OPINIÃO

Nascer e viver no Ruanda

A pretexto dos 20 anos do genocídio no Ruanda, a reportagem sobre um país que renasce na democracia.

No parlamento do Ruanda mais de metade dos deputados são mulheres e no governo há várias ministras. Vinte anos passados sobre o genocídio, o país renasce na democracia. O acesso à saúde é um dos motores da mudança. E as mulheres são das principais protagonistas.

Andrea, o primeiro filho de Joseline, tinha nascido há poucas horas na chamada sala de partos do centro clínico de Ruhunda, distrito de Rwamagana, a pouco mais de 60 quilómetros de Kigali, a capital do Ruanda. Cristhine, a enfermeira que fez o parto e avaliou o bebé, garante que está tudo bem com a mãe e com o filho. «Não houve complicações, o bebé mama bem. Se continuar assim, daqui a três dias têm alta.» Sentada na enxerga da cama de ferro pintada e esfolada, Joseline, 19 anos, segura o filho nos braços e oferece-lhe mama. Entretanto chega o pai, Theoneste, com a avó. Vêm cansados, andaram vários quilómetros a pé para ver o pequeno Andrea e para trazer comida, água e um alguidar para Joseline se lavar enquanto estiver internada.

Num edifício paredes-meias com a maternidade, há dezenas de mulheres. Todas têm bebés ao colo. É dia de vacinas. Umas vêm pela primeira vez. Outras já sabem o que as espera. É o caso de Delfine, 20 anos, três filhos. Está ali com o mais novo, o Patrick, que tem três meses e meio. Os outros também estão vacinados. Pascaline, 27 anos, trouxe o filho Miconwiza de mês e meio para fazer uma vacina. Entretanto uma enfermeira diz-lhe que têm de marcar um dia para falar de contracepção. Ela envergonha-se, desvia o olhar e baixa a cabeça. Mas acaba por dizer que o marido concorda com a ideia. Que já tem dois filhos – aquele bebé e uma menina com três anos – e que não gostava de voltar a engravidar.

Aos 30 anos, Olívia, quatro filhos, também está ali por causa da vacina da pequena Miriam, de dois meses. Diz que já foi ao planeamento familiar. Propuseram-lhe um dispositivo intra-uterino, mas o marido não concordou. Voltou a engravidar e agora quer mesmo saber o que pode fazer. Mais um filho é que não.

Do outro lado do jardim, em frente da ala da vacinação e da maternidade, há outro edifício igualmente fundamental para garantir cuidados de saúde básicos às populações do meio rural. Mas ali vêem-se sobretudo homens. A maior parte deles tem VIH/sida e aguarda a entrega dos medicamentos antiretrovirais. Outros têm tuberculose e vêm fazer a toma assistida da medicação nas instalações do centro de saúde local.

FAZER MUITO COM POUCO

Quem chega ao centro clínico Rwamagana dá de caras com um edifício colonial reconstruído. As paredes são ocre, da cor do chão. As portas são castanhas. Lá dentro há corredores vazios e enfermarias escuras com camas metálicas, gabinetes de enfermagem que só têm secretárias, salas de espera com fileiras de bancos de madeira corridos. Não fosse o pessoal de bata branca – enfermeiros e ajudantes de enfermagem -, a arca frigorífica onde se conservam as vacinas e meia dúzia de injectáveis e podíamos pensar que nos tínhamos enganado.

Mas não! A verdade é que a pobreza do local – ali falta tudo, pensamos nós – diz pouco sobre o valor dos cuidados de saúde prestados à população do distrito. «Poucas vezes temos electricidade e por isso não podemos guardar as vacinas e os medicamentos no frio. A única hipótese é vacinar os bebés e as crianças duas vezes por semana, assim que recebemos o material. Temos sempre trabalho. Somos 23 profissionais, temos internamento e fazemos consultas pré-natais, análises, planeamento familiar», esclarece Prospére, o enfermeiro director.

Geralmente, as mulheres e as crianças que chegam ao centro clínico vêm referenciadas por um conselheiro de saúde que faz a ligação entre a população das aldeias e os serviços médicos do distrito. Para exercer a função e poder ser escolhido pela comunidade, a pessoa tem de ser idónea e saber ler e escrever. Pauline é conselheira há 11 anos. Fez formação e por isso espera-se que seja capaz de distinguir uma febre sem importância de uma febre indiciadora de doença grave. Por exemplo, malária ou meningite. E perante uma grávida pré-termo e com contracções, Pauline deverá saber se precisa apenas de repouso ou se necessita de ser observada e avaliada por uma parteira, no centro de saúde. Todos os conselheiros têm em casa uma pequena reserva de medicamentos, como paracetamol, ácido acetilsalsilico, ibuprofeno, que podem usar para baixar a febre das crianças ou aliviar a dor. O enfermeiro Prospére diz que isso faz toda a diferença na saúde da comunidade e elogia o trabalho de Pauline.

