OPINIÃO

Intuição: a ciência explica

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Há quem lhe chame pressentimento, sexto sentido, feeling, instinto. Há até quem lhe chame acaso ou sorte. Mas a intuição está longe de ser um processo mágico a que só alguns privilegiados acedem. Está presente na nossa vida, todos os dias, e é uma ferramenta da razão baseada em dados reais e objetivos.

Quando pôs a hipótese de assumir um cargo de sócio numa empre­sa de consultoria cria­tiva de dimensão in­ternacional, ligada ao marketing, comunica­ção e desenvolvimen­to de negócios, Rodrigo de Barros Rodri­gues socorreu-se de toda a sua capacida­de de análise e raciocínio estratégico. Era uma decisão demasiado importante pa­ra ser tomada sem ponderar tudo. Mediu prós e contras e, no dia da reunião decisiva, o gestor ia munido de um extenso guião es­crito, no qual tinha detalhado todos os mo­tivos que o tinham levado a decidir: ia dizer não. Não fazia sentido avançar. Leu o docu­mento quase todo mas, perto do fim, disse: «Contem comigo!» Os riscos eram muitos, mas avançava na mesma. Porquê? «Segui a intuição e não o raciocínio.»

A existência de um lado consciente e outro inconsciente no cérebro é há muito tempo co­nhecida da ciência. Zachary Mainen, diretor do Programa de Neurociência da Fundação Champalimaud, confirma-o. «Embora haja muito que ainda não se sabe sobre o conscien­te e o inconsciente, sabe-se o suficiente para entender que há uma parte da nossa mente que está a trabalhar, sem que tenhamos no­ção disso.» E esse trabalho, do qual não temos consciência, é-nos muito útil.» Por isso é que o facto de não percebermos o mecanismo que está por trás de certa inclinação não a torna menos válida. «É informação, mesmo quan­do não entendemos qual é a origem. E, em al­guns casos, o melhor é segui-la.»

A todo esse conhecimento imediato e in­dependente do raciocínio crítico ou analíti­co chamamos intuição. O próprio Mainen, apesar de se definir como hiperracional, admite que as grandes decisões que tomou na vida, como casar-se ou mudar-se dos EUA para Portugal, foram sobretudo senti­das. «Eu sabia que era a coisa certa.»

«Pensamos algumas coisas específicas através de um processo muito consciente», diz o neurocientista, que se tem dedicado a in­vestigar os processos de tomada de decisão. «Por exemplo, quando fazemos uma lista ou colocamos por escrito os argumentos que sus­tentam uma opinião. Estas são situações nas quais passamos por esse processo racional de criar argumentos. Mas a maioria das coi­sas que fazemos não são conscientes, não têm um processo explícito nem visível para nós.»

Assim é, de facto. O biólogo norte-ameri­cano Bruce Lipton defende que, contas fei­tas, «o lado consciente da mente governa, na melhor das hipóteses, cinco por cento do nosso tempo». O restante é comandado pela mente inconsciente, o que significa que es­tamos em modo de piloto automático 95 por cento do tempo. E a razão por detrás des­ta disparidade de valor vem de outra con­ta também conhecida: enquanto a mente inconsciente consegue processar cerca de 40 milhões de bits de dados por segundo, os processos mentais conscientes só atingem 40 bits por segundo. É impossível acompa­nhar tudo conscientemente.

Zachary Mainen lembra ainda que, mes­mo em decisões tipicamente racionais, nas quais equacionamos muitos fatores – como a compra de um carro, por exemplo –, apesar de avaliarmos minuciosamente muitas va­riáveis (consumo, tamanho, capacidade, de­sign, preço), em última análise, quase tudo se «resume» a um «gosto deste!» ou «não gos­to daquele». Porquê? Não sabemos. Algumas razões que nos levam a essa sensação tipica­mente intuitiva do simples «gosto» ou «não gosto» têm origens que até podemos aca­bar por descobrir, se refletirmos um pouco. Mas a outras nunca conseguiremos aceder. Entram nos tais 95% do piloto automático.

