OPINIÃO

Hollywood, apresento-te o Algarve

O Sonho Certo é uma declaração de amor ao Algarve em forma de filme.

Uma longa-metragem financiada e realizada por dois britânicos, mãe e filho, apaixonados pelo nosso Sul, e com a participação de Lúcia Moniz. Estreia a 11 de setembro no Algarve e, no início de outubro, no resto do país, a pensar no fenómeno A Gaiola Dourada.

B J Boulter e Kristjan Kniggesentem-se «filhos» do Algarve. Amam desmesuradamente a região onde passaram grande parte das suas vidas. Ela, britânica até ao tutano, na casa dos 60 (não revela a idade), nascida na Tanzânia e criada desde a adolescência na Praia da Rocha, onde os pais, imigrantes, tinham um hotel, a viver há mais de vinte anos em Estombar (Lagoa). Ele, 41, filho dela e de pai dinamarquês, nascido na Dinamarca mas criado no Sul de Portugal. Falam um português fluente e dizem que são algarvios.

Kristjan é realizador de publicidade e de curtas-metragens na Holanda, onde vive. E, apesar de nunca ter filmado uma longa, tinha um objetivo: ao chegar aos 40 anos decidiu fazer uma carta de amor ao Algarve em forma de filme. E pediu à mãe para produzir (ou seja, para financiar). Assim nasceu O Sonho Certo (The Right Juice, no original), uma longa-metragem de desencontros e romance sobre um inglês que chega ao Algarve para mudar a vida através do negócio das laranjas. «Uma história do Algarve», como assinatura, para garantir conotações com os milhares de britânicos que decidiram trocar o país natal pelo nosso Sul. Uma parábola sobre como a fleuma britânica se adapta ao espírito português – e ao algarvio, em particular.

A história anda à volta de Oliver (Mark Killeen), um banqueiro que troca a City de Londres para apostar numa quinta do Algarve e no negócio das laranjas. Pelo meio, e enquanto a mulher não acha grande piada à ideia e torce o nariz à mudança de vida, é apanhado num esquema ilícito de compra de propriedades para a construção de uma mina de cobre com efeitos pouco ecológicos na região, a mando de um consórcio de vigaristas. Enquanto isso, faz amizade com um mecânico preguiçoso, Manel (Miguel Damião) e uma simpática treinadora de golfinhos. Nesta (Lúcia Moniz). «Uma das razões para aceitar fazer este filme foi poder contracenar com golfinhos», diz a atriz. «Foi uma experiência incrível. Lembro-me que nos primeiros treinos um golfinho foi de uma doçura extrema para mim, ajudava-me nos treinos… percebia que eu tinha dificuldade de principiante.»

O filme foi aplaudido na antestreia oficial no Teatro Municipal de Faro, no fim de semana passado, por um público maioritariamente britânico. Agora, com o filme a chegar às salas em outubro, nem BJ nem o filho adivinham o que pode acontecer nas bilheteiras. Apenas têm a intuição de que os algarvios vão sorrir e gostar. Mas também não devem estar à espera de elogios da imprensa especializada. O Sonho Perfeito, ao contrário de A Gaiola Dourada (o caso de sucesso realizado por Rubem Alves, que conta a história de uma família de emigrantes em França), não deve ter a boleia da simpatia da crítica. Kristjan confirma-nos que Joaquim de Almeida esteve para ser um dos atores, mas que o atraso na rodagem de A Gaiola Dourada foi fatal para os timings: «Ele gostou imenso do nosso projeto. O Joaquim é um fã do Algarve. Foi pena não ter sido possível, mas também ficámos muito bem servidos com o Miguel Damião. Importante para mim foi poder trabalhar nesta minha terra. Filmei sempre com emoção. Foi fantástico, sobretudo trabalhar com os atores algarvios, amadores, que têm pequenos papéis. Cada dia de escrita e de rodagem era, para mim, dia de amor e paixão.»

Financiado com o dinheiro privado da família, algum crowdfunding local e muitas contribuições da comunidade inglesa na região, mãe e filho garantem que foi uma odisseia de alguns anos para pôr de pé este projeto que apenas teve como bónus a ajuda material de hotéis, supermercados, da Algarve Film Comission e do Zoomarine. Ao todo, diz Kristjan, esta utopia familiar custou cerca de seiscentos mil euros, valor low-budget para os dias que correm. Deduzimos que Mark Killeen, o protagonista, que conta na folha de serviços pequenos papéis em filmes como o último 300 ou a série A Guerra dos Tronos, não terá pedido o cachet habitual.

BJ garante que a experiência de 49 anos como produtora de audiovisual terá ajudado a criar o milagre, embora saliente que fez o filme para mostrar que o Algarve é um excelente sítio para se filmar. E para ter qualidade de vida? «Eu amo o Algarve», responde. «Vivo numa aldeia e é como o filme promove: o Algarve é «o» local para se viver! E eu, apesar de adorar o mar, nem sou fã de praia. A vida aqui é adorável e é por isso que muitos britânicos trocam a Inglaterra por esta terra, tal como acontece ao banqueiro do filme, que deixa para atrás uma vida de dinheiro e prazeres urbanos. Fizemos um filme com o Algarve que amamos. Por exemplo, nunca vemos a praia…»

Kristjan acrescenta que esta comédia de costumes que tenta mostrar como os ingleses olham para os portugueses e vice-versa nasceu sem enredo: «Acima de tudo, queria era filmar no Algarve. No começo não tinha ainda uma história, o importante era ser algarvio e com meios da terra. Depois, o coargumentista, David Butler-Cole, outro inglês que aqui vive, começou a escrever sobre os vizinhos e o guião foi nascendo.» E, na verdade, o filme tem uma série de brincadeiras com as diferenças culturais entre os algarvios e os «bifes», não faltando as chalaças com os mal-entendidos linguísticos.

Antes de a NOS Audiovisuais ter decidido apostar na distribuição, O Sonho Certo já tivera estreia no pequeno festival de Atlanta, nos EUA. A ideia agora é continuar o circuito dos festivais e, talvez, arranjar vaga no muito exigente mercado inglês. «Ajudará muito se funcionar em Portugal», diz Kristjan. Mãe e filho esperam que os algarvios apoiem este filme. Estão confiantes, mas também sabem que se meteram numa grande aventura. Com riscos e algumas demoras: a própria montagem demorou mais de um ano porque a editora trabalhou à borla e só dedicou tempo ao filme quando não tinha outros trabalhos.
Ainda assim, também têm a certeza de que tudo isto poderá ser bom para a divulgação turística e cinematográfica da região.

À exceção de uma ou outra produção internacional, o Algarve continua terreno virgem para Hollywood. «No dia em que derem regalias fiscais aos estrangeiros para cá filmarem, tudo mudará. Caramba, esta terra tem uma luz incrível para se filmar!» E tem razão: países como Lituânia, Hungria, Malta ou República Checa roubam-nos os blockbusters todos por aliciarem os investidores do cinema com as mágicas palavras tax shelter (incentivo fiscal).

Além do sol, a comédia promove sem medos e de forma explícita as famosas laranjas algarvias. «São mesmo as melhores do mundo», acrescenta a produtora. Mas não são apenas as laranjas doces que levam boleia publicitária, o filme também enaltece o poder afrodisíaco do medronho, uma bebida que nesta comédia talvez seja demasiado forte para os britânicos…

nm1163_filme02

Rui Pedro Tendinha