OPINIÃO

Mariza como nunca a viu

«Depois do meu filho, a música deixou de ser o mais importante da minha vida»

Mariza está de volta. Com o seu primeiro Best Of. Mas é uma nova Mariza. A Mariza mãe. Toda a entrevista – melhor, a conversa – tem como epicentro o seu filho. Martim, agora com dois anos, fê-la pensar, refletir, nos 13 anos de carreira que já leva. Uma gravidez de risco, um bebé prematuro de 800 gramas que esteve em perigo de vida e toda a sensibilidade muda. Mariza faz uma viagem pela carreira – perdão, pelo percurso – que leva de cantadeira («intérprete, não fadista»), mas também pelos seus 40 anos de vida. Histórias, episódios, de alguém que canta fado desde os 5 anos, que dançava sapateado a imitar Ginger Rogers com caricas coladas nos sapatos e que se sente cada vez melhor com a sua música. Um fado mestiço, como ela. O fado Mariza. Agora Mariza mãe.

13 anos depois do seu primeiro álbum, este seu primeiro Best Of é como que um olhar para trás. O que vê no retrovisor?
_Toda a gente diz que o número 13 que não é um número da sorte. Acho que é. Porque foram 13 anos muito densos, mas de muita felicidade. No retrovisor? Hum!…Vejo como que um comboio a muita velocidade, onde tudo aconteceu. Cada carruagem, e um comboio pode ter 13, representa algo: o primeiro disco, a descoberta do mercado internacional, o sentir que em Portugal as pessoas me acarinhavam, algo de que não tinha muita noção até àquele concerto na Torre de Belém. Foi a partir daí que percebi que as pessoas gostavam da minha música, conheciam-me, sabiam as letras, acompanhavam aquilo que andava a fazer. A densidade da minha vida fazia-me desligar do que se passava em meu redor e não sabia. Aí soube. Por isso foram 13 anos fantásticos. Agora está um bocado mais calmo, com um bebé…

Já lá vamos à Mariza mãe. Antes, pergunto-lhe: sente que neste tempo passou de menina do bairro a mulher do mundo?
_O bairro nunca vai sair de mim. Mas o mundo entrou, sim. Apesar de eu achar que sempre fui do mundo.

A Mariza que nasceu em Moçambique, cresceu na Mouraria, chegou a viver no Brasil e agora é conhecida em todo o Mundo. É isso? A imagem da lusofonia? Daquilo que melhor Portugal tem?
_Estou no triângulo da lusofonia (risos). Sinto-me muito lusófona. Tenho uma mãe africana, nasci em Moçambique, a minha avó é negra, o meu pai é uma mistura de português, espanhol e alemão. Não podia haver mais mestiçagem que isto, que eu. E a lusofonia é mestiçagem.

E o seu fado, é também um fado mestiço?…
_Acho que sim. Porque reflete muito daquilo que sou. E a música tem de ser vivida dessa forma, com transparência e com verdade, tem de ter um cunho pessoal, senão não nos representa, torna-se igual a tudo. Cada vez mais sinto que caminho na direção de um fado, de uma música – o que lhe queiram chamar – cada vez mais minha. As pessoas discutem o que é fado e o que não é fado. Obviamente que as coisas têm rótulos para serem mais fáceis de entender. Mas é sempre música. Quantas vezes oiço temas da Ella Fitzgerald e digo ‘oh pá, isto é um fado’. Canto o Smile [de Charlie Chaplin] nos meus espetáculos, que amo de paixão, e aquela letra, aquele toque, a melodia… é um fado. Música é música. É óbvio que o fado representa o povo português, as suas raízes, mas eu sinto-o como música. E agora, que foi reconhecido património da Unesco, também é do mundo. E como viajo tanto, e tenho as raízes que tenho, tudo isso acaba por me influenciar.

Neste disco, apesar de ser um Best Of, há dois inéditos. Volta a cantar um tema popularizado por Amália…
_Pois, não sei o que me vou fazer num disco futuro, mas agora tenho estes dois inéditos. E um é o É ou Não é, que nunca tinha gravado ou cantado ou vivo, mas que cantarolava no carro, em casa. Nunca me tinha passado pela cabeça poder fazê-lo à minha maneira. Noutros países, quando se canta o legado de outros artistas é uma coisa maravilhosa. Em Portugal, quando alguém canta o legado de Amália as pessoas ficam todas ‘ai, ai, ai, ai’, com medo das reações. Mas Amália deixou-nos um legado tão inteligente, tão interessante e tão bom que acho que o temos de o continuar a cantar. O outro tema – O Tempo Não Para – foi-me oferecido pelo Miguel Gameiro. Quando comecei a cantá-lo, pensava no Martim, na minha família. E tive de o gravar.

Nestes 13 anos o fado, a imagem do fado, mudou completamente em Portugal.
_Ai se mudou! [risos] E foi muito bom. E sinto-me muito feliz por fazer parte desse movimento…

Diria que é a Mariza é o epicentro… Depois vêm as ondas de choque…
_[Mais risos] Sim, de facto começa quando faço o meu primeiro disco, O Fado em Mim, que nenhuma editora quis…

Acabou editado por uma editora holandesa…
_Sim, foram os holandeses. Mas, ao contrário do que as pessoas pensam, de que lancei primeiro o disco na Holanda e depois fi-lo aqui, não é verdade. Primeiro foi aqui, depois é que foi para fora. E cá, teve uma aceitação brutal, vendeu 120 mil cópias, numa altura em que 40 mil já era disco de platina. Era um mercado muito mais difícil. Fiquei ‘banzada’ como tudo aconteceu. Depois o mercado internacional também foi ótimo. Mas acontecer na minha casa, com a minha gente… Foi um abanão, ninguém estava à espera. Os discos de fado vendiam 5 mil cópias e, quando isso acontecia, já todas as editoras batiam palmas. A partir dali mudou tudo, hoje não há uma editora que não queira ter um cantor de fado. Seja bom ou mau…

Sei que não gosta de protagonismos, mas já assume a sua responsabilidade nessa mudança de olhares em relação ao fado?
_Ainda me custa um pouco. Até porque as pessoas que lidam com o fado, que cantam fado, não querem que se diga isso. Não gostam que eu tenha feito parte, que tenha sido a motivação desse movimento que fez com que muita gente, gente muito mais jovem, começasse a olhar para o fado de forma diferente, começasse a ouvir. Querem fazer de conta que não foi assim que aconteceu. Às vezes incomoda.