CUIDAR DAS MÃES É CUIDAR DOS FILHOS

Em África as mulheres morrem devido a hemorragias, sepsis e outras complicações relacionadas com a gravidez e o parto. E por causa da sida e da malária. As crianças morrem de subnutrição, pneumonia, diarreia, malária e outras doenças evitáveis. O Ruanda não é excepção. Mas começa a distinguir-se entre os países da região. Pelo menos essa é a convicção de Agnes Binagwaho, pediatra e a actual ministra da saúde: «Nós temos um sonho e estamos a trabalhar para o concretizar. Cerca de 98 por cento das mulheres são vigiadas durante a gravidez e 69 por cento são assistidas por profissionais qualificados e têm os filhos em unidades de saúde.»

A ministra lembra que cuidar das mães também é cuidar dos bebés e acrescenta que o país tem um Plano Nacional de Vacinação desde 1980: «Infelizmente, os acontecimentos da década de 90 fizeram ruir tudo o que tínhamos construído, por isso tivemos de começar do zero. Neste momento, é com muito orgulho e com a noção de que ainda há muito para fazer que afirmo que 90 por cento das crianças até aos três anos estão vacinadas de acordo com o calendário, que já inclui a vacina antipneumocócia.»

NM1032_ruanda03

A melhoria do acesso aos cuidados de saúde e a medicamentos essenciais (incluindo antiretrovirais), a vacinação gratuita e universal, a distribuição de redes mosquiteiras tratadas com insecticida para evitar a picada do mosquito que transmite a malária são algumas das iniciativas lançadas com sucesso nos últimos anos. Agnes Binagwaho diz que «as diferenças entre o antes e o depois das políticas e dos projectos em curso se sentem no dia-a-dia da vida das pessoas e já se traduzem nos indicadores de país.»

Na mortalidade infantil, por exemplo. Por cada mil crianças nascidas no Ruanda, 50 ainda morrem antes de completarem um ano de vida. «Mas no ano 2000 era pior, muito pior. Por cada mil que nasciam morriam 107. O mesmo para a mortalidade materna. Há dez anos, a probabilidade de uma mulher morrer por complicações relacionadas com gravidez e com o parto era enorme: por cada cem mil nascimentos morriam 1071 mulheres. Em 2010 registámos 383 mortes maternas por cada cem mil bebés nascidos. Estes números significam progresso. Reflectem um país em acção, em mudança em direcção ao desenvolvimento.»

FALTA DE RECURSOS

Quem também fala num antes e num depois no desenvolvimento do Ruanda é Theobald Hategekimana, médico e director do Hospital Universitário de Kigali. É para esta unidade de saúde – a maior do país, com 500 camas, cem médicos e 400 enfermeiros – que são enviados os doentes graves, incluindo grávidas e crianças: «Temos muitas carências de pessoal e de medicamentos. Recebemos todos os doentes graves – na maternidade só fazemos cesarianas – mas não temos médicos especialistas em ginecologia, patologia, cirurgia e cardiologia pediátrica. Também faltam microbiologistas. Compramos medicamentos genéricos, outros são oferecidos pela ajuda internacional, mas por vezes sofremos rupturas de stock, o que se torna muito complicado sobretudo quando faltam os anestésicos e o oxigénio nos blocos operatórios. É mau? É. Mas em 1994, durante o genocídio, este hospital foi completamente destruído.»

Não pudemos visitar a maternidade nem nenhum dos blocos cirúrgicos, mas autorizaram-nos a entrar numa enfermaria de medicina e na farmácia. Entre uma e outra cruzámos o jardim e detivemo-nos nos acampamentos improvisados dos familiares dos doentes internados. Longe de casa, sem dinheiro, transportes ou alojamento, é no jardim que dormem, cozinham, lavam roupa, põem-na a secar. Prestam um apoio imprescindível ao hospital (que não dispõe de serviços de lavandaria nem fornece água ou alimentos aos doentes internados) e à recuperação dos doentes.

No Ruanda os alimentos são escassos e a água potável é um bem ainda mais raro. Mesmo em Kigali. Mas a solidariedade não tem limites e são as pessoas que esperam as melhoras dos familiares no jardim que levam batatas, papas de farinha de milho e de mandioca ou bananas guisadas ao jovem ugandês que procurou tratamento no país vizinho. Ele, tal como todos os doentes que encontrámos naquela enfermaria, está infectado com VIH.«No Uganda ainda é raro tratar os doentes com sida. Por isso é que ele veio. Aqui toma os antiretrovirais e também está a ser tratado para uma infecção que tem no pulmão. Mas já há pouco a fazer», informou a enfermeira Antoine.

