OPINIÃO

O hambúrguer pós-revolução

Quarenta anos depois, o Sandwich Bar continua livre e aberto a todos os gostos.

Em 1974, no primeiro verão depois de Abril, abriu na Costa de Caparica a primeira hamburgueria portuguesa. Quarenta anos depois, o Sandwich Bar continua livre. E, aos 62 anos, Hugo Ponte acredita que já vendeu mais de dois milhões de hambúrgueres.

Hugo Ponte, 62 anos, camisa branca com os dois botões de cima abertos, calças de gan­ga, havaianas nos pés, pega no neto ao colo. A pele tem um tom de bronzeado natural ga­nho em décadas passadas à beira-mar, na Costa de Caparica. Foi aqui, na praia mais fa­mosa dos arredores de Lisboa que, em 1974, abriu as portas da primeira hamburgueria em Portugal – o Sandwich Bar. Nunca mais a fechou, está aberta todos os dias do ano. Segundo as suas contas, já terá servido mais de dois milhões de hambúrgueres nestes quarenta anos.

Antes do dia 1 de junho de 1974, Hugo já ti­nha tentado vender hambúrgueres na Costa de Caparica. No verão anterior esteve de por­ta aberta, mas sem sucesso. «Durante dois meses fiz a primeira tentativa. No final de agosto achei que não valia a pena.» O bar era uma casa sem condições, bem no centro da Costa, onde a loiça era lavada num alguidar e a grelha era alimentada por uma garrafa de gás. «Ainda não tinham inventado a ASAE, podia fazer-se isso», recorda o homem que hoje é também proprietário de um hotel e de um restaurante italiano na Caparica.

A ideia surgiu em 1972, aquando de uma visita a Benidorme e Torremolinos, em Es­panha, onde os hambúrgueres começavam a surgir como opção gastronómica.«Porque não? Estudava Engenharia Eletrotécnica no Técnico e dava explicações. Tinha uma série de miúdos na Costa que eram meus explicandos e que, curiosamente, foram os meus primeiros funcionários. Eles precisa­vam ganhar uns trocos e acharam a ideia engraçada.» Quem não achou muita pia­da foram os clientes. Hugo foi para trás do balcão e a reação das pessoas que entravam não foi a melhor. Pediam-lhe pregos ou bi­fanas e quando ele respondia que só vendia hambúrgueres a resposta era quase sempre a mesma: «“O que é isso?” Eu explicava que era carne picada e eles diziam-me que não. “Para mastigar, mastigo eu.”» Passados dois meses, Hugo Ponte estava desmoralizado. Noventa por cento dos clientes saía sem con­sumir. Falou com o senhorio e fechou a porta.

A ideia maturou, o bichinho manteve-se e voltou à carga em 1974, com mais condi­ções. «Dei um aspeto condigno à chafarica desgraçada que tinha, arrumei a sala, tra­tei de uma decoração bonita e isso ajudou, talvez também graças aos novos tempos – à revolução, acredito que sim – e às no­vas liberdades.» Outro ponto que jogou a seu favor foi a amizade que mantinha com o delegado de Saúde da área – ele achava-me muita graça e nós conseguíamos fun­cionar sem licenças nem alvarás. Fecháva­mos às quatro da manhã e toda a gente caía ali porque não era normal haver um estabe­lecimento aberto até tão tarde. Como só ha­via hambúrgueres…»

Em 1974, a estrela da casa era o hambúr­guer só com cebola, uma receita que serve agora para comemorar as quatro décadas do Sandwich Bar. «O primeiro verão foi en­graçado. Tinha 22 anos, fui um muito jovem empresário. Os clientes tinham mais ou me­nos a minha idade. Joguei râguebi muitos anos no Belenenses e toda essa malta vinha cá porque tinham casas de férias na Costa. Faziam-se ali umas excursões e começou por ser um ponto de encontro. Também não havia grande oferta.» Nessa época, a famosa Rua dos Pescadores era bem diferente, com poucos prédios e muitas barracas até à praia. Hugo vinha para a Costa desde os 5 anos. Os pais tinham uma casa de veraneio e, aos 18 anos, acabou por se mudar do Restelo, em Lisboa, para a Caparica. «Nunca mais da­qui saí.»