Porquê? Os factos provam que as coisas mudaram a partir dali…
_Não sei, realmente, o que é que incomoda. Não faço ideia. Gosto de todo este movimento. Gosto das pessoas novas que estão a aparecer no fado, que são fabulosas, fantásticas, cantam bem, têm um carinho enorme pelo fado, escolhem boas letras, preparam bons espetáculos. Isso também me motiva para fazer mais e melhor. E não sei o que os outros pensam. Viajo muito, tenho uma agenda muito preenchida e quase não tenho tempo para lidar com outros artistas. Não existem muitos espetáculos em que a gente se cruze, tenho pena que isso não aconteça, mas é muito raro. Não nos juntamos muito.

Esta geração que nasceu com a Mariza, ou depois da Mariza, pode manter o fado na moda por quanto tempo?
_Não acho que o fado seja uma questão de moda. É cíclico. Há dias estive no Museu do Fado a ver um documentário sobre os guitarristas, de quem não se fala muito mas que são importantíssimos. Um documentário extraordinário, que vai desde a construção dos instrumentos até ao dedilhar, à forma como se põem os dedos. Percebi que nunca iria tocar nenhum instrumento, não seria capaz. Mas é fascinante. E existe um movimento cada mais jovem de pessoas que querem aprender a construir. Só havia, só há, dois grandes construtores de guitarra portuguesa. Que agora passam os seus ensinamentos, as melhores madeiras, a forma de conseguir mais som, todas essas coisas. Há também pessoas a dar aulas e pessoas a querer aprender como se trabalha com as métricas, que não é tão fácil quanto parece. E há quem estude também a história do fado, dos primeiros guitarristas aos primeiros cantores, para teses e mestrados. E isto já é um passo gigante. O que me deixa fascinada é existir esta camada muito mais jovem…

… A tal que nasceu com a Mariza…
_Eu já não sei onde é que me situo, se é na camada mais jovem, se é no centro [risos]… Não sou da geração do Carlos de Carmo, mas também não sou da geração da Carminho ou da Gisela João. Estou aqui no meio, no limbo… Que pena… Mas o que vejo é que existe gente que quer preservar, estudar, cuidar. E quando assim é deixa de ser uma moda para ser uma coisa que passa a fazer parte da nossa vida de todos os dias. Porque o fado canta a alma de um povo. Outro dia o Rui Vieira Nery dizia uma coisa fantástica em resposta à pergunta para um documentário que fazia a mesma pergunta a muita gente: «O que é o fado?» Ele respondeu: «Somos nós, postos em música».

E o que respondeu a Mariza?
_«Que é uma estranha forma de vida!» Mesmo. Porque há dias que o fado parece uma pessoa. Estou no palco e estou a sentir cada dor, cada lágrima. Parece que faço parte daquela história. Estou a vivê-la. Quando acabo estou cansada. E nem consigo perceber porquê. E o incrível é que de cada vez que canto descubro sentimentos diferentes. O que acho que não é possível, eu pelo menos ainda não o descobri, noutras músicas. Se calhar no jazz… ou no gospel. Mas no fado é uma coisa superintensa. Se calhar porque o fado é a minha casa.

Nestes 13 mudou o fado e mudou muito a sua própria vida?
_Muito! Incrivelmente. Deixei o bairro da Mouraria, de que gosto tanto e que está a ficar cada vez mais bonito, passei a viver no mundo. Houve uma altura em que parecia uma emigrante, sempre para cima e para baixo, para baixo e para cima, já não sabia a quantas andava e de repente, no meio disso tudo, começa-se a construir alguma coisa. Quando olho para trás, vejo discos, pessoas, concertos e digo «Caramba! Não vi que o tempo passou, não tive noção que o tempo tivesse passado tão rápido. Como é que isto aconteceu?». Foi tão intenso que não dei conta. Só agora, quando fui obrigada a parar – e porque fui obrigada, porque senão não parava -, é que percebi que já tinha andado um grande bocado.

O ter sido mãe serviu também para fazer essa pausa, para parar e refletir?
_Deu. Mas doeu.

Porquê é que doeu?
_Porque de certa forma dei muito, envolvi-me muito e recebi pouco.

Como assim?
_Anulei-me em muitas coisas. A vida pessoal ficou completamente para trás. Fui-me esquecendo de mim. A minha vida era só palco, cantar. Eu praticamente não existia. Existia a cantora, a artista, mas não tinha tempo nem para o pai, nem para a mãe, para a família, nem para mim própria. Eu não me conseguia entender, só me identificava quando estava em palco. O meu filho veio fazer-me descobrir coisas que não sabia que existiam. É maravilhoso.

Mas isso é o ser mãe…
_Pois, pode ser, mas eu não sabia. Ouvia as outras pessoas a contar e pensava «Que tontice!» Mas a verdade é que o centro do universo mudou completamente. Passou a ser o meu filho. E acabou. Estou muito mais virada para a minha família. A música continua a ter um papel muito importante na minha vida, mas não é o mais importante, como era antes. Hoje o mais importante é a minha família estar bem para eu estar feliz. E dantes os meus espetáculos tinham de ser felizes para eu ficar feliz.

É por isso que diz que recebeu pouco em contrapartida com o que deu?
_Tudo o que é arte é efémero. Quando a gente lida com a arte há fases em que tudo parece que nunca vai acabar, em que vamos estar sempre aqui, temos que cantar, que fazer. Mas quando paramos, que foi o que me aconteceu — fiquei dois meses internada — dá para pensar em muita coisa. O receber pouco tem a ver com o facto de as pessoas às vezes não perceberem o quanto é desgastante dar. A música é um dar e receber. E como nós estamos constantemente a dar, também queremos receber. E não basta ser só carinho, porque isso é pequeno, é só naquele momento. E quando chegamos a casa? Não está lá ninguém… Para onde foi o carinho, as pessoas? Onde é que nós estamos no meio daquilo tudo?

