OPINIÃO

Memórias em forma de tapete

Memórias vivas da tecelagem, do xisto e do ciclo do linho.

Aceitam encomendas de tapetes, são rápidas a fazê-los e até os enviam por correio. A Casa das Tecedeiras, na aldeia de Janeiro de Cima, no Fundão, mantém vivas as memórias da tecelagem, do ciclo do linho e do xisto. E os visitantes até podem pedalar no tear.

Para ficar «bem torcidinho», o linho tinha de ser esticado à mão e com saliva nos dedos. Assim fazia a bisavó de Sónia Cortes, 34 anos, uma das res­ponsáveis pela Casa das Tece­deiras, na aldeia de Janeiro de Cima, conce­lho do Fundão. Ali, num bonito edifício de xisto e pedra rolada, totalmente recupera­do, juntam-se diariamente duas ou três mu­lheres que fabricam tapetes, grandes e pe­quenos, e algumas peças de linho ou lã. Tu­do ao tear, com muita dedicação e tempo. Como sempre se fez.
O preço dos tapetes depende do tamanho. Podem custar entre 15 e 90 euros e, mesmo assim, não refletem o trabalho que dão a executar. «Há que preparar as fitas de teci­do, cortá-las, depois colocá-las no tear e fi­nalmente começar a tecer», explica Sónia, que se dedicou a esta arte quando deixou de estudar e o avô lhe ofereceu um tear que ele próprio construiu.
A tradição na aldeia mandava que fos­sem os homens a fazer os teares e que as mu­lheres os utilizassem para fabricar as rou­pas para a casa e os enxovais para os filhos. O material utilizado para colchas, toalhas e lençóis era o linho, semeado, colhido e tra­tado pelas próprias. Havia cantares  e histó­rias que se contavam, tradições que foram sendo abandonadas e de que hoje restam poucos testemunhos.
A ideia de retomar a tecelagem manual em Janeiro de Cima nasceu com a criação das Aldeias de Xisto, em 2001, um projeto que permitiu requalificar 26 aldeias da re­gião centro, recuperar memórias perdidas e combater a desertificação. Janeiro de Ci­ma é uma delas. A Casa das Tecedeiras fez arte deste programa e foi inaugurada, em 2005, com onze artesãs que receberam for­mação em design têxtil e aprenderam a fun­cionar com teares vindos da Holanda – que, ao contrário dos teares portugueses, permi­tem a utilização de fios de várias cores para a mesma peça. Atualmente, são apenas três as tecedeiras que restam do projeto origi­nal  – Sónia Cortes, Rosa Pereira e Maria de Lurdes Carvalho – e que dão conta das en­comendas. As outras foram-se reformando e foi difícil encontrar quem as substituísse.
Outra das responsáveis pela Casa das Tecedeiras é Manuela Latada, 27 anos, ge­rente  da Casa do Barro, um alojamento de turismo rural que pertence à família. «As pessoas que nos visitam ficam maravilha­das com os teares e muitas delas não fazem a mínima ideia do que é o ciclo do linho», diz, apontando orgulhosa para várias pe­ças espalhadas pelo chão e pelas  paredes do edifício, como a roca, o fuso e a régua de urdir, que eram utilizadas com vista à pre­paração do linho para o tear.
São importantes testemunhos que ser­vem, acima de tudo, para mostrar como era a vida por estas paragens, onde quase todos os habitantes se dedicavam à agricultura e tinham um tear em casa. E quem não o ti­nha podia ir a casa dos vizinhos fazer as suas próprias roupas. Todos os momentos eram aproveitados para um salutar convívio.
Hoje, os tapetes são feitos com restos de tecidos, cedidos gratuitamente por uma fá­brica da região, o que resulta em cores e de­senhos muito originais. «Quanto mais fan­tasia tiverem os tecidos, mais bonitos ficam os tapetes», diz Manuela, indicando que os mais vendidos são aqueles que conjugam vá­rios tons de restos de cortinados ou de edre­dãos. Em verde, azul, amarelo, vermelho ou lilás, quadrados ou retangulares, são ver­dadeiras obras de arte saídas das mãos de quem passa o fio, ou a fita, vezes sem conta pela teia, fazendo assim reviver o espírito de várias gerações de mulheres da aldeia. No entanto, «vai sendo cada vez mais difícil obter estes tecidos porque as fábricas pas­saram a usar medidas standard e já quase não há sobras». Por isso, Manuela tem an­dado à procura de mais empresas têxteis que não se importem de dar os seus desperdícios à Casa das Tecedeiras.
Os tapetes encontram-se à venda nas várias lojas que as Aldeias de Xisto têm espalhadas pelo país e podem ser encomendados através da página da Casa das Tecedeiras no Facebook ou pelo e-mail casa.tecedeiras_jc@hotmail.com.

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E O RIO LEVOU A BARCA?
Para quem está habi­tuado a viver na cidade, chegar a Janeiro de Ci­ma pode ser uma enor­me dificuldade. A aldeia fica num vale recortado pelo Zêzere, está rodea­da de pinhais e a estrada que a liga ao Fundão é sinuosa. Mas para quem vive em Janeiro de Cima tudo é diferente. A aldeia é um local de paz, de vida amena, e em que os cerca de trezentos habitantes vivem o dia a dia em comunhão com a natureza.
O rio, ali, é quem manda. Se no inverno está de­masiado «cheio» galga as margens e leva a barca que faz a traves­sia para o outro lado. Já aconteceu muitas vezes e recentemente voltou a suceder. Agora, há que fazer uma nova para que a tradição se cumpra – não é por acaso que o grito mais conhecido das gentes de Janeiro é o «ó da barca!» No verão, o rio também é notícia porque dá origem a uma bela praia fluvial.
Na aldeia, existe um único restaurante, o Fiado, onde se podem degustar iguarias regio­nais como o maranho (feito com o estômago da cabra e perfumado com hortelã), o cabrito e a tigelada. E para quem queira passar uns dias a desfrutar do silêncio e de boas caminhadas, po­de ficar na Casa Cova do Barro, uma unidade de turismo rural com quar­tos e pequeno-almoço recomendáveis (www.covadobarro.com).

Maria de Lurdes Vale
Fotografia: Rui Cruz / Global Imagens