Algumas pessoas não convivem bem com esta aparente falta de controlo, mas esse não é o caso de Rodrigo de Barros Ro­drigues, que a aceita pacificamente. E fá-lo com a mesma naturalidade, quer se trate da vida profissional ou da pessoal. Tornar–se proprietário de uma empresa ou tomar decisões relativas à vida amorosa têm tan­to de racional como de intuitivo. Há anos, quando iniciou uma relação à distância com aquela que é hoje a sua companheira e a mãe da sua filha, «se tivesse olhado só para o la­do racional, um início de namoro à distân­cia era algo que não faria sentido». A 2500 quilómetros um do outro, ela em Frankfurt, ele em Lisboa, aquilo tinha tudo para dar er­rado. Mas deu certo. «Temos de ter a humil­dade de perceber que somos incapazes de entender todos os pressupostos de uma situação para tomar uma decisão puramente racional. Há decisões que carecem de maior racionalidade, outras de mais emoção, mas no meu caso acho que a intuição se sobre­põe a ambas.»

Nem todos os exemplos, de todas as pes­soas, são iguais. Cada indivíduo encara de forma própria a sua intuição e a forma como lida com ela. Adelaide (não revela o apelido) também tem uma história relacionada com uma relação. Mas no caso dela o desfecho foi diferente. Há oito anos, estava no aeroporto de Lisboa, onde tinha ido deixar o marido, que ia emigrar para o Reino Unido, quando teve um momento de revelação. Depois de se despedir dela, da mãe e das filhas, o ma­rido voltou costas para embarcar e Adelai­de soube que alguma coisa ia correr mui­to mal. E, frisa, não foi uma suposição. «Foi uma certeza.» Teve aquilo a que chamou «um vislumbre». Ou «o momento em que me caiu a ficha». Viu claramente uma trai­ção no horizonte, «embora não soubesse co­mo, quando ou com quem.» Estava certís­sima. Foi uma questão de poucos meses até aquela impressão se materializar em coisas concretas e resultar no divórcio.

Os cientistas têm estudado como a intui­ção está relacionada com o nível de certeza que a acompanha quando surge. Em termos simples, é a diferença entre pensar «se ca­lhar isto pode correr mal» ou jurar «eu sei que isto vai correr mal».

A diferença entre uma e outra está no nos­so nível de especialidade ou experiência. «Quando se é um especialista em alguma coisa, é provável que se tenha uma boa in­tuição. Para que este nível de certeza possa ajudar a tomar decisões úteis, ele tem de es­tar “bem calibrado”, e nos especialistas isso costuma acontecer», explica Zachary Mai­nen. Tomando como exemplo um médico, o neurocientista exemplifica que «quem está habituado a fazer diagnósticos, estu­dou sobre isso e vê milhares de pessoas, tem boas razões para ter uma óptima intuição. É provável que saiba distinguir intuitiva­mente aqueles que precisam de tratamen­to imediato dos que não precisam. E sem es­tar consciente da explicação que vem nos li­vros para isso.»

Esta experiência não tem que ver apenas com situações profissionais. Pode aplicar–se também a intuições sobre uma pessoa que conhecemos bem – como foi o caso de Adelaide –, uma situação que nos é familiar ou nós próprios. Esse é, de resto, o campo no qual todos somos especialistas: as nossas próprias preferências.

Olhando para o pensamento racional ver­sus intuitivo, percebemos que o primeiro, sendo analítico, requer esforço e é lento e, o segundo, ainda que consuma recursos ce­rebrais, é um processo sem esforço e rápido. E que ocorre naturalmente, quase sem dar­mos por ele. Que é como quem diz : «Se o cé­rebro está a trabalhar para nós “de graça”, muitas vezes é mais útil aproveitar este tra­balho do que empreender o esforço de todo o processo», remata Mainen.