O Martim veio mudar tudo, pôr tudo em perspetiva?
_Sim. E foi fantástico. É fantástico.

O facto de ter vivido uma situação traumática – a gravidez complicada, o bebé prematuro – também a fez repensar a forma como via a vida? Sei que não gosta de falar do assunto…
_Todo aquele período terrível… doeu muito. Podiam ter feito as coisas de outra forma. Recordo-me que apareciam fotos minhas nos jornais a dizer coisas. Ninguém sabia de nada, mas diziam. E dói. Porque parece que é um atentado à nossa intimidade. Sei que quando temos uma certa exposição as pessoas querem saber da nossa vida, mas há uma intimidade que faz parte de mim, da minha família, do meu mundo. E que posso não querer partilhar, para ter momentos que quero guardar só para mim, dores que quero só para mim. Foi uma fase em que o meu marido também foi extremamente agredido…

As notícias sobre as suspeitas dos negócios… Já lhe ia perguntar…
_Não foi uma fase fácil Houve muitas mentiras. Não acredito que um homem que fosse procurado pela Interpol continuasse a ir todos os dias ao escritório e a fazer as suas viagens normalmente. Aliás, existe um site na internet com os nomes procurados pela Interpol, é só lá ir e ver. Assim que ele passasse num aeroporto para embarcar era logo apanhado, não?! Foram tantas mentiras… E qualquer um fica triste. A gente pensa, «Fogo, então é assim que me respeitam, que gostam de mim?! É isto que têm para dar a quem vos quer tanto?!»

A Marisa foi uma bebé prematura. Não estava à espera de ter o mesmo problema na gravidez?
_Não, nada. A gravidez foi uma surpresa. O meu marido queria, eu ia adiando. Nem acreditava que estava grávida. Descobri muito tarde já, fiz uma série de testes que davam sempre positivo, mas mesmo assim… Só quando fui ao médico e ele me mostrou já o bebé… Só que ninguém nos prepara para ter um filho prematuro. Nem para ter uma gravidez complicada. A gente acha que é tudo bonito, que depois dos nove meses levamos o bebé para casa… Não que há uma deslocação da placenta. E doeu! Meu Deus! Doeu tanto! Não desejo a ninguém. As outras mães a irem embora do hospital com os filhos e eu sem o meu. A viver um dia de cada vez. Ele um dia bem, no outro a levar uma grande transfusão de sangue, depois mal do pulmão, depois a receber oxigénio, depois a respiração não melhorava, tinha de estar ligado a uma máquina.

Quanto tempo esteve assim?
_Foram quatro meses intensos, nesta loucura. Chegou uma altura em que os médicos me disseram que tinham feito tudo, tinham esgotado cientificamente as opções, que a partir dali tinha de ser o Martim a lutar pela vida dele. Nesse momento eu, que falo muito com Deus, todos os dias falo com Ele, só lhe perguntei: «O que é que Tu me queres mostrar que eu não estou a entender? Qual é a mensagem que eu não entendo? Queres-me mostrar que eu tenho de aprender o que é dor? O que é perder uma pessoa que já amo e quero tanto na minha vida? O que me queres ensinar?» E pedi: «Se tem que terminar, que termine agora, que o meu bebé está a sofrer tanto! Já não quero saber de mim, quero saber é dele! Vamos terminar agora, aqui». Mas passadas duas semanas, quando já não havia esperança, estava o Martim ‘impec’, sozinho, dentro da incubadora com um bonezinho e a chuchar a chupetinha. Não estava à espera que ele recuperasse tão depressa.

Com que peso é que ele nasceu?
_800 gramas. E depois baixou para 600. Nasceu de 26 semanas e esteve ali quatro meses. Um grande, grande prematuro, pelo tempo com que nasceu e também pelo peso que tinha. Quanto menos peso, mais dificuldade. E às 26 semanas é quando ainda se está a fazer a maturação pulmonar. Mas isso já passou e o Martim agora é um índio sem setas… Tem pilhas Duracell. É um terrorzinho. Mas eu adoro-o. Às seis e meia da manhã estou todos os dias acordada, porque a casa agora é dele. Aliás, é tudo dele, a casa, o carro… Ele abre a porta, entra – se não estiver já a dormir na minha cama – sobe para junto de mim sempre a chuchar na chucha, para ver televisão e brincar. Brincamos de gatinho, ele é o meu gatinho. É uma delícia…

É ser mãe…
_[quase em surdina] É bommmm!

Mas não foi uma questão genética, por também ter sido prematura?
_Não… Fui prematura, mas não tive um único problema. A minha mãe tinha tido sempre gestações difíceis, chegava aos quatro/cinco meses e sofria abortos naturais. Antes de mim teve uma gravidez normal de nove meses, mas a bebé morreu dois dias depois de nascer. Ela já dizia que nunca mais tinha filhos, o casamento estava um bocado tremido, foram sete anos a tentar. Mas voltou a engravidar e num domingo estavam a fazer uma grande feijoada em minha casa, com o meu avô. A minha mãe tem 16 irmãos! Nós vivemos em Portugal, mas vamos todos os anos a Moçambique. E eles todos os fins-de-semana se continuam a encontrar, um leva um pudim, outro a feijoada, outra a coca-cola, e telefonam a dizer o que estão a fazer. É a família africana, que funciona assim. E nesse dia a minha mãe chegou à cozinha e disse que estava com contrações, mas o meu pai, a olhar para ela, só respondeu: «Deves estar louca! Agora vai nascer com seis meses?!. Senta-te ali, que já vamos servir o almoço!» A minha mãe respondeu: «Se não me levas ao hospital, apanho um táxi». O meu pai, vendo que ela estava a falar a sério, foi deixá-la ao hospital e voltou para comer a feijoada. Quando voltou eu já tinha nascido. O meu pai não queria, mas a minha mãe disse que ele tinha de me ir ver acontecesse o que acontecesse. Ele lá se encheu de coragem e foi. Diz que eu era um bebé feio, mas muito mexido, que só queria agarrar coisas. «Ena, parece que temos gente!», e foi à capela e fez uma promessa. Se eu sobrevivesse, ia ser cantora. Portanto, ando há 40 anos a pagar a promessa do meu pai! Ele às vezes queixa-se de que nunca cá estou e respondo-lhe: «Pois não, ando a pagar a tua promessa!» Portanto, nasci com um quilo, era frágil, mas fui para casa, e nunca tive os problemas que teve o Martim. Mas os rapazes têm o organismo mais frágil que as meninas.