Na África ao sul do Sara, o Ruanda também marca pontos quando se fala em acesso aos tratamentos antiretrovíricos: «Cerca de 80 por cento dos doentes que necessitam têm acesso à medicação. Em 2010 tínhamos mais de 90 mil doentes em tratamento, incluindo sete mil crianças. E queremos diagnosticar mais cedo. Aproveitamos as oportunidades. Em 2010, quase 300 mil grávidas fizeram testes de despistagem do VIH e mais de sete mil receberam antiretrovirais durante a gravidez para prevenir a transmissão do vírus ao bebé. O número de bebés nascidos de mães seropositivas que fizeram um teste de VIH aos 2 meses de vida passou de quatro por cento em 2007 para 14 por cento em 2010. E na última década a mortalidade associada à sida diminuiu 73 por cento. Em 2001 a doença matou 15 mil ruandeses. Em 2010, morreram 4100 pessoas vítimas de sida.»

Os programas que têm sido motor para o desenvolvimento do Ruanda são acompanhados a par e passo pelas organizações internacionais, sobretudo pela ONU, que destaca a melhoria das condições de vida da população e aponta o país como modelo de desenvolvimento para a região.

PS – A nm viajou a convite da Phizer


ALIMENTOS ESSENCIAIS

Batata, mandioca, milho e banana. Os produtos que constituem a base da alimentação da população do Ruanda são produzidos no país e encontram-se à venda no mercado de Kigali, a capital. Por 150 francos ruandeses (0,18euro) compra-se um quilo de batatas ou de bananas. Um quilo de farinha de milho já custa 600 (0,74euro) e um quilo de arroz pode custar mais de mil (1,23euro). Tomate, cenouras, ervilhas, feijão verde também há à venda mas a preços inacessíveis para a maior parte das pessoas. Quem não tem dinheiro para os alimentos também não pode despender 50 francos ruandeses (0,06euro) por uma solução de cloro capaz de transformar 10 litros de água imprópria para consumo em 10 litros de água potável. Nem devia, pois os kits que encontrámos à venda tinham sido oferecidos pela Agência Americana para o Desenvolvimento (USAID).

ODM – NO PARLAMENTO QUEM MANDA SÃO ELAS

O Ruanda é um dos países mais pequenos do continente africano e o mais densamente povoado, com dez milhões de habitantes. Cerca de 90 por cento da população vive em zonas rurais, onde pratica uma agricultura de subsistência e 15 por cento das crianças com menos de 5 anos sofrem de desnutrição e baixo peso. Apesar dos progressos dos últimos dez anos, 37 por cento da população ainda vive com menos de um dólar por dia (abaixo do limiar da pobreza) e o país das mil colinas não deverá conseguir cumprir o Objectivo de Desenvolvimento do Milénio (ODM) nº 1 – erradicar a pobreza extrema e a fome. A esperança média de vida dos ruandeses é 53 anos.

Já o ODM nº 2 – garantir o acesso ao ensino primário a todas as crianças – está ganho. O ensino primário tornou-se obrigatório, é gratuito e mais de 90 por cento das crianças em idade escolar frequentam a escola, inclusive nos meios rurais – onde não há electricidade e os alunos se sentam em bancos corridos, sem livros, nem canetas, nem cadernos. O número de inscritos no ensino secundário é que é ainda muito baixo – 10 por cento – e sobretudo rapazes. Até 2015, as autoridades do país querem alcançar uma taxa de literacia de cem por cento no grupo etário dos 15 aos 24 anos e para isso lançaram um programa de alfabetização de jovens. A UNICEF apoia esta iniciativa através do financiamento e construção de casas de banho em todas as escolas do país – nos países em desenvolvimento, a falta de sanitários é a principal causa do abandono escolar entre as raparigas.

O ODM nº3 – promover a igualdade de género – está longe de vir a ser cumprido. Ainda assim, além da Suécia, o Ruanda é o único país do mundo que tem um parlamento com mais deputadas do que deputados. E no Governo as mulheres também estão bem representadas – dos 26 ministros, oito são mulheres. Um sinal dos novos tempos num país que já criminalizou a violência doméstica e que tem uma lei de promoção e de protecção das raparigas.

Quanto aos ODM nº 4, 5 e 6 – reduzir em dois terços a mortalidade infantil; reduzir em três quartos a mortalidade materna; combater o VIH/Sida, a malária e outras doenças graves – sabe-se que o último será cumprido e que o primeiro também pode vir a ser alcançado. Os ganhos na redução da mortalidade materna é que ainda não são suficientes.

Finalmente os ODM nº 7e 8 – garantir a sustentabilidade ambiental e criar uma parceria mundial para o desenvolvimento. Eis as duas áreas onde está quase tudo por fazer. Menos de metade dos ruandeses têm acesso a água potável e saneamento; só 13 por cento têm telefone e muito poucos – 0,6 por cento – têm computador.

[reportagem publicada há dois anos na Notícias Magazine]
Célia Rosa
Fotografia: Edward Echwalu