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E OS PRESSENTIMENTOS, EXISTEM?
A maioria da comunidade científica não põe em dúvida o valor da intuição enquanto um pro­cesso automático que traz à nossa consciência in­formação previamente «guardada». Mas o ca­so muda de figura quanto a encará-la como um fe­nómeno através do qual é possível aceder a acon­tecimentos imprevisí­veis. Mas é precisamen­te isso que defende Julia Mossbridge, neurocien­tista da Universidade de Northwestern (EUA). De­pois de realizar uma revi­são sistemática de cerca de 40 estudos publicados nos últimos trinta anos, a autora concluiu – num ar­tigo publicado na Frontiers of Perception, em 2012 – que existe um fenómeno a que chama atividade ante­cipatória preditiva (PAA). Define-o como uma sensa­ção idêntica a um pressen­timento: o sujeito não tem consciência de que um determinado evento nega­tivo vai ocorrer, mas o seu corpo prevê-o e «acusa o toque» através de altera­ções cardiorrespiratórias, na pele e a nível de siste­ma nervoso. Em declarações à imprensa, a neu­rocientista defendeu que acredita que o pressen­timento não está ligado a capacidades paranormais, tratando-se antes de um efeito real e físico que obe­dece a leis naturais que ainda ninguém entende.

OLHOS DE ESPECIALISTA FAZEM A DIFERENÇA
Um dos pioneiros nos estudos rela­cionados com o papel da intuição no processo de tomada de decisão, Gary Klein, relata no seu livro Fontes do Poder – O Modo como as Pessoas Tomam Decisões (ver caixa), depoi­mentos de pessoas em situações- -limite, como profissionais de cuidados intensivos, pilotos de combate e bom­beiros. Em 1989, a Klein Associates – a companhia que fundou para aplicar a sua pesquisa a contextos reais – fez um estudo no qual entrevistou 19 enfer­meiras de uma unidade de cuidados neonatais de um hospital no Ohio, EUA. Uma das situações mais problemá­ticas na unidade era o caso de bebés prematuros que desenvolviam infeções generalizadas (septicemias), o que os punha em risco de vida, situação para a qual a deteção precoce é essencial. Dúzias de histórias relatavam que os enfermeiros olhavam para os bebés e reconheciam automaticamente que a criança estava com um início de infeção. Quando questionados sobre os motivos dessa sensação, a resposta era quase sempre a mesma: «Não sei, simplesmente soube.»

Ao pedir a cada enfermeiro para recor­dar detalhes específicos das situações suspeitas que viriam a confirmar-se, chegou-se a uma lista de pistas que mostravam que o bebé estava no estágio inicial de infeção (cor da pele mais acinzentada, choro mais frequente, abdó­men mais distendido…). Sinais subtis mas que, no seu conjun­to, não passavam desperce­bidos a uma enfermeira com experiência. Klein recorda, no entanto, que quando analisa­ram esta lista de sinais com especialistas em neonatologia, descobriram que metade das pistas identificadas em situação real pe­los enfermeiros nunca tinham apareci­do na literatura médica naquela época.

SUGESTÕES DE LEITURA
BLINK!, Malcolm Gladwell Ed. Dom Quixote,2010
DESPERTE PARA OS SENTIDOS, Carolyn Bryant Block e Stanley H. BlockEd. Livros do Brasil, 2006
FONTES DO PODER – O MODO COMO AS PESSOAS TOMAM DECISÕES, Gary Klein Ed. Instituto Piaget, 2001
O BAILADO DA ALMA, José Pio Abreu Ed. Dom Quixote,2014
O ANIMAL SOCIAL, David BrooksEd. Dom Quixote, 2012
THE BIOLOGY OF BELIEF, Bruce Lipton Ed. Hay House UK,2011

Sofia Teixeira
Fotografia de Corbis