E como é que mudou a sensibilidade da cantora, da artista, com o ter sido mãe?
_Ah… mudou muito, muito. Dantes, além de ser extremamente competitiva comigo, era extremamente competitiva com os outros. Porque não tinha mais nada para fazer, nem mais nada para pensar. Hoje, nem estou aí, nem quero saber. Dantes se alguém me dissesse ‘ai a fulana gravou com não sei quem’, ai, que dor de cabeça, como é que ela fez, como é que aconteceu. Não era por inveja, era o desafio na minha vida profissional, também queria estar no mesmo patamar. Hoje nem quero saber! Quero é ser feliz! Com a minha família, com a minha música. Se as pessoas me quiserem continuar a ouvir, que bom, que felicidade, mas se não, tenho outras coisas com que me ocupar. Uma delas é ver o meu filho crescer, ser saudável, fazer dele um bom ser humano, com princípios, é essa a minha grande preocupação.

E mudou também a sensibilidade em relação à própria música?
_Descobri sentimentos novos. O fado fala muito de amor e eu descobri outras formas de amor que não sabia que existiam. Estou muito mais divertida dentro da música que canto. Dantes era dura, assertiva. Hoje não há essa dureza, estou muito mais feliz, muito mais perto das pessoas, quero que a música seja mais íntima, quero ver mais olhos, sorrisos. Quero sentir que as pessoas entendem melhor a minha mensagem e percebam que estou em paz. Acho que isso é muito importante para quem faz música.

O que é que cantava para embalar o Martim?
_Ao princípio ainda decidi cantar um fado ou outro, mas o Martim nada… Outra vez decidi cantar o Summertime e ele desatou a chorar. Ai que o meu filho não gosta nada que eu cante, pensei. Mas hoje o Martim é o meu maior fã. Sabe que a mãe é cantora, que aparece na televisão, quando ouve fado, mesmo que não seja eu, sabe distinguir, para em frente à televisão ou à radio e fica a tentar perceber. Ele diz poucas palavras, mas, apesar de só ter dois anos, vai aos meus concertos e não faz barulho. E bate palmas! E se alguém ao lado dele não bate, pega-lhes nas mãos. Às vezes desço do palco, vou ao pé dele, que anda sempre com uma chupeta, tiro-lha, dou-lhe um beijo e posso continuar a cantar que ele fica sossegadinho e não faz um ai. É um giraço, mas isto sou eu que sou uma mãe babada e uma mãe galinha.

Já há alguma canção sua e do Martim?
_Há. Este inédito que vai sair agora. O Tempo Não Para. É nossa. Apesar de o Rui Veloso nos ter composto um tema lindo O Meu Amor Pequenino.

Como foi cantar a primeira vez depois de ter sido mãe?
_Assustador. Foi quando o fado foi eleito património da Unesco e fizeram aquela gala no Coliseu. Tremia tanto, tanto, tanto. Não sabia se ainda cantava bem, se as pessoas iam gostar, se estava diferente, o que tinha mudado. Já não cantava há muito tempo para ninguém, só em casa, por brincadeira. Estava tão nervosa, nem percebi se as pessoas aplaudiram. Parecia a primeira vez que cantei no Coliseu…

Foi esse o seu concerto mais… assustador?
_Cantei a primeira vez no Coliseu nas galas após a morte de Amália. Quando me apresentaram para cantar tremia tanto que nem sei como consegui, ia caindo quando sai do palco. Até hoje, não me lembro bem o que aconteceu.

Na voz, mudou alguma coisa?
_Mudou. Mas ao longo destes 13 anos e não por ter sido mãe. Quando oiço o ‘Fado Em Mim’ e o ‘Fado Tradicional’ percebo que a voz tem muito mais corpo, sou muito menos menina. Surpreende-me: “Eu cantava assim?, hum” E eu não oiço os meus discos, é muito raro…

Por alguma razão especial?
_Não gosto, não me consigo ouvir. Nem ver, DVD então nunca… Acho que podia sempre ter cantado melhor, mesmo não havendo música perfeita.

Além do Martim, mudou muito também a sua vida pessoal. Vive entre Angola e Portugal?
_Vivo a maior parte do tempo em Portugal. Essa notícia de que tinha comprado uma casa em Angola não é verdade. O meu marido vive lá. E, obviamente, que vou e venho. Ficou uma semana e meia em Luanda e depois venho para Lisboa dois meses. Tenho trabalho. E não vivo em Luanda. Vivo… no mundo.

E quando está muito tempo fora, no mundo, qual é a primeira coisa que faz ao regressar?
_Posso mesmo dizer? [risos] Peço à minha mãe para ir à praça comprar chicharros. Peixe, peixe, peixe… De qualquer maneira. E os chicharros são o meu peixe de eleição. E outra coisa que faço sempre, mal se abre a porta do avião, é cheirar e sentir o sol. As pessoas que vivem aqui não têm a noção de como o país é bom. Agora as pessoas estão muito centradas nos problemas económicos, na política, mas há muito mais. Uma cidade que é calma, segura… Isso é muito bom para que a vida flua… Imagine este país a chover todos os dias, onde não houvesse peixe, pastéis de nata e um bom vinho tinto? Eu gosto dessas coisas todas… Mas não abuso!