A novidade do Sandwich Bar não foi ape­nas a dos hambúrgueres. Este foi também o primeiro local onde se vendeu Coca-Co­la na Costa de Caparica. A bebida de origem norte-americana esteve proibida em Por­tugal Continental até à Revolução de Abril (nos Açores, por causa da Base das Lajes, e na Madeira, perante a quantidade de turis­tas estrangeiros, a bebida já era consumi­da). Mas depois disso tudo mudou. Um dia, um representante da marca chegou à pra­ça onde Hugo trabalhava: «O senhor Salga­do apareceu aqui com uma camioneta cheia de Coca-Cola e um motorista. Parou no lar­go e foi amor à primeira vista. Ficámos mui­to amigos e nunca mais esquecemos isso. Se ele tivesse parado a camioneta noutro sítio, a história teria sido diferente. E isso tam­bém nos ajudou, porque passámos a vender hambúrgueres e Coca-Cola.»

Mas, numa época conturbada da socie­dade portuguesa, os dois produtos tipica­mente americanos não foram bem aceites por toda a gen­te. «Tive alguns dissabores. Senti isso mais em termos hu­manos do que comerciais. Eu era um menino da Costa, o meu verão era pas­sado na praia, o meu pai alugava o toldo durante quatro me­ses. Fazíamos uns bailaricos nas garagens e os meus companheiros eram, além dos meus amigos, os nativos, o banheiro ou o na­dador-salvador com quem ao fim do dia ia à pesca. Tinha uma relação muito íntima com essa malta toda. Depois da reviravolta políti­ca tive aqui à porta uma cena de faca e algui­dar. Um grupo de pessoas pensou que a pa­rede do Sandwich Bar era um sítio ótimo pa­ra colar uns cartazes de um partido político em tons de vermelho. Tinha o estabeleci­mento aberto, eles encostaram uma escada e começaram a colar cartazes. Vim cá fora perguntar o que se passava e fui enxovalha­do por uma multidão. Disseram-me coisas do arco-da-velha, principalmente pes­soas com quem eu me dava. Por isso é que me doeu mais. Não consegui desculpar-lhes is­so. Nunca se resolveu, nunca mais consegui reconciliar-me. Foram as opções deles, es­sencialmente deles.»

Hugo é um homem tranquilo. Fala com calma do que passou e do que poderá acon­tecer. Numa altura da vida em que já pode­ria estar a gozar a reforma, continua ligado ao negócio da família, dando espaço ao filho, Marcos, para mostrar o que vale a sua licen­ciatura na área da Economia. «Há um confli­to de gerações entre mim e o meu filho, que tem demasiadas ideias. Ele quer experimen­tar tudo – o que é legítimo e salutar – mas há muitas coisas pelas quais já passei. A expe­riência diz-me que não é por aí. Isso às vezes cria um pequeno choque, que é normal, por­que a visão é diferente.» Olhando para trás, Hugo Ponte recorda que tem clientes que ali vão desde o primeiro dia. «Muitos dizem-me que comeram aqui o primeiro hambúr­guer da vida. Andámos a investigar e somos a mais antiga hamburgueria em Portugal, não tenho ideia de que houvesse outra.» Ou­tro orgulho durou até há cerca de dois anos. Nos primeiros 38 anos de negócio, garan­te, o valor das vendas foi sempre aumentan­do: «Era uma vaidade muito grande que eu tinha. As vendas tiveram uma subida anor­mal com o fenómeno dos brasileiros na Cos­ta – chegaram a estar cá mais de dez mil. To­dos caíam aqui e isso deu um incremento às vendas fora do verão. Foi bom para todo o co­mércio da Cos­ta. Pagámos o preço quando eles foram embora.»

Hugo ainda come os hambúrgueres do seu estabelecimento – mal passados – mas não lhe peçam para os cozinhar. «Isso já me tira o apetite, já cansa.» E, antes de voltar pa­ra junto do neto, ainda tem tempo para re­cordar o dia em que vendeu mais hambúr­gueres. Curiosamente – e porque estamos em ano de aniversário do 25 de Abril – foi num 1.º de Maio. «Ninguém abria as portas e eu vendi mais de três mil num só dia.»

Ricardo Santos
Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens