OPINIÃO

Melhor baguette de Paris é portuguesa

Fornecer o Eliseu de pão durante um ano faz parte da recompensa.

Diz o ditado popular que nem só de pão vive o homem, mas podia muito bem ser assim. Sobretudo quando o pão em causa são as baguettes de António Teixeira, vencedor pela segunda vez do prémio Melhor Baguette de Paris, uma das distinções mais cobiçadas e difíceis de alcançar pelos padeiros da cidade. O concurso anual «Grand Prix de la Baguette de Tradition Française de la Ville de Paris» é promovido pela Câmara Municipal da capital francesa. Ao mesmo tempo que desfruta do orgulho da vitória, a casa de António recebe quatro mil euros e a notoriedade de produzir o pão consumido pelo Eliseu durante um ano.

«É um prestígio conseguir este prémio. A vitória não tem preço», exulta o padeiro português de 48 anos, desde 1993 dono da padaria Aux Délices du Palais, onde fabrica pão caseiro (incluindo um de azeitonas e as famosas baguettes), bolos e brioches. «Da primeira vez que ganhei o prémio, em 1998, muita gente disse que foi sorte. Quando se ganha o segundo já é outra coisa», garante, feliz pelo reconhecimento do negócio familiar e pelo filho Anthony: «Desta vez foi ele quem fez a baguette. Concorreu com o meu nome, já que a casa está registada no nome do proprietário que sou eu, mas o mérito é dele.» Os ingredientes que distinguem aquele pão de todos os outros? «Farinha de boa qualidade, muito amor pelo que se faz e técnica de mãos. São elas que trabalham, não as máquinas.» O resto não revela de maneira nenhuma: «Há um segredo, é verdade. Mas isso é a alma do negócio.»

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Natural de Fafe, distrito de Braga, filho de emigrantes que partiram em busca de uma vida melhor, António Teixeira chegou a França há 41 anos, tinha ele sete e uma vontade incrível de aprender. «Aos 12 anos comecei a vender rebuçados numa padaria pequenina, onde via os padeiros a trabalhar e achava tudo fabuloso.» Até aos 18, passou por várias padarias e tornou-se aprendiz, antes de montar a sua Aux Délices du Palais em Paris e uma segunda boulangerie em Melun, nos arredores da capital. Gostava de regressar a Portugal, mas desconfia que não o fará pelos filhos, já nascidos em França: «Tenho uma menina de nove anos e três rapazes de 24, 21 e 10», conta. O de 24 é Anthony, autor da baguette que faz de António Teixeira o primeiro padeiro de Paris a ganhar pela segunda vez este prémio.

«É ele quem vai fornecer o Eliseu durante um ano. Ter o presidente François Hollande a comer o nosso pão é um prestígio muito grande», confirma o português, atualmente a produzir uma média de mil baguettes por dia. Ele próprio serviu as suas a Jacques Chirac na primeira vez que venceu, e o então presidente gostou tanto delas que decidiu contratar os seus serviços por quatro anos, em vez de apenas um. «A fama da padaria francesa é reconhecida em todo o mundo. O facto de sermos portugueses e estarmos à frente disto é um sonho tornado realidade.»

Ana Pago
Fotografia: Marc Verhille / Mairie de Paris