Voltemos ao fado. Porque é que, até a Mariza o ‘ressuscitar’, o fado estava tão mal visto, tão esquecido?
_Não sei se estava parado. Havia gente a cantar. O Camané, o Carlos do Carmo, a Mísia, a Mafalda Arnauth, a Cristina Branco. Vamos ser sinceros. A figura de Amália ocupava, ocupa hoje ainda, muito espaço. Costumo dizer que no fado há o antes de Amália e o depois de Amália. A figura dela era tão importante que as pessoas nem sequer imaginavam que era possível contornar o que ela fazia, fazer de outra maneira.

Mas a verdade é que o fado, o depois de Mariza, passou para a frente das prateleiras dos discos, quando antes estava escondido lá bem atrás, num canto…
_Mudou imenso, certo. Quando comecei a cantar fado, miúda, tinha 5 anos, na taberna dos meus pais, não havia muita gente jovem, lá na rua, interessada. E quando ia para o liceu os meus amigos perguntavam-me por música e se eu dizia que gostava de cantar fado era logo ‘Fado?!’ Não era nada simpático. Penso que isso teve a ver com o facto de o fado ter sido usado, durante muitos anos, politicamente pelo regime. Depois veio a fase da abertura, quando as pessoas começaram a poder mostrar os seus gostos, e foi a moda da canção francesa, italiana. A seguir veio a música anglo-saxónica. O fado foi ficando pelos bairros. Aliás, devemos muito às pessoas dos bairros, que nunca descuidaram, sempre acarinharam o fado vadio. Temos grandes cantores de bairro. Sempre os ouvi e a eles devemos o legado que hoje existe.

Então, qual foi o seu papel? A reinvenção do fado tal como o conhecíamos?
_Temos uma geração que, quando fiz o meu primeiro disco, devia ter aí uns 40/50 anos, que continuava a frequentar casas de fado. Eu cantei durante algum tempo no ‘Sr. Vinho’, que é da Maria da Fé e do José Luís Gordo, onde ia muita gente importante. O que não tínhamos era gente jovem a tentar perceber ou a ouvir fado como acontece hoje…

Depois de Mariza… assuma lá a sua parte de responsabilidade.
_A minha forma de estar dentro do fado, o ter assumido que sou assim – gosto de cabelo curto, gosto de cabelo louro, gosto de usar cor, gosto de vestidos malucos em palco, gosto de estar à minha maneira -, veio mudar um bocadinho as coisas.

A forma de cantar (há a influência africana, do seu Moçambique); os instrumentos que usa (que vão muito além da guitarra e da viola de fado); essa imagem de que fala… Isto foi pensado, foi estratégia de marketing ou aconteceu?
_Foi acontecendo. Mas nada foi pensado… Nada. Aliás, a história do cabelo…

Conte lá…
_Usava o cabelo muito, mas muito, comprido e encaracolado. Mas nunca gostei. Sempre preferi cabelos curtos. A minha mãe é que é doida por cabelos grandes. Na primeira vez que o cortei, assim curto como uso agora, tinha 12 anos. E a minha mãe deu-me uma sova tão grande, tão grande. Nunca mais me vou esquecer. E foi ao cabeleireiro buscar o meu cabelo, ainda hoje guarda essa trança. Depois, voltou a crescer, mas numa viagem a Moçambique ou a Angola, apanhei um calor tremendo e decidi rapar o cabelo. Quando cheguei a casa ela nem queria falar comigo. Voltou a crescer, mas irritava-me, dava-me um trabalho enorme, às vezes acordava e parecia um leão. E via o meu pai que era só passar um pente e zunga, zunga já está. Invejava aquilo e queria poder fazer assim um dia. Até que conheço o Eduardo [Beauté, o cabeleireiro] e pergunto-lhe se me corta o cabelo. Ele diz que sim desde que o pinte de louro… E foi assim. Só quando acabou é que me deixou ver e adorei logo! É assim que me sinto bem. Aquela coisa do ela criou uma imagem, tem um gabinete só para cuidar da imagem, nunca, nada disso…

E a roupa?
_Através do Eduardo conheci o João Rolo. E ele tem uma sala enorme cheia de vestidos. Qual é a menina – na altura tinha 20 e tal anos – que olha para aquilo e não lhe apetece vesti-los. Cheguei a ir cantar para o ‘Sr. Vinho’ toda de roxo, de vermelho, de amarelo e as pessoas achavam que era completamente maluca, uma ave rara. A Maria da Fé olhava para mim e dizia «ai rapariga, as coisas que tu fazes…» E eu respondia, «mas eu canto com a voz ou com o cabelo e o vestido?» Depois comecei a fazer concertos, sai o disco, e pronto. É uma imagem que marca, que fica… Lembro-me de ir a uma festa de anos do Herman José…

Outro bom amigo?
_Aí ainda não era… Ninguém sabia quem eu era. Estava a gravar o disco, com o pouco dinheiro que tinha, ia ao estúdio e voltava, pedia para esperarem mais um bocadinho até poder pagar. Porque aquele disco era uma coisa para mim, para poder vender no restaurante. A D. Nortense, uma senhora que andava com um bandeja, por entre as mesas, a vender os CD de quem cantava, estava sempre a dizer que só eu é que não tinha. Até que me convenceram. Até porque sempre dava para fazer um pé-de-meia … E para oferecer ao meu pai, que era louco por fado. Depois dos tempos de miúda em que deixei de cantar fado, tive bandas, cantei soul, jazz e o ele nunca me foi ver, nunca. «Só te vou ver a cantar fado, enquanto cantares estrangeirada, não», dizia-me. Foi quando eu já cantava no ‘Sr. Vinho’. Ele que é um dos meus maiores críticos, está sempre a dizer «gostei daquilo, não gostei daquilo…, este guitarrista toca muito bem, aquele não». Eu só lhe digo «está bem pai»…

Estava a contar o episódio da festa em que conhece o Herman…
_Bem, fui à festa sem convite… O Eduardo e o João convenceram-me, mas mentiram-me, disseram que tinham convite para mim e não tinham. Fui de ‘penetra’. Quando percebi fiquei cheia de medo e pensei que ele me ia pôr fora, seria a maior vergonha da minha vida. Ele olhou para mim e perguntou: «Você, quem é?» e eu nada, só ria. E ele «É manequim?», e eu a rir. Era ainda vivo o Raul Indipo, que estava lá com outras pessoas e diziam ao Herman para me pedir para cantar. E ele desconfiado: «mas ela canta?». Eles insistiram, até que lá fui cantar e ele a gozar. Mas quando comecei aconteceu exatamente o mesmo que quando fui ao David Letterman: ele ia a sair, parou e voltou para trás. E a partir daí surgiu a amizade que ajudou muito cá em Portugal…

Ainda se sente incomodada quando lhe chamam a ‘nova Amália’?
_Incomoda-me sim. Porque tenho um respeito muito grande por ela… Pela figura, pelo que é e representa. E penso que quando se diz isso há um bocadinho de falta de respeito. Não existem novas Amálias, tal como não existe a nova Maria Callas, nem a nova Edith Piaf. Amália será Amália sempre. Ela é única. Cada um de nós tem uma forma de estar dentro da música, tem o seu espaço.

