tais que chamaram a atenção da jornalista inglesa e que, durante a primeira fase do negócio, foi o modelo mais popular.

Sara é o nome da avó materna de Ramiro Pereira. A ideia inicial era que cada um dos desenhos evocasse um familiar. E assim foi – até ao 24º modelo. Não houve primos para tanto sucesso e as últimas três armações receberam nomes de cidades: Óbidos, Santarém e Nazaré. «São terras que influenciaram muito a minha adolescência», explica o ótico, mais emotivo no trabalho do que nas palavras. Tudo nesta marca é pessoal.

A sofisticada Óptica do Sacramento, no Chiado, foi a primeira a vender Paulino Spectacles. A sessão fotográfica para o catálogo fez-se ali ao pé, na loja A Vida Portuguesa, de Catarina Portas. Ramiro sabe que é um negócio para um nicho. Na própria ótica, em Almada, não vende a marca. «Na loja as coisas estão terríveis. Tive quebras de 50, 60 por cento. Não é o mesmo público», explicava há cerca de um ano. «Houve quem me avisasse, “vais meter-te nisso e isto está péssimo”. Não ouvi ninguém. Sabia que pelo menos em Portugal este era um projeto único.»

Até ao final do ano passado era Ramiro que, a partir de casa, em Oeiras, tratava de tudo. Da conceção dos modelos aos contactos comerciais, passando pela preparação das encomendas. Só não tratou do plano de negócios nem do financiamento por uma razão simples: arrancou sem nenhum dos dois. «Não tinha capital, mas não pedi um empréstimo, fui conseguindo», explica. De início, nem stock na fábrica mantinha. Hoje, já com as contas feitas e capacidade de resposta imediata – «se nos encomendarem cem peças temos as cem peças para entregar» –, passou a contar com a colaboração do filho e do sobrinho. Um negócio familiar, confirma, «até porque a Paulino Spectacles tem de ter continuidade».

NM1155_Paulino03

Em pouco mais de dois anos, a marca chegou a nove países, incluindo Japão, Austrália e Nova Zelândia, e está disponível em 36 pontos de venda – um número que muito em breve deverá atingir as quatro dezenas, quase metade em Espanha. Gabam-lhe o design, a qualidade e o modo de produção artesanal. «Handmade in Portugal», lê-se em todas as armações. Se num contexto comercial a palavra «valor» aplicada a este produto remeteria para entre 320 e 500 euros, o preço de venda ao público recomendado, para Ramiro, o termo é muito mais do que isso. «Se eu produzisse na China conseguia fazer dez, 15 vezes mais barato, mas não teria o mesmo valor.» Uma das suas lutas é a valorização do produto nacional e os Paulino Spectacles, tirando o acetato italiano, são 100 por cento portugueses. «Em Paris não acreditavam», acrescenta. Numa primeira fase, as carteiras eram feitas de cortiça, agora, são de burel, o tecido de lã artesanal relançado pela Burel Factory, de Manteigas.
O efeito dominó fez-se sentir também na fábrica de Gondomar. Antes de começar a produzir Paulino Spectacles, empregava apenas três pessoas. Hoje, são 13. «Quando começamos a ser falados como uma marca portuguesa fabricada em Portugal surgem outros contactos», diz, sem pretender reclamar louros.

Em menos de dois anos, a empresa começou a ter lucro – embora «muito baixo», frisa o fundador. E se em 2013 cresceu 90 por cento em relação ao ano anterior, este ano prevê-se uma faturação três vezes superior a 2013. O objetivo é continuar a crescer, mas de forma controlada, sem nunca perder o cariz familiar. Investidores? Não está interessado. Esta clarividência, pelo menos aparente, estende-se a outras decisões, como o design e as cores dos modelos, alguns em surpreendentes degradés. «Nunca me preocupei em perceber se eram cores da moda. Preocupei-me em escolher cores de que gosto», explica. «Se calhar parece demasiado simples. E é.»

Sem sócios, com o dinheiro que vai ganhando e a experiência que tem acumulado, Ramiro Pereira junta mais um elemento à equação: paixão. A palavra aparece sorrateira, ele nem dá por isso. Explica que na fábrica, para fazerem os moldes, só precisam de uma metade do modelo, e por isso ele já só desenha essa metade, embora na sua cabeça o veja inteiro. «É como quando as pessoas estão apaixonadas: olho para ele e consigo perceber como fica depois de pronto.»

Num registo mental quase anacrónico – apaixonado, confiante, alheio a fórmulas e segredos do sucesso –, Ramiro está cheio de ideias. Lançados na primavera/verão de 2013, os óculos de sol Filipa foram o primeiro modelo em que cruzou o vintage com o contemporâneo, numa linguagem mais particular. São desde então os seus favoritos e também os mais vendidos, de Tóquio a Lisboa. A sensação de tudo isto é difícil de descrever mas Ramiro consegue resumir a coisa ao essencial: «Tenho estes óculos na minha mão e vejo-os e penso, “fui eu que os desenhei”.»

NÚMEROS DO SUCESSO
_ 27 modelos, a maior parte existente também em óculos de sol.
_ Moldes concluídos em mais de um mês – cada um.
_ Preços de venda ao público recomendados: entre 320 e 500 euros, este último para edições limitadas.
_ Mais de 1500 pares vendidos em todo o mundo.
_ Disponível em 36 óticas espalhadas por Portugal, Espanha, França, Reino Unido, Itália, Islândia, Japão, Austrália e Nova Zelândia.

Joana Stichini Vilela
Fotografia: Carlos Manuel Martins/Global Imagens