Amália que nunca chegou a conhecer?
_Não, com muita pena. Adorava. Todos os dias dizia à Maria da Fé, «amanhã vou à casa da D. Amália, bater à porta, e pedir «ensine-me lá qualquer coisinha que eu gosto tanto de a cantar». Mas entretanto ela morre e acabo por nunca a conhecer, de nem nos cruzarmos.

Mas não se inibe de cantar canções dela? Tem mais uma neste disco…
_Não. Eu gosto. Amália deixou-nos um legado muito importante e inteligente, tanto de poesia, como musical e de composição. E acho que deve ser sempre relembrado. Se eu não cantar, outra pessoa qualquer canta. Porque é eu não posso?

Convive bem com todo o mediatismo que ganhou?
_Não. Quem tem uma exposição não pode ter dias que acorda mal disposto. E às vezes acontece. Sou humana. Às vezes custa o beijinho, a fotografia. Estar a admiti-lo vai ser uma chatice…

E financeiramente, o fado tem compensado?
_Não posso dizer que viva mal. Mas acho que mais importante é o fado estar a competir pelos grandes palcos, grandes teatros, com as grandes vozes e artistas do Mundo. É o mais compensador.

Nestes 13 anos, à medida que o seu sucesso cresceu, o País piorou económica e socialmente… Sentiu isso?
_Claro que sim. Nota-se na qualidade e quantidade dos concertos, sobretudo no interior, porque isto não é só Lisboa e Porto. E esses sítios deixaram de ter capacidade, porque as câmaras já não têm tanto dinheiro para contratar artistas, bandas, som. É muito preocupante. Pedidos de ajuda recebo sobretudo de causas sociais. Diretamente, coisas particulares, nunca tive.

Acompanha a vida política do país?
_Pouco. Não sou uma pessoa política. Percebo que as coisas estão mal, tendo entender os motivos de cada manifestação, mas também acho que há vida além disso. Não podemos estar sempre a falar mal quando depois não temos atitude. Temos de conseguir fazer, não é só criticar. E há coisas que estão bem e que têm de se recomendar: o fado é uma delas. Os serviços de neonatologia, temos dos melhores da Europa e do mundo. Coisas que nos devem fazer ter orgulho de estar em Portugal e de ser portugueses. Até porque este panorama negativo na economia não é só no nosso país, é europeu e quase global…

Já é uma pequena empresária?
_Decidi representar-me a mim própria, porque desde que tive o meu bebé não quis fazer tantas tournées nem tantos espetáculos. Ele percebe quando me vou embora e fica muito nervoso e ansioso. Quero ter mais tempo para ele. Não quero que ele pense que todas as semanas o vou abandonar. Fazia 120/140 concertos por ano e não quero fazer mais. Por isso, tenho uma pessoa que trabalha comigo no meu escritório e depois tenho a editora, que me ajuda imenso. E tenho os músicos que viajam comigo. Não serei uma pequena empresária, talvez uma micro, micro empresária.

Já cantou em todo o mundo, já ganhou prémios sem fim,  já apareceu nos grandes programas de televisão dos EUA…
_Todos não. Ainda falta. Gostava de ir à Oprah… adorava ir à Ellen. Já lhe mandei uma carta… Mentira, estou a brincar. Mas pode ser que aconteça brevemente. Quem sabe…

Nunca teve medo de se deslumbrar com o sucesso?
_Já tive. Tenho sempre. Sou daquelas que tanto posso estar muito bem a conversar, como me posso isolar. E as pessoas acham que sou antipática, distante, até arrogante. Não é nada disso… É uma forma de me proteger, de defesa. Porque nunca sei porque é que as pessoas se aproximam de mim. Como sou muito desconfiada e a vida já me deu algumas estaladas… Por outro lado, sou completamente despassarada, não me lembro dos nomes, de onde deixo a carteira, e às vezes isso dá uma má imagem de mim, porque chego atrasada e não cumprimento ninguém, nem olho, até porque vejo mal ao longe… e odeio óculos, que uso desde os seis anos, é um problema dos prematuros. Tomam isso como vaidade, mas não é. Não sou deslumbrada.

Há algum sonho que ainda lhe falte mesmo cumprir, alguma sala onde lhe falte tocar?
_Não, acho que já cantei em todas as salas que tinha imaginado na minha cabeça, desde a Ópera de Sidney, ao Albert Hall, Walt Disney Hall, Carnegie Hall… Até em Vegas, a primeira vez que o fado lá foi…E foi tão giro. Tenho saudades de cantar numa taberna… às vezes vou ao ‘Chico’, e não me deixam sair sem cantar.

É com Terra que solta amarras do chamado fado tradicional? Que fado é o seu hoje?
_O fado Mariza. Há um fado que o Paulo de Carvalho me ofereceu, o Fado Meu, e tudo aquilo que ele escreveu sou eu. Às tanta diz «De Mim só me Falto Eu». E era assim… Agora já nem tanto, já não falta. Cada vez faço, com consciência disso, aquilo que gosto, que sinto. E não tendo medo. Ao princípio tinha…

Por ser acusada de estar a ‘destruir’ o fado tradicional…
_Tinha medo no início. Venho de um bairro extremamente tradicional, sei bem o que é o fado tradicional, cresci no meio dele. No restaurante dos meus pais cantava-se fado vadio. Tinha medo de não estar a cumprir para com as tradições, mas ao mesmo tempo tinha de ser verdadeira para comigo, senão não ia conseguir cantar…

E cria um fado mais… mestiço?
_Pode ser. Mestiço, lusófono. É o meu. Tem as coisas que gosto e que sinto, as minhas percussões, baterias, que agora toda a gente já começou a usar. É a música que está na minha cabeça.

Quando é que vai cantar um fado seu, escrito por si?
_Ai, isso é que não! Não, não. Não sei escrever e ia sair uma porcaria.

 13 anos depois já se podem fazer retrospetivas. Qual foi o espetáculo mais marcante que deu?
_O da Torre de Belém.

Que episódio mais curioso viveu?
_Um engraçadíssimo. Fui cantar a Cabo Verde, à cidade da Praia, e quis ir comprar panos tradicionais, africanos. Fomos para o mercado, e entre galinhas, ovos, íamos para as bancas quando uma moça nova, em crioulo, começou a perguntar: «Oh nininha, você é aquela cantora?». E eu nada, «não, não sou cantora», mas ela a andar ao meu lado e a insistir, «és aquela, loura, eu vi na televisão», eu a negar, até que lhe disse que sim, que era. E ela olha para e grita para as amigas: «Madonna!»

Tem um fado preferido?

_Sim, o Primavera. Pela letra, pela melodia. Já é uma pele.

Ainda passa a roupa a ferro antes dos concertos para descontrair?
_Se tiver que ser. Mas eu e o João Rolo já chegámos àquela fase em que os tecidos são meio amarrotados. Porque não tenho tempo, chegava cada vez mais em cima da hora com tantos concertos, às vezes viajava no próprio dia, e depois ainda havia mais stress em vez de descontrair.

E o que faz para acalmar?
_Conversar com os músicos, dizer as maiores barbaridades. Mas antes de entrar em palco fico sempre muito nervosa, dói-me a barriga, o estômago, tenho vontade de fazer chichi, estou a suar… Tem sido cada vez pior em vez de melhorar. Mas se um dia que isso mudar, não vai correr bem.

 No início da carreira chegou a pedir para não lhe chamarem fadista, mas cantadeira. E agora, já é fadista?
_Sinto-me como uma intérprete. Cada vez mais. No meu bairro, chamarem-me fadista era, sempre foi, um elogio. Não me vou autoelogiar. Fico à espera que alguém me dê esse elogio se eu o merecer. Como muita gente acha que não sou tradicional, se calhar também não sou fadista.

E, 13 anos depois, já diz que tem uma carreira ou ainda é só um percurso?
_Continua a ser um percurso. Quando tiver para aí uns 70 anos, 65, então talvez já diga «na minha carreira»… 13 anos não é muito.

Ainda se lembra-se do primeiro fado que cantou? De como o aprendeu?
Lembro. Com 5 anos. Na taberna dos meus pais. Os Putos, do Carlos do Carmo. O meu pai ensinou-me com desenhos nas toalhas de mesa de papel, depois dos almoços. Como eu não sabia ler, ele fazia os desenhos para eu decorar a letra. Uma bola, um charco. E à noite, tinha um Walkman, ouvia a cassete gravada de trás para a frente repetidamente.

Sempre quis ser artista? Li que, além de cantar na taberna dos seus pais, onde ficava a ouvir escondida atrás das cortinas, fazia espetáculos de sapateado para as vizinhas?
_Sim… Para a D. Judite, sobretudo. Uma senhora muito querida. A janela dela dava para a porta da minha casa. Na altura, ela já teria quase 70 anos e ficava o dia todo à janela – quando eu ia para a escola de manhã ela já lá estava e recolhia só depois das seis. E quando eu vinha do liceu conversava com ela, que pedia sempre para lhe fazer um teatro, que eu estava sempre a fazer nas escadas. Houve um dia que decidi imitar os filmes do Fred Astaire, que a RTP estava a passar aos domingos. Sonhava com aquilo, amava a dança, os vestidos e um dia decidi experimentar. Colei umas caricas nos sapatos e a partir daí foi um divertimento, inventava o meu inglês e fazia de Ginger Rogers. Ela, coitada, nem devia saber quem era…

E os microfones, latas de ‘Impulse’?
_Isso era da minha mãe. Ela, não sendo uma acérrima defensora da minha vida profissional – tenho que falar assim, hum, suavemente – foi uma das grandes responsáveis pelo meu universo musical ser tão diversificado. O meu pai, já se se sabe, gostava muito de fado. Mas a minha mãe ouvia Cesária Évora, Bana, Tito Paris, conjuntos moçambicanos de marrabenta, coisas das Antilhas, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Nina Simone, brasileiros… Roberto Carlos, Clara Nunes, Alcione, Elis Regina… Tudo isso me foi mostrado e dado pela minha mãe. Isso e a leitura. Fui embaixadora em Portugal do Hans Christian Andersen e foi incrível. Porque apesar de nunca ter ido à Dinamarca, conhecia todas as fábulas dele. A minha mãe lia-as para mim à tarde. Daí o meu hábito de ler. Leio tudo o que apanho…

Mas alguma vez pensou em ser outra coisa que não artista?
_Talvez naquela idade da adolescência, em que não sabemos bem o que queremos ser. Mas estive sempre muito ligada à música. E sempre quis estar ligada ao mundo artístico. Também gostava muito de moda. Aos 13 anos fiz um curso de manequim e durante uns tempos ainda tentei. Mas a moda naquela altura não era o que é hoje e eu era muito miúda. Apesar de já ter esta altura e este corpo.

Ganhou a música?
_Sim. Mesmo antes do fado. Quando no restaurante do meu pai se deixou de cantar fado, havia outra música aos domingos. O meu pai, como sabia que eu gostava, deixava-me experimentar. Depois, havia um bar perto de casa, onde comecei a cantar, que se chamava ‘Noites de Luar’, o antigo palacete do Intendente. Comecei com um amigo meu que era músico, o Tonecas. Cantava às quartas-feiras, e ia com a minha mãe – eu devia ter para aí uns 14/15 anos. O meu pai fazia o favor de me deixar entrar em casa, porque no dia seguinte tinha aulas só à tarde, até às duas e meia da manhã. Ganhávamos os dois seis contos por dia, três para cada um. Era o meu dinheirinho. Entretanto aquilo começou a encher naqueles dias, pelo que decidimos ir falar com a D. Arlete, a dona, pedir um aumentozinho. Ela mandou-nos ir tocar, que depois falámos. Quando acabou a noite lá fomos. Pagou-nos o mesmo, eu ainda disse que não era aquilo que tínhamos combinado ao que ela respondeu «estão despedidos». Foi a única vez que fui despedida.

O que é que cantava na altura?
_O que se ouvia. La Bamba, reggae…

Havia uma certa vergonha de cantar fado, de dizer que cantava fado?
_Não, eu cantava sempre um fadinho ao fim da noite. Mas, sim, havia uma certa vergonha perante os amigos…

Faz a sua rodagem musical por esses bares, com as suas bandas, de funk e rock, os Vinyl e os Funktown…
_Tenho dois primos que são músicos. O Otis, que é saxofonista e toca com muita gente, e o Nandocas, que toca baixo. E ele é que me começou a puxar para ir a bares africanos. A minha mãe deixava-me sair com ele, por sermos primos… Ia ao bar do Tito Paris e do Danny Silva, onde ao domingo estava toda a gente. E eu ávida de conhecer aquele ambiente. Sempre andei com músicos, que me levavam para os concertos. Também fazia vozes de estúdio. Nunca estive longe da música.

Chegou a ir para o Brasil viver e cantar.
_Sempre gostei muito de viajar. O meu pai viajou imenso desde os 15 anos, porque o meu avô viveu 38 anos na Venezuela, e ele depois começou a ir lá, à Argentina e ao Brasil. Depois, com a tropa, foi parar a Macau e fez uma travessia pelo Oriente. Sempre me contou as suas viagens e aquilo passou a fazer parte do meu imaginário. E aqueles meses no Brasil deram para aprender muito, estava completamente sozinha, sem pai nem mãe, vivia num navio de cruzeiros, onde entrava muita gente e onde se tinham de dar bons concertos, bons espetáculos. O nível nunca pode cair, não se pode aldrabar no inglês porque há muitos estrangeiros. Tive que me organizar e aprender a estar sozinha no mundo. Mas vim para Lisboa sem dinheiro, porque oferecia tudo aos amigos. Sou assim. Dou tudo. Ainda hoje.

Os seus pais já lhe perdoaram ter ficado pelo 11.º ano?
_Sim, acho que sim. A minha mãe às vezes ainda me fala nisso, «ai filha, se tu tivesse um canudo», ao que respondo sempre «tenho sim, o canudo da vida!». O meu pai nunca ligou muito, a minha mãe ainda diz que um dia mais tarde talvez venha a precisar. Se não precisei até agora… Está feito, está feito.

Ainda é a menina diferente do bairro?
_Hoje já não olham para mim de forma diferente, querem muito, gostam, que eu seja deles. E eu quero muito ser.

Pensa voltar à Mouraria? Aos restaurantes…
_Acho que a vida não mo vai permitir tão cedo. Mas não me importava nada. Comecei numa tasca, posso acabar lá.

Por si, o fado não volta a ser triste e negro?
_Ai não! Até me irrita quando dizem que o fado é uma música triste, depressiva. Tem uma melancolia doce, não é aquela melancolia que nos puxa para baixo. O fado é um exorcizar de sentimentos, de males. E como gosto de dançar, no palco pulo, bailo. Por isso acho que os concertos estão cada vez mais puros. Ainda agora na Alemanha, com um público tímido, numa altura difícil para mim porque naquele acidente do avião em Moçambique perdi três primos, bebés, e a minha tia, que me afetou a sensibilidade, percebi isso. Digo sempre que os concertos não sou eu quem os faz, é o público, só canto. E tenho sido uma mimada, uma privilegiada.

Porquê ter o público a escolher as músicas para este seu primeiro Best Of?
_Comecei por escolher eu as músicas que mais gostava ou tinham mais significado, mas depois achei que as pessoas que ao longo destes 13 anos caminharam comigo e me acarinharam, deviam ter um disco feito por elas, que o merecem. E as escolhas delas… não bateram certo com as minhas. Tinha feito uma aposta e durante a votação nunca fui ver.  Depois fui surpreendida. E não mexi no alinhamento, está como foi escolhido. Mas ainda fui confirmar se a n.º1 tinha mesmo sido o Quando Me Sinto Só. Fiquei banzada… Não imaginava. Está tudo ao contrário do que eu tinha pensado.

Esta interação com as pessoas foi uma ideia sua ou da editora?
_Minha. Se for ao meu Facebook percebe que estou sempre a pôr coisas. As pessoas sentem-se mais próximas. Todos os dias vou ver. Não sou uma acérrima, não estou sempre ligada, mas acho importante. As pessoas assim sentem que somos humanas e não umas coisas distantes. Até já pus uma receita de sopa…

Alguma vez a vamos ouvir gravar coisas que não fado? Quando?
_Próximo, de certeza. Talvez no próximo disco de originais já haja alguma coisa que não tão fado. Será em 2015. É engraçado que nunca me custou tanto fazer um disco. Já tenho muitos temas, mas estou a ter dificuldades em perceber como me vou situar, neste momento, dentro de um disco, que música é que quero oferecer. Faço os discos para mim, tenho de gostar daquilo que estou a fazer e sentir-me orgulhosa. Tenho de encontrar a fórmula de dar aquilo que tenho na cabeça, sem assustar ninguém.

O que é que ainda não se sabe da Mariza?
_Aquilo que eu não sei também. Eu não consigo esconder nada. A minha vida é um livro aberto.

Que pergunta gostava que lhe fosse feita agora?
_Se sou feliz? Porque sou. Muito. Muito feliz!

 

Filomena Martins
Fotografia: Isabel Saldanha